quarta-feira, 12 de agosto de 2026

DA ONTOLOGIA DO DOMÍNIO À ONTOLOGIA DA RELAÇÃO


Para uma gineantropologia da diversidade e do humano

A vida não começa com um projecto, começa com um acontecimento.

Antes de qualquer plano existe nascimento; antes da intenção, emergência; antes do programa conscientemente elaborado está a relação. O ser humano recebe uma herança genética, nasce no interior de uma história que não escolheu, encontra uma língua que outros falaram antes dele, costumes que o precedem, uma paisagem natural e cultural já marcada pela presença de gerações anteriores. E, contudo, ao nascer, irrompe nele algo de radicalmente novo.

O primeiro grito da criança pode ser tomado como imagem dessa entrada no indeterminado: recebemos um mundo, mas não recebemos inteiramente determinado aquilo que nele seremos.

Entre herança e novidade começa a aventura humana. É neste intervalo que talvez tenhamos de procurar os fundamentos de uma nova ontologia e de uma gineantropologia: uma compreensão do humano que não absolutize o indivíduo nem o colectivo, o masculino nem o feminino, natureza nem cultura, determinação nem liberdade, mas procure compreender a existência como processo relacional de diferenciação.

 

A vida não tem projecto, o humano projecta

Dizer que a vida ou a natureza não têm projecto exige uma distinção fundamental. A ciência pode descrever processos evolutivos sem pressupor uma finalidade previamente inscrita neles. A evolução biológica não necessita, enquanto explicação científica, de imaginar uma meta exterior para a qual todas as formas vivas se encaminhariam.

Mas o ser humano projecta. Aqui começa um dos seus paradoxos.

Somos natureza capaz de antecipar possibilidades. Recordamos o passado, imaginamos futuros, elaboramos planos, construímos cidades, instituições, tecnologias, religiões, sistemas científicos e organizações políticas. A cultura introduz no presente aquilo que ainda não existe.

O projecto é, portanto, uma extraordinária faculdade humana.

O problema começa quando deixamos de utilizar o projecto como instrumento e passamos a viver para o projecto.

A modernidade intensificou extraordinariamente esta orientação para o futuro. Desenvolvimento, crescimento, produtividade, progresso, carreira, acumulação, inovação e optimização projectam continuamente o indivíduo e a sociedade para aquilo que ainda não são.

O presente transforma-se, assim, numa espécie de sala de espera do futuro.

Produzimos hoje para consumir amanhã; sacrificamos o presente em nome da segurança futura; destruímos equilíbrios naturais existentes prometendo compensá-los mediante tecnologias futuras; subordinamos a vida concreta à promessa de um estado posterior de realização.

Mas o futuro possui uma característica que frequentemente esquecemos: quando chega, chama-se presente.

Nenhum projecto pode habitar o amanhã porque a existência acontece sempre agora.

Daí não se segue que devamos abandonar projectos. Uma civilização sem capacidade de antecipação seria incapaz de ciência, educação ou responsabilidade intergeracional. O necessário é inverter a hierarquia: o projecto deve servir a vida e não a vida servir o projecto.

Do antropocentrismo à centralidade da relação

 

Uma das consequências mais profundas desta inversão diz respeito ao lugar do ser humano no mundo.

O antropocentrismo moderno colocou frequentemente o humano e, mais especificamente, determinado modelo de humano, no centro da realidade. O sujeito racional, autónomo, proprietário, produtor e dominador tornou-se medida das coisas.

Mas o cristianismo, quando interpretado a partir do seu núcleo trinitário, oferece uma possibilidade diferente.

No centro não estaria simplesmente o Homem, estaria a relação.

A Trindade não deve naturalmente ser convertida numa fórmula científica ou matemática. “Um e três” pertence à linguagem teológica do mistério da unidade divina na distinção das Pessoas. Mas justamente por isso pode oferecer à filosofia uma poderosa imagem relacional.

Pai, Filho e Espírito Santo não representam três indivíduos isolados que posteriormente decidem relacionar-se. Na linguagem trinitária cristã, a relação pertence à própria compreensão das Pessoas.

Particularmente sugestiva é a tradição teológica ocidental que compreende o Espírito Santo a partir do vínculo de amor entre Pai e Filho. Tomada filosoficamente, sem reduzir a terceira Pessoa a uma simples função entre duas outras, esta imagem permite pensar uma realidade extraordinária:

a relação possui realidade. Entre o Eu e o Tu não existe apenas um vazio. Existe o Entre e esse Entre transforma ambos.

A partir daqui seria possível conceber uma ontologia não fundada exclusivamente na substância, mas na substância-em-relação; não na identidade imóvel, mas na identidade que permanece enquanto se transforma.

 

Uma ontologia da perspectiva

Se tudo existe em relação, então toda a realidade conhecida é também realidade encontrada a partir de alguma perspectiva. Isto não significa que tudo seja subjectivo ou que não exista verdade. Significa algo mais exigente: nenhum observador humano ocupa o ponto de vista da totalidade. Toda a perspectiva revela e simultaneamente limita.

Uma montanha vista do vale não é falsa porque existe outra vertente. Uma cultura não se torna absurda porque outra organiza diferentemente a experiência. Uma disciplina científica não perde validade porque outra descreve uma dimensão diferente do mesmo fenómeno.

O erro começa quando a perspectiva esquece que é perspectiva e se declara totalidade. É aqui que uma ontologia relacional adquire também significado político.

O imperialismo é, em certo sentido, uma perspectiva que se proclamou mundo. O patriarcalismo pode ser entendido como uma experiência particular do humano apresentada como definição universal do humano.

O economicismo transforma uma dimensão da existência, produção e troca, em medida da sociedade inteira.

