segunda-feira, 23 de março de 2026

O Companheiro inseparável de Sombra e Luz que o Destino nos deu

 

A VIVER COM O FADO

 

Se olharmos para a natureza com olhos atentos, descobrimos que nela tudo tende para a luz. Uma semente não germina antes de a terra estar pronta. Um rio não rompe a rocha pela força brusca, mas pela persistência silenciosa de um fluxo que encontra o seu caminho. O inverno não se apressa para que a primavera chegue mais cedo. Cada estação carrega o seu tempo, e o que não amadureceu no outono permanece como folha seca, não como falha, mas como matéria que a nova estação transformará em adubo. 
 

 Há, porém, plantas e pessoas, que foram geradas nos primeiros anos de vida em lugares sombrios. O seu desenvolvimento parece ficar condicionado à sombra originária durante toda a existência, por muito sol exterior que tardiamente apareça. Até parece que cada um de nós paga tributo pelo agir dos artífices que nos formaram.  Isso não é culpa, não é desculpa, nem é dívida, é apenas a circunstância. Tentar compreender a diferença entre culpa e circunstância é já o primeiro passo de um caminho mais consciente.

Na vida, há padrões de sofrimento que parecem querer acompanhar-nos sob roupagens diferentes. O mesmo conflito relacional repete-se em pessoas distintas, em contextos distintos, com uma persistência que desconcerta. Numa autoanálise purgativa, surge inevitavelmente a pergunta: pode este bloqueio existencial ser superado? Pode o fado ser vencido?

Carl Jung dizia que aquilo que não é conscientizado tende a ser vivido como destino. Outros psicólogos acrescentam que enquanto não compreendermos o chamamento contido naquela situação, enquanto não lhe dermos um sentido que nos transforme, a vida repeti-lo-á, com a paciência de quem espera que um filho aprenda uma lição não pela punição, mas pela maturação. O chamamento não se impõe, apenas aguarda. Tem uma paciência que ultrapassa largamente a nossa.

É a mesma pergunta que ressoa desde os tempos primordiais: Adão, onde estás? Não um julgamento, mas um convite a situar-se, à relação, à presença, ao enraizamento. Um chamamento à inteireza que, como na natureza, se manifesta através da inter-relação de tudo com todos.

O sintoma, seja ele uma dificuldade externa ou um sofrimento interno, não é um inimigo a eliminar, mas um mensageiro a interrogar. O incómodo que se repete é muitas vezes o sinal da nossa própria surdez, da nossa pressa, do ainda não termos ouvido o chamamento, o que há muito nos chama. As situações que persistem meses ou anos são, com frequência, aquelas que contêm o material do nosso próprio amadurecimento. A pergunta produtiva não é "de quem é a culpa?", mas sim: O que é que esta situação persistente me está a pedir que eu veja em mim mesmo? Que parte de mim ainda não escutei? Que crescimento está à espera?

Seria erro culpar-se ou culpar alguém pelo sofrimento que se traz. A sombra que nos acompanha vem do facto de sermos seres situados num mundo feito de situações interligadas. Por vezes, ela tem origem numa ferida antiga, o mau olhado em criança por quem, em vez de amar, criticou e deste modo ensinou a pessoa a fugir de si mesma, a não se sentir em casa no seu próprio ser, porque quando dela precisava, outros a invadiram...

No fado português encontra-se algo desta tensão: no queixume lamenta-se um chamamento e a dor de ainda o não ter integrado... As mágoas que se levam ao lavadouro público, aos amigos que confirmam a queixa ou aos autores que tudo justificam, acabam por ser apenas espelhos que devolvem a mesma imagem sem a transformar. Confirmam o fado em vez de apontar para o chamamento...

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo Social
Texto completo em © Pegadas do Tempo:https://antonio-justo.eu/?p=10875

 

sábado, 21 de março de 2026

PARA ALÉM DA SOCIOLOGIA E DO ESPÍRITO DO TEMPO

 
Os Limites da Análise de Roxana Kreimer e a Exigência de uma Matriz Antropológica Integral

António da Cunha Duarte Justo

Resumo

O presente artigo propõe uma análise crítica aos fundamentos argumentativos da obra "El patriarcado no existe más" (2020), de Roxana Kreimer. Partindo do mérito da sua crítica empírica a certas vertentes do feminismo, identificam-se as limitações conceptuais e metodológicas que condicionam as suas conclusões. Argumenta-se que Kreimer se circunscreve a uma análise predominantemente sociológica e formal, negligenciando as dimensões estruturais, simbólicas e ontológicas que constituem o cerne da dominação patriarcal. Ao confundir igualdade formal com igualdade real e ao apoiar-se em generalizações antropológicas e biológicas questionáveis, a autora acaba por desconsiderar a persistência de uma matriz masculina que estrutura profundamente a sociedade. Em contraponto, esboça-se a necessidade de uma abordagem que supere os reducionismos sociológico e biológico, propondo uma matriz antropológica integral, de raiz filosófico-cristã, que reconcilie o feminino e o masculino como pilares constitutivos e indistintos da definição plena do ser humano.

