sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O Dilema da Informação na Era da Emoção e consequências para o aparelho do Estado

 

DO CONTROLO ESTABILIZADOR AO DESCONTROLO DEMOCRÁTICO


Vivemos um período de transição especial. Durante décadas, os meios de comunicação tradicionais, imprensa e televisão, desempenharam um papel de filtragem da informação, conduzindo a opinião pública por corredores seguros alinhados com os poderes estabelecidos. Com a consolidação da União Europeia, esta influência estendeu-se ao meio governativo e académico, moldando currículos e privilegiando certas correntes de pensamento. No século XXI, as agências noticiosas globais uniformizaram a narrativa, tornando-a repetitiva em todo o espaço europeu, enquanto Bruxelas transformava o conhecimento num bem comercializável e dirigível...

Assim nasceu a realidade pós-factual ou pós verdade com o relativismo vigente que lhe dá forma.  O objetivo é reduzir a sociedade a uma massa de clientes, cuja capacidade intelectual se mede pela efemeridade do "like" e das estatísticas sociológicas. Este novo método de arrazoamento substitui o conhecimento pelo sentimento e a verdade pelo impacto...

Vivemos, por isso, num sótão com janelas para o mundo, mas sem alicerces na vida real.

Esta fase intermédia gera insegurança tanto nos cidadãos como nas estruturas estatais. A revolução da Inteligência Artificial acelera a passagem do modelo analógico para novas formas de relação social e política, com implicações profundas no aparelho do Estado...

As mesas de voto presenciais, especialmente para os portugueses na diáspora, tornaram-se peças arcaicas de um modelo analógico... A substituição por um sistema de voto eletrónico seguro, editável e acessível deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade premente...

O governo poderá realizar referendos consultivos ainda muito mais intensivos do que o atual modelo suíço, diluindo o poder central em associações regionais ou locais...

A grande questão que se coloca é: conseguiremos dominar a Inteligência Artificial e o voto digital antes que sejam monopolizados pelos mesmos senhores da política e da informação artificial? O futuro da nossa democracia e a credibilidade do nosso Estado dependem de recuperarmos o espaço para a razão e para a participação inclusiva, num mundo cada vez mais dominado pelo afeto digital e pela rigidez de estruturas ultrapassadas.

António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo © : https://antonio-justo.eu/?p=11376
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578