O cientismo começa quando o extraordinário método das ciências naturais deixa de reconhecer os limites das perguntas às quais pode responder e pretende converter-se numa metafísica total.

E também a religião se perverte quando confunde testemunho da verdade com posse absoluta dela.

A nova ontologia exigiria, portanto, não a abolição da verdade, mas uma humildade epistemológica perante a verdade.

 

Gineantropologia: o humano para além do homem abstracto

É neste horizonte que proponho o conceito de gineantropologia.

Não se trata de substituir o antropocentrismo por um ginecocentrismo, nem de declarar o feminino moralmente superior ao masculino.

Isso seria simplesmente inverter os sinais dentro da mesma estrutura binária.

A gineantropologia pretende antes perguntar se aquilo que durante séculos se apresentou como “o Homem” não representou, em muitos contextos, uma abstracção construída a partir de características historicamente associadas ao masculino: autonomia, verticalidade, conquista, racionalização, competição, controlo e poder. Mas o humano não se esgota aí.

A existência humana é também receptividade, cuidado, gestação, dependência, cooperação, vulnerabilidade, corporeidade, horizontalidade e relação.

Estas qualidades não pertencem exclusivamente à mulher, assim como força, decisão, racionalidade ou autonomia não pertencem exclusivamente ao homem.

Mas uma civilização que desvaloriza sistematicamente um destes conjuntos de capacidades mutila simbolicamente o humano.

A gineantropologia seria, portanto, uma antropologia depois da exclusividade masculina do universal.

O seu objectivo não seria tornar o masculino feminino, mas permitir que homem e mulher participem integralmente das possibilidades humanas.

 

Masculinidade, poder e história

Neste ponto é necessária especial prudência.

Não podemos explicar capitalismo, colonialismo, violência, tecnologia ou destruição ambiental simplesmente através de uma “essência masculina”. Uma tal explicação substituiria a investigação histórica por determinismo sexual.

Mas podemos perguntar se determinadas sociedades não institucionalizaram e premiaram excessivamente características culturalmente codificadas como masculinas: competição, acumulação, conquista, expansão, hierarquia e domínio. Legítima permanece a pergunta: em que ponto da sociedade estaríamos numa sociedade em que masculinidade e feminilidade se equilibrassem.

Também a relação entre Reforma, individualismo e capitalismo exige diferenciação histórica. Lutero e Calvino não “inventaram” o indivíduo moderno, nem o capitalismo pode ser deduzido directamente das suas teologias. Max Weber tornou célebre a discussão sobre as afinidades entre determinadas formas de protestantismo ascético e o espírito do capitalismo; a tese gerou, porém, uma extensa controvérsia e múltiplas revisões posteriores.

A Reforma contribuiu para transformações profundas da consciência europeia, mas estas decorreram juntamente com urbanização, comércio, imprensa, formação dos Estados modernos, mudanças jurídicas, descobertas científicas e inúmeros outros processos. Não nos podemos ficar só pela diferenciação que sirva de respiro para continuar o mesmo modelo.  E essas transformações profundas foram possívei também pela acentuação da individualidade em relaç1bo à comunidade.

O mesmo deve dizer-se do Iluminismo.

Sem ele dificilmente compreenderíamos direitos individuais, crítica do absolutismo, liberdade de consciência, ciência moderna ou universalismo jurídico. Mas quando a sua confiança na razão se transforma em razão instrumental absoluta, o mundo corre o risco de aparecer apenas como objecto calculável, administrável e tecnicamente disponível.

A crítica fecunda não consiste, portanto, em negar Reforma, Iluminismo ou modernidade. Consiste em prossegui-los para além das suas unilateralidades e o porquê destes fenómenos.

 

O humano é biológico, mas não apenas biológico

Uma gineantropologia processual precisa também de repensar a relação entre natureza e cultura.

Somos animais. Temos corpo, metabolismo, sexualidade, necessidades alimentares, mecanismos neurobiológicos, impulsos de autopreservação e uma história evolutiva comum às outras espécies.

Mas dizer que somos animais não significa afirmar que qualquer comportamento humano possa ser explicado directamente através do comportamento animal.

Entre natureza e cultura não existe uma parede, mas também não existe identidade.

A agressividade constitui um bom exemplo. Ela possui componentes biológicos, mas no humano pode ser simbolicamente organizada, tecnologicamente ampliada, politicamente mobilizada e institucionalmente legitimada.

Um animal pode atacar outro.

O ser humano pode inventar uma ideologia que justifique a eliminação de milhões de seres humanos, criar a burocracia que a organiza e desenvolver a tecnologia que a executa.

A natureza fornece capacidades. A cultura pode amplificá-las, inibi-las, transformá-las ou redireccioná-las. Por isso, transpor directamente para a sociedade categorias de dominância, competição sexual ou selecção observadas noutras espécies constitui um reducionismo.

O humano é natureza que se tornou também cultura e cultura que nunca deixou de ser natureza.

 

A diversidade como princípio de resiliência

Para uma gineantropologia da diversidade e do humano

A vida não começa com um projecto, começa com um acontecimento. Antes de qualquer plano existe nascimento; antes da intenção, emergência; antes do programa conscientemente elaborado está a relação. O ser humano recebe uma herança genética, nasce no interior de uma história que não escolheu, encontra uma língua que outros falaram antes dele, costumes que o precedem, uma paisagem natural e cultural já marcada pela presença de gerações anteriores. E, contudo, ao nascer, irrompe nele algo de radicalmente novo.

O primeiro grito da criança pode ser tomado como imagem dessa entrada no indeterminado: recebemos um mundo, mas não recebemos inteiramente determinado aquilo que nele seremos.