1. Introdução: O Desafio Empírico ao Feminismo Maximalista

A obra de Roxana Kreimer, “El patriarcado no existe más”, insere-se num crescente corpus de literatura que questiona, a partir de dados empíricos, a validade contemporânea do conceito de patriarcado. O seu mérito inicial reside na contestação de certas versões maximalistas do feminismo, que, por vezes, operam com generalizações que a realidade social, na sua complexidade, parece desmentir. Ao recorrer a estudos transnacionais de larga escala, como o de Stoet e Geary (2019) envolvendo 134 nações, Kreimer expõe assimetrias nos desafios enfrentados por homens e mulheres, sugerindo que a narrativa de uma dominação masculina unívoca e global é, no mínimo, insuficiente para explicar fenómenos como as desvantagens masculinas em 91 dos países analisados.

No entanto, é precisamente neste ponto que a solidez da sua argumentação começa a fragmentar-se. A sua análise, embora ancorada em dados, revela-se metodologicamente limitada e conceptualmente frágil, operando uma redução do problema a variáveis quantificáveis e a uma leitura superficial das estruturas de poder. O presente texto pretende desconstruir os pilares dessa argumentação, demonstrando que a conclusão de Kreimer,  a negação da existência contemporânea do patriarcado, depende de escolhas epistemológicas que ignoram as dimensões estruturais, simbólicas e antropológicas da questão.

2. A Armadilha do Formalismo: Entre a Sociologia Descritiva e a Cegueira Estrutural

O primeiro e mais grave problema da análise de Kreimer é a confusão entre igualdade formal e igualdade estrutural. A autora constata, com razão, que as mulheres têm, no mundo ocidental, acesso legal generalizado às mesmas instituições que os homens, como, educação, mercado de trabalho, cargos políticos. Deste facto, infere uma tendencial superação do patriarcado. No entanto, esta inferência ignora que as estruturas de poder não se limitam ao seu aspeto legal ou institucional. Elas são constituídas por uma teia complexa de normas informais, expectativas sociais, redes de influência e um capital simbólico que perpetua a hegemonia de uma matriz cultural masculina enraizada na História.

Kreimer limita-se a uma leitura sociológica descritiva: as mulheres já ocupam certos espaços, logo, a exclusão foi superada. Não questiona se as regras do jogo, os critérios de avaliação, os modelos de liderança e os valores que estruturam esses espaços permanecem inalterados e profundamente marcados por uma lógica masculina. Ao fazê-lo, reduz a questão da presença feminina a uma mera questão de proporcionalidade numérica em profissões ou cargos hierárquicos, ignorando que a mulher é chamada a integrar-se num mundo desenhado à imagem e semelhança de um ideal masculino, sendo-lhe exigida uma adaptação que não questiona o modelo em si. A sua visão fica-se pela constatação de uma diferença no "estar" social da mulher, sem inquirir sobre as condições profundas desse "ser" num mundo estruturalmente androcêntrico.

3. Preferências, Biologia e o Espectro do Reducionismo

Para sustentar a sua tese da agência feminina livre, Kreimer recorre a argumentos sobre preferências inatas, citando a maior propensão média das mulheres para profissões que envolvem cuidar de pessoas e dos homens para trabalhar com objetos e sistemas. Apoia-se, ainda, na biologia evolucionista para explicar tais diferenças.

Esta abordagem é metodologicamente arriscada e filosoficamente redutora. Em primeiro lugar, invocar a biologia evolucionista para justificar escolhas profissionais complexas no século XXI é um salto interpretativo que desconsidera o peso avassalador da socialização e da cultura na formação da subjetividade. Mesmo que existam predisposições biológicas, a forma como elas são interpretadas, valorizadas e canalizadas é sempre mediada por um contexto cultural que é, ele próprio, herdeiro de uma divisão sexual do trabalho milenar.

Em segundo lugar, ao apresentar estas "preferências médias" como prova da liberdade de escolha num contexto pós-patriarcal, Kreimer ignora o conceito de habitus de Bourdieu: a interiorização da estrutura social objetiva sob a forma de disposições subjetivas. Ou seja, as preferências podem ser precisamente o produto de séculos de condicionamento, e não a sua superação. A sua análise, ao ficar-se pela superfície das escolhas, não escapa a um reducionismo que é simultaneamente biológico (ao naturalizar preferências) e sociológico (ao descrever estatísticas sem lhes inquirir a génese). Fica, assim, refém de um dualismo que uma abordagem filosófica mais profunda deve precisamente superar.

