sábado, 20 de junho de 2026

A lucidez de António Costa entre a oposição da E3 e os interesses negligenciados do Sul

 

A EUROPA QUE SE QUER UNA E SE DIVIDE NUMA GEOPOLÍTICA DO NORTE CONTRA A DIPLOMACIA DO SUL

À laia de resumo deste ensaio: A Europa, que se quer casa comum, não pode tolerar que alguns inquilinos se julguem senhores do lar. A velha diplomacia portuguesa ensina que o poder não se mede pela força do punho, mas pela largura do olhar, aquele olhar universalista de quem, sentado no extremo do continente, vê o mundo como um todo, não como um tabuleiro de xadrez dividido entre vencedores e vencidos. Quem só ouve Berlim e Paris, escuta o eco do poder; quem ouve Lisboa, escuta a voz da razão.

 

Introdução

A iniciativa do presidente do Conselho Europeu, António Costa, de abrir canais diplomáticos com Moscovo não foi um mero gesto protocolar. Foi um teste à coesão da União Europeia e o resultado do teste foi revelador. Ao tentar estabelecer contacto com o Kremlin para avaliar a disponibilidade russa para negociações, Costa expôs uma fratura que há muito se adivinhava, mas raramente se assumia em público: a Europa não fala a uma só voz, nem sabe bem quem deve falar por ela. O que é mais grave ainda, é a Europa não se mostrar disposta a ouvir todas as suas vozes porque o grupo E3 (Alemanha, Inglaterra e França) pretende ser a voz da Europa e opem-se veementemente à tentativa de António Costa, Presidente do Conselho Europeu, de preparar relações diplomáticas com Moscovo. 

O que está verdadeiramente em jogo não é apenas o protocolo diplomático ou a oportunidade política de um contacto telefónico. O que está em causa é a própria natureza do projeto europeu, a tensão entre as suas tradições políticas, a anglo-saxónica e a latina e a persistente dificuldade em conciliar os interesses de um continente que se quer unido mas que continua a ser gerido por uma lógica de pesos e contrapesos onde nem todos os pesos são iguais.

O E3 e a pretensão de um poder moral

França, Alemanha e Reino Unido, o chamado grupo E3, reuniram-se em Londres com Volodymyr Zelensky para delinear as condições para uma paz “justa e duradoura”. O formato E3, segundo o chanceler alemão Friedrich Merz, teria sido criado “a pedido expresso da Ucrânia”. Mas esta justificação, por mais legítima que seja, não esconde uma realidade mais incómoda que é o facto de o grupo E3 se arrogar a si não apenas o poder económico e militar, mas também um poder moral que, na prática, funciona como uma espécie de colonialismo mental sobre os restantes Estados-membros.

Quando Macron e Merz criticaram a iniciativa de Costa, argumentaram que o momento ainda não era o certo para dialogar com Putin e que, quando esse momento chegasse, deveria ser o E3 a liderar. Mas quem lhes confere esse direito? O tratado europeu é claro quanto ao papel do presidente do Conselho Europeu: é o “representante natural” dos interesses do bloco. Costa, como ex-primeiro-ministro português, não age por capricho ou por vaidade pessoal; age dentro das suas competências institucionais. A reação de Merz e Macron revela menos uma preocupação com o protocolo do que com a perda de controlo sobre o processo.

A geopolítica do Norte contra a diplomacia do Sul

A oposição a Costa reflete duas visões antagónicas da política externa europeia. De um lado, a tradição anglo-saxónica, que vê o mundo em termos de poder, de alianças militares e de vitórias estratégicas. Do outro, a tradição latina e, dentro dela, a velha escola diplomática portuguesa; que privilegia o diálogo, a mediação e a construção de pontes, mesmo com adversários.

Costa defendeu a sua posição com clareza: “Não podemos depender apenas de outros para interpretar as mensagens russas”. O seu objetivo era “estabelecer um canal diplomático” para, “quando chegar o momento, defender os interesses da UE”. Não se tratava de mediar, nem de substituir os Estados Unidos, nem de abrir uma via negocial paralela. Tratava-se, simplesmente, de garantir que a Europa tem uma linha direta com Moscovo, em vez de depender de terceiros para saber o que o Kremlin pensa.