Entre herança e novidade começa a aventura humana. É neste intervalo que talvez tenhamos de procurar os fundamentos de uma nova ontologia e de uma gineantropologia: uma compreensão do humano que não absolutize o indivíduo nem o colectivo, o masculino nem o feminino, natureza nem cultura, determinação nem liberdade, mas procure compreender a existência como processo relacional de diferenciação.

A vida não tem projecto, o humano projecta

Dizer que a vida ou a natureza não têm projecto exige uma distinção fundamental. A ciência pode descrever processos evolutivos sem pressupor uma finalidade previamente inscrita neles. A evolução biológica não necessita, enquanto explicação científica, de imaginar uma meta exterior para a qual todas as formas vivas se encaminhariam.

O ser humano projecta e aqui começa um dos seus paradoxos.

Somos natureza capaz de antecipar possibilidades. Recordamos o passado, imaginamos futuros, elaboramos planos, construímos cidades, instituições, tecnologias, religiões, sistemas científicos e organizações políticas. A cultura introduz no presente aquilo que ainda não existe. O projecto é, portanto, uma extraordinária faculdade humana.

O problema começa quando deixamos de utilizar o projecto como instrumento e passamos a viver para o projecto.

A modernidade intensificou extraordinariamente esta orientação para o futuro. Desenvolvimento, crescimento, produtividade, progresso, carreira, acumulação, inovação e optimização projectam continuamente o indivíduo e a sociedade para aquilo que ainda não são.

O presente transforma-se, assim, numa espécie de sala de espera do futuro.

Produzimos hoje para consumir amanhã; sacrificamos o presente em nome da segurança futura; destruímos equilíbrios naturais existentes prometendo compensá-los mediante tecnologias futuras; subordinamos a vida concreta à promessa de um estado posterior de realização.

Mas o futuro possui uma característica que frequentemente esquecemos: quando chega, chama-se presente.

Nenhum projecto pode habitar o amanhã porque a existência acontece sempre agora.

Daí não se segue que devamos abandonar projectos. Uma civilização sem capacidade de antecipação seria incapaz de ciência, educação ou responsabilidade intergeracional. O necessário é inverter a hierarquia: o projecto deve servir a vida e não a vida servir o projecto.

Do antropocentrismo à centralidade da relação

Uma das consequências mais profundas desta inversão diz respeito ao lugar do ser humano no mundo.

O antropocentrismo moderno colocou frequentemente o humano e, mais especificamente, determinado modelo de humano, no centro da realidade. O sujeito racional, autónomo, proprietário, produtor e dominador tornou-se medida das coisas.

Mas o cristianismo, quando interpretado a partir do seu núcleo trinitário, oferece uma possibilidade diferente.

No centro não estaria simplesmente o Homem, estaria a relação.

A Trindade não deve naturalmente ser convertida numa fórmula científica ou matemática. “Um e três” pertence à linguagem teológica do mistério da unidade divina na distinção das Pessoas. Mas justamente por isso pode oferecer à filosofia uma poderosa imagem relacional.

Pai, Filho e Espírito Santo não representam três indivíduos isolados que posteriormente decidem relacionar-se. Na linguagem trinitária cristã, a relação pertence à própria compreensão das Pessoas.

Particularmente sugestiva é a tradição teológica ocidental que compreende o Espírito Santo a partir do vínculo de amor entre Pai e Filho. Tomada filosoficamente, sem reduzir a terceira Pessoa a uma simples função entre duas outras, esta imagem permite pensar uma realidade extraordinária:

a relação possui realidade. Entre o Eu e o Tu não existe apenas um vazio. Existe o Entre e esse Entre transforma ambos.

A partir daqui seria possível conceber uma ontologia não fundada exclusivamente na substância, mas na substância-em-relação; não na identidade imóvel, mas na identidade que permanece enquanto se transforma.

Uma ontologia da perspectiva

Se tudo existe em relação, então toda a realidade conhecida é também realidade encontrada a partir de alguma perspectiva. Isto não significa que tudo seja subjectivo ou que não exista verdade. Significa algo mais exigente: nenhum observador humano ocupa o ponto de vista da totalidade. Toda a perspectiva revela e simultaneamente limita.

Uma montanha vista do vale não é falsa porque existe outra vertente. Uma cultura não se torna absurda porque outra organiza diferentemente a experiência. Uma disciplina científica não perde validade porque outra descreve uma dimensão diferente do mesmo fenómeno.

O erro começa quando a perspectiva esquece que é perspectiva e se declara totalidade. É aqui que uma ontologia relacional adquire também significado político.

O imperialismo é, em certo sentido, uma perspectiva que se proclamou mundo. O patriarcalismo pode ser entendido como uma experiência particular do humano apresentada como definição universal do humano.

O economicismo transforma uma dimensão da existência, produção e troca, em medida da sociedade inteira.

O cientismo começa quando o extraordinário método das ciências naturais deixa de reconhecer os limites das perguntas às quais pode responder e pretende converter-se numa metafísica total.

E também a religião se perverte quando confunde testemunho da verdade com posse absoluta dela.

A nova ontologia exigiria, portanto, não a abolição da verdade, mas uma humildade epistemológica perante a verdade.

Gineantropologia: o humano para além do homem abstracto

É neste horizonte que proponho o conceito de gineantropologia.

Não se trata de substituir o antropocentrismo por um ginecocentrismo, nem de declarar o feminino moralmente superior ao masculino.

Isso seria simplesmente inverter os sinais dentro da mesma estrutura binária.

A gineantropologia pretende antes perguntar se aquilo que durante séculos se apresentou como “o Homem” não representou, em muitos contextos, uma abstracção construída a partir de características historicamente associadas ao masculino: autonomia, verticalidade, conquista, racionalização, competição, controlo e poder. Mas o humano não se esgota aí.

