terça-feira, 30 de junho de 2026

PARÓQUIAS VIVAS

 

Quando o Sagrado e o Profano se abraçam na Arte, no Desporto e na Comunidade

Vivemos um paradoxo inquietante porque nunca a humanidade esteve tão sedenta de transcendência e, no entanto, nunca as estruturas religiosas tradicionais pareceram tão distantes do pulsar da vida quotidiana. Esta distância, particularmente sentida pelas gerações mais jovens, não decorre de uma rejeição do Mistério, mas, creio, de uma insatisfação crescente com as circunstâncias onde lhes oferecemos esse Mistério. Os jovens não suportam rituais vazios, palavras gastas (que já não interiorizaram nem conhecem devido ao apagamento de palavras em via na sociedade) e estruturas que privilegiam o poder hierárquico e uma tradição tornada formal em detrimento da autenticidade relacional. Se queremos verdadeiramente presencializar o "protótipo JC", esse Jesus humano e divino que caminhava na poeira dos caminhos, temos de ousar misturar o sagrado e o profano, a liturgia e a vida, a arte e a ascese, sem medo de que o templo se confunda com a praça. O templo tem espaços para a realização mística ritual sacramental e espaços onde o sagrado e o profano se celebrem em inclusão. (Compreende-se o receio dos mais tradicionalistas, face à hostilidade contra o cristianismo e ao fechamento ideológico das organizações. Contudo, o cristão possui o fogo pentecostal e um legado que perdura. O pároco e a comunidade não se devem atemorizar porque a mensagem é de humanidade e confiança e a paróquia é a casa aberta a todos os que, de boa vontade e espírito aberto, procuram a verdade).

1. Da Pirâmide à Rede: A Urgente Descentralização das Comunidades

A primeira grande transformação que se impõe é de cariz estrutural e espiritual. Durante séculos, a paróquia funcionou como uma pirâmide: no topo, o clero; na base, os fiéis expectantes. Esse modelo, que um dia cumpriu a sua função catequética e unificadora, tornou-se, em grande medida, infrutífera para um mundo que respira horizontalidade e conectividade. A descentralização de que falamos não é uma capitulação à anarquia, mas um regresso às origens: a Igreja primitiva era uma teia de comunidades interligadas, onde cada membro contribuía com o seu carisma para o edifício comum.

Imagine-se que, em vez de momentos de culto exclusivamente centrados no altar, as paróquias se transformassem em laboratórios de comunhão, espaços onde o regionalismo, as culturas locais e as vozes dos leigos fossem verdadeiramente escutadas e integradas. Tal como a Igreja católica, na sua sábia tradição, sempre contemplou o momento democrático e a valorização das dimensões regionais, também nós, ao nível da paróquia, podemos inspirar-nos nesse espírito sinodal. Não se trata de abolir a autoridade, mas de a redimensionar como serviço. Trata-se de criar (paralelamente) redes descentralizadas onde as decisões surjam a partir das necessidades e dos dons reais das comunidades e não apenas dos decretos vindos de cima. O jovem de hoje não quer ser um "espectador" passivo na missa; ele quer ser protagonista da sua fé, mesmo que isso implique uma "sujeira" criativa e uma certa desordem aparente. (Neste sentido ajudaria o espírito que se encontra no sistema preventivo salesiano (1).

2. A Arte e o Teatro Improvisado como Liturgia de Cura e Catarse (redenção)

Se a estrutura se descentraliza, os conteúdos e as formas de expressão também devem sofrer uma autêntica revolução pedagógica. Urge focar a ação cultural e religiosa nas artes, no cinema, no teatro espontâneo, nos concertos, na pintura ao vivo, mas com uma condição fundamental: que a mensagem esteja em primeiro plano, e não o intérprete! O palco não pode ser um altar para a vaidade do artista, mas um espaço de kenosis, de esvaziamento do ego. Quando o actor ou o músico se apaga em favor da obra, a arte deixa de ser mero entretenimento para se tornar um canal de ressonância trinitária, uma vibração onde o divino e o humano se tocam.

Ousemos imaginar, nas próprias igrejas e sacristias, sessões de teatro de improvisação onde se pudesse desenvolver uma verdadeira catarse de carácter psicológica, espiritual e física. Nesses círculos improvisados, o indivíduo e o grupo, em interação, expressariam o divino e o humano, a amargura e a alegria de viver, numa autêntica expressão litúrgica de cura e redenção. Longe de ser um acto profano, essa improvisação constituir-se-ia como um espaço de vulnerabilidade sagrada. O ensaio, a falha, o gesto inesperado, tudo isso se tornaria matéria litúrgica, porque aí, mais do que em qualquer rito perfeitamente coreografado, se revela o humano tal como ele é: imperfeito, em busca, aberto ao sopro do Espírito também na descoberta dos próprios dons. O "palco" da igreja deixaria de ser um lugar de distância entre clero e fiéis para se tornar um círculo onde todos são, ao mesmo tempo, actores e espetadores da Graça. O que está em jogo não é a qualidade estética da representação, mas a verdade da encarnação, o Verbo que se faz carne, de novo, em cada gesto partilhado.

