sábado, 14 de fevereiro de 2026

Beijar é o melhor e mais divertido Remédio para o Corpo e para a Alma

 

DIA DE S. VALENTM - DIA DOS NAMORADOS

 

O dia em que o comércio local esfrega as mãos de contentamento, os restaurantes duplicam os preços do menu e os corações (mesmo os mais empedernidos) fazem um esforço extra para se lembrarem de que, afinal, batem dentro do peito. Hoje é Dia dos Namorados, mas preferia chamar, o Dia Internacional do Beijo na Boca e da Troca de Embrulhos com Laço.

Há quem diga, e com toda a razão, que beijar é o melhor remédio. Mais barato que o Ben-u-ron e infinitamente mais agradável. É o santo comprimido efervescente que dissolve na boca e vai direto à alma. Os apaixonados lá andam, de nariz colado, a trocar carícias e pequenas lembranças, tudo numa nostalgia daquele tal de Valentim (1), que era um padre com veia poética e espírito de insubordinação que, em pleno império romano, teimou em casar os jovens apaixonados às escondidas. Como resultado teve a prisão. E isto compreende-se porque o amor sempre foi um assunto perigoso e subversivo!

Na minha modesta opinião de observador do mundo, a verdade é que para se ter um vislumbre de paraíso, é preciso primeiro ter os pés bem assentes na terra e não impedir sistematicamente que as suas energias subam. Os verdadeiros jardineiros do espírito, aqueles que tratam da horta da alma com carinho, sentem-no logo de manhã: há amor no ar. Um simples sorriso, sem segundas intenções nem expectativas, é capaz de iluminar a paisagem mais cinzenta. A Bíblia, que não é propriamente um livro de autoajuda barata, já o dizia: o amor não é uma roupa que se veste e despe ao sabor da moda. Não há que mudar de casaco conforme o tempo. O amor aplica-se à vida, mesmo quando ela resolve desabar numa tempestade de granizo. É um laço invisível, uma daquelas colas superpoderosas que unem o que parecia partido e que teimam em agarrar quando o mais fácil seria largar tudo e ir à vida.

Claro está que o amor não tem manual de instruções. Não vem com garantia de peças. É imperfeito, matreiro, cheio de falhas de fabrico. Mas atrai. Tem um íman qualquer. Talvez porque, no fundo, o amor seja um sem-abrigo de luxo: não tem morada fixa neste mundo e vive eternamente à procura de um lar onde possa pousar a cabeça. E é por isso que, quando encontra um, vale a pena festejar.

E como se festeja? Com um beijo, claro! Vale sempre a pena. Porque um beijo é um fator de felicidade, um estimulante cardíaco sem efeitos secundários (salvo talvez uma certa tontura, perfeitamente desculpável). É um ginásio para a alma. Precisa, sim, de ar fresco, de espaço para respirar, mas é a mais pura das comunicações. É dizer "gosto de ti" sem gastar um caractere. É a demonstração máxima de que, naquele momento, não há sítio melhor no mundo.

Do ponto de vista médico, então, o beijo é um espetáculo. Mobiliza 30 músculos faciais, acelera o pulso, põe o sistema imunitário em sentido e manda um fax ao cérebro a dizer que está tudo bem. É um verdadeiro "check-up" com sabor a framboesa. Pena é que, nos casamentos, com o passar dos anos, este remédio tão milagrosa tenda a ser receitado com menos frequência. A rotina instala-se, o sofá chama, e o beijo matinal passa a ser um gesto mecânico, um "bom-dia" seco dado de raspão, enquanto se procura os óculos em cima da mesa-de-cabeceira.

É uma lástima. Porque se há coisa que o Dia dos Namorados nos devia lembrar, para além da correria às floristas, é que o amor é um verbo e não um arquivo morto. E que um beijo, mesmo fora de época, é sempre a melhor forma de o conjugar.

António da Cunha Duarte Justo

Nota em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10770

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O DIABO ANDA À SOLTA

 

A Altitude da Corrupção: As Elites, Epstein e a Derrocada Moral do Ocidente

Vivemos numa era de desnivelamento ético. Enquanto a maioria luta com as realidades terrenas, uma elite global habita uma estratosfera de impunidade, um espaço “acima das nuvens” onde as regras que governam o povo não têm validade. Este distanciamento não é geográfico, mas moral. A condição sine qua non para esta existência etérea é a cogovernação com os oligarcas do poder, do capital, dos media e da cultura, uma simbiose que corrói os alicerces da civilização ocidental e que insista em continuar assim. O caso Epstein não é um desvio; é o sintoma terminal desta derrocada. Ele testemunha o fracasso abissal de uma casta que, sem um povo vigilante que a incomode, se permite tudo, investindo vorazmente na manipulação de consciências e Estados.

