A
história tem destas coisas inteligentes que é nunca se deixar encerrar
numa só narrativa, por vezes confinada pelos grandes. Para ser
verdadeiramente fiel à cronologia e a uma consciência sempre reavivada, a
História serve-se, também da FIFA para mostrar o mundo na perspectiva
de um outro jogo...
No
dia 13 de outubro de 2025, os "Tubarões Azuis" escreveram a página mais
bonita da sua história desportiva. Ao vencer o Essuatíni por 3-0, no
Estádio Nacional da Cidade da Praia, a seleção cabo-verdiana garantiu,
pela primeira vez, um lugar no Campeonato do Mundo da FIFA... Uma
conquista ainda mais notável se considerarmos que Cabo Verde, com os
seus cerca de 525 mil habitantes, se torna, depois da Islândia, o país
menos populoso de sempre a marcar presença num Mundial...
Este
feito desportivo ecoa, de forma poética, a própria história do
arquipélago. Cabo Verde foi descoberto em 1460 por Diogo Gomes e António
da Noli, ao serviço do Infante D. Henrique. Quando chegaram, as ilhas
estavam habitadas apenas por aves e vegetação selvagem, sem qualquer
indício de presença humana anterior. A primeira ilha a ser descoberta
foi a de Santiago, e em 1462 teve início o povoamento, com a fundação da
Ribeira Grande, hoje Cidade Velha, a primeira cidade europeia nos
trópicos. Durante séculos, o arquipélago foi um ponto estratégico nas
rotas do Atlântico, mas permaneceu, durante muito tempo, uma realidade
distante no imaginário global...
....
Tal como os islandeses, os cabo-verdianos provaram que a grandeza não
se mede pelo tamanho do território ou pela população, mas pela força da
vontade e pela união de um povo. A Islândia foi redescoberta no
campeonato das nações e depois foi recompensada com muito turismo; o
mesmo haverá de contar-se para Cabo Verde.
Agora
que o futebol recolocou Cabo Verde no mapa do mundo, é tempo de olhar
para os seus filhos que, tal como os navegadores de outrora, partiram à
procura de um futuro melhor. A comunidade cabo-verdiana em Portugal é
uma das mais expressivas e antigas, com cerca de 48 mil residentes
legais só com nacionalidade cabo-verdiana, um número que ultrapassa
largamente os 100 mil se contarmos os naturalizados e descendentes...
Portugal teria, em consciência, o dever de beneficiar e privilegiar os
migrantes das antigas colónias/províncias ultramarinas, promovendo mais
construções que lhes facilite o viver. Afinal, a língua e a história
comum são pontes que não podem ser ignoradas e, a partir da
multipolaridade da mesma língua, até poderia ser o incentivo para se
formar dos países lusófonos um novo polo num mundo geopolítico que se
está a orquestrar.
Portugal
tem de mostrar inteligência nas prioridades que coloca, mesmo em
relação à imigração e não se deixar levar por políticas meramente
económicas de Bruxelas... Que a redescoberta de Cabo Verde pelo desporto
seja o prenúncio de uma redescoberta mais profunda, a descoberta de um
povo que, tal como a sua seleção, merece um lugar de destaque no palco
do mundo.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11045

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