3. O Desporto e o Corpo como Liturgia Encarnada

Afastemo-nos, contudo, do espaço físico da igreja por um instante. Quantas vezes relegamos o desporto para o domínio do "mundano" ou do "distração", quando ele é, potencialmente, um dos mais poderosos veículos de santidade e comunhão? No desporto, o corpo humano é elevado à sua máxima potência: disciplina, sacrifício, trabalho de equipa, celebração da vitória e acolhimento da derrota. O que é a Eucaristia senão um banquete onde nos alimentamos do Corpo de Cristo? E o que é o desporto senão a celebração do corpo que Deus nos deu, tornado templo do Espírito Santo, precisando para tal de ser consciencializado?

O desporto, quando vivido sem a obsessão da fama e da competitividade desumana, é uma liturgia encarnada. Ele exige precisamente aquela kenosis de que falávamos: o atleta que se apaga em prol da equipa; o corredor que se entrega à fadiga para ultrapassar os seus limites; o adversário que, no final da partida, se abraça ao seu oponente num gesto de respeito mútuo. As paróquias e grupos juvenis deveriam abraçar o desporto como espaço de missão, criando torneios, campos de férias e encontros desportivos onde a competição seja um meio de crescimento pessoal e não de exclusão. Não são rituais de sacristia, mas sim momentos estruturados de paragem, escuta, esforço partilhado e autenticidade, que os jovens possam levar consigo para o seu quotidiano.

4. A Espiritualidade Despojada: Sem Cheiro a Velas Nem Vénias ao Zeitgeist

Para que esta revolução aconteça, é imperativo que a espiritualidade que a acompanha seja despojada de dois pesos mortos: o "cheiro a velas" (o pieguismo devocional, os rituais vazios e a parafernália que substitui o essencial (2) e as "vénias ao Zeitgeist" (o servilismo acrítico às modas políticas, intelectuais ou tecnológicas do momento). Uma espiritualidade autenticamente evangélica não se pode esgotar na encenação piedosa nem no activismo superficial.

Esta espiritualidade exige uma ascese de atenção: estar no mundo sem lhe prestar vassalagem, habitar a tradição sem a mumificar, e acolher o novo sem se render ao fetiche da novidade. É uma espiritualidade de "cura humana integral", não alicerçada em definições sobretudo de pertença, mas num carácter simultaneamente corporal e espiritual. É a certeza de que o encontro com Deus não acontece apenas nos momentos de recolhimento individual, mas também no embate dos corpos no jogo de futebol, no silêncio que se segue a uma peça de teatro intensa, na partilha da refeição após um ensaio. A cura integral de que a nossa civilização necessita para não sucumbir à mecanização existencial passa pela redescoberta do "nós" em redes descentralizadas que gerem experiências reais de comunhão.

Conclusão: O Protótipo JC em Cada Gesto

O desafio que lanço a cada pároco, catequista e animador juvenil é este: ousem. Ousem transformar a sacristia numa sala de ensaios. Ousem abençoar os campos de desporto como se abençoam os altares. Ousem misturar o sagrado e o profano, porque, para Jesus, o que era "profano" (a mesa do publicano, o toque no leproso, a conversa com a samaritana) tornou-se o lugar privilegiado da Revelação. O "protótipo JC" não se presencializa em templos imaculados e silenciosos, mas na poeira da estrada, no suor do atleta, na lágrima do actor e no abraço do irmão. A Igreja precisa de menos guardiães de museu e mais jardineiros do humano. As famílias são também lugares privilegiados, que se podem tornar em verdadeiros alfobres de espiritualidade. O momento axial em que nos encontramos pede a visão de um pragmatismo profético. Não tenhamos medo de experimentar, de falhar e de recomeçar. A juventude não espera de nós respostas perfeitas, o que espera é autenticidade. E a autenticidade é, afinal, o único caminho para a verdadeira Redenção.

O cristianismo realizado e a realizar-se em Jesus Cristo encerra nos seus mistérios, que são verdadeira fórmulas da realidade, toda a filosofia e mística, desde a Trindade e a Encarnação-Ressurreição até ao «No princípio era a Palavra», o Logos de João e ao «Eu sou o que sou, sou o tornar-se» no Horeb. Tudo isto envolve o peregrinar humano e a própria caminhada do universo.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo
Pegadas do Tempo©:
https://antonio-justo.eu/?p=11106

(1) Sistema preventivo na educação dos jovens: https://antonio-justo.eu/?p=1305

(2) . Deve notar-se que o pieguismo, tal como as especificidades de outros grupos, merece espaço na paróquia, já que o sentido é servir as necessidades individuais em processo. Numa sociedade que, em reação à atual tendência para despersonalizar e desautorizar o indivíduo, se terá de orientar cada vez mais para a formação de agrupamentos, a solução passa por as pessoas se organizarem em grupos para poderem ter visibilidade,  voz e espaço na sociedade.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Balde de água fria para mentes sobreaquecidas por certezas

 

O MOVENTE POR TRÁS DA DESCRIÇÃO (NARRATIVA)

Porque é que raramente investigamos o que está por trás das coisas e dos pensamentos? Porque os pensamentos apenas descrevem como algo funciona, mas nunca explicam a força que move tudo. A linguagem que usamos cria uma barreira entre nós e a realidade. Quando percebemos os limites da nossa razão, a angústia diminui. O autoconhecimento tira-nos a ingenuidade e faz-nos andar com a lanterna de Diógenes, perguntando sempre o que está para além da pergunta/resposta.

