sexta-feira, 31 de julho de 2026

UMA BOA AÇÃO

Naquela manhã, uma névoa densa pairava sobre Kassel. Aquele cinzento pesado que penetra até aos ossos e oprime a alma, ainda antes de o primeiro gole de café afastar o cansaço. Estavam agendadas as compras do dia: as incómodas e intermináveis obras em frente à loja, o carrinho de plástico a ranger, a luz fria do Aldi que iluminava a indiferença dos rostos apressados. Nada indicava que, entre as prateleiras de metal e o zumbido dos leitores de códigos de barras, um sol muito particular iria nascer.

A minha esposa, Carola, estava na fila do caixa, de olhar perdido no vaivém monótono das compras, quando reparou no rapaz jovem que a sucedia na fila da caixa. Não tinha carrinho, apenas os braços carregados com uma melancia e um pacote de bolachas, equilibrados com a perícia de quem não gosta de perder tempo. Num gesto de humanidade espontânea, ela sorriu-lhe e convidou-o a passar à sua frente. Era pouco, dir-se-ia, quase nada porque significava apenas um passo para o lado, um aceno de mão.

Mas o jovem, com uma serenidade desarmante, não se limitou a aceitar.  Apontou para a jovem que estava atrás dele e que segurava apenas três coisas na mão e pediu-lhe que a deixasse passar à frente em vez dele.  

Carola, gentil, abriu os braços num gesto largo e espontâneo disse:

 “Claro, passem os dois, à vontade.”

O Jovem e a jovem sorriram, daqueles sorrisos genuínos, sem pressa e sem máscaras. Foi como se uma pequena onda de calor tivesse varrido a fila da caixa e o corredor. Depois, como agradecimento ele quis ajudar a colocar os artigos da minha esposa na esteira rolante.

O jovem primeiro atravessou o caixa, pagou e, quedou-se pacientemente ao lado dos tapetes rolantes, à espera de Carola. Quando ela terminou, ele aproximou-se com uma oferta inesperada:

“Deixe-me levar-lhe as compras até ao carro.”

Ela recusou, por instinto, embora constrangida com o peso, porque afinal, levava dois pacotes de água, cada um com seis garrafas pesadas. Mas ele, que ainda não contava com décadas de peso da vida, não aceitou um "não" por resposta. Pegou nos pacotes com a firmeza de quem ainda carrega consigo a força das boas maneiras e seguiu-a até ao estacionamento, com passos seguros. Já junto ao carro quis oferecer-lhe um exemplar do nosso jornal regional, HNA, já que era distribuidor de jornais. Carola agradecida respondeu-lhe que era assinante do jornal.

Ele, limpando as mãos às calças e com um brilho maroto no olhar, confessou:

“Eu só queria fazer algo de bom e começar o dia com uma boa ação.”

Foi então que Carola, iluminada por aquela troca tão singela, lhe respondeu com a presteza e a ternura que já germinava no seu coração:

“Mas o senhor com a sua atitude gentil já fez a boa ação e não foi só uma, foram mais! Ao deixar a colega de trás passar, ao ajudar-me e ao sorrir-me com esta cordialidade tão pura, sem segundas intenções. Isso já era para mim o sol da manhã.”

Ele, por um instante, ficou em silêncio, como se estivesse a saborear o doce sabor residual das palavras dela. Depois, voltou a sorrir. Fazia parte daquelas raras pessoas que esquecem imediatamente cada boa ação assim que a praticam e pensam apenas na seguinte. Não contava as suas boas ações, limitava-se a deixá-las para trás e a seguir em frente.  

E acreditem: aquele sorriso, nascido no corredor de um supermercado qualquer, foi um clarão que desfez o nevoeiro cerrado que a manhã nos trouxera. Mas a magia não parou ali. Ao chegar a casa, a Carola contou-me tudo e as palavras dela envolveram-me como um cobertor ao lume. Ela, ao transmitir-me esse instante, praticou também a sua boa ação, fez com que a faísca saltasse para mim. E eu, agora, ao confiá-la a estas linhas, passo-lhe a chama a si, que me lê.

É assim o desabrochar do dia. Não vem num estrondo, nem num acontecimento grandioso. Vem num desvio de passo, numa cedência de lugar, num oferecimento de braços cansados, num sorriso que se atravessa no nosso caminho e nos deixa, sem pedir nada em troca, a sensação profunda e cálida de um amanhecer eterno.

Porque o que custa zero é, no fim, o que tem mais valor. E as pegadas que ficam no tempo não são as das pressas, mas as dos pequenos gestos que nos fazem parar e olhar o outro.