Esta abordagem, que qualquer diplomata experiente consideraria elementar, foi recebida com fúria por Berlim e Paris. Um diplomata do E3 chegou ao ponto de classificar a iniciativa como “altamente pouco profissional”. Outros líderes, como o primeiro-ministro estónio, rejeitaram liminarmente a necessidade de “canais alternativos” com “ditadores”. A mensagem é clara: para o núcleo duro europeu, a diplomacia só é legítima quando gerida por quem se considera no direito de a gerir.

Os países que apoiam Costa e a razão do seu apoio

Mas Costa não está isolado. A Irlanda e a Letónia pronunciaram-se a favor da sua liderança. A Bélgica, na voz do primeiro-ministro Bart De Wever, apoiou-o publicamente: “És o único que nos pode representar”. A Eslovénia saudou “quaisquer passos que possam levar à cessação das hostilidades”. Uma fonte oficial europeia referiu mesmo que “um número enorme” de Estados-membros apoiou a posição de Costa.

Porque razão estes países, muitos deles pequenos ou periféricos, se colocam ao lado de Costa? Porque veem nele a possibilidade de uma Europa que não é apenas o prolongamento dos interesses franco-alemães. Veem nele a esperança de que a diplomacia não se resuma à lógica da indústria bélica, de que a paz não seja apenas uma palavra vazia e de que os interesses do Sul, onde a guerra parece distante, mas os seus custos são quotidianos, possam finalmente ser ouvidos.

Os custos da guerra e o orçamento dos sacrifícios

A pergunta que Costa, conscientemente ou não, colocou no centro do debate é simples, mas incómoda! Por que razão os Estados do Sul teriam de cortar nas prestações sociais, nos serviços de saúde, na educação e no bem-estar das suas populações para financiar uma política de confronto que beneficia sobretudo os interesses industriais e militares do Norte? A União Europeia está a pagar um preço elevado pela guerra na Ucrânia, um preço que, como sempre, é suportado de forma desigual.

Enquanto Berlim e Paris lideram a retórica da vitória “custe o que custar”, são os cidadãos do Sul, com os seus salários mais baixos e os seus Estados sociais mais frágeis, que sentem na pele o impacto da inflação, do aumento do custo de vida e da pressão orçamental para aumentar as despesas com defesa. A unidade da Europa, na visão do E3, serve os interesses do E3. A solidariedade europeia, na prática, tem um programa muito preciso.

A velha política portuguesa e o futuro da Europa

Costa, ao estender as suas antenas em direção a Moscovo sem consultar previamente as potências do E3, não cometeu um ato de indisciplina. O que cometeu foi um ato de lucidez, pois recordou à Europa que a diplomacia não se faz apenas com sanções e com ameaças. Recordou que Portugal, país situado na extremidade ocidental da Europa, longe do centro belicoso do continente, tem uma tradição de mediação entre o Norte e o Sul, entre a Europa e o mundo. Esta posição tomou-a Portugal ao fundar a escola de Sagres em torno do infante D. Henrique, adiantando-se a uma Europa também ela na altura embrenhada em guerras.

A velha política portuguesa, aquela que nos ensinou que é possível dialogar com adversários sem capitular, que é possível construir pontes sem abdicar de princípios, tem muito para ensinar a uma Europa que parece ter esquecido as virtudes da diplomacia e parece renegar a sua herança cultural. Costa não propôs uma rendição, o que propôs, foi que a Europa recuperasse o seu papel de actor diplomático autónomo, em vez de se limitar a seguir a agenda de Washington ou a dos seus próprios membros mais poderosos.

A Europa que queremos perante a Europa que temos

A Europa enfrenta uma escolha fundamental. Pode continuar a ser gerida por um núcleo duro de países do Norte que ditam a agenda e esperam que os restantes obedeçam. Ou pode redescobrir-se como um projeto verdadeiramente plural, onde a voz de Lisboa vale tanto como a de Berlim, onde a tradição diplomática do Sul é tão valiosa como o poder militar do Norte, e onde a paz não é uma concessão aos inimigos, mas uma exigência dos povos.