Se o girassol se move pela luz, o animal pela fome e o Homem pela curiosidade, a ciência fica-se pela descrição dos mecanismos. Não chega ao que move realmente.

Filósofos como Schopenhauer falaram de uma força cega por trás de toda a vida e chamou-lhe Vontade. Espinoza, por sua vez, falou do conatus, o esforço que cada ser faz para existir. Não é escolha, mas a própria essência da vida.

O ego humano confunde a sua descrição da realidade com a própria realidade. Talvez a linguagem seja a roupa com que escondemos a nossa nudez!

O desafio é ir além das palavras: um conhecimento por presença, não por representação. Olhar para uma pessoa, uma árvore sem a rotular, sentir a sua presença antes de a nomear.

Na vida social, usamos máscaras. Goffman mostrou que a vida é um teatro onde todos representamos papéis. O problema não é a máscara em si, mas esquecermo-nos de que ela é apenas um instrumento. Quando a máscara substitui o ser, a sociedade perde a sua alma.

Ainda assim, podemos desenvolver estratégias para não nos deixarmos esmagar:
- Sócrates questionava certezas para libertar as pessoas do falso conhecimento
- Podemos usar a máscara social mas manter distância interior
- Ricoeur falava da "segunda inocência": olhar o outro com deslumbramento mesmo sabendo das limitações das palavras
- Buber distinguia o "Eu-Isto" (tratar o outro como objeto) do "Eu-Tu" (encontro sagrado e presente)

As comunidades religiosas vivem uma ressonância plena porque partilham um horizonte comum (Deus, o Sagrado). Olhando juntas para esse absoluto, sintonizam-se umas com as outras. Hoje, a sociedade secular libertou o indivíduo, mas tornou a busca pela verdade um caminho solitário.

Quem procura viver na verdade defronta-se com um dilema:
- Integrar uma comunidade religiosa, mesmo sabendo das suas limitações
- Ou procurar pequenos círculos de pessoas que partilhem o compromisso com o silêncio e a mística

A autoconsciência não é um fim em si mesma porque a condiciona a procura da comunhão. Civilizações que perdem a consciência de si mesmas perdem consistência e deixam de ter verdadeira sustentabilidade.

António da Cunha Duarte Justo

Quem estiver interessado em ler o texto na íntegra filosófica deve clicar no link: https://antonio-justo.eu/?p=11102

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

OS ERROS DO ACORDO ORTOGRÁFICO ENTRE UNIFICAÇÃO E EMPOBRECIMENTO

 

Pluricentrismo significa respeitar e cultivar cada variante, nunca apagá-las.

Preservar o «tu» e o «vós» não é saudosismo;
é o último dique contra a proletarização da língua,
que a quer arrastar para o pântano dos incultos.

António da Cunha Duarte Justo

O Acordo Ortográfico (AO) de 1990 apresenta problemas sérios, pois corresponde a um apagamento de distinções semânticas e, como tal, a um empobrecimento da língua portuguesa que possui grande riqueza de diversificações e especificações...

Assim ao eliminar o “c” mudo em “facto” (que no Brasil passaria a “fato”), o AO não resolve a ambiguidade!  Pelo contrário, cria-a onde ela não existia em Portugal. E, para quê? Para poupar uma letra que não se pronuncia? Isso não é simplificação, é achatamento. Por que razão há de Portugal aceitar um empobrecimento semântico...

O AO90, a exemplo das seguintes palavras (receção, recepcção e ressecção), ao eliminar as consoantes mudas (neste caso, o "p" e o "c") torna-se num Busílis para o próprio AO...

Antes do acordo tínhamos em Portugal e no brasil a mesma palavra recepção para designar o acto de receber e recessão para designar crise económica. Recessão passou a ler-se e a ouvir-se exatamente igual a receção em Portugal...

Também introduziu profundas incongruências e assimetrias no uso do hífen e na queda de acentos...

Agora, usa-se a palavra “para” tanto para a preposição (vou para casa) como para o verbo (ele para o carro). Também aqui se revela a incongruência do acordo que eliminou o acento em para (verbo), mas decidiu manter o acento diferencial no verbo pôr (para distinguir da preposição por) e em pôde (passado, para distinguir de pode no presente).

Na poesia e na literatura em geral o leitor vive da polissemia (múltiplos sentidos), do duplo sentido, do subentendido e do ritmo. Ao retirar acentos diferenciais e mudar grafias, o acordo mutilou intencionalmente a capacidade de o autor criar ambiguidades artísticas controladas...

