PROCURA-SE SAÚDE MENTAL
A crise do nosso tempo não reside na pluralidade das narrativas, mas na incapacidade de as submeter a uma realidade comum, onde a razão reconheça os seus limites, a justiça transcenda a mera legalidade e a dignidade humana permaneça superior aos interesses que pretendem representá-la...
Há uma inquietação profunda a atravessar as sociedades contemporâneas. Não se trata apenas das guerras, das crises económicas ou dos conflitos políticos que dominam o espaço público. Trata-se de algo mais subtil e talvez mais perigoso, que é a crescente incapacidade de nos entendermos, apesar de nunca termos disposto de tantos meios de comunicação. Vivemos rodeados de informação, mas cada vez mais afastados da compreensão; multiplicamos discursos sobre a humanidade, enquanto perdemos de vista o ser humano concreto. A razão, que deveria aproximar-nos da realidade, parece frequentemente reduzida a uma lógica de interesses, tornando-se instrumento de legitimação daquilo que previamente se decidiu defender (ou organizar em narrativa).
Os povos e os
seus governos constroem narrativas próprias para afirmarem a sua identidade,
legitimarem as suas instituições e justificarem as suas opções. É um processo
natural e até necessário. Nenhuma comunidade nasce no vazio. Cada povo
desenvolve-se num determinado «biótopo cultural», condicionado pela geografia,
pelo clima, pela língua, pelas tradições, pela memória histórica e até pelos
ventos dominantes que, ao longo dos séculos, moldaram modos de viver e de
sentir.
A cultura é também uma resposta humana à paisagem e às circunstâncias da
existência. O problema começa quando essas narrativas, em vez de servirem a
compreensão da realidade, passam a substituí-la, apresentando a sua visão
particular como se fosse a única verdade possível.
No regime das narrativas dominantes, os factos tendem a receber reconhecimento não tanto pela sua consistência objetiva, mas pela utilidade que representam para determinada interpretação. Cada campo político, ideológico ou geoestratégico seleciona os acontecimentos que confirmam a sua posição, relativiza os que a contrariam e organiza a informação segundo os seus objetivos. Assim se criam mundos paralelos, cada um com a sua coerência interna, os seus heróis, os seus culpados e as suas justificações. Os factos deixam de dialogar entre si, porque as narrativas que os acolhem não procuram necessariamente compreender-se, mas impor-se umas às outras.
É neste ponto que a razão corre o risco de perder a sua vocação universal. Em vez de procurar a verdade através do confronto honesto com a realidade, transforma-se numa espécie de advogada dos interesses estabelecidos. Argumenta-se para vencer, não para compreender. Escuta-se para responder, não para aprender. E o adversário deixa de ser alguém com quem se partilha um mundo, para se tornar um obstáculo a eliminar, desacreditar ou silenciar. A diferença, que poderia enriquecer a experiência humana, converte-se em ameaça. Não faltam inteligências capazes de justificar posições contraditórias; o que falta, muitas vezes, é a sabedoria de reconhecer que nenhuma perspetiva esgota a realidade.
Esta situação torna-se particularmente visível no discurso público europeu e internacional. Em nome da paz justificam-se estratégias de confronto; em nome da liberdade defendem-se medidas que podem restringi-la; em nome da segurança aceitam-se sacrifícios humanos cuja gravidade se relativiza conforme a posição dos envolvidos. As grandes palavras continuam presentes, mas o seu significado oscila segundo as conveniências. A universalidade dos princípios corre o risco de se tornar seletiva, aplicada com rigor aos adversários e com indulgência aos aliados. Não significa isto que todas as responsabilidades sejam iguais ou que todas as posições tenham o mesmo fundamento. Significa, antes, que a credibilidade dos valores depende da coerência com que são aplicados, sobretudo quando essa coerência contraria os nossos próprios interesses.
Surge aqui uma contradição fundamental que é o abstrato, criado para esclarecer o concreto e acaba por se tornar seu adversário. Fala-se de povos, blocos, sistemas, civilizações e estratégias, enquanto desaparecem do horizonte as pessoas que suportam as consequências das decisões. Uma criança que perde a casa, uma mãe que teme pelo filho, um trabalhador que vê desaparecer o seu sustento ou um idoso que assiste à destruição do mundo que conheceu não são abstrações geopolíticas. São vidas concretas, irredutíveis às categorias em que o poder procura enquadrá-las. Que valor tem uma ideia de humanidade que não reconhece o sofrimento de um ser humano? E que espécie de razão é essa que consegue explicar tudo, mas parece incapaz de se deixar interpelar pela dor?