A iniciativa de Costa foi criticada como “descoordenada” e “não profissional”. Mas certamente foi a mais profissional de todas: a de um diplomata que sabe que o silêncio não é uma estratégia e que a guerra não se vence apenas no campo de batalha. O E3 quer sentar-se à mesa? Que se sente. Mas que não pretenda ocupar todos os lugares. A Europa tem 27 cadeiras. Está na altura de as ocupar todas.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11061

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA, AO PARLAMENTO E A TODAS AS INSTITUIÇÕES AINDA EMPENHADAS NA SUSTENTABILIDADE DA CULTURA MILENÁRIA PORTUGUESA

A memória dos antepassados não é um fardo do passado, mas a bússola do futuro. Integrar sem apagar, abrir sem se perder, construir com a sabedoria de quem nos precedeu, é o que move o desafio perene que vos traz esta carta. Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados e Instituições da Nação, é a vós que me dirijo, na certeza de que a integração plena do passado e do presente é o único caminho para edificarmos uma sociedade verdadeiramente humana e universal.

A verdadeira integração nunca se edifica sobre os escombros da cultura que pretende abraçar. Quando, em nome de uma pretensa abertura, se suprime a identidade que nos define, o que se obtém não é coesão, mas sim uma fratura silenciosa e profunda. É precisamente este o cerne da questão que opõe o Presidente da República, António José Seguro, ao decreto do Parlamento e que expõe, de forma crua, o embate entre a defesa do interesse coletivo e a imposição de agendas ideológicas fragmentárias.

Em junho, o Chefe de Estado vetou o diploma que visava proibir o hastear de bandeiras "de natureza ideológica, partidária ou associativa" nos edifícios públicos. Sob o argumento aparentemente plausível de que o texto encerra conceitos vagos e que as causas humanitárias ou ambientais gozam de acolhimento constitucional, o Presidente oferece, na verdade, um flanco perigoso: o da relativização do próprio símbolo máximo da Nação. Ao fazer tábua rasa da distinção entre o que é estruturante e o que é acessório, ele e as forças que o apoiam abrem caminho para que a bandeira nacional seja remetida para um plano secundário, enquanto os estandartes sectários ocupam o espaço público, sem resistência e sem pudor.

Ora, a bandeira de Portugal não é um mero pedaço de pano; é a condensação viva da nossa liberdade democrática, da autoconfiança do Estado de Direito social e da memória coletiva de um povo. Criticá-lo por, de forma velada, alinhar com um ideário globalista maçónico e contestável não é uma acusação leviana; é constatar que a contenção interior que é a base de qualquer estabilidade, se desvanece quando a totalidade é colocada ao mesmo nível da exceção. Quem detém a força da totalidade sabe integrar a diferença sem a exaltar de modo a humilhar a maioria silenciosa que se revê na tradição.

É certo que a afirmação identitária baseada apenas no ímpeto emocional, como a que se vê nos recintos desportivos, comove, mas fomenta um nacionalismo abstrato e estéril, desligado da vida real do povo. A verdadeira lealdade à Pátria não se esgota no grito, mas radica na continuidade de uma herança cultural que nos precede e nos ultrapassa. Nenhum esforço de integração triunfará se, em seu nome, se reprimir a cultura própria ou se menosprezar o pendão que nos congrega. Cabe perguntar, em que podem os cidadãos basear-se, se os seus valores mais caros forem sacrificados no altar da sensibilidade ativista? Não podemos, por respeito a minorias efémeras, abdicar da nossa matriz civilizacional, nem tão-pouco diluir todos os valores num relativismo que iguala o todo à particularidade de um dia.

O Presidente deve ao país uma explicação cabal sobre esta aparente submissão às correntes "woke". Colocar as bandeiras ideológicas ao mesmo nível da bandeira nacional não é um gesto de pluralismo; é um ato de desrespeito pela coletividade e pela cultura portuguesa. Esse zelo desmesurado, longe de revelar tolerância, denuncia uma confusão estratégica que alimenta o caos simbólico, com o claro propósito de relativizar tudo o que nos é sagrado. Por detrás desta posição, adivinha-se a ação de forças que atuam contra a integridade da Nação, banalizando o seu génio histórico para o entregar, sem defesas, às voragens do globalismo mais raso. Para tal, recorrem ao desmantelamento sistemático dos símbolos e das tradições que floresceram na Europa e que constituem a nossa singularidade.

É profundamente desolador constatar que já não se distingue a regra da excepção. A excepção é legítima, mas quando é alçada à condição de regra, deixa de enriquecer o todo para passar a destruí-lo. Este é o cerne da tragédia que se anuncia: a inversão de valores, onde o acessório prevalece sobre o estruturante e o efémero se sobrepõe ao perene.