O AO deveria ter sido facultativo ou, pelo menos, ter preservado grafias duplas (como o “c” e “p” mudos) como variantes aceites. A imposição de uma única grafia em nome da “unidade” sacrificou a riqueza interna da língua e o que mais entristece, professores como eu, é que o acordo revela ter sido mais fruto de ideologia do que de ciência.

A questão mais grave é a erosão das pessoas verbais

O problema não reside apenas no Acordo Ortográfico, que regula apenas a escrita e não a oralidade, mas numa tendência sociolinguística mais ampla. Em Portugal, essa tendência tem sido acelerada pelo próprio AO e pela exposição mediática ao português do Brasil (telenovelas, YouTube, redes sociais), favorecendo a grafia brasileira em detrimento da europeia. Este enviesamento é reforçado no dia a dia pelos corretores automáticos, que, ao seguirem a norma brasileira, nos impõem sugestões abrasileiradas e a poder de tanta insistência até os mais cautelosos acabam por seguir.

O desaparecimento do “vós”

O “vós” já estava em declínio em Portugal do centro sul, mas mantinha-se na língua culta do norte, em registos formais, na liturgia, na literatura, na jurisprudência e em algumas regiões como Trás-os-Montes.

Hoje, muitas crianças portuguesas nunca aprendem a conjugar o “vós”. Os manuais escolares ainda o ensinam, mas na prática usam-se estruturas como “vocês” + verbo na 3ª pessoa do plural. Isto revela também descuido na formação dos professores que confundem língua viva com espírito do tempo.

E porque é empobrecedor? O “vós” é a 2ª pessoa do plural que é simétrica ao “ihr” do alemão, ao “vos” do latim, ao “vous” do francês. Perdê-lo significa perder uma distinção gramatical útil (diferenciar um grupo de interlocutores de um grupo de terceiros).

A substituição do “tu” por “você” (ou pelo “tu” com verbo na 3ª pessoa)

Em Portugal, o “tu” ainda é muito usado no Norte e em contextos informais. Mas, por influência brasileira (onde “você” domina, e o “tu” aparece muitas vezes com verbo errado do tipo “tu faz”), já se ouve em Lisboa jovens a usar “você” ou mesmo “tu” com o verbo na 3ª pessoa (“tu fez”, “tu comeu”). Isso é uma perda de clareza morfológica. Interessante seria também um estudo sobre reimportação do “você” dos emigrantes do norte de Portugal para o Brasil e que agora é reimportado de maneira a diminuir a riqueza da língua.

O argumento do alemão e do latim contra o empobrecimento da riqueza verbal

O alemão mantém as seis pessoas (ich, du, er/sie/es; wir, ihr, sie). O latim idem. O português europeu tradicional (antes do acordo) também: eu, tu, ele/ela/você, nós, vós, eles/elas/vocês.

Quando se elimina o “vós” e se reduz o “tu” a uma forma ambígua (que muitas vezes é substituída por “você”,  que é 3ª pessoa), o sistema fica assim:

1ª sing: eu

2ª sing: (desaparece ou funde-se com a 3ª)

3ª sing: ele/ela/você

1ª plur: nós

2ª plur: (desaparece, usa-se “vocês” = 3ª plur)

3ª plur: eles/elas/vocês

Isto significa que perdemos a simetria entre as pessoas do singular e do plural. Um aluno alemão que aprende “du” e “ihr” fica confuso: em português de Portugal abrasileirado, passa a não haver correspondente claro para “ihr” (seria “vós”… mas quase ninguém usa) nem para “du” (se o “tu” está a ser substituído por “você” que gramaticalmente é 3ª pessoa).

A tendência não só empobrece a língua como dificulta o seu ensino a estrangeiros cuja língua materna preserva a riqueza da distinção paradigmática.

O que pode ser feito?

Além das razões óbvias apresentadas e no sentido de não transpor emoções de um lado e do outro importaria ter ainda em conta algumas nuances:

De facto, o Acordo Ortográfico não obriga ninguém a abandonar o “vós” ou o “tu”, que é um fenómeno social, mas as autoridades não são inocentes ao descuidarem a qualidade da língua e até em promover o seu empobrecimento...

Também a influência brasileira não é unilateral porque também no Brasil há movimentos de valorização do “tu” (no Sul e no Norte do Brasil usa-se “tu” com conjugação certa: “tu fazes”)...

Revela-se absolutamente necessário manter o ensino explícito do «tu» e do «vós» com as respetivas conjugações corretas, em vez de ceder a uma ideologia que procura proletarizar a linguagem, rebaixando-a ao nível dos que estão alheios à cultura...

Portugal não tem de falar como o Brasil. O pluricentrismo significa respeitar e cultivar cada variante, mas não as apagar...

