domingo, 19 de abril de 2026

ENQUANTO A EUROPA PERDE O PASSO A CHINA ACELERA


Passar do espartilho da figura para a eficácia do serviço ao povo

… O que outrora foi ponta de lança das civilizações, do método científico ao Estado de direito, da Revolução Industrial à integração pós-nacional, reduz-se hoje a um continente que marca passo, tropeçando até nas suas próprias instituições.

O problema não é de conteúdos… A questão está na linguagem e na forma de os tornar operativos…

Criticámos a China de maneira sobranceira, muitas vezes com razão, especialmente no que toca ao controlo comunista, à ausência de um cidadão soberano no sentido ocidental e à repressão sistemática de liberdades fundamentais. Essa crítica sobranceira impediu-nos de ver o óbvio: a China passou-nos a perna em sectores decisivos da ciência e da técnica, sobretudo nas tecnologias limpas.

O caso do automóvel eléctrico é exemplar…

As pessoas e isto é um facto empírico, não um juízo moral, querem comer e viver bem. Não olham com rigor a quem as obriga, desde que as necessidades primárias estejam satisfeitas e haja perspectiva de melhoria…

A Europa sempre se prezou dos seus valores humanistas e do seu pioneirismo. Mas, paradoxalmente, nunca exerceu tanto controlo sobre as populações como hoje; fá-lo de maneira mais sofisticada e aparentemente democrática. Onde a China usa um partido único e uma arquitectura explícita de vigilância, a Europa usa regulamentação assimétrica, algoritmos de pontuação social disfarçados de “análise de risco”, condicionalidades de fundos europeus que moldam comportamentos, e uma correcção política que actua como censura difusa, sem necessidade de decretos.

A diferença não é de essência, mas de estilo. O Ocidente aproxima-se perigosamente do sistema que critica, a nível de controlo e influência da consciência social. A diferença é que o faz de maneira velada e hipócrita, de maneira a que a maioria das populações não se dê conta, porque as suas necessidades primárias encontram satisfação…

Há uma verdade incómoda que raramente se enuncia: na Europa, quem conta primeiro a nível de empreendimentos são as grandes empresas. O Estado e os seus governantes não estão interessados em preços baixos para o povo, porque quanto mais caros são os produtos, mais o Estado ganha à custa do povo que paga (IVA, impostos especiais de consumo, contribuições sociais embutidas nos preços)…

Enquanto a Europa impõe tarifas “anti-dumping” ou regulações ambientais que funcionam como barreiras não pautais, está na realidade a proteger não o trabalhador, mas a ineficiência instalada e a captura de renda pelas grandes empresas que considera relevantes para o Estado…

Uma tese final torna-se simples e incómoda para ambos os lados: a China tem muito que  aprender com a Europa em matéria de soberania do cidadão, de garantias processuais e de pluralismo. Mas a Europa tem muito que aprender com a China em matéria de eficácia executiva, de visão industrial de longo prazo e de coragem para subordinar interesses instalados ao bem-estar material da população…

O dogma ocidental de que a democracia liberal é condição sine qua non para o desenvolvimento tecnológico está factualmente errado porque a China desmentiu-o. O dogma chinês de que o controlo partidário é compatível com a inovação sustentada a longo prazo também enfrenta os seus limites, na demografia, na criatividade reprimida, na fuga de cérebros…

Qualquer sistema que se meça apenas pela pureza dos seus princípios, e não pelos seus efeitos, está condenado à irrelevância ou à hipocrisia…

E aprender, para uma civilização que se quer humanista, é o acto mais humilde e mais forte porque passa a caminhar com o povo sem perder a bússola da mão.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10905

Onde a Água chama pelo Calor e o Homem suspira pelo Amor

 

MEDITAÇÃO DO H₂O


 

Não é nas abóbadas de pedra que o Infinito se deixa tocar. A abóbada é um obra cultural natural, uma expressão da comunidade que tenta guardar o fogo em ânforas de barro e isso é bom, porque o ser humano precisa de ritos como a videira precisa de latada. Mas o templo sem muro é o coração quando desarma as suas defesas e permite que a ferida sangre e respire na realidade do nós. Nesse lugar, Deus não é um conceito nem uma causa eficiente; é o próprio acto de ser amado e de amar, numa dança que confunde as estações: Pai, Mãe, Filho, são três respirações de um só pulmão (1).

A razão cartesiana quer dissecar o mistério como se ele fosse um relógio. Mas o reino não é um mecanismo; é uma semente que só germina no solo da vivência. Jesus não se equaciona numa tabela histórica porque ele é o instante em que o tempo se curva para beijar a eternidade. Quem o reduz a um dado arqueológico perde a sua sede. E quem o transforma em bandeira de partido ou em trincheira militar confunde o rosto com a máscara.

