Se
a Trindade é relação pura, então o real não se deixa aprisionar em
guetos disciplinares. Ciência, teologia e arte não são linguagens
rivais, mas modos complementares de tecer o mesmo véu. Aparentes
contrários como o empírico e o metafísico, o cálculo e o símbolo, a
precisão e o mistério, não se anulam; antes, articulam-se numa tensão
fecunda. Reconhecer essa complementaridade e o processo de acesso à
realidade não é um gesto de conciliação ingénua, mas a atitude
fundamental de quem se dispõe a olhar para a realidade sem a despedaçar
em caixinhas separadas.
O
conceito trinitário de Deus, definido como relação pura (relação das
relações), oferece um paradigma teórico e arquetípico capaz de
fundamentar a transdisciplinaridade. Nesse quadro, conciliam-se sob uma
mesma matriz relacional os distintos regimes de apreensão do real: o
científico, o teológico e o artístico.
A trindade como a relação das relações
No
debate teológico, o conceito-chave reside na interpenetração mútua das
três Pessoas divinas (pericorese), articulada à definição tomista de
que, na Trindade, as pessoas são relações subsistentes. Se o
Transcendente (Deus) e o Encarnado (o Cosmos/Cristo) se definem como
pura relação, então a realidade deixa de ser um conjunto de 'coisas'
estáticas para se configurar como um tecido de conexões.
Quando
se define a realidade desta forma, a transdisciplinaridade torna-se
obrigatória. Se tudo é relação, nenhum método isolado consegue capturar o
todo. A teologia, a filosofia e a física quântica tornam-se
simplesmente diferentes comprimentos de onda ou perspetivas para
observar a mesma rede relacional.
O ponto de encontro dos modelos e das imagens
A
nova física é indissociável de seus construtos teóricos (símbolos).
Ademais, constitui um facto epistemológico incontornável que qualquer
ferramenta utilizada para abordar a realidade recorre inevitavelmente a
imagens.
No que toca a
Modelos e Metáforas, nem a física quântica vê o electrão em si, nem a
teologia vê Deus em si. A física serve-se de construtos matemáticos e
imagens (como "ondas", "partículas", "spin" ou "campos") para
esquematizar o comportamento da matéria. A teologia serve-se de imagens e
mitos (como "Pai", "Filho", "Sopro-Espírito") para delinear o mistério
do Ser. (1)
No que se
refere à ilusão do Método Puro, o grande erro do cientificismo clássico
foi o dogmatismo metodológico, ou seja, acreditar que o método
científico era a própria realidade e não apenas uma ferramenta de
tradução. Quando nos libertamos dessa fixação cega, percebemos que tanto
o físico como o teólogo estão a criar modelos representativos para
decifrar as relações constituintes do universo.
Onde reside o problema e qual a razão de ele existir?
Se
esta convergência é tão lógica, porque é que ela encontra tanta
resistência? O problema não é de ordem do ser (ontológica), mas sim do
estar (existencial), institucional e cultural! O busílis da questão vem:
a)
do apego ao Poder Epistémico (teoria do conhecimento) onde
historicamente, as disciplinas defendem as suas fronteiras para manter a
sua autoridade. O cientificismo rejeita a teologia por medo do regresso
ao dogmatismo religioso; a teologia, por vezes, isola-se por medo de
ver os seus mistérios reduzidos a meros fenómenos psicológicos ou
físicos;
b) da confusão
de Níveis de Realidade. O físico Basarab Nicolescu, um dos pais da
transdisciplinaridade, explica que a realidade é composta por diferentes
níveis. O erro acontece quando se tenta aplicar as leis de um nível
(como as equações matemáticas da física) diretamente noutro nível (como a
experiência existencial do sagrado), gerando uma tradução literal e
grosseira em vez de um diálogo transdisciplinar simbólico. (2).
Ao
assumir a "relação das relações" como a base de tudo, valida-se que a
ciência capta a dimensão mensurável dessa relação, enquanto a teologia e
a mítica captam a sua dimensão de sentido profundo, sem que uma precise
de anular a outra.