4. O Conceito de Patriarcado: Entre a Definição Jurídica e a Matriz Simbólica

A própria definição de patriarcado que Kreimer operacionaliza é limitada e desfasada do uso filosófico e feminista mais sofisticado. Ao defini-lo como um "sistema que autoriza os homens a explorar as mulheres", a autora reduz o conceito a uma dimensão quase jurídica e contratual, que pode ser facilmente desmentida pela constatação de que tal "autorização" formal já não existe no Ocidente.

No entanto, o patriarcado, na tradição do pensamento crítico, é entendido como uma matriz cultural e simbólica profunda, uma estrutura de poder que se reproduz capilarmente, através da linguagem, dos símbolos, dos afetos e das hierarquias invisíveis do quotidiano. É um sistema que domina até à "medula", moldando homens e mulheres, sacrificando ambos a um ideal de desempenho, de poder e de subjetividade que é unilinear e excludente. Ignorar esta dimensão estrutural leva a que fenómenos como a violência doméstica e o feminicídio, que apresentam padrões assimétricos persistentes e transversais, sejam lidos fora do seu contexto sistémico, perdendo-se a inteligibilidade da sua gravidade específica.

5. Para uma Matriz Antropológica Integral: Superando o Reducionismo

É neste ponto que a perspetiva que aqui proponho se distancia e se pretende complementar e superar a de Kreimer. A sua análise, confinada aos dados e à superfície do social, não alcança a questão fundamental: a da própria definição do humano. O problema não é meramente a desigualdade de acesso a estruturas feitas por homens, mas a própria natureza dessas estruturas, forjadas a partir de uma visão antropológica unilateral.

O projeto científico e filosófico que aqui se anuncia propõe uma rutura com este paradigma. Não se trata de um feminismo superficial que visa reduzir as diferenças à influência cultural (reducionismo sociológico), nem de uma visão essencialista que as fixa biologicamente (reducionismo biológico). Trata-se, isso sim, de partir para uma antropologia filosófica fundamental, ancorada numa filosofia cristã que transcende o estritamente religioso para se afirmar como via de acesso à compreensão integral do ser.

Esta perspetiva reconhece as diferenças biológicas e as predisposições inatas, mas insere-as num quadro ontológico mais amplo. O objetivo não é a mera integração do feminino num mundo masculino, mas a superação desta própria dualidade excludente. Propõe-se, assim, uma matriz integral onde o feminino e o masculino não são apêndices ou papéis sociais, mas pilares estruturais e indistintos da própria definição do ser humano. É uma refundação antropológica que implica uma nova epistemologia, uma nova ontologia e, consequentemente, uma nova sociologia, capaz de ler para além dos números e de vislumbrar a tessitura profunda da nossa humanidade partilhada, numa perspetiva que supera o dualismo e o reducionismo das abordagens exclusivamente sociológicas.

Conclusão

Roxana Kreimer oferece uma crítica pertinente a certos exageros do discurso feminista, mas a sua obra é vítima de um positivismo ingénuo e de um formalismo jurídico que a impede de ver a persistência do patriarcado como matriz cultural e simbólica. Ao confundir a descrição de superfície com a análise estrutural, a autora não só falha o alvo como corre o risco de legitimar, involuntariamente, o status quo. A sua análise, embora útil como ponto de partida, demonstra a insuficiência de uma abordagem puramente sociológica para um problema que é, na sua raiz, ontológico. A superação da ordem vigente exige, por isso, um mergulho mais profundo: uma reformulação da própria antropologia que nos permita, finalmente, edificar uma sociedade onde o humano possa ser vivido na sua plenitude, para além das prisões de género e dos reducionismos de qualquer ordem.

© Pegadas do Tempo https://de.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Justo 

 https://antonio-justo.eu/?p=10855

 

O grande erro estratégico do Ocidente e o nascimento de uma nova ordem multipolar

 

QUEM SE METE COM O MUNDO ISLÂMICO APANHA

Por António da Cunha Duarte Justo

 

I. O Ego como Destino: A Herança Protestante

Há uma linha invisível que une Calvino a Trump. Não é uma conspiração, é uma lógica civilizacional que se foi construindo ao longo de cinco séculos.

Com o surgimento do protestantismo no século XVI, a emancipação do indivíduo em relação à comunidade transformou-se em programa político e espiritual. Foi Calvino quem deu o passo decisivo: ao declarar o trabalho uma “vocação divina” e a riqueza uma bênção de Deus, subverteu a antiga ética beneditina, que sacraliza o trabalho para dignificar todas as camadas sociais e criou uma nova ética onde a eficiência e a racionalidade são virtudes teológicas. A pobreza torna-se, implicitamente, sinal de reprovação divina.