Deus é Povo e o Povo está adormecido

Há uma divindade secular negligenciada que se chama povo. Não apenas a sua representação política, falível e frequentemente incorporada, mas também a sua essência coletiva, crítica e moral. Enquanto ações humanas depravadas bradam aos céus, parece que Deus continua a dormir no povo, uma força potencial, mas anestesiada. A moralidade vigente “lá em baixo” não se aplica “lá em cima”, onde a depravação é normalizada sob o verniz do privilégio e um povo despido de si mesmo sempre a olhar para o céu à procura de estrelas. A dimensão do escândalo Epstein é tal que reduz as teorias da conspiração mais audazes a meros eufemismos. As suspeitas são a fumarada inegável de um incêndio moral de proporções civilizacionais.

O Furacão Epstein varre os Telhados e deixa ver o Círculo vicioso do Poder e do Brilho

A partir do momento em que figuras como Donald Trump ascenderam ao poder, uma tempestade de transparência forçada e de reação começou a varrer os altos escalões. O caso Epstein é o tsunami resultante. O seu mundo era o santuário da nata global: ex-presidentes (Clinton, Trump), magnatas (Gates, Musk), estrelas de Hollywood (Woody Allen) e membros da realeza (o Príncipe Andrew, Mette-Marit) e muitos outros da classe. Esta não era uma rede de promiscuidade banal, mas uma economia sombria que fundia altas finanças, política de alto nível e abuso institucionalizado. O mais revelador não é a mera associação, mas a continuidade dos laços mesmo após a condenação de Epstein em 2008. A luz cintilante do glamour servia de cortina de fumo para a mais profunda escuridão. São referidas acusações de pedofilia e tráfico de mulheres mas as evidências são fracas...

A Guerra das Narrativas entre Satânicos e Conspiradores

Neste vácuo ético, proliferam narrativas convenientes. A Rússia, sentindo-se visada pelas origens de algumas vítimas (muitas delas vinham também da Ucrânia!), aponta o dedo às “elites liberais satânicas”, retratando o complexo de Epstein como a falência moral das democracias ocidentais. Do outro lado, a grande imprensa europeia frequentemente minimiza o escândalo, enquadrando-o como uma mera “armadilha” conspiratória para semear desconfiança nas democracias liberais. Ambas as narrativas são úteis: desviam o foco da perversidade sistémica e da responsabilidade individual. Os papéis invertem-se, e os deuses mensageiros da nossa era, os media, como Hermes (o deus Mercúrio), guiam as almas do público num vaivém entre o Olimpo do poder e o submundo do escândalo, sem nunca permitir um julgamento final.

A Psicopatologia do Poder revela a Ponta do Iceberg

Está documentado: uma pequena elite global detém riqueza descomunal, e esse poder molda a psique, corroendo a compreensão das regras comuns. O caso Epstein é apenas a ponta visível de um icebergue de impunidade. Numa época de hiperinformarão e desinformação, cada um escolhe a parte da lógica que lhe convém, e o escândalo arrisca-se a ser soterrado no ruído. As elites protegem os seus interesses; sectores do povo agarram-se a moralidades selectivas; e o mecanismo perverso de entretenimento com escândalos distrai-nos a todos de olhar para o chão que pisamos.

A Guerra de Valores e a Porta para uma nova Era

Esta revelação é também uma arma na guerra de valores entre globalismo e patriotismo. A visão que a apresenta como foco em Trump não é inocente. Vivemos um conflito entre hemisférios cerebrais civilizacionais: um supostamente racionalista e global (esquerdo) e outro identitário e nacional (direito), em vez de uma perspetiva integrada. A pandemia e a guerra na Ucrânia funcionaram como portais para esta nova era de transformação mental e geopolítica. Em Bruxelas, Berlim, Londres ou outras capitais, os detentores do poder comportam-se com uma distância olímpica similar à dos associados de Epstein. Há que esconder a nova vertente do imperialismo que é a vertente do colonialismo mental.

Para onde vais, Humanidade?