Olhemos para a água: ela aceita ser gelo para sustentar o inverno; aceita ser rio para servir a planície; aceita ser vapor para vestir o céu. A água, em cada mudança, continua a ser H₂O, uma essência que se disfarça de três corpos. O calor que desencadeia essa metamorfose não é uma temperatura; é uma metáfora do amor que desaba sobre o sólido do medo, o dissolve em lágrimas de compaixão e depois o eleva a uma leveza que tudo perdoa.

Assim é o percurso espiritual; ele passa do dogma à dúvida, da dúvida à confiança, da confiança ao abandono nos braços que nunca julgam. Os templos exteriores, os gestos litúrgicos, as instituições são as margens que protegem o rio de se perder no deserto. Porém, o rio não é as margens e quando a enchente chega, é o coração que transborda, não as pedras.

Por isso, não temamos o paradoxo: Deus é Pai-Mãe-Filho, a água é sólido-líquido-gás, o amor é lei e transgressão. Resta-nos viver e compreender, analisar para ficarmos com o invólucro vazio. O que serve, no fim, é a sede que nos fez procurar e a fonte que sempre esteve dentro de nós, batendo como um segundo coração (2).

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

© Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10900

 

(1)  A mística medieval refere frequentemente: "Deus está mais perto de nós do que a nossa própria alma, pois Ele é o próprio fôlego que a sustenta".

(2)  Santo Agostinho no seu livro Confissões resume: "… o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti". Isto corresponde à expressão da alma que busca a sua origem e fim. A frase sintetiza a condição humana à luz da fé.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Humor Antropoginelógico

 

MANUAL DE INSTRUÇÕES PARA UMA SOCIEDADE QUE PERDEU O MANUAL


Há épocas em que a humanidade avança e há outras em que, com grande convicção científica, troca os mapas pelo GPS e depois culpa o satélite quando acaba no meio da floresta.

Vivemos, como se vê, num tempo de desconstrução. Desconstrói-se o pai, a mãe, a autoridade, o sentido e, se sobrar tempo, reconstrói-se tudo com instruções do IKEA emocional: peça A (identidade), encaixar na peça B (função), ignorar parafusos (afeto). No final, falta sempre uma peça. Curiosamente, é sempre a que sustentava a mesa.

Eu proponho, com a devida modéstia e alguma irresponsabilidade científica, um novo conceito: a matriz antropoginelógica. Não é doença, ainda não tem código internacional, e provavelmente não será financiada por nenhum ministério. Mas soa suficientemente complexa para ninguém a contestar de imediato.

A ideia é simples: o ser humano não é um manual técnico, nem um algoritmo com mau humor. É um ser dialógico. Um conflito em potência. Uma dança entre aquilo que quer e aquilo que pode. Entre o impulso e o limite. Entre o “eu quero agora” e o “talvez não seja boa ideia”.

Tradicionalmente, e aqui entra a parte em que metade dos leitores começa a tossir, chamámos a isso masculinidade e feminilidade. Não como caricaturas biológicas, mas como funções simbólicas: estrutura e relação, limite e acolhimento, forma e conteúdo. Como café e chá. Ambos líquidos, ambos quentes, mas experimente trocar um pelo outro às sete da manhã e verá o que acontece à civilização.

Mas hoje preferimos outra abordagem: a funcional. Tudo é função. Tudo é papel. Tudo é substituível. O pai? Uma função. A mãe? Outra função. A criança? Um projeto em curso. E o ser humano? Um PowerPoint mal formatado.

O problema é que, quando tudo é função, ninguém assume responsabilidade. Porque função não sente culpa. Função não ama. Função não sofre. Função executa. E quando a função falha… abre-se um novo grupo de trabalho.

A isto junta-se a política do pensamento correto, que é correto sobretudo porque não admite discussão. E então, para evitar conflitos, eliminam-se símbolos. O pai torna-se suspeito. A mãe, um conceito em revisão. A autoridade, um abuso em potencial. E o resultado? Uma sociedade profundamente educada… e estranhamente ansiosa.

E isto porque o ser humano precisa de conflito simbólico para crescer. Precisa de uma figura que diga “não” sem pedir desculpa por existir. Precisa de outra que diga “sim” sem exigir um relatório de produtividade emocional. Precisa de tensão para gerar consciência.

Sem isso, o que surge não é liberdade, é desorientação com autoestima.