Esta visão foi-se radicalizando à medida que atravessava o Canal da Mancha e o Atlântico. Na Inglaterra industrial, o desenraizamento das populações rurais para as cidades fabris fortaleceu o individualismo. Nos Estados Unidos, esse individualismo tornou-se identidade nacional, sistema económico e fé cívica simultaneamente. O resultado é uma teocracia laica, coesa em si, mas construída sobre o ego, não sobre a comunidade.

Donald Trump é a expressão máxima e talvez a mais honesta deste processo. Nele convergem, sem disfarce, as virtudes e os vícios do espírito anglo-saxónico: a audácia empreendedora, o desprezo pela nuance, a convicção de que o poder é sinónimo de razão.

 

II. O Islão como Arquitectura Civilizacional

O mundo islâmico construiu o seu edifício sobre fundamentos opostos. O Corão, a Sharia e os ahadith,  os ditos e feitos do Profeta, reunidos na Sunna,  constituem uma instância superior ao indivíduo e a qualquer sistema de governo humano. A comunidade (umma) precede o sujeito. A identidade pessoal não se separa da identidade religiosa.

Este modelo tem uma eficiência política notável. A mesquita não é apenas um espaço de oração: é o nó de uma rede social que atravessa gerações, fronteiras e Estados. As bases culturais do mundo árabe, espalhadas pelos cinco continentes, revelam-se frequentemente mais eficazes do que bases militares. Enquanto o Ocidente projecta poder por satélite e porta-aviões, o Islão projecta coesão por família, língua e fé.

Quando os Estados Unidos eliminaram uma figura religiosa de estatuto constitucional no Irão, não atacaram apenas um general ou um político. Atacaram a identidade de um povo. A coerência entre o religioso e o político é, no mundo islâmico, indissociável, o que não tem equivalente no Ocidente laico. Se algo comparável fosse feito ao Papa, a reacção europeia seria indignação diplomática. No Irão, é uma ferida na alma colectiva.

 

III. A Geopolítica do Erro: Ormuz e o Ponto de Viragem

O Estreito de Ormuz foi, nos tempos de Afonso de Albuquerque, a chave do comércio com a Índia. Os portugueses compreenderam, no século XVI, que quem controlasse Ormuz controlaria o mundo. Hoje, esse estreito é novamente um fulcro,  não apenas de petróleo, mas de uma mudança geopolítica profunda.

O ataque americano ao Irão, qualquer que seja a sua forma, inscreve-se numa longa série de intervenções ocidentais no mundo islâmico que terminaram, sem excepção, com uma retirada. Do Afeganistão ao Iraque, da Líbia à Síria, o padrão repete-se: vitória militar de curto prazo, caos estratégico de longo prazo, e um mundo geopolítico pior do que antes.

A razão é estrutural: a guerra americana é uma guerra de elites. A guerra islâmica é uma guerra de povo que não perdeu a sua alma. Não se derrota uma civilização com drones.

Entretanto, a Turquia, adversária do Irão, atacada pelos seus foguetes, recebe permissão para evacuar os seus petroleiros, enquanto os navios ocidentais aguardam no Golfo. O pragmatismo do mundo muçulmano, como sistema de poder, é uma lição que o Ocidente ainda não soube ler.

 

IV. A Europa à Encruzilhada

A Europa encontra-se hoje numa posição paradoxal: suficientemente próxima do conflito para ser afectada, suficientemente distante para poder escolher um caminho diferente.

Friedrich Merz aproveitou o erro americano de fazer a guerra sem consultar os aliados para afirmar uma autonomia estratégica alemã e, por extensão, europeia, que estava adormecida desde 1945. A Alemanha, com a sua consciência saxónico-germânica, quebrou discretamente a subordinação automática a Washington. A Espanha, cujo primeiro-ministro mantém laços mais próximos com os BRICS, foi dos primeiros a colocar o travão.

Mas a Europa enfrenta uma contradição interna que nenhuma aliança militar resolve: ao seguir sistematicamente o modelo anglo-americano nas últimas décadas, foi renegando a sua própria alma civilizacional, a herança grega da razão crítica, a herança romana do direito e da ordem, a herança cristã da comunidade, da soberania espiritual do indivíduo e da responsabilidade colectiva. Substituiu-a por um liberalismo de valores abstratos, sem raízes culturais profundas que procura transformar moral em leis desencarnadas.

Uma Europa que constrói a sua força apenas sobre o poder económico-militar, desprezando o povo e a sua alma, tem os dias contados. Quem despreza a dimensão espiritual de uma civilização - chame-lhe "Deus", "cultura" ou "identidade" - acaba por perder a sua sustentabilidade histórica.

