segunda-feira, 29 de junho de 2026

Balde de água fria para mentes sobreaquecidas por certezas

 

O MOVENTE POR TRÁS DA DESCRIÇÃO (NARRATIVA)

Porque é que raramente investigamos o que está por trás das coisas e dos pensamentos? Porque os pensamentos apenas descrevem como algo funciona, mas nunca explicam a força que move tudo. A linguagem que usamos cria uma barreira entre nós e a realidade. Quando percebemos os limites da nossa razão, a angústia diminui. O autoconhecimento tira-nos a ingenuidade e faz-nos andar com a lanterna de Diógenes, perguntando sempre o que está para além da pergunta/resposta.

Se o girassol se move pela luz, o animal pela fome e o Homem pela curiosidade, a ciência fica-se pela descrição dos mecanismos. Não chega ao que move realmente.

Filósofos como Schopenhauer falaram de uma força cega por trás de toda a vida e chamou-lhe Vontade. Espinoza, por sua vez, falou do conatus, o esforço que cada ser faz para existir. Não é escolha, mas a própria essência da vida.

O ego humano confunde a sua descrição da realidade com a própria realidade. Talvez a linguagem seja a roupa com que escondemos a nossa nudez!

O desafio é ir além das palavras: um conhecimento por presença, não por representação. Olhar para uma pessoa, uma árvore sem a rotular, sentir a sua presença antes de a nomear.

Na vida social, usamos máscaras. Goffman mostrou que a vida é um teatro onde todos representamos papéis. O problema não é a máscara em si, mas esquecermo-nos de que ela é apenas um instrumento. Quando a máscara substitui o ser, a sociedade perde a sua alma.

Ainda assim, podemos desenvolver estratégias para não nos deixarmos esmagar:
- Sócrates questionava certezas para libertar as pessoas do falso conhecimento
- Podemos usar a máscara social mas manter distância interior
- Ricoeur falava da "segunda inocência": olhar o outro com deslumbramento mesmo sabendo das limitações das palavras
- Buber distinguia o "Eu-Isto" (tratar o outro como objeto) do "Eu-Tu" (encontro sagrado e presente)

As comunidades religiosas vivem uma ressonância plena porque partilham um horizonte comum (Deus, o Sagrado). Olhando juntas para esse absoluto, sintonizam-se umas com as outras. Hoje, a sociedade secular libertou o indivíduo, mas tornou a busca pela verdade um caminho solitário.

Quem procura viver na verdade defronta-se com um dilema:
- Integrar uma comunidade religiosa, mesmo sabendo das suas limitações
- Ou procurar pequenos círculos de pessoas que partilhem o compromisso com o silêncio e a mística

A autoconsciência não é um fim em si mesma porque a condiciona a procura da comunhão. Civilizações que perdem a consciência de si mesmas perdem consistência e deixam de ter verdadeira sustentabilidade.

António da Cunha Duarte Justo

Quem estiver interessado em ler o texto na íntegra filosófica deve clicar no link: https://antonio-justo.eu/?p=11102

 

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