Em nome da Razão, que exige clareza e hierarquia; e em nome do Coração, que pulsa pela dignidade do nosso povo, urge que António José Seguro e os representantes do Parlamento reflitam sobre o legado que pretendem deixar. A integração que não respeita a alma de uma Nação está condenada ao fracasso, pois uma Pátria que se envergonha dos seus símbolos é uma Pátria que prepara, em silêncio, a sua própria dissolução.

Com os profundos votos de que a lucidez prevaleça sobre a moda ideológica,

António da Cunha Duarte Justo

https://antonio-justo.eu/?p=11057

 

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quarta-feira, 17 de junho de 2026

A REDESCOBERTA DE CABO VERDE PELO FUTEBOL


A história tem destas coisas inteligentes que é nunca se deixar encerrar numa só narrativa, por vezes confinada pelos grandes. Para ser verdadeiramente fiel à cronologia e a uma consciência sempre reavivada, a História serve-se, também da FIFA para mostrar o mundo na perspectiva de um outro jogo...
No dia 13 de outubro de 2025, os "Tubarões Azuis" escreveram a página mais bonita da sua história desportiva. Ao vencer o Essuatíni por 3-0, no Estádio Nacional da Cidade da Praia, a seleção cabo-verdiana garantiu, pela primeira vez, um lugar no Campeonato do Mundo da FIFA... Uma conquista ainda mais notável se considerarmos que Cabo Verde, com os seus cerca de 525 mil habitantes, se torna, depois da Islândia, o país menos populoso de sempre a marcar presença num Mundial...
Este feito desportivo ecoa, de forma poética, a própria história do arquipélago. Cabo Verde foi descoberto em 1460 por Diogo Gomes e António da Noli, ao serviço do Infante D. Henrique. Quando chegaram, as ilhas estavam habitadas apenas por aves e vegetação selvagem, sem qualquer indício de presença humana anterior. A primeira ilha a ser descoberta foi a de Santiago, e em 1462 teve início o povoamento, com a fundação da Ribeira Grande, hoje Cidade Velha, a primeira cidade europeia nos trópicos. Durante séculos, o arquipélago foi um ponto estratégico nas rotas do Atlântico, mas permaneceu, durante muito tempo, uma realidade distante no imaginário global...
.... Tal como os islandeses, os cabo-verdianos provaram que a grandeza não se mede pelo tamanho do território ou pela população, mas pela força da vontade e pela união de um povo. A Islândia foi redescoberta no campeonato das nações e depois foi recompensada com muito turismo; o mesmo haverá de contar-se para Cabo Verde.
Agora que o futebol recolocou Cabo Verde no mapa do mundo, é tempo de olhar para os seus filhos que, tal como os navegadores de outrora, partiram à procura de um futuro melhor. A comunidade cabo-verdiana em Portugal é uma das mais expressivas e antigas, com cerca de 48 mil residentes legais só com nacionalidade cabo-verdiana, um número que ultrapassa largamente os 100 mil se contarmos os naturalizados e descendentes... Portugal teria, em consciência, o dever de beneficiar e privilegiar os migrantes das antigas colónias/províncias ultramarinas, promovendo mais construções que lhes facilite o viver. Afinal, a língua e a história comum são pontes que não podem ser ignoradas e, a partir da multipolaridade da mesma língua, até poderia ser o incentivo para se formar dos países lusófonos um novo polo num mundo geopolítico que se está a orquestrar.
Portugal tem de mostrar inteligência nas prioridades que coloca, mesmo em relação à imigração e não se deixar levar por políticas meramente económicas de Bruxelas... Que a redescoberta de Cabo Verde pelo desporto seja o prenúncio de uma redescoberta mais profunda, a descoberta de um povo que, tal como a sua seleção, merece um lugar de destaque no palco do mundo.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11045

terça-feira, 16 de junho de 2026

O EMPATE DE CABO VERDE/ESPANHA QUE ABALOU ATLANTA

A Alma feminina no Coração do Futebol masculino e o Aviso a Portugal a reflectir a Lusofonia