A existência humana é também receptividade, cuidado, gestação, dependência, cooperação, vulnerabilidade, corporeidade, horizontalidade e relação.

Estas qualidades não pertencem exclusivamente à mulher, assim como força, decisão, racionalidade ou autonomia não pertencem exclusivamente ao homem.

Mas uma civilização que desvaloriza sistematicamente um destes conjuntos de capacidades mutila simbolicamente o humano.

A gineantropologia seria, portanto, uma antropologia depois da exclusividade masculina do universal.

O seu objectivo não seria tornar o masculino feminino, mas permitir que homem e mulher participem integralmente das possibilidades humanas.

Masculinidade, poder e história

Neste ponto é necessária especial prudência.

Não podemos explicar capitalismo, colonialismo, violência, tecnologia ou destruição ambiental simplesmente através de uma “essência masculina”. Uma tal explicação substituiria a investigação histórica por determinismo sexual.

Mas podemos perguntar se determinadas sociedades não institucionalizaram e premiaram excessivamente características culturalmente codificadas como masculinas: competição, acumulação, conquista, expansão, hierarquia e domínio. Legítima permanece a pergunta: em que ponto da sociedade estaríamos numa sociedade em que masculinidade e feminilidade se equilibrassem.

Também a relação entre Reforma, individualismo e capitalismo exige diferenciação histórica. Lutero e Calvino não “inventaram” o indivíduo moderno, nem o capitalismo pode ser deduzido directamente das suas teologias. Max Weber tornou célebre a discussão sobre as afinidades entre determinadas formas de protestantismo ascético e o espírito do capitalismo; a tese gerou, porém, uma extensa controvérsia e múltiplas revisões posteriores.

A Reforma contribuiu para transformações profundas da consciência europeia, mas estas decorreram juntamente com urbanização, comércio, imprensa, formação dos Estados modernos, mudanças jurídicas, descobertas científicas e inúmeros outros processos. Não nos podemos ficar só pela diferenciação que sirva de respiro para continuar o mesmo modelo.  E essas transformações profundas foram possívei também pela acentuação da individualidade em relaç1bo à comunidade.

O mesmo deve dizer-se do Iluminismo.

Sem ele dificilmente compreenderíamos direitos individuais, crítica do absolutismo, liberdade de consciência, ciência moderna ou universalismo jurídico. Mas quando a sua confiança na razão se transforma em razão instrumental absoluta, o mundo corre o risco de aparecer apenas como objecto calculável, administrável e tecnicamente disponível.

A crítica fecunda não consiste, portanto, em negar Reforma, Iluminismo ou modernidade. Consiste em prossegui-los para além das suas unilateralidades e o porquê destes fenómenos.

O humano é biológico, mas não apenas biológico

Uma gineantropologia processual precisa também de repensar a relação entre natureza e cultura.

Somos animais. Temos corpo, metabolismo, sexualidade, necessidades alimentares, mecanismos neurobiológicos, impulsos de autopreservação e uma história evolutiva comum às outras espécies.

Mas dizer que somos animais não significa afirmar que qualquer comportamento humano possa ser explicado directamente através do comportamento animal.

Entre natureza e cultura não existe uma parede, mas também não existe identidade.

A agressividade constitui um bom exemplo. Ela possui componentes biológicos, mas no humano pode ser simbolicamente organizada, tecnologicamente ampliada, politicamente mobilizada e institucionalmente legitimada.

Um animal pode atacar outro. O ser humano pode inventar uma ideologia que justifique a eliminação de milhões de seres humanos, criar a burocracia que a organiza e desenvolver a tecnologia que a executa.

A natureza fornece capacidades. A cultura pode amplificá-las, inibi-las, transformá-las ou redireccioná-las. Por isso, transpor directamente para a sociedade categorias de dominância, competição sexual ou selecção observadas noutras espécies constitui um reducionismo.

O humano é natureza que se tornou também cultura e cultura que nunca deixou de ser natureza.

A diversidade como princípio de resiliência

Montaigne deixou-nos uma formulação extraordinariamente sugestiva: “A diversidade é a mais universal das qualidades.” A frase contém quase um programa ontológico. Olhemos para a natureza: a vida manifesta-se multiplicando formas, estratégias, relações e adaptações.

Contudo, também aqui devemos evitar uma passagem demasiado rápida da ecologia para a política. Uma sociedade humana não é literalmente um ecossistema e uma cultura não equivale biologicamente a uma espécie. Mas a analogia pode ser intelectualmente fecunda quando utilizada com cautela.

Na ecologia, diversidade e estabilidade possuem relações complexas; não existe uma regra simples segundo a qual qualquer aumento de diversidade produza automaticamente maior estabilidade. Ainda assim, a investigação ecológica mostra que a biodiversidade pode favorecer múltiplas funções e dimensões da estabilidade dos ecossistemas, embora os efeitos dependam da escala e do contexto. (nature.com)

Isto sugere uma analogia importante para a sociedade: sistemas excessivamente uniformes tornam-se vulneráveis aos seus próprios pontos cegos.

Uma sociedade plural dispõe de mais perspectivas, experiências, conhecimentos, memórias e possibilidades de resposta. Mas diversidade social não significa simplesmente justaposição.

Uma multidão de grupos fechados que não comunicam pode produzir fragmentação, não resiliência.

A diversidade necessita da relação. E a relação necessita de alguma comunidade. Chegamos novamente ao paradigma trinitário: unidade que não destrói diferença e diferença que não destrói unidade.

O biótopo como metáfora civilizacional

Poderíamos chamar biótopo cultural ao espaço histórico no qual uma comunidade desenvolve língua, símbolos, narrativas, relações, memórias, práticas e formas de interpretar a existência.