A aceleração do tempo agrava esta desorientação. Os acontecimentos sucedem-se a uma velocidade que dificulta a compreensão das suas origens. Uma notícia sepulta outra, uma indignação substitui a anterior e uma nova narrativa instala-se antes de a precedente ter sido devidamente examinada. A memória histórica fragmenta-se, tornando-se cada vez mais difícil reconstituir a terra que alimentou as raízes dos conflitos e das identidades. Conhecemos os efeitos imediatos, mas ignoramos frequentemente os processos que os produziram. A história transforma-se num armazém de argumentos disponíveis para utilização seletiva, quando deveria constituir uma escola de prudência e discernimento.
Sem memória crítica, a sociedade torna-se vulnerável à manipulação. Mas recordar não significa justificar tudo o que aconteceu, nem compreender equivale a desculpar. Compreender é reconhecer a complexidade das circunstâncias, distinguir causas de responsabilidades e resistir à tentação de dividir o mundo entre inocentes absolutos e culpados definitivos. Uma consciência histórica madura não elimina o juízo moral, mas torna-o mais exigente. Obriga-nos a reconhecer que os conflitos possuem raízes profundas e que a justiça não se alcança apagando a memória dos outros.
Também o direito participa desta problemática. Enquanto sistema de normas, constitui uma conquista indispensável da civilização, porque estabelece limites ao arbítrio e oferece condições de convivência. Contudo, o direito não pode ser confundido com a justiça. A legalidade de uma decisão não garante, por si só, a sua legitimidade moral. Uma norma pode ser corretamente aplicada e produzir consequências profundamente injustas. O direito, enquanto estrutura formal, não possui alma própria; a sua dimensão humana depende da consciência daqueles que o elaboram, interpretam e aplicam (o busílis da questão é que também aqui subsiste o hiato entre consciência própria e função). Por isso, a justiça deve permanecer como horizonte crítico da legalidade, sem que tal signifique entregar a convivência aos sentimentos subjetivos ou à arbitrariedade moral.
O mesmo acontece com a política quando se deixa dominar exclusivamente pela lógica da eficácia. Uma decisão pode ser estrategicamente vantajosa e humanamente desastrosa. Um discurso pode apresentar impecável coerência argumentativa e ocultar pressupostos moralmente questionáveis. A racionalidade técnica sabe calcular meios, prever consequências e organizar recursos, mas não responde, por si só, à pergunta essencial do para quê e para quem? Quando os fins deixam de ser interrogados, a inteligência pode tornar-se servidora de qualquer poder. E uma sociedade que confunde capacidade técnica com sabedoria corre o risco de aperfeiçoar os instrumentos enquanto perde a consciência do sentido da sua utilização.
Uma das enfermidades mais inquietantes da nossa época não é certamente a falta de razão, mas a sua fragmentação em lógicas fechadas, frequentemente incapazes de reconhecer uma realidade comum. Cada grupo procura confirmar a própria identidade, cada instituição defender a sua legitimidade, cada poder preservar a sua influência. Entretanto, o espaço público transforma-se numa arena de narrativas concorrentes, onde a verdade é muitas vezes tratada como pertença e a dúvida como fraqueza. A própria linguagem sofre as consequências, porque as palavras deixam de ser pontes entre experiências diferentes para se tornarem armas de demarcação.
É neste sentido que se torna pertinente perguntar pela saúde mental das nossas sociedades. Não se pretende, naturalmente, atribuir diagnósticos psiquiátricos a povos, governos ou instituições. A expressão é aqui uma metáfora filosófica e civilizacional, destinada a interrogar a qualidade da nossa relação coletiva com a realidade. Uma sociedade intelectualmente saudável não é aquela em que todos pensam da mesma maneira, mas aquela em que as diferenças podem confrontar-se sem destruir a possibilidade de entendimento. É aquela que distingue factos de interpretações, convicções de interesses e fidelidade às próprias raízes de hostilidade perante as raízes alheias.