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo©: https://antonio-justo.eu/?p=11083

terça-feira, 23 de junho de 2026

Um Olhar a partir do Diagnóstico de Ratzinger e dos Biótopos da Alma

 

CONTRA A UNIFORMIZAÇÃO DA EUROPA 

Por António da Cunha Duarte Justo

A modernidade europeia vive um paradoxo dramático. Enquanto a diversidade é celebrada nos discursos formais, a administração tecnocrática centralizada em Bruxelas atua como um bulldozer que aplaina as assimetrias, transformando o continente num latifúndio sem biótopos. Trata-se do cumprimento rigoroso do diagnóstico que Oswald Spengler formulou em “O Ocaso do Ocidente”: aquele momento crítico em que uma cultura viva perde a sua força interior e espiritual, petrificando-se numa civilização mecânica, utilitarista e fria.

A atual fixação da União Europeia num globalismo liberal económico, aclitado por um socialismo puramente funcionalista, revela uma falta escandalosa de perspetiva histórica e humanista. Incapaz de formular estratégias geopolíticas de longo prazo, a liderança europeia transfere a sua ausência de visão para o interior dos próprios Estados-membros. O resultado é a importação e o fomento de lutas sociais internas e de conflitos identitários artificiais. O povo é jogado uns contra os outros dentro da própria casa, fragmentando o tecido social em guetos mutuamente hostis.

Todo este desvario maniqueísta seria evitado se existisse uma genuína consciência histórico-cultural de si. Como expus em As Metamorfoses do Mistério (1), o facto de uma cultura procurar manter-se fiel às suas próprias raízes não significa, de modo algum, opor-se às outras. A verdadeira tolerância não nasce do vazio identitário, mas sim da firmeza interior. Só quem sabe quem é pode respeitar o outro. A confusão de ideias e de práticas que Bruxelas dissemina só serve para semear o caos e abrir o caminho a um Islão que sabe o que é e o que quer, numa sociedade que se encontra desorientada e contraditória consigo mesma.

É precisamente neste ponto que a figura de Joseph Ratzinger se revela como um farol civilizacional, que transcende as fronteiras da religião. Ratzinger encarnou a síntese perfeita que fundou a Europa: a herança greco-romana, a sabedoria germânica e o dinamismo do Evangelho. Ao recuperar o conceito de Logos (razão) e de "lei natural", o Papa emérito propôs uma plataforma universal de entendimento. Nesta visão, a consciência individual do homem é soberana e a história, as culturas e a natureza são mitos veneráveis, manuscritos sagrados que encerram um enigma transitório e não meros recursos a serem explorados pela razão instrumental.

Para que a Europa tenha futuro, é imperativo que compreenda que o mundo atual é organicamente multipolar. A insistência numa visão hegemónica e eurocêntrica acabou por conduzir o Norte geopolítico a um beco sem saída belicista, onde a única linguagem parece ser a da intensificação da guerra. É, portanto, urgente escutar a diplomacia do Sul global. O pluricentrismo, cuja riqueza encontramos, por exemplo, na ecologia linguística e humana da Lusofonia com o seu pluricentrismo, ensina-nos que a paz se constrói através da reciprocidade fraterna e não pela imposição ideológica.

Não podemos permitir que a Europa se transforme numa oficina sem alma. Temos de recuperar a nossa consciência histórica para, finalmente, podermos conviver pacificamente no grande concerto das civilizações, como humildes aprendizes na oficina do Real.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo
© Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11077

https://de.wikipedia.org/wiki/António_Justo

(1) As metamorfoses do Mistério: Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11068

sábado, 20 de junho de 2026

A lucidez de António Costa entre a oposição da E3 e os interesses negligenciados do Sul

 

A EUROPA QUE SE QUER UNA E SE DIVIDE NUMA GEOPOLÍTICA DO NORTE CONTRA A DIPLOMACIA DO SUL

À laia de resumo deste ensaio: A Europa, que se quer casa comum, não pode tolerar que alguns inquilinos se julguem senhores do lar. A velha diplomacia portuguesa ensina que o poder não se mede pela força do punho, mas pela largura do olhar, aquele olhar universalista de quem, sentado no extremo do continente, vê o mundo como um todo, não como um tabuleiro de xadrez dividido entre vencedores e vencidos. Quem só ouve Berlim e Paris, escuta o eco do poder; quem ouve Lisboa, escuta a voz da razão.

 

Introdução

A iniciativa do presidente do Conselho Europeu, António Costa, de abrir canais diplomáticos com Moscovo não foi um mero gesto protocolar. Foi um teste à coesão da União Europeia e o resultado do teste foi revelador. Ao tentar estabelecer contacto com o Kremlin para avaliar a disponibilidade russa para negociações, Costa expôs uma fratura que há muito se adivinhava, mas raramente se assumia em público: a Europa não fala a uma só voz, nem sabe bem quem deve falar por ela. O que é mais grave ainda, é a Europa não se mostrar disposta a ouvir todas as suas vozes porque o grupo E3 (Alemanha, Inglaterra e França) pretende ser a voz da Europa e opem-se veementemente à tentativa de António Costa, Presidente do Conselho Europeu, de preparar relações diplomáticas com Moscovo. 