O preço que a Europa paga pela Ucrânia é desproporcional e revela a persistência de uma velha lógica nacionalista que não soube adaptar-se às novas coordenadas de um mundo multipolar ao pretender passar do seu velho colonialismo para o colonialismo mental.

 

V. A Nova Ordem e os Seus Actores

Os BRICS não são uma aliança ideológica. São a expressão de um mundo que recusou o fim da história proclamado pelo Ocidente nos anos 90. China, Índia, Rússia, Brasil, África do Sul,  e agora muitos outros, representam civilizações que mantiveram a coesão interna através das suas próprias doutrinas.

A China tem Confúcio: a família como célula de coesão social, o Estado como família alargada, a paciência estratégica como virtude suprema. O Islão tem a “umma”: a comunidade de crentes como horizonte de identidade. Ambos os sistemas oferecem o que o individualismo ocidental perdeu: uma razão para ser “nós” antes de ser “eu”.

A nova ordem multipolar não será construída por nenhuma potência hegemónica. Será o resultado de um equilíbrio dinâmico entre civilizações que aprenderam a negociar a partir das suas identidades, não apesar delas. A geopolítica emergente exige conversações, compromissos e alianças de carácter complementar, não a imposição de um modelo único.

 

VI. Conclusão: O Que a História Ensina

Há uma lição recorrente na história que o poder tende a esquecer no momento em que mais precisa dela: a força que não tem raízes não tem futuro.

O mundo islâmico sobreviveu às Cruzadas, ao colonialismo, à Guerra Fria e às guerras do Golfo. Não porque fosse militarmente superior, frequentemente não era, mas porque a sua identidade era mais profunda do que qualquer exército inimigo conseguia alcançar. Os ventos das ideologias têm decomposto o ideário europeu no sentido de substituir a “alma” da cultura e da pessoa pelas suas máscaras reduzindo a pessoa e instituições ao nível da sua funcionalidade ao contrário do mundo árabe e do mundo chinês.

O Ocidente, para se renovar, não precisa de mais armamento. Precisa de regressar à pergunta que os gregos fizeram primeiro e que nenhuma civilização pode evitar: quem somos nós e para onde vamos?

Enquanto essa pergunta ficar sem resposta, quem se meter com o mundo islâmico continuará a apanhar.

António da Cunha Duarte Justo

© Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10862

QUEM SE METE COM O MUNDO ISLÂMICO APANHA


O grande erro estratégico do Ocidente e o nascimento de uma nova ordem multipolar

Por António da Cunha Duarte Justo

 

I. O Ego como Destino: A Herança Protestante

Há uma linha invisível que une Calvino a Trump. Não é uma conspiração, é uma lógica civilizacional que se foi construindo ao longo de cinco séculos.

Com o surgimento do protestantismo no século XVI, a emancipação do indivíduo em relação à comunidade transformou-se em programa político e espiritual. Foi Calvino quem deu o passo decisivo: ao declarar o trabalho uma “vocação divina” e a riqueza uma bênção de Deus, subverteu a antiga ética beneditina, que sacraliza o trabalho para dignificar todas as camadas sociais e criou uma nova ética onde a eficiência e a racionalidade são virtudes teológicas. A pobreza torna-se, implicitamente, sinal de reprovação divina.

Esta visão foi-se radicalizando à medida que atravessava o Canal da Mancha e o Atlântico. Na Inglaterra industrial, o desenraizamento das populações rurais para as cidades fabris fortaleceu o individualismo. Nos Estados Unidos, esse individualismo tornou-se identidade nacional, sistema económico e fé cívica simultaneamente. O resultado é uma teocracia laica, coesa em si, mas construída sobre o ego, não sobre a comunidade.

Donald Trump é a expressão máxima e talvez a mais honesta deste processo. Nele convergem, sem disfarce, as virtudes e os vícios do espírito anglo-saxónico: a audácia empreendedora, o desprezo pela nuance, a convicção de que o poder é sinónimo de razão.

 

II. O Islão como Arquitectura Civilizacional

O mundo islâmico construiu o seu edifício sobre fundamentos opostos. O Corão, a Sharia e os ahadith,  os ditos e feitos do Profeta, reunidos na Sunna,  constituem uma instância superior ao indivíduo e a qualquer sistema de governo humano. A comunidade (umma) precede o sujeito. A identidade pessoal não se separa da identidade religiosa.

Este modelo tem uma eficiência política notável. A mesquita não é apenas um espaço de oração: é o nó de uma rede social que atravessa gerações, fronteiras e Estados. As bases culturais do mundo árabe, espalhadas pelos cinco continentes, revelam-se frequentemente mais eficazes do que bases militares. Enquanto o Ocidente projecta poder por satélite e porta-aviões, o Islão projecta coesão por família, língua e fé.