A saúde de uma cultura democrática mede-se também pela capacidade de reconhecer os seus erros. Onde toda a autocrítica é entendida como traição, a identidade transforma-se em prisão. Onde toda a discordância é interpretada como ameaça, o diálogo torna-se impossível e onde a verdade depende exclusivamente da autoridade que a proclama, abre-se caminho à submissão intelectual. A coragem de pensar exige precisamente o contrário; exige disponibilidade para submeter as próprias certezas à experiência, reconhecer a parcialidade das perspetivas e aceitar que o outro pode revelar aspetos da realidade que não conseguimos alcançar a partir do nosso lugar.
Não se trata de procurar uma narrativa única que absorva todas as outras. Tal projeto seria tão perigoso como as exclusividades que pretende superar. A humanidade é constitutivamente plural e a diversidade das culturas representa uma riqueza que nenhuma uniformização deveria eliminar. O desafio consiste em construir uma razão dialogante, capaz de reconhecer a legitimidade das diferenças sem abdicar da procura de critérios comuns de verdade, justiça e dignidade. O universal não deve esmagar o particular, tal como o particular não pode reclamar o direito de negar a humanidade do outro.
Talvez precisemos, por isso, de regressar simbolicamente à terra. Não à terra convertida em propriedade exclusiva de uma identidade, mas à terra enquanto condição partilhada da existência. Todos nascemos (como que já vestidos) situados numa língua, numa história e numa cultura que nos precedem. Todos herdamos memórias, afetos e preconceitos que influenciam o nosso olhar. Mas todos partilhamos também a vulnerabilidade do corpo, a necessidade de reconhecimento, a experiência da perda e a consciência da finitude. É nesta condição comum que a razão pode reencontrar a sua dimensão humana, ultrapassando as fronteiras sem apagar as raízes.
A educação, a comunicação social, as instituições políticas e a própria vida quotidiana têm aqui uma responsabilidade decisiva. Educar não pode significar apenas transmitir conhecimentos ou preparar indivíduos para competir. Implica desenvolver a capacidade de distinguir informação de propaganda, argumento de manipulação, interesse de princípio. Implica ensinar a escutar sem submissão, a discordar sem desumanizar e a pensar sem transformar cada convicção numa fortaleza. Uma democracia não vive apenas de eleições e procedimentos; precisa de cidadãos capazes de resistir à simplificação e de reconhecer a dignidade daqueles com quem não concordam.
Procura-se, portanto, saúde mental no discurso público, nas relações internacionais, nas instituições e na consciência individual. Procura-se uma razão que não se limite a justificar interesses, uma política que não confunda poder com verdade, uma identidade que não necessite de inimigos para existir e uma justiça que não se esgote na aplicação formal da lei. Procura-se sobretudo a capacidade de devolver às palavras a responsabilidade pelas vidas que atingem. Isto pressupõe uma atitude hercúlea que será a capacidade de ajoelharmos perante os outros.
A grande crise do nosso tempo não é certamente a ausência de valores proclamados, mas a distância entre esses valores e a experiência concreta. Nunca se falou tanto de direitos, liberdade, paz e dignidade (a expressão “sepulcros caiados” de palavras até parece tornar-se, cada vez mais evidente); contudo, a sua invocação não impede que sejam instrumentalizados por interesses contraditórios. A verdadeira medida de uma civilização não reside apenas na inteligência com que organiza os seus sistemas, mas na sabedoria com que impede que esses sistemas se voltem contra o ser humano e se revelem uns contra os outros.
No fundo, a questão é simultaneamente simples e exigente: queremos compreender o mundo ou apenas vencer nele? Queremos uma razão ao serviço da vida ou uma vida submetida às razões do poder? Enquanto não enfrentarmos estas perguntas, continuaremos a multiplicar narrativas que se combatem, sem reconhecer a terra comum que as sustenta.
Procura-se saúde mental. E talvez ela comece quando a razão deixar de se considerar dona da verdade, aprender a escutar a realidade e descobrir, no rosto concreto do outro, o limite moral de todas as suas pretensões.
António da Cunha Duarte Justo
Resumo do texto de Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11480