Tal como um biótopo natural, ele não existe isoladamente. Possui fronteiras permeáveis. Recebe influências, transforma-se, comunica, migra e mistura-se. Mas necessita também de condições que permitam a sua continuidade.

Uma globalização puramente uniformizadora pode constituir, neste sentido, uma espécie de arroteamento cultural: diferenças locais são niveladas para facilitar circulação de capitais, mercadorias, informação, padrões de consumo e estilos de vida.

O problema não é a globalização enquanto encontro. O problema é a globalização enquanto uniformização. Uma globalização relacional seria diferente.

Não perguntaria: “Como tornar todos semelhantes?” Perguntaria: “Como construir uma casa comum na qual as diferenças possam permanecer fecundas?”

A monocultura como advertência

A agricultura oferece-nos uma metáfora particularmente importante.

A monocultura possui vantagens evidentes: simplifica processos, facilita mecanização, aumenta previsibilidade e pode elevar determinados rendimentos. Mas a homogeneidade pode também aumentar vulnerabilidades.

Algo semelhante pode ocorrer culturalmente. Uma civilização organizada exclusivamente em torno do crescimento económico, do consumo, da eficiência, da competição e da mensurabilidade pode alcançar enorme produtividade e, simultaneamente, tornar-se pobre na sua capacidade de responder às perguntas que não cabem nesses critérios.

Para que serve aquilo que não produz? Qual é o valor económico de contemplar? Quanto vale acompanhar uma pessoa que está a morrer? Que produtividade possui brincar com uma criança? Que retorno financeiro oferece uma floresta que decidimos simplesmente não destruir?

Uma sociedade que só consegue reconhecer aquilo que consegue contabilizar começa a tornar invisível uma grande parte daquilo que torna a vida digna de ser vivida.

Do crescimento ao florescimento

Talvez uma nova ontologia exija também uma nova concepção de desenvolvimento. Desenvolver não pode significar simplesmente ter mais. Desenvolvimento humano significa poder ser mais plenamente.

Uma árvore não se desenvolve acumulando indefinidamente matéria. Desenvolve-se realizando possibilidades dentro das relações que a sustentam: solo, água, luz, fungos, insectos, atmosfera, outras plantas. Também o ser humano não floresce isoladamente. Necessita de autonomia, mas também de pertença. De liberdade e de responsabilidade. De reconhecimento e de reciprocidade. De ciência e de sentido. De técnica e de sabedoria. De inovação e de memória.

A pergunta central de uma sociedade madura não deveria, portanto, ser apenas “quanto produzimos?”, mas também: que espécie de seres humanos estamos a produzir através da maneira como produzimos?

Uma ciência da relação

A ciência possui aqui um papel decisivo. Uma nova ontologia não pode ser construída contra a ciência. Pelo contrário: deve aprender com ela porque é processo.

Ecologia, biologia evolutiva, neurociências, teoria dos sistemas, estudos sobre cooperação, ciências sociais e determinadas interpretações relacionais da física mostram, cada uma no seu domínio e sem poderem ser fundidas numa única teoria, a importância de redes, interdependências, contextos e processos.

O desafio consiste em evitar dois extremos. O primeiro seria o reducionismo, segundo o qual apenas aquilo que é cientificamente mensurável seria real. O segundo seria utilizar livremente conceitos científicos como metáforas para legitimar afirmações filosóficas ou religiosas que a ciência não demonstra. Entre ambos existe um campo extraordinariamente fecundo: o diálogo interdisciplinar.

A ciência pode ensinar à filosofia a disciplina perante os factos. A filosofia pode perguntar pelos pressupostos e limites dos modelos científicos.

A ética pode perguntar o que devemos fazer com aquilo que podemos fazer.

A religião pode manter abertas questões de sentido que nenhum instrumento de medição consegue resolver.

E todas podem aprender que conhecimento não significa necessariamente domínio.

Do parasitismo à simbiose

Talvez seja possível recorrer ainda a outra imagem biológica, mantendo consciência dos limites da analogia.

Há relações que extraem sem devolver. Há outras em que diferentes organismos coexistem e retiram benefícios da relação.

Também as sociedades podem perguntar que tipo de relações institucionalizam.

Uma economia pode funcionar de modo extractivo perante trabalhadores, territórios e natureza.

Um império pode enriquecer o centro empobrecendo a periferia.

Uma geração pode usufruir recursos transferindo os custos ambientais para as seguintes.

Uma relação entre homem e mulher pode transformar o outro em função.

Uma cultura pode apropriar-se de outra sem verdadeiramente a encontrar.

A alternativa civilizacional seria deslocarmo-nos de uma lógica predominantemente extractiva para uma lógica simbiótica.

Não porque a natureza seja sempre harmoniosa, não é, mas porque o humano possui a possibilidade ética de escolher que relações quer cultivar.

A relação como centro

Chegamos assim ao núcleo da questão.

Se colocarmos o indivíduo no centro, arriscamo-nos ao individualismo. Se colocarmos a sociedade no centro, arriscamo-nos ao colectivismo. Se colocarmos o Estado no centro, arriscamo-nos ao totalitarismo. Se colocarmos o mercado no centro, arriscamo-nos à mercantilização. Se colocarmos exclusivamente a humanidade no centro, arriscamo-nos ao antropocentrismo.

Mas que acontece se colocarmos a relação no centro?

Então o indivíduo continua a possuir dignidade, mas a sua dignidade encontra a dignidade do outro. A sociedade continua necessária, mas existe para possibilitar pessoas e comunidades. A economia continua indispensável, mas passa a ser meio.  A técnica permanece extraordinária, mas deixa de decidir os seus próprios fins. A natureza deixa de ser cenário e torna-se comunidade de pertença. O feminino e o masculino deixam de disputar a representação do humano. A diversidade deixa de constituir ameaça. E a unidade deixa de exigir uniformidade.