A pergunta final é inevitável. Estamos a construir uma sociedade irrefletida, onde a perversidade se torna normalidade na ausência de ética. É o triunfo do ego desvinculado do “nós”. Curiosamente, as elites globalistas conseguem o feito perverso de reunir, nas suas fileiras, o pior do socialismo clientelar e do turbo-capitalismo predatório. Quando a imbecilidade anónima e a gestão técnica substituem a governação ética, os governantes transformam-se em meros administradores da decadência. Nada parece estranho, nada dá que pensar.

O Silêncio Português

E em Portugal? O silêncio da grande Media tradicional é ensurdecedor (1). A discussão vive nas redes sociais, enquanto a imprensa institucional parece adormecida. O caso Casa Pia, mencionado de passagem, nunca foi verdadeiramente esgotado. Este mutismo só pode significar uma coisa: o assunto interessa ou incomoda pessoas com poder também no ecossistema mediático português (o facto de o ser também no regimento de Bruxelas não desculpa!). Neste microcosmo, impera a mesma lei do silêncio que protege os deuses do Olimpo global. Entretanto, Deus continua a dormir no povo. A questão que não se poderá colocar será “quando despertará”?!!!

António da Cunha Duarte

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10759

(1) Quando o jornalismo (o Público) em ambiente de eleições tem o despropósito de fazer reclame com o “Não há volta a dar. O jornalismo é essencial nas escolhas” constata-se a atitude descarada que ele mesmo reconhece ao reconhecer o poder da manipulação que tem.

Para documentação detalhada sobre EPSTEIN, ver: https://contra-cultura.com/2026/02/03/horror-repulsa-e-revolta-parte-2-o-que-dizem-os-ficheiros-epstein-sobre-a-civilizacao-em-que-vivemos/

domingo, 8 de fevereiro de 2026

DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO E REFLEXÃO CONTRA O TRÁFICO DE SERES HUMANOS

 

27 milhões de vítimas à espera de resposta

 

Este dia Mundial foi instituído pelo Papa Francisco na festa de Santa Josefina Bakhita, a escrava sudanesa que se tornou símbolo universal da liberdade e da dignidade resgatada. Este dia serve como apelo global contra uma das chagas mais brutais da modernidade.

A história de Bakhita é uma estrela que ilumina esta jornada. Raptada e escravizada ainda criança, percorreu os horrores da desumanização. No entanto, como ela própria testemunhou, encontrou no final da sua provação não apenas a liberdade física, mas a liberdade plena do encontro com Cristo, tornando-se religiosa. A sua vida é um grande testemunho de como a dignidade humana, por mais pisada que seja, é indestrutível e pode resplandecer...

Segundo os mais recentes dados das Nações Unidas, cerca de 27 milhões de pessoas em todo o mundo são vítimas do tráfico para exploração sexual, trabalho forçado, mendicidade ou tráfico de órgãos. As principais vítimas continuam a ser mulheres, crianças, migrantes e populações deslocadas, os mais vulneráveis entre os vulneráveis...

Neste contexto, ressoa com atualidade a exortação do Papa Leão XIII, neste dia: “A verdadeira paz começa com o reconhecimento e a proteção da dignidade que Deus deu a cada pessoa”....

A pergunta final, aflitiva, permanece: “Quando deixará o homem de ser lobo do homem?” ...

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegada do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10754

 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

QUANDO SE JUNTA A ESQUERDA E A DIREITA EM LUTA CONTRA A POBREZA?


No coração da sociedade lateja a úlcera de uma pobreza que problematiza  a democracia portuguesa

 

Em 2025, cerca de 1,995 milhões de portugueses encontravam-se em risco de pobreza ou exclusão social, o que corresponde a 18,6% da população, menos 1,1 pontos percentuais do que no ano anterior. A taxa de privação material e social desceu para 10,2%, embora quase três em cada dez pessoas continuem sem capacidade para suportar uma despesa inesperada, enfrentando a angústia diária de não conseguir viver com dignidade.

Os rostos desta emergência expressam-se sobretudo nas crianças que crescem em agregados familiares onde por vezes menos de 422 euros têm de chegar para um mês inteiro; são os idosos, com 23,8% dos maiores de 65 anos em risco; são as mulheres, que representam 56% das pessoas em situação de pobreza. São, ainda, os trabalhadores pobres, um dado que desmonta um dos pilares da nossa convicção social: quase metade (49,3%) dos adultos pobres estão empregados, mas o trabalho, afinal, já não garante, por si só, a libertação da miséria. O limiar de pobreza (2025) é quem vive com menos de 632€/mês (ou cerca de 700€ segundo outras fontes baseadas em 2025)...

