Leão XIV chegou a Paris (25.09.2026) e não se perdeu nos corredores da diplomacia... Falou com a cortesia própria de um chefe de Estado, mas também com a liberdade de quem não quer reduzir a palavra cristã a ornamento protocolar...
terça-feira, 29 de setembro de 2026
UM PAPA "SEM PAPAS NA LÍNGUA"
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Sobre a irresponsabilidade de políticas que não se pautam pela reciprocidade cultural entre Estados
A AMBIGUIDADE ENTRE SOCIEDADE ABERTA E IDENTIDADE
Numa Europa contraditória, há palavras que, de tanto serem repetidas, começam a dispensar a realidade. “Sociedade aberta” é uma delas. “Diversidade”, “identidade”, “integração” e “tolerância” entram no mesmo rol. Foram transformadas em vocabulário obrigatório do discurso público, deixaram de servir para interrogar a realidade e passar simplesmente a tranquilizar quem governa sobre a bondade das suas intenções que se satisfazem ao constatar que o povo e os media se deixam embrulhar no enredo delas. A política migratória é praticamente da competência de Bruxelas.
O problema é real e lança perguntas mais que incómodas, pois, como pode uma sociedade permanecer aberta sem perder a consciência daquilo que é? Como pode acolher o outro sem considerar suspeito o desejo dos que já nela vivem de preservarem uma continuidade histórica, cultural e espiritual? E até onde pode ir a tolerância quando em política a reciprocidade deixa de fazer parte da equação?...
De um lado, a nostalgia de uma Europa culturalmente homogénea que o curso da História já transformou e do outro, a fantasia de uma sociedade pós-histórica, composta por indivíduos intercambiáveis, sem raízes, sem memória colectiva e sem necessidade de pertença. Esta seria própria de uma sociedade robótica e nenhuma delas corresponde ao ser humano real...
Uma sociedade que despreze essa dimensão vivencial da existência pode continuar juridicamente organizada, mas começará a sentir-se culturalmente órfã...
O que não pode ser negociado
... Estado de direito, igualdade perante a lei, dignidade humana, liberdade de expressão, liberdade de consciência, igualdade entre homem e mulher e liberdade religiosa, incluindo a liberdade de mudar ou abandonar uma religião...
A dificuldade começa quando a Europa exige de si própria uma tolerância que parece não se atrever a exigir aos outros...
Seria também ingenuidade fingir que não existem correntes político-religiosas islâmicas com base religiosa constitucional, para as quais religião, direito, sociedade e poder político formam uma unidade extremamente diferente daquela que a Europa construiu, dolorosamente, através da separação progressiva entre autoridade religiosa e autoridade civil...
A pergunta mais exigente consist em saber que princípios devem reger a casa comum quando diferentes concepções de sociedade nela passam a coexistir?...
Uma civilização segura dos seus princípios deveria ser igualmente capaz de perguntar o que acontece aos cristãos que vivem nos países de proveniência migratória islâmica?...
A Turquia oferece um exemplo particularmente simbólico. A atual República turca nasceu num território onde, durante séculos, viveram importantes comunidades cristãs, gregos ortodoxos, arménios, siríacos e outras comunidades que participaram profundamente na história da Anatólia e de Constantinopla. No início do século XX, os cristãos constituíam ainda uma parcela muito significativa da população do território (25%) que viria a formar a Turquia moderna. Hoje representam apenas uma fracção diminuta da população (0,25) ...
A própria história administrativa turca com o registo da filiação religiosa nos documentos e registos de identidade, prática para discriminação das minorias, ilustra como religião e cidadania ao não serem esferas separadas provocam hegemonias ...
se a liberdade religiosa é universal, por que razão a reciprocidade na sua defesa não faz parte da política diplomática activa europeia?
Por que deveria a defesa dos direitos dos cristãos na Turquia, no Médio Oriente ou noutras sociedades ser considerada uma preocupação identitária menor, enquanto a defesa dos direitos das minorias religiosas na Europa é apresentada como uma obrigação moral?... Os direitos humanos ou são universais ou reduzem-se a uma preferência geográfica... A Europa deve oferecer liberdade porque acredita na liberdade, mas deve também exigir liberdade aos seus parceiros porque afirma que essa liberdade pertence a todos ...