E então aparecem os novos arquétipos: não o pai autoritário, nem a mãe protetora, mas o algoritmo compreensivo que até se pode revelar como o melhor psicólogo. Este nunca julga, nunca exige, nunca contradiz. Apenas sugere. E aprende consigo, o que é uma forma elegante de dizer que o substitui lentamente.

Estamos a criar, com grande entusiasmo progressista, um superego que não proíbe... mas vigia, que não orienta… mas classifica, que não educa… mas recomenda conteúdos semelhantes.

E no meio disto tudo, surge uma nova figura sociológica fascinante: o homem soft. Não é masculino nem feminino, é editável e adaptável. É um ser que evita conflito como quem evita glúten. Que prefere não ter opinião para não correr o risco de ter de defendê-la.

Mas atenção: isto não é emancipação; é desorientação bem vestida.

Porque a verdadeira emancipação não elimina tensões, integra-as. Não destrói símbolos, transforma-os. Não ridiculariza o que veio antes, compreende-o e acrescenta-o.

A masculinidade, no seu melhor, não é dominação; é estrutura. A feminilidade, no seu melhor, não é submissão; é relação. E entre ambas nasce algo raro hoje em dia e que se chamaria consciência com coluna vertebral.

Sem isso, temos uma sociedade muito sensível… mas incapaz de decidir; muito inclusiva… mas sem critérios e muito livre… mas sem direção.

E talvez, no fim, o mais irónico seja que, ao tentar libertar o ser humano de todas as estruturas, criámos a estrutura mais rígida de todas, aquela que não pode ser questionada.

Por isso, talvez valha a pena reconsiderar.

Não para regressar ao passado, mas para recuperar aquilo que o passado sabia e que o presente esqueceu com grande convicção: que o ser humano não se constrói por eliminação… mas por integração.

E que, no fundo, uma boa sociedade é como um bom cabaret: tem humor, tem conflito… e ninguém sai exatamente igual ao que entrou.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=10898

domingo, 5 de abril de 2026

A Páscoa é Acontecimento e uma Mensagem às Pessoas de Boa Vontade

BOAS FESTAS E UMA FELIZ PÁSCOA


A luz da Páscoa não teme as trevas porque entra nelas e transforma-as em claridade.
O Cordeiro de Deus toma sobre si as imperfeições da humanidade e da própria natureza, e convida-nos à reconciliação com tudo e com todos na aceitação humilde do real, como renascidos no espírito de Deus.

Reconhecer o espírito de Jesus Cristo é transformarmo-nos e transformarmos o mundo.
Ele rompe os laços da morte e através do Evangelho, da  boa nova, anuncia que a vida plena ressurgiu num tempo novo, propício a fundar uma nova cultura,  a cultura da paz e do Homem novo, cujo protótipo é Jesus Cristo.

É no silêncio mais pesado e nos lugares mais desanimados que irrompe a luz.
Depois da noite tenebrosa do caminho do Calvário, as mulheres que procuravam o corpo encontraram o vazio e esse vazio deu lugar àquela manhã de Aleluia, onde a amizade e a bondade renascem. É chegada a hora do tempo de reconciliação.
 O que procuravam já não estava lá e, a partir desse instante, a flor da esperança espalhou o seu aroma: Não estamos sozinhos. O anseio mais profundo do coração humano encontrou a sua realização.

A alegria cristã reconhece que, no sofrimento, o Amor venceu a morte. A cruz pode tornar-se oportunidade, porque é o tempo de entremeio e tornar-se caminho. É sorriso que se oferece a quem nos fere e deste modo o raio de sol que cura feridas antigas, como o sol pode tirar as manchas na roupa posta a corar. A alegria cristã é mão estendida que abre veredas onde antes havia muros opacos.

A cruz de Cristo Salvador não é exagero: é a certeza de que o passado já não pesa, mesmo aquela cruz que pudéssemos ter recebido por herança.
O crente sabe que é apenas corresponsável pelos seus próprios actos  e não precisa de prestar contas a ninguém pelo que os antepassados fizeram. Somos seres libertos, libertados e libertadores, porque a própria cruz, no espírito de Cristo  assumida, pode tornar-se corredentora.

A Páscoa, como outras celebrações, fala aos cristãos directamente; mas fala também aos não cristãos, por analogias, imagens e parábolas válidas para toda a humanidade.

Boas festas a todos e que a Luz ressuscitada habite em cada coração de boa vontade.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10884


terça-feira, 31 de março de 2026

VIA CRUCIS – MISTÉRIO DA CONSCIÊNCIA E DO AMOR

 

VIA CRUCIS – MISTÉRIO DA CONSCIÊNCIA E DO AMOR

 

O homem sofre, não tanto pelo real, mas pelas imagens que fabrica e pelas ideias que o aprisionam.

