O grande erro estratégico do Ocidente e o
nascimento de uma nova ordem multipolar
Por António da
Cunha Duarte Justo
I. O Ego como
Destino: A Herança Protestante
Há uma linha
invisível que une Calvino a Trump. Não é uma conspiração, é uma lógica
civilizacional que se foi construindo ao longo de cinco séculos.
Com o surgimento
do protestantismo no século XVI, a emancipação do indivíduo em relação à
comunidade transformou-se em programa político e espiritual. Foi Calvino quem
deu o passo decisivo: ao declarar o trabalho uma “vocação divina” e a riqueza
uma bênção de Deus, subverteu a antiga ética beneditina, que sacraliza o
trabalho para dignificar todas as camadas sociais e criou uma nova ética onde a
eficiência e a racionalidade são virtudes teológicas. A pobreza torna-se,
implicitamente, sinal de reprovação divina.
Esta visão foi-se
radicalizando à medida que atravessava o Canal da Mancha e o Atlântico. Na
Inglaterra industrial, o desenraizamento das populações rurais para as cidades
fabris fortaleceu o individualismo. Nos Estados Unidos, esse individualismo
tornou-se identidade nacional, sistema económico e fé cívica simultaneamente. O
resultado é uma teocracia laica, coesa em si, mas construída sobre o ego, não
sobre a comunidade.
Donald Trump é a
expressão máxima e talvez a mais honesta deste processo. Nele convergem, sem
disfarce, as virtudes e os vícios do espírito anglo-saxónico: a audácia
empreendedora, o desprezo pela nuance, a convicção de que o poder é sinónimo de
razão.
II. O Islão
como Arquitectura Civilizacional
O mundo islâmico
construiu o seu edifício sobre fundamentos opostos. O Corão, a Sharia e os
ahadith, os ditos e feitos do Profeta, reunidos na Sunna,
constituem uma instância superior ao indivíduo e a qualquer sistema de governo
humano. A comunidade (umma) precede o sujeito. A identidade pessoal não se
separa da identidade religiosa.
Este modelo tem
uma eficiência política notável. A mesquita não é apenas um espaço de oração: é
o nó de uma rede social que atravessa gerações, fronteiras e Estados. As bases
culturais do mundo árabe, espalhadas pelos cinco continentes, revelam-se
frequentemente mais eficazes do que bases militares. Enquanto o Ocidente
projecta poder por satélite e porta-aviões, o Islão projecta coesão por
família, língua e fé.
Quando os Estados
Unidos eliminaram uma figura religiosa de estatuto constitucional no Irão, não
atacaram apenas um general ou um político. Atacaram a identidade de um povo. A
coerência entre o religioso e o político é, no mundo islâmico, indissociável, o
que não tem equivalente no Ocidente laico. Se algo comparável fosse feito ao
Papa, a reacção europeia seria indignação diplomática. No Irão, é uma ferida na
alma colectiva.
III. A
Geopolítica do Erro: Ormuz e o Ponto de Viragem
O Estreito de
Ormuz foi, nos tempos de Afonso de Albuquerque, a chave do comércio com a
Índia. Os portugueses compreenderam, no século XVI, que quem controlasse Ormuz
controlaria o mundo. Hoje, esse estreito é novamente um fulcro, não
apenas de petróleo, mas de uma mudança geopolítica profunda.
O ataque
americano ao Irão, qualquer que seja a sua forma, inscreve-se numa longa série
de intervenções ocidentais no mundo islâmico que terminaram, sem excepção, com
uma retirada. Do Afeganistão ao Iraque, da Líbia à Síria, o padrão repete-se:
vitória militar de curto prazo, caos estratégico de longo prazo, e um mundo
geopolítico pior do que antes.
A razão é
estrutural: a guerra americana é uma guerra de elites. A guerra islâmica é uma
guerra de povo que não perdeu a sua alma. Não se derrota uma civilização com
drones.