O estranho complexo europeu perante o cristianismo
Há ainda uma questão mais profunda e talvez mais incómoda. A Europa contemporânea parece sentir-se muito mais confortável a proteger o cristianismo enquanto património artístico do que a reconhecê-lo como uma das matrizes vivas da sua civilização...
Cidadãos sentem essa amnésia quando observam instituições extremamente cuidadosas na proteção das identidades minoritárias, mas reticentes perante qualquer afirmação positiva da tradição cultural maioritária. Tem-se a sensação de que todas as identidades merecem reconhecimento excepto a nossa. (Ou será porque a espiritualidade cristã se identifica mais com o povo e o carente e legitima a soberania moral no indivíduo?) ...
Integração é um contrato não um serviço de hotelaria
Um outro equívoco que domina a política europeia e até mesmo legislações vindas da ONU e que urge ser abandonado é imaginar a integração como obrigação exclusiva da sociedade que recebe...
Integração é hospedagem e quem chega também assume responsabilidades e por isso implica aprender a língua, conhecer as instituições, respeitar a ordem constitucional e aceitar que a lei democrática está acima das prescrições comunitárias ou religiosas das regiões donde provêm...
Quem vigia os guardiões da democracia?
A União Europeia está preocupada com a manipulação do espaço público e por isso criou o Escudo Europeu da Democracia e outras estruturas destinadas a aumentar a resiliência democrática como resposta a crescentes ameaças...
O problema é que todo o mecanismo criado para proteger a democracia contém uma tentação que leva a confundir a protecção da democracia com a protecção das narrativas de quem temporariamente administra as suas instituições...
Combater uma operação estrangeira de manipulação é uma obrigação do Estado democrático, mas classificar sistematicamente como “desinformação” aquilo que contradiz anuências institucionais seria outra coisa.
A democracia necessita de factos, mas é também da sua natureza necessitar também de conflito, dissidência, irreverência e do direito de dizer às instituições que elas podem estar erradas...
Nota-se grande incúria no que toda a bilateralidade contratual de direitos religioso-culturais entre os Estados europeus e os estados de matriz muçulmana. Essa incúria causa desequilíbrio sistémicos injustos entre estados e povos favorecendo a posição de quem forma guetos e criando problemas sociais com o povo originário. Não por causa da religião que representam, mas por causa do poder inerente que transportam, especialmente pelo facto de a sua definição cívica ser determinado pela Suma (Islão).
Bruxelas não pode governar do Olimpo
O maior erro de Bruxelas é certamente pensar determinar e condicionar os povos através da concessão ou negação de verbas e de imaginar que estas batalhas serão decididas nos grandes documentos estratégicos europeus. Não serão porque a coesão não nasce de uma directiva nem de meras medidas economicistas.
As batalhas serão decididas numa escola de periferia; num bairro onde uma mulher regressa sozinha a casa à noite... A coesão nasce da experiência quotidiana de uma ordem que funciona...
Uma sociedade aberta é relativamente fácil de defender num bairro seguro e próspero (ou numa zona alta e exposta ao sol onde habitam as famílias bem como na Alemanha). É muito mais difícil explicá-la a quem sente que a escola dos filhos piorou, que a habitação se tornou inacessível...
Bruxelas aparece demasiadas vezes como um Olimpo tecnocrático, distante, convencido da racionalidade das suas decisões e surpreendido quando os habitantes da planície não agradecem aos deuses...
O busílis é que as populações não vivem em documentos estratégicos nem em lugares privilegiados, vivem nas ruas...
Entre o medo e a ingenuidade
Uma democracia adulta deveria ser capaz de rejeitar simultaneamente ambos os erros e poder dizer ao imigrado: “És bem-vindo e os teus direitos são os meus e precisamente porque os teus direitos são os meus, os teus deveres também o são.”
Os responsáveis políticos activos na União Europeia não se preocupam com reciprocidade de respeito por costumes religiosos e culturais e menos ainda do antagonismo cuidado pelo islão e por isso os governantes ocidentais mais empenhados no secularismo como substituição da própria religião, dão a impressão ao cidadão nativo de desinteresse pelo destino da própria cultura e daquilo que lhe possibilitou identidade própria. Neste sentido deveria ser objecto de política activa negociar a integração como reciprocidades entre estados eculturas.