O que está verdadeiramente em jogo não é apenas o protocolo diplomático ou a oportunidade política de um contacto telefónico. O que está em causa é a própria natureza do projeto europeu, a tensão entre as suas tradições políticas, a anglo-saxónica e a latina e a persistente dificuldade em conciliar os interesses de um continente que se quer unido mas que continua a ser gerido por uma lógica de pesos e contrapesos onde nem todos os pesos são iguais.

O E3 e a pretensão de um poder moral

França, Alemanha e Reino Unido, o chamado grupo E3, reuniram-se em Londres com Volodymyr Zelensky para delinear as condições para uma paz “justa e duradoura”. O formato E3, segundo o chanceler alemão Friedrich Merz, teria sido criado “a pedido expresso da Ucrânia”. Mas esta justificação, por mais legítima que seja, não esconde uma realidade mais incómoda que é o facto de o grupo E3 se arrogar a si não apenas o poder económico e militar, mas também um poder moral que, na prática, funciona como uma espécie de colonialismo mental sobre os restantes Estados-membros.

Quando Macron e Merz criticaram a iniciativa de Costa, argumentaram que o momento ainda não era o certo para dialogar com Putin e que, quando esse momento chegasse, deveria ser o E3 a liderar. Mas quem lhes confere esse direito? O tratado europeu é claro quanto ao papel do presidente do Conselho Europeu: é o “representante natural” dos interesses do bloco. Costa, como ex-primeiro-ministro português, não age por capricho ou por vaidade pessoal; age dentro das suas competências institucionais. A reação de Merz e Macron revela menos uma preocupação com o protocolo do que com a perda de controlo sobre o processo.

A geopolítica do Norte contra a diplomacia do Sul

A oposição a Costa reflete duas visões antagónicas da política externa europeia. De um lado, a tradição anglo-saxónica, que vê o mundo em termos de poder, de alianças militares e de vitórias estratégicas. Do outro, a tradição latina e, dentro dela, a velha escola diplomática portuguesa; que privilegia o diálogo, a mediação e a construção de pontes, mesmo com adversários.

Costa defendeu a sua posição com clareza: “Não podemos depender apenas de outros para interpretar as mensagens russas”. O seu objetivo era “estabelecer um canal diplomático” para, “quando chegar o momento, defender os interesses da UE”. Não se tratava de mediar, nem de substituir os Estados Unidos, nem de abrir uma via negocial paralela. Tratava-se, simplesmente, de garantir que a Europa tem uma linha direta com Moscovo, em vez de depender de terceiros para saber o que o Kremlin pensa.

Esta abordagem, que qualquer diplomata experiente consideraria elementar, foi recebida com fúria por Berlim e Paris. Um diplomata do E3 chegou ao ponto de classificar a iniciativa como “altamente pouco profissional”. Outros líderes, como o primeiro-ministro estónio, rejeitaram liminarmente a necessidade de “canais alternativos” com “ditadores”. A mensagem é clara: para o núcleo duro europeu, a diplomacia só é legítima quando gerida por quem se considera no direito de a gerir.

Os países que apoiam Costa e a razão do seu apoio

Mas Costa não está isolado. A Irlanda e a Letónia pronunciaram-se a favor da sua liderança. A Bélgica, na voz do primeiro-ministro Bart De Wever, apoiou-o publicamente: “És o único que nos pode representar”. A Eslovénia saudou “quaisquer passos que possam levar à cessação das hostilidades”. Uma fonte oficial europeia referiu mesmo que “um número enorme” de Estados-membros apoiou a posição de Costa.

Porque razão estes países, muitos deles pequenos ou periféricos, se colocam ao lado de Costa? Porque veem nele a possibilidade de uma Europa que não é apenas o prolongamento dos interesses franco-alemães. Veem nele a esperança de que a diplomacia não se resuma à lógica da indústria bélica, de que a paz não seja apenas uma palavra vazia e de que os interesses do Sul, onde a guerra parece distante, mas os seus custos são quotidianos, possam finalmente ser ouvidos.

Os custos da guerra e o orçamento dos sacrifícios

A pergunta que Costa, conscientemente ou não, colocou no centro do debate é simples, mas incómoda! Por que razão os Estados do Sul teriam de cortar nas prestações sociais, nos serviços de saúde, na educação e no bem-estar das suas populações para financiar uma política de confronto que beneficia sobretudo os interesses industriais e militares do Norte? A União Europeia está a pagar um preço elevado pela guerra na Ucrânia, um preço que, como sempre, é suportado de forma desigual.

Enquanto Berlim e Paris lideram a retórica da vitória “custe o que custar”, são os cidadãos do Sul, com os seus salários mais baixos e os seus Estados sociais mais frágeis, que sentem na pele o impacto da inflação, do aumento do custo de vida e da pressão orçamental para aumentar as despesas com defesa. A unidade da Europa, na visão do E3, serve os interesses do E3. A solidariedade europeia, na prática, tem um programa muito preciso.