Por António da Cunha Duarte Justo
O cronómetro do Mundial de Atlanta parecia ter engolido a lógica. Quando o árbitro apitou, o painel electrónico gritava um zero a zero que não era apenas um resultado, mas um terramoto sísmico no Olimpo do futebol. A Espanha, colosso de títulos e dona de uma posse de bola hipnótica, saiu de campo engolida pelo silêncio; do outro lado, Cabo Verde, essa nação de 500 mil almas e 64.º lugar no ranking FIFA, celebrava o maior sucesso da sua história desportiva.
Este empate não pode ser reduzido a uma anedota estatística, pelo significado que tem. Ele é, na realidade, um poema épico, um manifesto e, acima de tudo, um aviso cerrado a Portugal.
Enquanto as grandes nações, intoxicadas pelo “direito divino” de vencer, se transformam em vítimas da sua própria megalomania falhada, consumindo treinadores e atirando culpas ao vento, as pequenas nações ensinam a lição mais pura do desporto e Portugal é mestre nisto. O treinador cabo-verdiano, Pedro Leitão Brito, resumiu essa filosofia imortal antes do apito inicial ao dizer: «Não viemos aqui apenas para participar, viemos aqui para nos medirmos». E mediram-se, mostrando criatividade, ritmo e uma alma indomável que suplantara o medo. Cabo Verde não jogou com a obsessão do resultado; jogou com a arte de existir (aquele desejo natural do arbusto de também ele poder ser bafejado pelos raios do sol que brilha nas árvores grandes.
Este é o retrato do “Golias” moderno: Alemanha e Espanha, presas na armadura do favoritismo, esquecem-se que o futebol é feito de pés, mas vive de corações. Se o triunfo fácil corrompe, a luta pode dignificar. Um Cabo Verde feliz é um Cabo Verde unido.

A Oração de Curação e o Princípio feminino do Desporto
A noite de Atlanta ainda nos trouxe uma outra lição, ainda mais profunda, nos arredores do campo onde a Alemanha vencia Curação com soberania (1-7). Para os olhos do mundo, uma goleada, mas para a memória do coração e para os olhos do mundo foi uma pequena rebelião. Os jogadores de Curação perderam no marcador, mas venceram na eternidade.
No seu jogo aconteceu o sublime. Após o apito final, o alemão Felix Nmecha, autor do primeiro golo germânico na competição, não se dirigiu ao túnel para celebrar. Em vez disso, reuniu-se com os adversários de Curação, e junto com alguns, ergueram os braços e rezaram juntos. Ao fazê-lo, Nmecha proferiu palavras que deveriam ser inscrevidas nos portões de cada estádio do mundo: «No jogo somos adversários e, depois, todos cristãos e irmãos. Queremos futebol com visão!»
Eis onde o texto pretende chegar: Felix Nmecha, naquele gesto, não praticou apenas desporto masculino, a força, a penetração, a estratégia bélica do ataque e defesa. Ele juntou o princípio masculino da luta e da competição ao princípio feminino que habita a alma do jogo: a comunhão, a empatia, a religação espiritual e a memória afetiva. A mistura ajuda a vida e, sem dúvida, o bom viver.
E isto, até porque, o futebol, tal como a vida, é um grande teatro. Antes de a peça começar, os actores cruzam-se nos bastidores; carregam consigo a alma do povo, e essa alma é profundamente feminina. Ela é o útero onde germina a criatividade, a intuição que antecipa o passe, a ternura que transforma o rival em irmão. Quando o corpo (masculino) e o espírito (feminino) se alinham, as forças multiplicam-se. Os jogadores de Cabo Verde e Curação não corriam apenas com músculos; corriam com o sentimento profundo das suas diásporas, espalhadas pelo mundo.

O Apelo à Lusofonia: Uma Matriz masculino-feminina
E Portugal com os estados lusófonos não podem perder-se na encruzilhada histórica. Só juntos poderão tornar-se num polo relevante no xadrez geopolítico multipolar a desenhar-se.
Cabo Verde não empatou com a Espanha por acaso. Foi um sinal dos tempos, um espelho levantado à antiga metrópole. Portugal tem vivido encostado ao “Mamon” da União Europeia, de olhos postos na tecnocracia, na burocracia e no euro, enquanto os seus irmãos lusófonos navegam desgarrados no Atlântico e no Índico, e nós nos esquecemos da nossa missão histórica comum.
A Lusofonia não pode ser apenas uma linha geográfica ou um passado comum. Deve ser uma matriz social nova, onde o espírito masculino e o espírito feminino se fundem na ânsia de formar uma nação de corações unidos. É tempo de Portugal olhar para Cabo Verde e ver não um parceiro ao lado, mas um parceiro de alma e com a mesma alma. É tempo de perceber que, tal como no futebol, o talento brota quando os olhos da sociedade se viram para os seus talentos, independentemente do tamanho do país.
Que o empate em Atlanta sirva de epifania e que a oração ecuménica de Nmecha sirva de rito de passagem. Precisamos de um futebol com visão, mas também de uma política com alma. Abandonemos a megalomania estéril das grandes potências e abracemos a riqueza da pequenez unida. Corpo e alma, masculino e feminino, Portugal e a sua diáspora, Portugal e os países seus irmãos, todos unidos no mesmo ritmo crioulo.
E viva a LUSOFONIA! Que ela seja a nação de afetos conectados na mesma língua, que transcende os resultados e onde cada empate é uma vitória do espírito humano.
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11041