Assim como o Estado protege uma mesquita ou uma sinagoga contra o vandalismo deveria ao mesmo tempo, exigir a Ancara liberdade plena para uma igreja cristã.
O Estado pode defender diversidade sem converter a sociedade numa soma de tribos.
Urge uma Europa que saiba quem é
problema fundamental da Europa é conseguir saber quem é. Só uma sociedade que sabe quem é consegue verdadeiramente abrir a porta sem recear desaparecer.
A identidade insegura transforma o estrangeiro em inimigo e a sociedade que renuncia à própria identidade acaba por interpretar qualquer afirmação de continuidade cultural como uma ameaça...
Antes de tudo o governante terá que saber discernir entre o que é, o sentido do ser da sua cultura e saber o que o islão é o que quer que a outra cultura seja. Uma Europa descomplexada não pede desculpa por ter raízes cristãs-gregas e romanas, nem transforma essas raízes em armas...
A política terá de defender o cristão na Turquia não porque o cristão valha mais, mas porque a liberdade que só defendemos para alguns deixaria de ser liberdade universal...
Reciprocidade é aquilo que impede a tolerância de se transformar em submissão de uns, privilégio de outros ou indiferença de todos...
A Europa não pode continuar a viver da ambivalência e auto desleixo para que abertura e identidade deixem de ser adversárias. Se o não conseguir, os extremos encarregar-se-ão de convencer cada tribo de que só poderá sobreviver contra as outras. Doutro modo a tribalização da sociedade torna-se num fatalidade histórica...
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11414
terça-feira, 22 de setembro de 2026
A ALEMANHA PARTIDA E PARTIDÁRIA
A rutura de setembro de 2026 deixará vestígios fortes na geografia político-cultural
As eleições regionais alemãs de setembro de 2026 deixaram de ser um simples teste de meio mandato para se tornarem no retrato de uma Alemanha partida, cansada e ideologicamente inquieta. Entre Berlim, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Saxónia-Anhalt, o velho arco de poder formado pela CDU, SPD, Verdes e liberais aparece em decomposição, enquanto os extremos, à direita e à esquerda, se afirmam como intérpretes do descontentamento e de uma nova política...
Em Berlim, o Die Linke alcançou uma vitória histórica com 25,7% dos votos, tornando-se a principal força política da Cidade-Estado. A CDU, que liderava o governo local, caiu para cerca de 19% a 20%, e a AfD subiu para 16,2%. O dado mais simbólico é a possibilidade de Elif Eralp, uma jovem política de origem turca, vir a assumir a presidência da Câmara de Berlim, procurando formar governo com o SPD e os Verdes. Isso representa uma transformação profunda porque a esquerda radical deixa de ser apenas protesto e passa a reivindicar poder executivo. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, o cenário inverte-se. A AfD venceu com 37,9% a 38,3% dos votos, superando por margem estreita o SPD, que ficou pelos 35,5%. A CDU sofreu uma derrota histórica, caindo para 4,9%, abaixo da cláusula de barreira de 5%, ficando sem representação parlamentar. Na Saxónia-Anhalt, a AfD consolidou a sua subida com 43,8%, legitimando-se nas urnas para reivindicar o governo, embora o chamado cordão sanitário continue a tentar impedi-lo.
O que está em causa não é apenas uma mudança de governos regionais. É uma mudança de mentalidades, de geografia eleitoral e de legitimidade democrática...
A coligação conservadora-social-democrata de Friedrich Merz encontra-se grávida de descontentamento, mas não parece capaz de parir um substituto credível. Merz, antigo lobista e homem de Bruxelas, sabe apreciar o sabor do poder; a sua permanência como chanceler só agravará os danos no próprio partido e no país. A CDU precisa de renovação, não de teimosia...
A extrema-direita da AfD carrega consigo riscos históricos, constitucionais e civilizacionais que não podem ser minimizados. Mas também não se pode fingir que a extrema-esquerda, quando governa ou disputa o poder, é automaticamente moderada só porque usa uma linguagem mais aceitável nos círculos mediáticos. O problema mais grave é o enviesamento da informação: quase todos os jornais falam do perigo da extrema-direita, mas quase nenhum fala do perigo da extrema-esquerda...
Quem respeita a democracia deve respeitar todos os votantes, do centro, da esquerda, da direita e não apenas os que confirmam a narrativa dominante. Em democracia não deve haver senhores nem proprietários...