Gineantropologia como antropologia da complementaridade

A gineantropologia poderia, portanto, constituir-se em torno de uma afirmação fundamental:

o humano é relação sexuada, corporal, cultural, histórica, ecológica e transcendente em processo de individuação.

Nenhuma destas dimensões o explica isoladamente. O ser humano não é apenas gene. Não é apenas género. Não é apenas cultura. Não é apenas economia. Não é apenas consciência. Não é apenas indivíduo. Não é apenas membro de um colectivo.

É uma realidade processual na qual todas estas dimensões se encontram, se condicionam e se transformam.

Nesta perspectiva, a emancipação deixa de significar libertar o indivíduo de todas as relações.

Passa a significar também libertar as relações da dominação. Esta diferença é decisiva.

Porque talvez o grande erro de parte da modernidade tenha consistido em imaginar que ser livre significa depender cada vez menos dos outros. A realidade mostra exactamente o contrário. Somos radicalmente interdependentes. A questão não é eliminar a dependência. É transformá-la em interdependência digna.

Uma ética do presente responsável

Voltamos, finalmente, ao ponto de partida. A vida não tem diante de si um projecto que possamos conhecer antecipadamente. O futuro permanece aberto. Isso não conduz ao niilismo. Conduz à responsabilidade.

Se o futuro não está garantido, aquilo que fazemos agora importa ainda mais. Precisamos de projectos, mas não de uma religião do projecto. Precisamos de progresso, mas de um progresso capaz de perguntar para onde progride. Precisamos de economia, mas não de transformar tudo em economia. Precisamos de tecnologia, mas de uma tecnologia inserida numa compreensão do humano. Precisamos de diversidade, mas também de vínculos que impeçam que ela se transforme em fragmentação. Precisamos de identidades, mas suficientemente abertas para encontrarem outras identidades. Precisamos de ciência sem cientismo, religião sem fundamentalismo, política sem tribalismo e mercado sem mercantilização do humano.

A civilização do Entre

Talvez a grande mudança ontológica de que necessitamos possa condensar-se numa passagem: do ser como domínio para o ser como relação.

A natureza recorda-nos que existir significa coexistir. A criança recorda-nos que começar significa receber e simultaneamente inovar. A diversidade recorda-nos que unidade não significa repetição. A ecologia recorda-nos que nenhuma vida é verdadeiramente isolada.

A Trindade, para a consciência cristã, leva esta intuição à sua expressão mais radical: no próprio fundamento divino, unidade e relação não se excluem.

E uma gineantropologia poderia traduzir esta intuição para uma compreensão renovada do humano: não o Homem abstracto no centro do universo, mas mulher e homem, indivíduo e comunidade, cultura e natureza integrados numa rede processual de relações.

A civilização futura talvez tenha de aprender a habitar precisamente esse espaço. O espaço entre Eu e Tu. Entre homem e mulher. Entre indivíduo e comunidade. Entre humanidade e natureza. Entre cultura própria e cultura alheia. Entre presente e futuro. Entre aquilo que herdamos e aquilo que criamos.

Não é um espaço vazio. É o lugar onde a vida acontece.

Uma nova ontologia começaria, portanto, não pela pergunta cartesiana “o que posso conhecer?”, nem apenas pela pergunta moderna “o que posso fazer?”, mas por uma pergunta anterior e talvez mais radical: em que relações existo e que qualidade de relação produz a minha maneira de existir?

Da resposta dependerão a ciência que construiremos, a economia que aceitaremos, a tecnologia que desenvolveremos, a relação entre os sexos, a maneira como encontraremos outras culturas e o planeta que deixaremos às gerações seguintes.

Porque talvez o próximo passo do desenvolvimento humano não consista em aumentar indefinidamente o nosso poder sobre o mundo. Talvez consista em desenvolver a nossa capacidade de relação com o mundo. Não dominar mais, mas compreender melhor. Não uniformizar, mas relacionar. Não transformar diferença em rivalidade, mas em fecundidade. nNão fugir permanentemente do presente em nome de um futuro projectado, mas fazer do presente o lugar onde um futuro diferente começa.

Se a antiga ontologia perguntou sobretudo o que é o ser, uma ontologia relacional terá de acrescentar: como é que o ser se torna na relação?

E a gineantropologia poderá responder que o humano não se realiza contra o outro, nem apesar do outro, mas num processo em que individuação e comunhão, diferença e pertença, feminino e masculino, natureza e cultura se tornam dimensões complementares de uma mesma aventura.

A vida não nos entrega um projecto acabado. Entrega-nos relações. E talvez seja precisamente por isso que nos entrega também responsabilidade.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :  
https://antonio-justo.eu/?p=11307
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