A
física quântica ao resgatar o papel de observador (e da imagem) na
construção da realidade está precisamente a seguir o modelo místico de
acesso à realidade presente na teologia. O busílis mais revolucionário
da epistemologia contemporânea situa-se precisamente no facto que é o
colapso da separação absoluta entre o sujeito que conhece e o objeto
conhecido. Ao colocar o observador no centro da constituição do real, a
física quântica rompe com o ideal mecanicista de Newton e Galileu e
aproxima-se, estruturalmente, do modelo místico e teológico de acesso à
realidade.
O observador na física e na mística
Na
física clássica, o cientista era um espectador neutro a olhar através
de uma janela para um mundo mecânico preexistente. Na física quântica, o
observador torna-se participante:
O
Efeito do Observador: No nível subatómico, as partículas existem numa
sobreposição de possibilidades (onda). É o acto de medição, a
interferência do observador, que colapsa essa onda numa realidade
concreta (partícula). O real não está "lá fora" à espera de ser
descoberto; ele coemerge com a observação. (3)
A
Experiência Mística: Na teologia mística (como na tradição de Mestre
Eckhart ou no Pseudo-Dionísio), o conhecimento de Deus não acontece por
via de uma análise exterior e distante. O mistério só se revela através
da participação e da união. O místico sabe que o seu próprio olhar e o
seu estado de consciência alteram e moldam a perceção do Divino. O
sujeito e o objeto fundem-se na experiência.
O resgate da imagem e do símbolo
A
física quântica, ao lidar com uma realidade que não pode ser vista
diretamente (como os quarks ou as cordas) é forçada a abandonar o
literalismo e a abraçar a linguagem simbólica, tal como a teologia:
A
Imagem como Ponte: Como o ser humano não consegue conceber algo que
seja onda e partícula ao mesmo tempo, a física usa estas "imagens" como
metáforas matemáticas para aproximar a nossa mente de uma realidade
irrepresentável.
O Ícone
Teológico: Na teologia, a imagem (o ícone, o mito, o dogma) nunca é a
realidade última (Deus), mas sim o veículo necessário que permite ao
observador humano relacionar-se com o Transcendente. Ambos os campos
compreendem que a imagem não é a coisa em si, mas a única forma de o
observador interagir com o invisível.
A realidade como coocorrência
Penso
que é possível criar linhas de pensamento em que a realidade, seja ela a
matéria quântica ou a transcendência encarnada, funciona sob um
princípio de coocorrência. Não há uma realidade objetiva pura sem uma
consciência que a testemunhe, nem há uma consciência sem uma realidade
para se manifestar.
O
"problema" metodológico desaparece quando compreendemos que a mística
usa a intuição, a contemplação e o símbolo para aceder ao Todo, enquanto
a física quântica usa o formalismo matemático e a experimentação
laboratorial para aceder à textura relacional da matéria. O essencial em
tudo isto é que tanto a Teologia cristã (fórmula trinitária da
realidade) como a nova física (física Quântica) chegam à mesma conclusão
de que a separação é uma ilusão e que o fundamento do ser é a
interação. (A física quântica provou que o mundo não é sólido, fixo ou
objectivo, mas sim um campo dinâmico de possibilidades).
O
físico e filósofo Bernard d'Espagnat, com o seu conceito de “Realismo
Velado“ propõe o princípio que a realidade última está escondida e só se
mostra através das nossas estruturas conceituais. Por seu lado Alfred
North Whitehead com a Teologia do Processo reformulou a ideia de Deus a
partir deste dinamismo e interdependência quântica.
A
Teologia do Processo, a Teologia da Libertação e o pensamento
cosmoteândrico de Raimon Panikkar convergem para equacionar a realidade
de forma complementar através de um paradigma relacional e
participativo. Em vez de excluírem a física, estas três correntes
integram-na como a descrição material e estrutural dessa mesma rede de
relações. Por seu lado, também a física reconhece que não sobrevive sem
recurso à simbologia...
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em: Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11173
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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