Entretanto, a
Turquia, adversária do Irão, atacada pelos seus foguetes, recebe permissão para
evacuar os seus petroleiros, enquanto os navios ocidentais aguardam no Golfo. O
pragmatismo do mundo muçulmano, como sistema de poder, é uma lição que o
Ocidente ainda não soube ler.
IV. A Europa à
Encruzilhada
A Europa
encontra-se hoje numa posição paradoxal: suficientemente próxima do conflito
para ser afectada, suficientemente distante para poder escolher um caminho
diferente.
Friedrich Merz
aproveitou o erro americano de fazer a guerra sem consultar os aliados para
afirmar uma autonomia estratégica alemã e, por extensão, europeia, que estava
adormecida desde 1945. A Alemanha, com a sua consciência saxónico-germânica,
quebrou discretamente a subordinação automática a Washington. A Espanha, cujo
primeiro-ministro mantém laços mais próximos com os BRICS, foi dos primeiros a
colocar o travão.
Mas a Europa
enfrenta uma contradição interna que nenhuma aliança militar resolve: ao seguir
sistematicamente o modelo anglo-americano nas últimas décadas, foi renegando a
sua própria alma civilizacional, a herança grega da razão crítica, a herança
romana do direito e da ordem, a herança cristã da comunidade, da soberania
espiritual do indivíduo e da responsabilidade colectiva. Substituiu-a por um
liberalismo de valores abstratos, sem raízes culturais profundas que procura
transformar moral em leis desencarnadas.
Uma Europa que
constrói a sua força apenas sobre o poder económico-militar, desprezando o povo
e a sua alma, tem os dias contados. Quem despreza a dimensão espiritual de uma
civilização - chame-lhe "Deus", "cultura" ou
"identidade" - acaba por perder a sua sustentabilidade histórica.
O preço que a
Europa paga pela Ucrânia é desproporcional e revela a persistência de uma velha
lógica nacionalista que não soube adaptar-se às novas coordenadas de um mundo
multipolar ao pretender passar do seu velho colonialismo para o colonialismo
mental.
V. A Nova
Ordem e os Seus Actores
Os BRICS não são
uma aliança ideológica. São a expressão de um mundo que recusou o fim da
história proclamado pelo Ocidente nos anos 90. China, Índia, Rússia, Brasil,
África do Sul, e agora muitos outros, representam civilizações que
mantiveram a coesão interna através das suas próprias doutrinas.
A China tem
Confúcio: a família como célula de coesão social, o Estado como família
alargada, a paciência estratégica como virtude suprema. O Islão tem a “umma”: a
comunidade de crentes como horizonte de identidade. Ambos os sistemas oferecem
o que o individualismo ocidental perdeu: uma razão para ser “nós” antes de ser
“eu”.
A nova ordem
multipolar não será construída por nenhuma potência hegemónica. Será o
resultado de um equilíbrio dinâmico entre civilizações que aprenderam a
negociar a partir das suas identidades, não apesar delas. A geopolítica
emergente exige conversações, compromissos e alianças de carácter complementar,
não a imposição de um modelo único.
VI. Conclusão:
O Que a História Ensina
Há uma lição
recorrente na história que o poder tende a esquecer no momento em que mais
precisa dela: a força que não tem raízes não tem futuro.
O mundo islâmico
sobreviveu às Cruzadas, ao colonialismo, à Guerra Fria e às guerras do Golfo.
Não porque fosse militarmente superior, frequentemente não era, mas porque a
sua identidade era mais profunda do que qualquer exército inimigo conseguia
alcançar. Os ventos das ideologias têm decomposto o ideário europeu no sentido
de substituir a “alma” da cultura e da pessoa pelas suas máscaras reduzindo a
pessoa e instituições ao nível da sua funcionalidade ao contrário do mundo
árabe e do mundo chinês.
O Ocidente, para
se renovar, não precisa de mais armamento. Precisa de regressar à pergunta que
os gregos fizeram primeiro e que nenhuma civilização pode evitar: quem somos
nós e para onde vamos?
Enquanto essa
pergunta ficar sem resposta, quem se meter com o mundo islâmico continuará a
apanhar.
António da
Cunha Duarte Justo
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