António da Cunha Duarte Justo,
Pegadas do Tempo:
https://antonio-justo.eu/?p=11231 
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Natureza, Soberania humana e o Tecido institucional

 

A NATURZA COMO ESPELHO E IMAGEM DO PROCESSO QUE SE DESENROLA NO HUMANO

A metáfora da natureza como espelho carrega uma longa linhagem filosófica, mas ganha uma urgência renovada na literatura contemporânea e no ensaísmo atual.  Na modernidade tardia, o espelho da natureza já não reflete apenas uma harmonia estética ou idílica, porque passou a funcionar como um tribunal ético.

A literatura contemporânea usa a biosfera para expor as neuroses e os preconceitos humanos: quando olhamos para a pluralidade espontânea do mundo natural e, em seguida, olhamos para a nossa intolerância social e cultural, o espelho devolve-nos uma imagem deformada da nossa própria humanidade. É o contraste entre a inocência da criação e a corrupção do preconceito humano.

Para compreender esta fratura, é necessário cruzar este conceito com a matriz da civilização ocidental, assente em três pilares fundamentais: Deus como Criador, o ser humano como soberano e as instituições como extensão do "Nós".

Deus como Criador e a Diversidade como Desígnio e não como Erro

A tradição judaico-cristã, fundadora do Ocidente, postula que o universo é uma obra deliberada de Deus. Se a natureza é o plano divino materializado, a sua diversidade intrínseca não pode ser vista como uma anomalia, mas sim como a própria assinatura do Criador.

Atacar a natureza identitária ou a orientação de um indivíduo é, numa perspetiva teológica profunda, questionar o próprio critério do Criador para viver no erro do preconceito.

A natureza (teológica) ensina que a unidade se faz na multiplicidade (diferentes espécies, cores e formas que coexistem num único ecossistema). Quando o discurso de ódio tenta homogeneizar a sociedade à força, ele tenta corrigir o plano divino, gerando o esgoto interior da hostilidade que nega a Criação.

O Ser humano como Soberano diante das Instituições

No pensamento ocidental, refinado pelo Iluminismo e pelo personalismo cristão, o ser humano possui uma dignidade intrínseca e inalienável. A pessoa humana é soberana em relação às estruturas que cria. As instituições (o Estado, as igrejas, os partidos, os movimentos sociais) existem para servir o ser humano e nunca o contrário.

Na sociedade moderna contemporânea assiste-se à exacerbação da coisificação do indivíduo rm nome do globalismo liberal. O grande perigo contemporâneo, visível tanto em visões radicalmente conservadoras como em concepções sociais progressistas, é a instrumentalização da vida individual. Quando termos como "trans", "homossexual" ou "diverso" se transformam em bandeiras de combate político, o indivíduo real desaparece. E isto porque o ser humano deixa de ser um fim em si mesmo (como exigia Kant) e passa a ser tratado como um objeto ou um peão por defensores e opositores. A soberania humana é aniquilada quando o indivíduo é forçado a submeter a sua verdade existencial à agenda de uma instituição ou ideologia.

As Instituições como Parte do "Nós" no Espaço sagrado da Humanidade

Embora o ser humano seja soberano, ele não vive isolado porque necessita das instituições para estruturar a vida comunitária. A civilização ocidental assenta na premissa de que as instituições não são inimigas externas, mas sim emanações do próprio "Nós" que se tornaram ferramentas coletivas para garantir a ordem, a justiça e a coesão.
Por um lado há o direito à regra e ao limite do Todo. Cada instituição tem o direito legítimo de estabelecer as suas próprias regras de funcionamento. Um estado, uma igreja, uma associação ou um clube podem ter os seus estatutos e dogmas. Contudo, na praça pública, ninguém é senhor absoluto da sociedade.
Por outro lado, para que as instituições façam parte de um "Nós" saudável, elas devem abdicar de colonizar a totalidade da vida pública. Deve haver sempre um espaço reservado e inviolável onde a humanidade em geral tenha lugar. Quando grupos ou instituições tentam criar zonas privadas de exclusão, onde determinados cidadãos são privados do direito à felicidade e à segurança, como no trágico atentado em Berlim, o pacto social que sustenta o Ocidente passa a ser quebrado.

 

O Reencontro no Reflexo

A literatura contemporânea propõe que a salvação da civilização ocidental reside em voltar a olhar para o espelho da natureza com os olhos desarmados. Ao aceitarmos que a criação de Deus é vasta e plural, resgatamos a soberania do indivíduo contra a tirania da instrumentalização ideológica.