EM MEMÓRIA DO PE. RAMIRO PEREIRA GALHISPO

O amigo Pe. Ramiro foi um homem de coração largo, que fez da entrega aos outros o seu programa de vida
Nesta hora de emoção e saudade, em que recordamos a partida do nosso muito querido Pe. Ramiro Pereira Galhispo, natural da Caranguejeira, Leiria, quero deixar algumas palavras de gratidão e de memória.
A 11 de agosto de 2026, o seu corpo foi entregue à terra, depois de uma longa vida de 95 anos, plena de espírito salesiano, de serviço, de alegria e de humanidade. A dor da sua partida mistura-se com a consolação de sabermos que se libertou finalmente do sofrimento causado pela doença. E fica, entre nós, aquilo que a morte não consegue sepultar e que é a presença de uma vida semeada nos outros.
Agora que o meu amigo morreu, dou comigo a revivê-lo de uma maneira muito especial. Volto às cartas que me escreveu ao longo dos anos, releio as suas palavras, reconheço nelas a sua voz e reencontro o homem que conheci e estimei. É também através dessas cartas que quero manifestar a minha gratidão por tudo aquilo que ele semeou.
O Pe. Ramiro conseguiu congregar, de forma singular e autêntica, a sua individualidade e a sua missão. Nele conviviam harmoniosamente o homem, o salesiano, o sacerdote, o músico, o professor e, sobretudo, o pastor. Um pastor que, por natureza e vocação, não se colocava acima do rebanho, mas caminhava no meio dele para melhor o compreender e servir.
Era um padre da juventude e do povo. Deixava falar o coração e, por onde passava, parecia transmitir uma certeza simples e profunda como que a dizer: Deus também é povo.
Tinha um sorriso comunicativo, uma alegria contagiante e um bom humor que aproximavam as pessoas. O espírito jovial de Dom Bosco manifestava-se nele com naturalidade. Era entusiasta, cheio de iniciativa, vivaz, otimista, sociável e eloquente. Mas, acima de tudo, era alguém disponível, era um homem com quem se podia contar.
O Pe. Ramiro era, para mim, um anjo de asas largas, não feito para permanecer apenas dentro dos muros de um convento.
Precisava de espaço para servir, de gente para amar, de dificuldades onde meter mãos à obra. A capacidade de dedicação acompanhava-o por toda a parte. Onde chegava, começava a fazer. Onde encontrava sofrimento, aproximava-se. O sofrimento dos outros tocava-o profundamente, como se encontrasse em cada pessoa ferida o próprio Cristo abandonado, no momento da súplica: «Pai, se possível, afasta de mim este cálice.»
A sua alegria não era, porém, ingenuidade nem desconhecimento da dor. Como sacerdote, manifestava quase sempre encorajamento e esperança, mas essa luz vinha também de sofrimentos escondidos. Talvez por isso fosse uma alegria tão verdadeira porque era a força de quem aceita a cruz procurando vivê-la já com rosto de ressurreição.
Desde Arouca ficou uma amizade de muitos anos
O carismático Pe. Ramiro começou a fazer parte da minha vida em 1960, em Arouca, quando foi meu professor de francês e de mestre de música.
Recordo ainda a sua enorme sensibilidade. Quando nós, alunos, desafinávamos, ele não nos humilhava nem nos censurava. Limitava-se a erguer as mãos até aos seus cabelos encaracolados, como que acariciando a própria cabeça perante o nosso desacerto musical. Era um gesto tão seu e que, passados tantos anos, permanece vivo na minha memória.
Mais tarde, depois do meu tirocínio em Izeda, voltei a encontrá-lo quando eu era estudante de Teologia em Benediktbeuern. Nessa altura, o Pe. Ramiro trabalhava como pároco e orientador no Colégio Português de Kaiserslautern, servindo uma comunidade de cerca de três mil portugueses.
A sua ação, porém, ultrapassava largamente a atividade estritamente pastoral. Exercia diversas funções em benefício daquela comunidade emigrante e chegou a enviar para Benediktbeuern dinheiro proveniente do seu trabalho, ajudando assim a financiar os nossos estudos teológicos: éramos quatro estudantes portugueses.
Nunca esqueci este gesto de salesiano. Ele diz muito mais sobre o Pe. Ramiro do que qualquer elogio que lhe possamos fazer pois trabalhava, servia e partilhava para que outros pudessem continuar o seu caminho.
Depois da minha ordenação sacerdotal, quando vivia nas Oficinas de S. José, tive ainda a felicidade de o substituir durante as férias nas comunidades de Kaiserslautern e de Mogúncia. Pude então compreender ainda melhor a dimensão do trabalho que ali realizara e, sobretudo, os laços humanos que criara.
«Quem anda à chuva molha-se»
Em 1980, deixou aquele seu “império” de Kaiserslautern e partiu para a Madeira.
A saída não foi fácil fácil, mas o Pe. Ramiro possuía aquela sabedoria de quem, tendo sofrido, se recusa a transformar a mágoa em ressentimento.
Numa carta que me escreveu do Funchal, em 17 de abril de 1986, recordava as circunstâncias da sua saída de Kaiserslautern: «Isso são problemas ultrapassados; foi apenas para dizer que a vida traz destes percalços; e... quem anda à chuva molha-se (a não ser que use o guarda-chuva da hipocrisia).»
Este é um extraordinário retrato da sua maneira de estar na vida! Perdoar, seguir adiante, não alimentar amarguras, não permitir que o passado impeça a construção do futuro.
Noutra carta, depois de ter deixado Kaiserslautern, escrevia-me sobre os pedidos para que regressasse e sobre as inevitáveis queixas que surgiam entre as pessoas: «Pedidos de regresso e “queixas” que sempre se fazem uns aos outros, mas a que eu nunca respondo, procurando sempre a calma, a reconciliação e a alegria. O passado passou e há que construir a partir do que existe, sem lamúrias.»
“Sem lamúrias”
Talvez estas duas palavras encerrem muito da sua filosofia de vida. Não significavam ausência de sofrimento, mas a decisão de não fazer do sofrimento uma morada. O Pe. Ramiro preferia construir.