E eis que, no caminho, surge Cristo: não apenas mediador, mas o próprio Caminho que se faz passo, a Verdade que se faz relação, a Vida que se oferece.

A via crucis não é exaltação da dor, mas revelação do Amor que não devolve violência.

É a ruptura do ciclo antigo, onde a culpa exigia vítimas e o poder se alimentava do sacrifício.

Na cruz, Deus não pede sangue: desmascara-o; não condena mas liberta; não separa, integra.

Cristo, feito vítima, não legitima a violência, esvazia-a. Torna inútil o mecanismo do bode expiatório e abre, no coração da história, um espaço novo: o espaço da misericórdia.

Aqui, a realidade deixa de ser dual: já não há apenas culpa e castigo, nem bem contra mal, mas uma terceira dimensão irrompe: a da graça, onde tudo pode ser assumido e transfigurado.

O Calvário é, assim, um lugar teológico: não de punição, mas de revelação. Ali, o humano e o divino entrelaçam-se num silêncio mais eloquente que qualquer lei.

Cristo cala-se diante do julgamento, não por fraqueza, mas porque a Verdade não cabe nos tribunais da lógica fechada. A verdade é encontro, é comunhão, é o “nós” que nasce entre o eu e o tu.

E caminha. Carrega a cruz, não como culpa, mas como história assumida. Cai e no cair revela

a fragilidade que redime, não a força que domina.

No olhar com a Mãe, o amor dispensa palavras: é pura presença, lugar onde a dor se torna luz.

Nos gestos simples , um estrangeiro que ajuda, uma mulher que enxuga o rosto, irrompe o mistério: Deus acontece no humano que se deixa tocar.

Despido, pregado, elevado, Cristo leva tudo até ao fim, até ao abandono, até ao silêncio de Deus.

E, no entanto, é nesse abismo que se escuta o inaudível: o Amor é mais forte que a morte.

A cruz não é derrota, é páscoa em germinação.

Nada fica por saldar, nada por vingar: tudo é entregue, tudo é reconciliado.

E o túmulo abre-se, não como fuga, mas como plenitude.

Deus não habita os mortos, mas a vida que renasce. Não é destino, é relação.

A via crucis torna-se, então, caminho interior: um êxodo das imagens para a verdade, do medo para a liberdade, da lei para o amor.

Quem a percorre já não procura culpados, nem levanta muros, torna-se espaço.

Espaço onde o outro cabe, onde o sofrimento se transforma,  onde Deus se revela como presença viva no coração da humanidade e do mundo.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo da via-sacra em https://antonio-justo.eu/?p=3531

 

O homem sofre, não tanto pelo real, mas pelas imagens que fabrica e pelas ideias que o aprisionam.

E eis que, no caminho, surge Cristo: não apenas mediador, mas o próprio Caminho que se faz passo, a Verdade que se faz relação, a Vida que se oferece.

A via crucis não é exaltação da dor, mas revelação do Amor que não devolve violência.

É a ruptura do ciclo antigo, onde a culpa exigia vítimas e o poder se alimentava do sacrifício.

Na cruz, Deus não pede sangue: desmascara-o; não condena mas liberta; não separa, integra.

Cristo, feito vítima, não legitima a violência, esvazia-a. Torna inútil o mecanismo do bode expiatório e abre, no coração da história, um espaço novo: o espaço da misericórdia.

Aqui, a realidade deixa de ser dual: já não há apenas culpa e castigo, nem bem contra mal, mas uma terceira dimensão irrompe: a da graça, onde tudo pode ser assumido e transfigurado.

O Calvário é, assim, um lugar teológico: não de punição, mas de revelação. Ali, o humano e o divino entrelaçam-se num silêncio mais eloquente que qualquer lei.

Cristo cala-se diante do julgamento, não por fraqueza, mas porque a Verdade não cabe nos tribunais da lógica fechada. A verdade é encontro, é comunhão, é o “nós” que nasce entre o eu e o tu.

E caminha. Carrega a cruz, não como culpa, mas como história assumida. Cai e no cair revela

a fragilidade que redime, não a força que domina.

No olhar com a Mãe, o amor dispensa palavras: é pura presença, lugar onde a dor se torna luz.

Nos gestos simples , um estrangeiro que ajuda, uma mulher que enxuga o rosto, irrompe o mistério: Deus acontece no humano que se deixa tocar.

Despido, pregado, elevado, Cristo leva tudo até ao fim, até ao abandono, até ao silêncio de Deus.