A velha política portuguesa e o futuro da Europa

Costa, ao estender as suas antenas em direção a Moscovo sem consultar previamente as potências do E3, não cometeu um ato de indisciplina. O que cometeu foi um ato de lucidez, pois recordou à Europa que a diplomacia não se faz apenas com sanções e com ameaças. Recordou que Portugal, país situado na extremidade ocidental da Europa, longe do centro belicoso do continente, tem uma tradição de mediação entre o Norte e o Sul, entre a Europa e o mundo. Esta posição tomou-a Portugal ao fundar a escola de Sagres em torno do infante D. Henrique, adiantando-se a uma Europa também ela na altura embrenhada em guerras.

A velha política portuguesa, aquela que nos ensinou que é possível dialogar com adversários sem capitular, que é possível construir pontes sem abdicar de princípios, tem muito para ensinar a uma Europa que parece ter esquecido as virtudes da diplomacia e parece renegar a sua herança cultural. Costa não propôs uma rendição, o que propôs, foi que a Europa recuperasse o seu papel de actor diplomático autónomo, em vez de se limitar a seguir a agenda de Washington ou a dos seus próprios membros mais poderosos.

A Europa que queremos perante a Europa que temos

A Europa enfrenta uma escolha fundamental. Pode continuar a ser gerida por um núcleo duro de países do Norte que ditam a agenda e esperam que os restantes obedeçam. Ou pode redescobrir-se como um projeto verdadeiramente plural, onde a voz de Lisboa vale tanto como a de Berlim, onde a tradição diplomática do Sul é tão valiosa como o poder militar do Norte, e onde a paz não é uma concessão aos inimigos, mas uma exigência dos povos.

A iniciativa de Costa foi criticada como “descoordenada” e “não profissional”. Mas certamente foi a mais profissional de todas: a de um diplomata que sabe que o silêncio não é uma estratégia e que a guerra não se vence apenas no campo de batalha. O E3 quer sentar-se à mesa? Que se sente. Mas que não pretenda ocupar todos os lugares. A Europa tem 27 cadeiras. Está na altura de as ocupar todas.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11061

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA, AO PARLAMENTO E A TODAS AS INSTITUIÇÕES AINDA EMPENHADAS NA SUSTENTABILIDADE DA CULTURA MILENÁRIA PORTUGUESA

A memória dos antepassados não é um fardo do passado, mas a bússola do futuro. Integrar sem apagar, abrir sem se perder, construir com a sabedoria de quem nos precedeu, é o que move o desafio perene que vos traz esta carta. Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados e Instituições da Nação, é a vós que me dirijo, na certeza de que a integração plena do passado e do presente é o único caminho para edificarmos uma sociedade verdadeiramente humana e universal.

A verdadeira integração nunca se edifica sobre os escombros da cultura que pretende abraçar. Quando, em nome de uma pretensa abertura, se suprime a identidade que nos define, o que se obtém não é coesão, mas sim uma fratura silenciosa e profunda. É precisamente este o cerne da questão que opõe o Presidente da República, António José Seguro, ao decreto do Parlamento e que expõe, de forma crua, o embate entre a defesa do interesse coletivo e a imposição de agendas ideológicas fragmentárias.

Em junho, o Chefe de Estado vetou o diploma que visava proibir o hastear de bandeiras "de natureza ideológica, partidária ou associativa" nos edifícios públicos. Sob o argumento aparentemente plausível de que o texto encerra conceitos vagos e que as causas humanitárias ou ambientais gozam de acolhimento constitucional, o Presidente oferece, na verdade, um flanco perigoso: o da relativização do próprio símbolo máximo da Nação. Ao fazer tábua rasa da distinção entre o que é estruturante e o que é acessório, ele e as forças que o apoiam abrem caminho para que a bandeira nacional seja remetida para um plano secundário, enquanto os estandartes sectários ocupam o espaço público, sem resistência e sem pudor.

Ora, a bandeira de Portugal não é um mero pedaço de pano; é a condensação viva da nossa liberdade democrática, da autoconfiança do Estado de Direito social e da memória coletiva de um povo. Criticá-lo por, de forma velada, alinhar com um ideário globalista maçónico e contestável não é uma acusação leviana; é constatar que a contenção interior que é a base de qualquer estabilidade, se desvanece quando a totalidade é colocada ao mesmo nível da exceção. Quem detém a força da totalidade sabe integrar a diferença sem a exaltar de modo a humilhar a maioria silenciosa que se revê na tradição.

É certo que a afirmação identitária baseada apenas no ímpeto emocional, como a que se vê nos recintos desportivos, comove, mas fomenta um nacionalismo abstrato e estéril, desligado da vida real do povo. A verdadeira lealdade à Pátria não se esgota no grito, mas radica na continuidade de uma herança cultural que nos precede e nos ultrapassa. Nenhum esforço de integração triunfará se, em seu nome, se reprimir a cultura própria ou se menosprezar o pendão que nos congrega. Cabe perguntar, em que podem os cidadãos basear-se, se os seus valores mais caros forem sacrificados no altar da sensibilidade ativista? Não podemos, por respeito a minorias efémeras, abdicar da nossa matriz civilizacional, nem tão-pouco diluir todos os valores num relativismo que iguala o todo à particularidade de um dia.