sábado, 13 de junho de 2026

PORTUGAL E O NEVOEIRO EUROPEU

 

PORTUGAL E O NEVOEIRO EUROPEU

 

Não pergunteis quando deixarão as elites de atraiçoar a alma portuguesa: os avisos de Camões, Garrett e Vieira perderam-se no tempo e o mar ainda espera quem o entenda.

 

Por António da Cunha Duarte Justo

 

Vivemos um momento axial da história, um daqueles períodos de viragem em que as placas tectónicas da geopolítica global se movem e reconfiguram o mapa do poder. No entanto, ao olharmos para a Europa atual, o que vemos é um continente imerso num denso nevoeiro cultural e estratégico. Iludida pelo brilho do dinheiro e cega pela obsessão do poder material, que se expressa no "Mamon" dos nossos tempos, a União Europeia mostra querer despedir-se de si mesma, esquecendo a sua matriz humanista original e a soberania inalienável da pessoa humana. Também Portugal, infelizmente, se tem deixado arrastar por esta entropia decadente, refugiando-se numa passividade burocrática que atraiçoa a sua vocação histórica de seguir o chamamento universalista contra o Império de Mamon.

 

Para compreendermos como o nosso país chegou a este estado de esvaziamento, é preciso puxar o fio de uma "meada" literária e profética que há séculos nos avisa sobre este perigo. No século XVI, Luís de Camões encerrou Os Lusíadas com uma admoestação severa aos reis, criticando a cobiça e a burocracia que já então cegavam a nação. No século XVII, o Padre António Vieira desenhou na sua História do Futuro o horizonte do "Quinto Império", onde resumia um desígnio que não se media pela força das armas, mas pela universalidade do espírito, da língua e do encontro ecuménico. Já no século XIX, Almeida Garrett, no drama Frei Luís de Sousa, encenou a nossa maior tragédia identitária através da figura d'O Romeiro. Ao regressar ao lar e ver que o seu lugar fora ocupado, D. João de Portugal assume-se como "Ninguém".

 

Esse "Ninguém" de Garrett tornou-se a metáfora perfeita para o Portugal contemporâneo. A forma atabalhoada e cega como o país se desligou das suas antigas colónias após o 25 de Abril de 1974, ao entregar esses povos e territórios, à pressa, ao xadrez bipolar da Guerra Fria (URSS e EUA), revelou um país que queimara os seus próprios retratos e ignorara os seus profetas. Em vez de fundar uma comunidade transcontinental e horizontal com a Lusofonia, Portugal escolheu "encostar-se" ao redil europeu em troca de fundos estruturais, diluindo a sua singularidade estatal e tornando-se um "Ninguém" institucional na periferia de Bruxelas.

 

O filósofo Agostinho da Silva, porém, ensinou-nos que a despossessão material de Portugal não tinha de ser uma tragédia, mas sim a condição para a nossa verdadeira libertação. Para Agostinho, numa perspetiva católica, a alma portuguesa realiza-se na renúncia à posse e na celebração da fraternidade. A Lusofonia, hoje com uma língua assumidamente pluricêntrica, é o laboratório dessa nova era.

 

Mas como pode Portugal reatar um diálogo sério e consequente com este Sul Global?

 

A resposta exige uma decisão decisiva e audaz nas instâncias europeias. Portugal só recuperará a sua relevância internacional se assumir na União Europeia uma posição autenticamente europeia, no seu pleno significado geográfico e cultural: uma visão que inclua a Rússia e promova uma política de irmandade continental. Ao defender uma ponte estratégica com Moscovo, Portugal não só ajuda a libertar a Europa do seu atual impasse e da cultura de guerra, como adquire a autoridade moral e a centralidade atlântica necessárias para se ligar, com força renovada, ao Sul Global e aos países lusófonos.