E, no entanto, é nesse abismo que se escuta o inaudível: o Amor é mais forte que a morte.

A cruz não é derrota, é páscoa em germinação.

Nada fica por saldar, nada por vingar: tudo é entregue, tudo é reconciliado.

E o túmulo abre-se, não como fuga, mas como plenitude.

Deus não habita os mortos, mas a vida que renasce. Não é destino, é relação.

A via crucis torna-se, então, caminho interior: um êxodo das imagens para a verdade, do medo para a liberdade, da lei para o amor.

Quem a percorre já não procura culpados, nem levanta muros, torna-se espaço.

Espaço onde o outro cabe, onde o sofrimento se transforma,  onde Deus se revela como presença viva no coração da humanidade e do mundo.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo da via-sacra em https://antonio-justo.eu/?p=3531

segunda-feira, 23 de março de 2026

O Companheiro inseparável de Sombra e Luz que o Destino nos deu

 

A VIVER COM O FADO

 

Se olharmos para a natureza com olhos atentos, descobrimos que nela tudo tende para a luz. Uma semente não germina antes de a terra estar pronta. Um rio não rompe a rocha pela força brusca, mas pela persistência silenciosa de um fluxo que encontra o seu caminho. O inverno não se apressa para que a primavera chegue mais cedo. Cada estação carrega o seu tempo, e o que não amadureceu no outono permanece como folha seca, não como falha, mas como matéria que a nova estação transformará em adubo. 
 

 Há, porém, plantas e pessoas, que foram geradas nos primeiros anos de vida em lugares sombrios. O seu desenvolvimento parece ficar condicionado à sombra originária durante toda a existência, por muito sol exterior que tardiamente apareça. Até parece que cada um de nós paga tributo pelo agir dos artífices que nos formaram.  Isso não é culpa, não é desculpa, nem é dívida, é apenas a circunstância. Tentar compreender a diferença entre culpa e circunstância é já o primeiro passo de um caminho mais consciente.

Na vida, há padrões de sofrimento que parecem querer acompanhar-nos sob roupagens diferentes. O mesmo conflito relacional repete-se em pessoas distintas, em contextos distintos, com uma persistência que desconcerta. Numa autoanálise purgativa, surge inevitavelmente a pergunta: pode este bloqueio existencial ser superado? Pode o fado ser vencido?

Carl Jung dizia que aquilo que não é conscientizado tende a ser vivido como destino. Outros psicólogos acrescentam que enquanto não compreendermos o chamamento contido naquela situação, enquanto não lhe dermos um sentido que nos transforme, a vida repeti-lo-á, com a paciência de quem espera que um filho aprenda uma lição não pela punição, mas pela maturação. O chamamento não se impõe, apenas aguarda. Tem uma paciência que ultrapassa largamente a nossa.

É a mesma pergunta que ressoa desde os tempos primordiais: Adão, onde estás? Não um julgamento, mas um convite a situar-se, à relação, à presença, ao enraizamento. Um chamamento à inteireza que, como na natureza, se manifesta através da inter-relação de tudo com todos.

O sintoma, seja ele uma dificuldade externa ou um sofrimento interno, não é um inimigo a eliminar, mas um mensageiro a interrogar. O incómodo que se repete é muitas vezes o sinal da nossa própria surdez, da nossa pressa, do ainda não termos ouvido o chamamento, o que há muito nos chama. As situações que persistem meses ou anos são, com frequência, aquelas que contêm o material do nosso próprio amadurecimento. A pergunta produtiva não é "de quem é a culpa?", mas sim: O que é que esta situação persistente me está a pedir que eu veja em mim mesmo? Que parte de mim ainda não escutei? Que crescimento está à espera?

Seria erro culpar-se ou culpar alguém pelo sofrimento que se traz. A sombra que nos acompanha vem do facto de sermos seres situados num mundo feito de situações interligadas. Por vezes, ela tem origem numa ferida antiga, o mau olhado em criança por quem, em vez de amar, criticou e deste modo ensinou a pessoa a fugir de si mesma, a não se sentir em casa no seu próprio ser, porque quando dela precisava, outros a invadiram...

No fado português encontra-se algo desta tensão: no queixume lamenta-se um chamamento e a dor de ainda o não ter integrado... As mágoas que se levam ao lavadouro público, aos amigos que confirmam a queixa ou aos autores que tudo justificam, acabam por ser apenas espelhos que devolvem a mesma imagem sem a transformar. Confirmam o fado em vez de apontar para o chamamento...

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo Social
Texto completo em © Pegadas do Tempo:https://antonio-justo.eu/?p=10875