As despesas médias familiares rondam os 2.900 euros, mas milhões sobrevivem com entre 1.200 e 2.000 euros, dependendo do lugar do país onde calhou nascer... (Naturalmente nas médias têm muito peso tanto os ordenados como os gastos das populações com estatuto económico mais relevante).

A distribuição de riqueza mundial é uma fotografia da injustiça: 1,6% da população detém quase 48% da riqueza global, enquanto os 40% mais pobres partilham 0,6%....

Há, pois, uma contradição democrática gritante. Proclama-se que a terra e os seus frutos são para todos, mas constrói-se uma sociedade onde a escadaria social tem degraus partidos. Chega-se a ter a impressão que em política cada um trata apenas da "sua vidinha", preso a ciclos eleitorais curtos e a debates estéreis? Não se pede uma equalização forçada e irrealista de todas as condições. Pede-se honra, coerência e coragem de Portugal longe das contendas entre as potências deixar de contribuir para guerras geopolíticas resultantes da ganância das potências.

Por isso, a pergunta que se impõe não é partidária, é civilizacional: Quando é que a esquerda e a direita se juntam numa verdadeira "guerra santa" contra a pobreza?...

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10751

 

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ORAÇÃO COMO MODERNA MANEIRA DE MANIFESTAÇÃO!

 

Oração Pacífica é reconhecida como direito na Alemanha e Áustria, em contraste com a repressão no Reino Unido

 

Tribunais na Alemanha e na Áustria emitiram decisões históricas afirmando que a oração pacífica em espaços públicos é um direito fundamental, protegido pela liberdade de reunião, expressão e religião...

Na Áustria uma ordem de proibição policial de uma vigília do grupo "Juventude pela Vida" foi anulada. O tribunal declarou que a oração pacífica é uma reunião legítima e não pode ser excluída do espaço público por motivos religiosos.

Na Alemanha a polícia tentou criar uma "zona de segurança" de 100 metros. O tribunal, com apoio da ADF International, derrubou a restrição.

Estas decisões contrastam com o Reino Unido adota uma postura repressiva, criminalizando a mesma conduta...

As decisões na Alemanha e Áustria são uma mensagem clara à Europa: espaços públicos não são monopólio de uma única visão de mundo...

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10745

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

ADEUS À VIDA ATRAVÉS DO SUICÍDIO

 

Para além dos Números da Escuridão que se espalha na Sociedade europeia

 

Os recentes dados sobre suicídio na Alemanha e em Portugal não são apenas indicadores de saúde pública; são um espelho inquietante de mal-estares sociais profundos, um testemunho de dor coletiva que exige mais do que uma leitura passiva.

Na Alemanha, o ano de 2025 registrou 10.304 suicídios até setembro, um número que se mantém persistente e elevado, espelhando os 10.372 do ano anterior. Porém, a estabilidade do total esconde mudanças perturbadoras na sua composição: observa-se um aumento significativo entre as mulheres e entre pessoas com mais de 65 anos. Paralelamente, os números do suicídio assistido institucionalmente revelam outra faceta desta realidade complexa: em 2025, 1.287 pessoas recorreram a essa via. Os motivos declarados pintam um quadro de desespero multifacetado: 32% alegavam sofrer de múltiplas doenças simultaneamente, 25% citavam uma “falta de vontade de viver”, seguindo-se doenças oncológicas (15,6%) e neurológicas (13,5%) ...

Em Portugal, média de três suicídios por dia mantém-se como uma ferida social constante. Mais alarmante ainda é a posição do país entre os que registram das maiores taxas de mortalidade por suicídio em jovens da União Europeia nos últimos 20 anos. Esta é uma geração que, apesar de hiperconectada, parece enfrentar uma epidemia de solidão, pressão e fragilidade psicológica sem precedentes.

Estes números, no seu conjunto, funcionam como um atestado de pobreza em misericórdia e em laços sociais...

Há uma cruel ironia quando, em muitos orçamentos nacionais, o empenhamento militar e a segurança física superam, em larga escala, os investimentos em saúde mental, apoio social e redes comunitárias de sustentação...