Quando os Estados Unidos eliminaram uma figura religiosa de estatuto constitucional no Irão, não atacaram apenas um general ou um político. Atacaram a identidade de um povo. A coerência entre o religioso e o político é, no mundo islâmico, indissociável, o que não tem equivalente no Ocidente laico. Se algo comparável fosse feito ao Papa, a reacção europeia seria indignação diplomática. No Irão, é uma ferida na alma colectiva.

 

III. A Geopolítica do Erro: Ormuz e o Ponto de Viragem

O Estreito de Ormuz foi, nos tempos de Afonso de Albuquerque, a chave do comércio com a Índia. Os portugueses compreenderam, no século XVI, que quem controlasse Ormuz controlaria o mundo. Hoje, esse estreito é novamente um fulcro,  não apenas de petróleo, mas de uma mudança geopolítica profunda.

O ataque americano ao Irão, qualquer que seja a sua forma, inscreve-se numa longa série de intervenções ocidentais no mundo islâmico que terminaram, sem excepção, com uma retirada. Do Afeganistão ao Iraque, da Líbia à Síria, o padrão repete-se: vitória militar de curto prazo, caos estratégico de longo prazo, e um mundo geopolítico pior do que antes.

A razão é estrutural: a guerra americana é uma guerra de elites. A guerra islâmica é uma guerra de povo que não perdeu a sua alma. Não se derrota uma civilização com drones.

Entretanto, a Turquia, adversária do Irão, atacada pelos seus foguetes, recebe permissão para evacuar os seus petroleiros, enquanto os navios ocidentais aguardam no Golfo. O pragmatismo do mundo muçulmano, como sistema de poder, é uma lição que o Ocidente ainda não soube ler.

 

IV. A Europa à Encruzilhada

A Europa encontra-se hoje numa posição paradoxal: suficientemente próxima do conflito para ser afectada, suficientemente distante para poder escolher um caminho diferente.

Friedrich Merz aproveitou o erro americano de fazer a guerra sem consultar os aliados para afirmar uma autonomia estratégica alemã e, por extensão, europeia, que estava adormecida desde 1945. A Alemanha, com a sua consciência saxónico-germânica, quebrou discretamente a subordinação automática a Washington. A Espanha, cujo primeiro-ministro mantém laços mais próximos com os BRICS, foi dos primeiros a colocar o travão.

Mas a Europa enfrenta uma contradição interna que nenhuma aliança militar resolve: ao seguir sistematicamente o modelo anglo-americano nas últimas décadas, foi renegando a sua própria alma civilizacional, a herança grega da razão crítica, a herança romana do direito e da ordem, a herança cristã da comunidade, da soberania espiritual do indivíduo e da responsabilidade colectiva. Substituiu-a por um liberalismo de valores abstratos, sem raízes culturais profundas que procura transformar moral em leis desencarnadas.

Uma Europa que constrói a sua força apenas sobre o poder económico-militar, desprezando o povo e a sua alma, tem os dias contados. Quem despreza a dimensão espiritual de uma civilização - chame-lhe "Deus", "cultura" ou "identidade" - acaba por perder a sua sustentabilidade histórica.

O preço que a Europa paga pela Ucrânia é desproporcional e revela a persistência de uma velha lógica nacionalista que não soube adaptar-se às novas coordenadas de um mundo multipolar ao pretender passar do seu velho colonialismo para o colonialismo mental.

 

V. A Nova Ordem e os Seus Actores

Os BRICS não são uma aliança ideológica. São a expressão de um mundo que recusou o fim da história proclamado pelo Ocidente nos anos 90. China, Índia, Rússia, Brasil, África do Sul,  e agora muitos outros, representam civilizações que mantiveram a coesão interna através das suas próprias doutrinas.

A China tem Confúcio: a família como célula de coesão social, o Estado como família alargada, a paciência estratégica como virtude suprema. O Islão tem a “umma”: a comunidade de crentes como horizonte de identidade. Ambos os sistemas oferecem o que o individualismo ocidental perdeu: uma razão para ser “nós” antes de ser “eu”.

A nova ordem multipolar não será construída por nenhuma potência hegemónica. Será o resultado de um equilíbrio dinâmico entre civilizações que aprenderam a negociar a partir das suas identidades, não apesar delas. A geopolítica emergente exige conversações, compromissos e alianças de carácter complementar, não a imposição de um modelo único.

 

VI. Conclusão: O Que a História Ensina

Há uma lição recorrente na história que o poder tende a esquecer no momento em que mais precisa dela: a força que não tem raízes não tem futuro.