 

Neste momento de transição civilizacional, Portugal tem o dever de se erguer como o portador das grandes heranças que moldaram a Europa: a espiritualidade judaico-cristã, a jurisprudência e administração romanas, e a filosofia grega. Isto não para impor um novo império, mas para ser o timoneiro de uma cultura da paz. É tempo de rasgar o nevoeiro, rejeitar o pragmatismo cinzento dos novos atores da geopolítica expresso na dominância arrogante anglo-saxónica e recordar ao mundo que o verdadeiro tamanho de uma nação se mede pelo seu humanismo e pela defesa de uma autoridade humana e sadia que reconheça a dignidade de cada pessoa.

 

Nem Camões, nem Garrett, nem Vieira!... Os avisos dos escritores não entram no coração das elites. Por isso a alma portuguesa continuará a ressoar no mar, só, como um sino de naufrágio, até que um dia, cansados de esperar por quem nunca ouve, resolvamos todos, de baixo para cima, ensaiar o projeto universal português numa política finalmente virada para a Lusofonia.

 

Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=11022

A UCRÂNIA ANUNCIA AUMENTO SALARIAL DOS SOLDADOS E PROMETE PAGAR OS MAIS ALTOS DO MUNDO

Soldados de infantaria receberão em média 6.800 euros, podendo chegar a 8.900 euros na linha da frente


Num contexto de escassez de efetivos e aumento das deserções, a Ucrânia anunciou esta semana um expressivo aumento salarial para os seus militares. De acordo com o Ministério da Defesa, em articulação com o presidente Volodymyr Zelensky, "os soldados de infantaria tornar-se-ão os militares especializados mais bem pagos do mundo".

Em média, os soldados de infantaria ucranianos deverão receber o equivalente a 6.800 euros mensais. Já o valor máximo para os combatentes destacados na linha da frente poderá aproximar-se dos 8.900 euros por mês, segundo relata a imprensa alemã.

Paralelamente, as autoridades pretendem recuperar os desertores com medidas de incentivo, como a isenção de pena e a liberdade de escolha da unidade onde desejam servir.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11020

quarta-feira, 10 de junho de 2026

PARABÉNS, PORTUGAL

 


 
Diferença no trato ao cliente entre LIDL e ALDI em Portugal e na Alemanha 
 
Enquanto as grandes cadeias de supermercados europeias apostam na padronização de serviços, um olhar atento revela diferenças profundas entre a mesma empresa em dois países. Há um contraste de atitude entre a Alemanha e Portugal no que toca à forma como cadeias como o LIDL e o ALDI tratam os seus clientes.
... O exemplo mais gritante está num serviço básico, quase primário, como a disponibilização de casas de banho para clientes. Em Portugal, as lojas do LIDL e do ALDI disponibilizam, regra geral, sanitários acessíveis a quem está a fazer as suas compras. Na Alemanha, país de origem de ambas as cadeias, o mesmo não acontece. As casas de banho são, na sua maioria, exclusivas para funcionários, fechadas ao público.
A realidade é chocante: Na Alemanha não é raro ver-se atrás dos prédios das empresas excrementos de pessoas que não tiveram outro remédio senão correr para trás do edifício...
A lógica alemã é pragmaticamente financeira: abrir uma casa de banho ao público implica custos de limpeza, manutenção, segurança e maior desgaste das instalações. É um custo sem retorno direto e por isso, elimina-se. Portugal, país com menores recursos económicos, opta por manter esse serviço, não por lucro, mas por uma questão de atenção à pessoa...
Portugal, com uma cultura de proximidade e menor pressão de produtividade, mantém ainda resquícios de uma economia de base relacional.
A diferença não é de menosprezar. “É um termómetro da alma de um país", diz a socióloga Marta Figueiredo. "Uma empresa que fecha a porta da casa de banho a um cliente está a dizer-lhe: O que me interessa é o seu dinheiro, não a sua necessidade.”
Parabéns a Portugal... mas sem euforia
Parabéns Portugal pela diferença positiva, mas tem cautela e fica alerta. A pressão para adoptar modelos de gestão internacionais, a crise da habitação, o aumento do custo de vida e a crescente precariedade podem levar a que, num futuro próximo, os supermercados portugueses sigam o exemplo alemão, cortando nos bens de humanidade para poupar uns cêntimos; o problema maior virá da influência da Alemanha na Europa, que, de momento, se encontra exasperada...
LIDL e ALDI em Portugal parecem dispostos a manterem as casas de banho abertas ao público. Na Alemanha, as empresas quando questionadas remetem para a legislação local, que não obriga a esse serviço. Tal resposta revela a pobreza humana de ambas as partes.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11015