Corremos o risco de ver a morte transformar-se, para alguns, num “modelo de negócio” ou numa solução logística... Estas estatísticas mostram apenas o cume do iceberg e espelham a falta de sentido e metas humanas numa sociedade cada vez mais dirigida pela força do poder, pelo lucro e pelo absurdo de medidas e prioridades...

O que estes dados gritam, em silêncio, é a urgência de uma mudança de vida e de paradigma!

Exige ação concreta, compaixão institucionalizada e uma coragem social para colocar o bem-estar emocional dos cidadãos no centro das prioridades...

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10736

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A NUVEM E O ALTIFALANTE

 Enquanto os do Olimpo se alimentam da claridade que fabricam, os da Névoa navegam na bruma que lhes deixam e ambos, sem o saber, são reflexo um do outro: o poder feito mito, o povo feito abstração, numa dança onde o alto e o baixo são dois movimentos do mesmo rio parado.

No alto do Olimpo (1) moderno, não há partidos. Há o Poder, que é uno, coerente, invisível como o ar e pesado como o granizo. Os que lá vivem, acima das nuvens, compartilham um sol constante. A sua missão é ordenar a massa informe que vagueia sob a tempestade.

Lá em baixo, a Nuvem é permanente. Chuva e desolação são o clima da existência entre altas e baixas pressões. Os cidadãos da névoa alimentam-se das palavras que caem dos altifalantes; de palavras filtradas, processadas, transformadas em pão papoila para a indecisão. Dizem-lhes que os ventos tóxicos são necessários, que sem eles, o caos devoraria tudo. E eles acreditam, porque o medo é o condimento de todas as suas refeições.

Dois pés gigantes, um chamado Conservador e o outro Progressista avançam inabaláveis o caminho da História; os dois caminham sobre a nuvem, alternando passos. Quando um tropeça, a voz do Olimpo explica: “O sistema é complexo”. E segue, pisando um pouco mais forte.

Um dia, um homem da névoa, de nome O Ouvinte, cansou-se de mastigar palavreado. Olhou para as instituições corroídas, para a política sem alma, macha e abusadora, e perguntou em voz baixa: “E se o bem não estiver em nenhum dos pés que nos esmaga?”

A pergunta circulou como um sopro raro. Alguém lembrou as palavras de um pensador chamado Bento: “A política é a arte do possível. O critério não é a opinião, mas a consciência”. Um outro citou Seabra: “Aqui não há verdades finais, só consensos. E consenso pressupõe compromisso com o adversário”.

Compreenderam então: a política não é religião. Não se faz catequese. É um bem menor, um instrumento (em que os adversários espelham o próprio mal no outro, afirmando o bem partido). Aceitá-la como tal era o primeiro passo para a renovar. Não se tratava de derrubar o Olimpo, missão impossível, mas de parar de olhar para ele como fonte de salvação. O bem devia ser o objetivo do Estado e do povo, mas não propriedade de quem fala do alto.

A nuvem não se dissipou, mas dentro dela, começaram a surgir pequenas frestas de claridade. Não era o sol dos deuses, era uma luz própria, feita de consciência crítica que vinha da soberania da pessoa. E nessa luz, mesmo fraca, vislumbraram uma democracia que não fosse apenas dois pés a caminhar, mas muitas mãos a construir.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo  ©  : https://antonio-justo.eu/?p=10725

 

 (1) O Monte Olimpo, o pico mais alto da Grécia, era na mitologia o lar sagrado dos doze deuses olímpicos, liderados por Zeus. O seu cume, envolto em nuvens, simbolizava o centro divino do poder e do governo do universo, um “lugar onde reina a felicidade” que influenciava profundamente o cotidiano e a espiritualidade dos gregos.
Ao longo da história, é possível observar que pequenas elites, em diversas sociedades e instituições, procuraram criar o seu próprio “Olimpo”, um panteão simbólico de poder e distinção.
No entanto, para além das alegorias que construímos, importa reconhecer que tanto na natureza como na sociedade a realidade é feita de montes e vales.
Mais do que ilustrar a matriz intrínseca da sociedade, esta imagem alerta-nos para a estrutura estratificada da vida coletiva e convida a uma vigilância crítica em relação aos pretensos "deuses" que habitam as modernas capitais "olímpicas", de Washington a Pequim, de Bruxelas a Moscovo e cuja influência ecoa e se espalha pelo planeta.