O caso da Saxónia-Anhalt é particularmente revelador. A AfD venceu com 43,8%, mas o arco do poder partidário tradicional fará tudo para impedir que Ulrich Siegmund, linha-dura do partido, chegue a primeiro-ministro... Em Berlim, pelo contrário, a extrema-esquerda ganhou e já se prepara para governar com o SPD e os Verdes, sem que isso provoque o mesmo alarme mediático...
A Alemanha precisa de uma política de equilíbrio social e de coesão. Precisa de partidos que voltem a ouvir, de uma imprensa que não confunda informação com militância e de líderes que não se agarrem ao poder como se este fosse propriedade privada. O espectro político está a mudar; os partidos que tradicionalmente formavam o arco do poder estão em decomposição, enquanto os extremos se afirmam. Isto corresponde, em parte, ao extremismo que domina a informação na União Europeia e à incapacidade das elites de se reformarem...
A mudança de mentalidades não virá de Bruxelas nem dos estúdios de televisão! A mudança virá da rua, do trabalho, da escola, da habitação, da segurança e da dignidade de quem se sente abandonado. É aí que se joga a verdadeira política muito embora a nova política latifundiária se tente afirmar por algum tempo.
António da
Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo : https://antonio-justo.eu/?p=11411
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Ensaio sobre a mudança axial e o nascimento da política relacional
A RÚSSIA VOTOU E PUTIN SAI REFORÇADO
Segundo os resultados preliminares divulgados pela Comissão Eleitoral Central (20.09.2026),, depois de apurados 95,18% dos votos, o Rússia Unida alcançou 57,83% dos votos nas listas partidárias. Seguiram-se o Partido Comunista da Federação Russa, com 13,81%, o Partido Liberal Democrata, com 8,98% e o Novo Povo, com 7,96%...
O partido Rússia Unida deverá alcançar 355 dos 450 lugares da Duma, ultrapassando largamente os 301 necessários para uma maioria constitucional. Trata-se, a confirmarem-se os resultados, da maior representação parlamentar conseguida pelo partido, superior mesmo aos 343 deputados alcançados em 2016...
O resultado demonstra sobretudo a consolidação parlamentar do sistema político que dirige a Rússia... Bruxelas rejeita a validade da votação organizada nos territórios ucranianos ocupados pela Rússia.
Depois de mais de quatro anos de guerra, sanções económicas ocidentais, perdas humanas e crescente militarização da sociedade, não se verifica, pelo menos através destes resultados, a desagregação política do poder russo que alguns estrategas ocidentais esperavam e propagavam.
Pelo contrário, o Rússia Unida aumentou a sua votação relativamente aos 49,8% obtidos em 2021. A participação oficial também aumentou. Isto permite ao Kremlin apresentar as eleições como confirmação da unidade nacional em torno do poder num momento de confronto com o Ocidente...
Segundo as autoridades russas, mais de 1.600 drones foram intercetados durante a vaga de ataques, dos quais cerca de 450 se dirigiam à região de Moscovo. O ataque provocou vítimas e atingiu, entre outros alvos, uma refinaria. Independentemente da discussão sobre estes números e sobre os objetivos militares da operação, a coincidência com o último dia das eleições favoreceu inevitavelmente a narrativa do Kremlin de uma Rússia cercada e obrigada a defender-se...
Na memória histórica russa continua presente o colapso da União Soviética e o período caótico que se lhe seguiu. Para muitos russos, a estabilidade política poderá pesar mais do que o pluralismo segundo os padrões das democracias ocidentais... compreender uma sociedade exige distinguir aquilo que gostaríamos que acontecesse daquilo que efetivamente está a acontecer... As eleições fazem retirar a força à tese de que a guerra estaria a provocar uma fratura política capaz de obrigar Putin a mudar de rumo.
O paradoxo europeu está justamente aí. Quanto mais a NATO e a Rússia apresentam o confronto como existencial, menores parecem tornar-se os espaços para compromissos. Moscovo utiliza a ameaça ocidental para justificar a concentração interna de poder; no Ocidente, a ameaça russa é utilizada para justificar o aumento dos gastos militares e uma política de contenção prolongada. As duas narrativas alimentam-se mutuamente...