O mundo islâmico sobreviveu às Cruzadas, ao colonialismo, à Guerra Fria e às guerras do Golfo. Não porque fosse militarmente superior, frequentemente não era, mas porque a sua identidade era mais profunda do que qualquer exército inimigo conseguia alcançar. Os ventos das ideologias têm decomposto o ideário europeu no sentido de substituir a “alma” da cultura e da pessoa pelas suas máscaras reduzindo a pessoa e instituições ao nível da sua funcionalidade ao contrário do mundo árabe e do mundo chinês.

O Ocidente, para se renovar, não precisa de mais armamento. Precisa de regressar à pergunta que os gregos fizeram primeiro e que nenhuma civilização pode evitar: quem somos nós e para onde vamos?

Enquanto essa pergunta ficar sem resposta, quem se meter com o mundo islâmico continuará a apanhar.

António da Cunha Duarte Justo

© Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10862

O agnóstico que precisava da religião

 

MORREU JÜRGEN HABERMAS: O filósofo que quis tornar o mundo um pouco melhor


Partiu um dos grandes pensadores do nosso tempo. Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão, herdeiro da tradição iluminista de Immanuel Kant, dedicou a sua vida a uma causa tão simples de enunciar quanto difícil de concretizar: tornar o mundo um pouco melhor. «Considero o esforço de tornar o mundo um pouquinho melhor um motivo nada desprezível», afirmou numa das suas frases mais marcantes...

Habermas foi, antes de mais, um teórico da democracia. Para ele, esta não se reduzia à tirania das maiorias, mas era antes uma busca permanente por melhores fundamentos. Com a sua obra magna Teoria da Ação Comunicativa (1981), fundou a chamada Segunda Escola de Frankfurt e construiu uma teoria da democracia assente num princípio aparentemente simples: os seres humanos, enquanto seres racionais, deveriam deixar-se guiar pela «coação sem coação do melhor argumento», isto é, pela força persuasiva da razão e não pela força do poder...

Já nos últimos anos da sua vida, voltou a alertar para os perigos da nova comunicação digital. As redes sociais, representam, segundo ele, «uma nova mudança estrutural da esfera pública», uma transformação tão profunda como a que a imprensa operou nos séculos anteriores, mas desta vez potencialmente corrosiva: ao fragmentar o discurso, ao alimentar câmaras de eco e ao privilegiar a emoção sobre o argumento, colocam em risco os alicerces do debate democrático que tanto primava.

O agnóstico que precisava da religião

Um dos aspectos mais surpreendentes e menos conhecidos do pensamento tardio de Habermas é a sua relação com a religião, tanto mais significativa porque ele próprio se descreveu, num célebre debate com o então cardeal Joseph Ratzinger (futuro Bento XVI), como «religiosamente desmusical». A metáfora é eloquente: como alguém sem ouvido para a música pode reconhecer o seu valor e até precisar dela.

Habermas, agnóstico convicto formado na tradição racionalista, chegou a uma conclusão que desafiou muitos dos seus seguidores: a razão secular, por si só, pode não ser suficiente para sustentar os laços morais que uma sociedade democrática exige. Ao longo dos seus últimos anos, foi procurando cada vez mais «impulsos morais para além da pura razão», reconhecendo nas tradições religiosas um reservatório de sentido, de solidariedade e de motivação ética que as filosofias puramente laicas não conseguirão substituir.

É por isso que, no outono da sua vida, endereçou às igrejas uma recomendação invulgar vinda de um ateu: que não cedessem à tentação de se tornarem demasiado mundanas, de diluírem a sua linguagem própria para serem mais aceitáveis no espaço público secular. Pelo contrário, Habermas defendia que as comunidades religiosas prestam um serviço inestimável à democracia precisamente quando continuam a falar a partir dos seus impulsos metafísicos, quando mantêm viva a linguagem da dignidade absoluta, da esperança, da responsabilidade perante o outro e da resistência ao que é meramente útil ou eficiente.

Esta posição, por vezes chamada de «pós-secular», não implica qualquer abandono do Estado laico nem da separação entre a Igreja e a política. Significa antes o reconhecimento de que numa sociedade plural, o pensamento religioso é um interlocutor legítimo e necessário no debate público, desde que traduza os seus argumentos de forma acessível a todos os cidadãos. As igrejas que renunciam à sua profundidade espiritual para se tornarem mais fáceis de aceitar perdem precisamente aquilo que as torna indispensáveis...