Kaiserslautern ficou para trás geograficamente, mas nunca verdadeiramente o deixou partir. Kaiserslautern corria atrás dele: através de centenas e centenas de cartas, através da amizade e da gratidão das pessoas e através dos muitos jovens daquela comunidade que vinham a Portugal durante as férias para casar e queriam que fosse ele a celebrar e acompanhar esse momento das suas vidas.
Um padre dos jovens
O Pe. Ramiro compreendia profundamente os jovens. Não os via como destinatários passivos de pedagogias ou doutrinas, mas como pessoas que precisavam de proximidade, confiança, atenção e amor.
Quando chegou a altura de deixar o Funchal, confidenciava: «É bom que outros passem por aqui para ver se perdem um pouco a mania de que bons são só os que estão dentro dos muros dum convento.»
E acrescentava, a propósito da juventude: «Os jovens hoje merecem outro tratamento e precisam de mais algo do que simplesmente ideias e ciência na cabeça...!»
Estas palavras dizem muito sobre o seu modo de compreender a missão salesiana.
Para ele, educar e evangelizar não era apenas transmitir ideias. Era estar presente, como Dom Bosco estava presente e muitos hoje procuram estar presentes. Educar era ouvir, acompanhar, dar confiança, ajudar alguém a descobrir que é amado e que a sua vida possui valor.
Quando foi delegado nacional da Federação AADB, essa capacidade de congregar e entusiasmar tornou-se ainda mais evidente. Onde aparecia, o Pe. Ramiro impressionava e mobilizava as pessoas. Tinha a capacidade rara de comunicar entusiasmo sem perder a proximidade humana.
O Pe. Ramiro também era o “espanta-pardais”
Ele próprio dizia, com aquele humor tão característico, que era um “espanta-pardais”.
Sempre entendi esta expressão como uma bela metáfora da sua missão. O importante era cuidar da sementeira, centrar toda a ação no essencial cristão e salesiano e não ficar excessivamente preocupado com os “pardais” que, aqui e ali, procuram estragar aquilo que se semeia ou tenta semear.
O Pe. Ramiro sabia seguir em frente, perdoava, recomeçava e procurava a reconciliação. Não cultivava uma cara triste nem deixava que o peso do mal lhe roubasse a capacidade de sorrir.
Foi um homem profundamente cristão, capaz de encarar a cruz quotidiana com rosto de ressurreição.
Pe. Ramiro o Amigo
O Pe. Ramiro não pertence apenas às instituições por onde passou, às comunidades que serviu ou à história salesiana. Para mim, pertence também à história familiar e pessoal da amizade.
Foi meu amigo e amigo da minha família. Foi ele quem batizou o meu filho, David Ramiro, em S. João da Madeira. E o próprio nome conserva, por isso, uma memória que nos é particularmente querida. Defacto, escolhi o nome para o meu filho em recordação do Pe Ramiro e do Pe. David.
Ao longo dos anos voltámos a encontrar-nos várias vezes em Arouca e a última vez na Quinta Outeiro da Luz onde ficou de na próxima vez trazer calções para mergulhhar na piscina. Infelizmente a doença não lhe permitiu voltar. Guardo também com especial ternura uma imagem dos últimos tempos em que tivemos o prazer de atravessar juntos a ponte dos Passadiços do Paiva, de mão na mão.
Hoje essa recordação ganha para mim outro significado. Há pontes que atravessamos sem sabermos que um dia se transformarão em símbolos. Aquela mão que então acompanhei é agora memória. Mas a amizade permanece como uma ponte que nem a morte consegue destruir.
O Pe. Ramiro tinha uma vida cheia que enchia a vida dos outros
O amigo Ramiro foi um homem realizado e permaneceu jovem porque fez da entrega aos outros o seu programa de vida. Teve uma vida cheia e encheu a vida dos outros.
Encheu-a de alegria, de amor, de dedicação, de música, de humor, de esperança e daquela disponibilidade tão própria de quem não pergunta primeiro o que vai receber, mas aquilo que pode oferecer.
Deixa nos seus condiscípulos, nos irmãos salesianos, nos antigos alunos, nos jovens, nas comunidades que serviu, nos amigos e em tantas famílias uma saudade imensa. Mas deixa também uma mensagem: viver com alegria, servir com generosidade, conservar a mente aberta, perdoar e continuar a construir.
Agora, ao reler as cartas que me escreveu, o Ramiro torna-se paradoxalmente mais vivo dentro de mim. A sua caligrafia, tão característica como ele embora mais ordenada, devolve-me a sua voz; as suas frases devolvem-me o seu humor; as suas confidências fazem regressar o amigo.
Talvez uma das formas mais profundas de permanecer seja precisamente esta: continuar vivo naquilo que se semeou no coração dos outros.
Por isso, nesta hora em que entregamos o seu corpo à terra, a palavra que mais desejo pronunciar não é apenas saudade mas sobretudo de agradecimento.
Obrigado, Pe. Ramiro, pela amizade. Obrigado pelo sacerdócio vivido no meio do povo.
Obrigado pela juventude que conservaste e despertaste nos outros. Obrigado pelas mãos que tantas vezes meteste à obra.
Obrigado pela alegria com que escondeste tantas cruzes.
Obrigado pelas cartas, pelas palavras, pela música, pelo sorriso e pela capacidade de acreditar nas pessoas.
Obrigado à sua família da Caranguejeira, que o deu à vida e obrigado à Família Salesiana, que nos proporcionou o encontro com uma personalidade tão rica e prendada de dons.
Obrigado a Deus pela longa vida deste homem que soube fazer dos seus 95 anos uma história de entrega. Hoje entregámos o seu corpo à terra, mas aquilo que o Pe. Ramiro semeou não fica debaixo dela porque fica em nós.
Certamente esta é a mais bela ressurreição que nos é dado testemunhar na vida daqueles que amámos: quando partem e, apesar disso, continuamos a ouvi-los, a recordá-los, a repetir as suas palavras e a reconhecer no nosso próprio caminho alguma coisa daquilo que deles recebemos.
Descansa em paz, querido Pe. Ramiro. Que Deus te acolha agora com aquela mesma alegria com que tu procuraste acolher os outros.
E que, onde estiveres, continues com as tuas asas largas, finalmente sem muros, sem dores e sem fronteiras.
António da Cunha Duarte Justo