As eleições russas demonstram algo politicamente muito relevante: apesar da guerra, das sanções e das dificuldades internas, o sistema de poder russo não dá sinais eleitorais de fragmentação. Pelo contrário, sai destas eleições parlamentarmente mais concentrado...
Entre propaganda russa e propaganda ocidental existe uma realidade geopolítica que não desaparece por decreto: a Rússia continuará a ser uma potência europeia e nuclear com a qual, mais cedo ou mais tarde, será necessário encontrar uma forma de coexistência pacífica.
A política começa precisamente quando termina a propaganda, por isso não temos tido política séria.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11409
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
RECOMEÇAR ENTRE HORMONAS E OUTRAS INTEMPÉRIES
Parece estranho, mas nas relações entre homem e mulher somos mais iguais do que se diz: ambos temos hormonas, ilusões e a mania de querer parecer mais jovens. A menopausa também já não é tabu; tabu é ainda haver quem a confunda com “má vontade”.
Hoje conheci um par que, após 15 anos de divórcio e de cada um ir experimentar novas paisagens, se voltou a unir. Nos rostos via-se a história: ele com mapa de estradas, ela mais adivinhada que real. Serviu-me isto para penar que andamos todos num processo de desconstrução/reconstrução; muitas vezes, na primavera os corpos interessam-se, depois, no verão, desavêm-se nas ideias e os laços vão-se desfazendo como nós cegos.
Quer-se começar de novo, mudar algo. As hormonas anunciam que os sonhos de verão devem tornar-se realidade e, para não faltar emoção, mandam também ondas de calor. A natureza tem ritmos: sol na montanha revigora, mas suores intensos, insónias, irritabilidade, alterações psicológicas, dificuldades de concentração e secura vaginal não são “problema psicológico” arrumado num canto. Começam muitas vezes aos 40 e pedem atenção.
Vale a pena escutar os sinais, sobretudo a irritabilidade: pode ser o findar de ilusões passadas e o início de criação nova. No fundo, homens e mulheres são iguais na confusão; a diferença é que umas recebem boletim meteorológico interno e outros acham que é só calor.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=11399
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
terça-feira, 8 de setembro de 2026
OS DESABRIGADOS DA POLÍTICA
Do Escândalo democrático do povo se atrever a não obedecer aos seus defensores
Em tempos de humor negro e de fé vermelha, as eleições europeias revelam-se o cúmulo do humor...
No fim, todos procuram abrigo debaixo da mesma palavra mágica “democracia”, mas o busílis da questão é que cada qual parece trazer a escritura de propriedade no bolso.
Curiosamente, o tão censurado discurso do «nós e dos outros» não é exclusivo daqueles que dividem o mundo entre nacionais e estrangeiros. Também os autoproclamados guardiões da democracia gostam do seu “nós”, do “ nós, os democratas”, “nós, os esclarecidos”, “nós, os europeus de bem” e consideram do outro lado, “eles, os populistas”, “os enganados”, “os atrasados”, “os perigosos”, etc... Enfim, muda a fronteira, conserva-se a alfândega moral.
Assim, enquanto uns proclamam «nós, os nacionais, contra os estrangeiros», outros respondem «nós, os democratas, contra eles». A gramática é assustadoramente parecida e o que muda é apenas o dicionário...
Assiste-se então ao espetáculo dos que se consideram do lado bom da democracia contra os habitantes do lado mau, como se a democracia tivesse bancada VIP e porteiro à entrada. A argumentação cede lugar à narrativa, a análise à indignação e o ódio, devidamente penteado e perfumado, apresenta-se em público com o respeitável nome de “consciência democrática” que em dicionário adverso significa “oportunista” ...
Entretanto, os senhores da realidade erguem-se contra ela. Espantam-se com o crescimento dos partidos a que chamam populistas, mas raramente perguntam quanto desse crescimento foi adubado pelas políticas que eles próprios defenderam...
votar como previsto, há sempre quem conclua que o defeito está na realidade.
Em muitos governantes e funcionários da liturgia europeia, mais do que competência, começa a notar-se atrevimento, que se expressa naquele admirável talento de explicar aos eleitores por que razão estes votaram mal...
António da Cunha
Duarte Justo
Pegadas do Tempo : https://antonio-justo.eu/?p=11386
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