O Presidente deve ao país uma explicação cabal sobre esta aparente submissão às correntes "woke". Colocar as bandeiras ideológicas ao mesmo nível da bandeira nacional não é um gesto de pluralismo; é um ato de desrespeito pela coletividade e pela cultura portuguesa. Esse zelo desmesurado, longe de revelar tolerância, denuncia uma confusão estratégica que alimenta o caos simbólico, com o claro propósito de relativizar tudo o que nos é sagrado. Por detrás desta posição, adivinha-se a ação de forças que atuam contra a integridade da Nação, banalizando o seu génio histórico para o entregar, sem defesas, às voragens do globalismo mais raso. Para tal, recorrem ao desmantelamento sistemático dos símbolos e das tradições que floresceram na Europa e que constituem a nossa singularidade.

É profundamente desolador constatar que já não se distingue a regra da excepção. A excepção é legítima, mas quando é alçada à condição de regra, deixa de enriquecer o todo para passar a destruí-lo. Este é o cerne da tragédia que se anuncia: a inversão de valores, onde o acessório prevalece sobre o estruturante e o efémero se sobrepõe ao perene.

Em nome da Razão, que exige clareza e hierarquia; e em nome do Coração, que pulsa pela dignidade do nosso povo, urge que António José Seguro e os representantes do Parlamento reflitam sobre o legado que pretendem deixar. A integração que não respeita a alma de uma Nação está condenada ao fracasso, pois uma Pátria que se envergonha dos seus símbolos é uma Pátria que prepara, em silêncio, a sua própria dissolução.

Com os profundos votos de que a lucidez prevaleça sobre a moda ideológica,

António da Cunha Duarte Justo

https://antonio-justo.eu/?p=11057

 

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quarta-feira, 17 de junho de 2026

A REDESCOBERTA DE CABO VERDE PELO FUTEBOL


A história tem destas coisas inteligentes que é nunca se deixar encerrar numa só narrativa, por vezes confinada pelos grandes. Para ser verdadeiramente fiel à cronologia e a uma consciência sempre reavivada, a História serve-se, também da FIFA para mostrar o mundo na perspectiva de um outro jogo...
No dia 13 de outubro de 2025, os "Tubarões Azuis" escreveram a página mais bonita da sua história desportiva. Ao vencer o Essuatíni por 3-0, no Estádio Nacional da Cidade da Praia, a seleção cabo-verdiana garantiu, pela primeira vez, um lugar no Campeonato do Mundo da FIFA... Uma conquista ainda mais notável se considerarmos que Cabo Verde, com os seus cerca de 525 mil habitantes, se torna, depois da Islândia, o país menos populoso de sempre a marcar presença num Mundial...
Este feito desportivo ecoa, de forma poética, a própria história do arquipélago. Cabo Verde foi descoberto em 1460 por Diogo Gomes e António da Noli, ao serviço do Infante D. Henrique. Quando chegaram, as ilhas estavam habitadas apenas por aves e vegetação selvagem, sem qualquer indício de presença humana anterior. A primeira ilha a ser descoberta foi a de Santiago, e em 1462 teve início o povoamento, com a fundação da Ribeira Grande, hoje Cidade Velha, a primeira cidade europeia nos trópicos. Durante séculos, o arquipélago foi um ponto estratégico nas rotas do Atlântico, mas permaneceu, durante muito tempo, uma realidade distante no imaginário global...
.... Tal como os islandeses, os cabo-verdianos provaram que a grandeza não se mede pelo tamanho do território ou pela população, mas pela força da vontade e pela união de um povo. A Islândia foi redescoberta no campeonato das nações e depois foi recompensada com muito turismo; o mesmo haverá de contar-se para Cabo Verde.
Agora que o futebol recolocou Cabo Verde no mapa do mundo, é tempo de olhar para os seus filhos que, tal como os navegadores de outrora, partiram à procura de um futuro melhor. A comunidade cabo-verdiana em Portugal é uma das mais expressivas e antigas, com cerca de 48 mil residentes legais só com nacionalidade cabo-verdiana, um número que ultrapassa largamente os 100 mil se contarmos os naturalizados e descendentes... Portugal teria, em consciência, o dever de beneficiar e privilegiar os migrantes das antigas colónias/províncias ultramarinas, promovendo mais construções que lhes facilite o viver. Afinal, a língua e a história comum são pontes que não podem ser ignoradas e, a partir da multipolaridade da mesma língua, até poderia ser o incentivo para se formar dos países lusófonos um novo polo num mundo geopolítico que se está a orquestrar.
Portugal tem de mostrar inteligência nas prioridades que coloca, mesmo em relação à imigração e não se deixar levar por políticas meramente económicas de Bruxelas... Que a redescoberta de Cabo Verde pelo desporto seja o prenúncio de uma redescoberta mais profunda, a descoberta de um povo que, tal como a sua seleção, merece um lugar de destaque no palco do mundo.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11045