Num tempo em que o espaço público está cada vez mais colonizado pelo ruído, pela desinformação e pela lógica do espectáculo, a sua voz faz-nos uma grande falta. O melhor tributo que lhe podemos prestar é levar a sério o que ele nunca deixou de nos pedir: que argumentemos bem, que escutemos melhor, e que não desistamos de tentar.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo https://antonio-justo.eu/?p=10860

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

OS LUSÍADAS E O ESPELHO PARTIDO DO MUNDO

 Do Adamastor, o gigante de pedra e medo, ao tempo do Diabo contra o Diabo, onde já não há deuses, só abismos a fitarem-se 

Em 12 de março, sopram quatrocentos e cinquenta velas sobre a primeira edição de Os Lusíadas. Em 1572, quando Camões ofereceu ao prelo o seu canto imortal, Portugal e Espanha desenhavam o mapa do mundo entre si, como dois gigantes a repartir um manto que julgavam infinito. A língua portuguesa, nesse parto de versos, deixava de gatinhar nas trovas medievais para se erguer no esplendor renascentista que é um monumento de palavras que que a partir de entao fala aos ventos.

Mas que mundo é este que agora habita o mesmo poema?

Olhamos para a Ucrânia e para o Médio Oriente e já não vemos o confronto épico entre portugueses e deuses, entre mortais e forças telúricas que povoavam a imaginação de Camões. O que vemos é uma guerra do Diabo contra o Diabo, dois abismos a fitarem-se mutuamente,. O Ocidente e o Oriente já não se defrontam em campo aberto, com bandeiras desfraldadas e códigos de honra. Agora, os poderosos disputam não apenas territórios, a geografia caduca de fronteiras, mas algo mais sinistro. Hoje os poderosos disputam também o tempo e as mentes dos humanos. Querem roubar o futuro aos povos e a lucidez às consciências.

E na Europa, jardim supostamente iluminado, o confronto multiplica-se em espelhos partidos. Os opiniosos dividem-se em trincheiras verbais, uns a abraçar um demónio, outros a invocar o seu contrário, como se a escolha possível fosse apenas entre dois lados da mesma moeda gasta. O debate público tornou-se uma câmara de ecos onde já não se ouve a voz de Adamastor, esse gigante que ainda hoje espreita no Cabo das Tormentas, guardião de um medo mais antigo que todas as ideologias.

Talvez por isso Os Lusíadas, apesar de inimizados por alguns, resistam. Não porque nos ensinem a navegar porque os mares de hoje são outros, mais turvos, mais traiçoeiros. Mas porque nos recordam que a língua pode ser nau, que a palavra pode ser bússola, que o verso pode ser ancora num tempo à deriva.

E enquanto houver quem leia Camões, haverá quem lembre que os monstros não estão apenas nos mapas antigos, nem os deuses apenas no Olimpo. Estão também no silêncio que escolhemos perante a barbárie, na indiferença que vestimos como armadura, na rendição de pensarmos que todos os diabos são iguais.

450 anos depois, a epopeia continua. Mas agora o poema somos nós, escrevendo-o a cada escolha, a cada palavra que ainda ousa dizer não ao abismo e que ouse colocar-se do lado dos que pretendem uma cultura da paz e não continuar com a cultura da guerra, oficialmente cuidada e proclamada.

Passou-se do confronto com as forças telúricas do Adamastor à guerra do Diabo contra o Diabo porque hoje os monstros já não estão só nos mapas, mas sobretudo nas mentes.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo:  https://antonio-justo.eu/?p=10838

terça-feira, 10 de março de 2026

Alemanha ultrapassa China e ocupa o 4.º lugar no ranking global

 MAIORES EXPORTADORES DE ARMAS PESADAS DO MUNDO

De acordo com os dados mais recentes do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), a Alemanha ocupa atualmente o quarto lugar no ranking mundial dos maiores exportadores de armas pesadas, superando a República Popular da China. O relatório evidencia uma elevada concentração do mercado global de armamento convencional num conjunto restrito de países.

Os Estados Unidos da América lideram as exportações mundiais, representando 43% do total, seguidos pela França (9,8%), Federação Russa (6,8%), Alemanha (5,7%) e China (5,6%). Completam a lista dos principais exportadores: Itália (5,1%), Israel (4,4%) e Reino Unido (3,4%).

No que concerne ao destino das exportações alemãs, aproximadamente um quarto do total foi direcionado para a Ucrânia, no contexto do apoio militar prestado no âmbito do conflito com a Federação Russa. O continente europeu constitui o principal destinatário das armas pesadas de origem alemã, com 41% das entregas, seguindo-se o Médio Oriente (33%) e a Ásia (17%).

A nível global, a Europa importou cerca de um terço do total de armas pesadas comercializadas internacionalmente, sendo que quase metade deste volume teve origem nos Estados Unidos.

Os dados apresentados permitem constatar a pujança do setor económico associado à indústria bélica, sugerindo não apenas determinadas configurações geopolíticas contemporâneas, mas também a persistência de uma cultura de pendor belicista, em detrimento da consolidação de uma efetiva cultura de paz.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10832