segunda-feira, 8 de junho de 2026

EDUCAÇÃO SEXUAL SÓ COM O CONSENTIMENTO DOS PAIS

 A batalha pelo poder trava-se, antes de tudo, no campo da sexualidade e da informação

 

Nas escolas italianas, a educação sexual só poderá ser ministrada no futuro com o consentimento expresso dos pais. A nova legislação reflete uma crescente resistência à ingerência do Estado em matérias consideradas da responsabilidade primária das famílias.

Nos jardins de infância e nas escolas primárias, a educação sexual fica mesmo proibida. A lei entrará em vigor durante as férias de verão e tem suscitado um amplo debate público.

Os defensores da medida argumentam que os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos e que questões relacionadas com a sexualidade, os valores morais e a identidade pessoal não devem ser impostos por programas estatais sem o conhecimento e a concordância das famílias...

Enquanto os setores mais conservadores tendem a defender a primazia dos direitos da pessoa, da família e das instituições da sociedade civil, os setores progressistas atribuem ao Estado o papel da promoção de valores, direitos e políticas educativas.

Quem molda a compreensão da sexualidade e orienta o fluxo da informação dispõe das duas alavancas mais profundas do poder político-social. Isto porque a sexualidade regula a vida privada e a informação regula a vida pública: o poder procura ter ambas na sua mão.

António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11010  

sexta-feira, 5 de junho de 2026

O GLOBALISMO ESTÁ A SER A INVERSÃO DO CRESCIMENTO

 

Globalismo é o poder que, dissolvendo o orgânico, desconstrói a pessoa e as sociedades na exacta medida da sua inversão.

 

Há uma patologia oculta no coração do globalismo contemporâneo: a inversão da direção natural do crescimento humano. Toda a civilização que floresceu organicamente construiu-se de baixo para cima, da aldeia à pólis, da família à nação, do indivíduo à humanidade. O que hoje nos é proposto não é crescimento, é engenharia, desconstrução e desnaturação...

Os governantes são transformados em meros administradores, aplicadores de agendas e directrizes e os parlamentos reduzidos a instrumentos do “sim, senhor”!...

O corpo social orgânico não nasce de cima; germina nas raízes. Quando se inverte esta ordem, não se obtém uma comunidade, obtém-se uma clientela.

A aliança estranha que governa este projeto é a do capitalismo liberalista com o dirigismo socialista: dois absolutismos que partilham, no fundo, o mesmo desprezo pelo particular, pelo local, pelo irredutível da pessoa humana. Um vende; o outro formata. Juntos, produzem o consumidor ideal: dependente, vigiado, e convencido de que escolhe livremente.

O instrumento invisível desta nova governação é o algoritmo... A questão demográfica expõe a contradição mais crua do sistema. A queda da natalidade, fenómeno profundamente ligado à precariedade existencial, ao adiamento do sentido, à mercantilização das relações, é respondida com importação humana. Como se uma pessoa descontextualizada, arrancada à sua terra por necessidade e não por vocação, pudesse substituir a continuidade cultural de um povo...

A resposta que as populações têm dado e que a nomenclatura europeia classifica precipitadamente de "extremismo", é, na sua essência, um grito de reconhecimento. O extremismo não nasce do nada; nasce sempre como resposta a outro extremismo, o de uma governação que deixou de reconhecer o seu povo como sujeito e o trata como objeto de gestão. Os partidos que hoje assustam as elites são o espelho incómodo do que essas elites criaram...

A alternativa ao globalismo que desumaniza não é o fechamento que empobrece, é a construção de uma ordem verdadeiramente subsidiária, onde o universal se edifica a partir do particular, e não contra ele. Onde se constroem fábricas nos países de origem em vez de explorar a pobreza alheia. Onde a democracia não é formato, mas sim substância viva.

António da Cunha Duarte Justo

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