As instituições regressam ao seu papel legítimo de proteger o "Nós", não através do silenciamento do "Outro", mas sim da garantia de que a dignidade humana básica é um solo sagrado onde todos, sem exceção, têm o direito inalienável de existir e florescer.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo:
https://antonio-justo.eu/?p=11221
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

quarta-feira, 29 de julho de 2026

USO E ABUSO DA LINGUAGEM E REESCRITA DO PASSADO

 

Já não bastava reescrever as palavras, mas até se começa a querer reescrever a memória

Há alguns anos escrevi sobre o uso e sobretudo sobre o abuso da linguagem. Chamava a atenção para uma tendência que, entretanto, se tornou ainda mais visível: a necessidade de substituir palavras simples e diretas por expressões mais sofisticadas, aparentemente respeitadoras, mas muitas vezes destinadas apenas a tornar menos visível aquilo que continua a existir.

A criada passou a empregada doméstica; a empregada doméstica passou a auxiliar de apoio domiciliário; o contínuo transformou-se em auxiliar de ação educativa; o vendedor de medicamentos tornou-se delegado de informação médica; o operário passou a colaborador. Mudavam-se os nomes e, por vezes, parecia acreditar-se que também se tinha mudado a realidade. Era uma espécie de maquilhagem sem terapia.

Hoje, porém, parece-me que a questão ainda é mais grave porque ultrapassou a linguagem. Já não se trata apenas de mudar o nome às coisas. Começamos a querer mudar também a maneira como devemos olhar para aquilo que aconteceu antes de nós. Já não bastava reescrever as palavras e começa a querer-se reescrever a memória.

Vivemos numa época que se considera, justamente ou não, mais esclarecida do que muitas das anteriores. Conhecemos melhor inúmeras injustiças do passado e desenvolvemos uma sensibilidade mais atenta a formas de discriminação que anteriormente eram ignoradas ou aceites. Isto representa, em muitos aspetos, um progresso.

Mas existe uma tentação nesse progresso: a de olhar para trás e imaginar que todas as épocas anteriores foram apenas versões imperfeitas da nossa.

É aqui que aparece o anacronismo. Sentamo-nos confortavelmente no século XXI, munidos dos valores, conceitos e sensibilidades do nosso tempo e julgamos homens e mulheres que viveram há séculos como se tivessem recebido o mesmo manual moral que hoje temos à nossa disposição.

Depois admiramo-nos de descobrir que os gregos não eram modernos, que os romanos não pensavam como nós, que a Idade Média não conhecia as nossas categorias políticas e sociais e que Shakespeare e Camões não escreviam segundo os códigos culturais do nosso tempo.

Descobrimos, afinal, que o passado era passado e que por detrás dele há uma linha de verdade mítica a descobrir.

Estudar História, porém, não significa perguntar apenas se aquilo que aconteceu seria aceitável hoje. Significa também perguntar: como pensavam aquelas pessoas? Em que sociedade viviam? Que valores possuíam? Que conhecimentos tinham? Que alternativas conheciam?

Só depois poderemos formar um juízo.

Não se trata de suspender a moral, mas de não a confundir com a História. Podemos condenar a escravatura e estudar as sociedades escravistas; rejeitar a violência de uma guerra e procurar compreender por que aconteceu; defender hoje a igualdade entre homens e mulheres sem fingir que as sociedades antigas já funcionavam segundo os princípios que consideramos justos.

Podemos criticar o passado sem o falsificar nem abusar dele para fins de mero poder ideológico ou partidário. Esta distinção torna-se particularmente importante quando entramos no território da literatura, do cinema e das adaptações dos clássicos.

Pensemos em “A Odisseia”, que regressa agora ao grande cinema através de Christopher Nolan. Podemos fazer várias leituras dele e uma delas tem a ver com a crítica que aqui apresento e a que ele não resiste. Mas a própria obra de Homero permite colocar uma questão essencial: o que fazemos hoje com uma criação que nasceu num mundo tão distante do nosso? Na generalidade permanece o erro de obrigá-la a falar como nós. Ou podemos procurar descobrir o que ela ainda tem para nos dizer precisamente por não ser como nós.

O mundo de Homero não é o nosso. A sua concepção da honra, da guerra, da família, da hospitalidade, da vingança, do poder, dos deuses e do destino pertence a uma ordem cultural muito diferente.

Ulisses não é um cidadão europeu de 2026 perdido no Mediterrâneo. E, no entanto, reconhecemo-nos nele. Porquê? Porque por detrás da distância histórica existe aquilo a que poderíamos chamar o fundo mítico da experiência humana.

Em Homero além do mito que descreve a passagem axial de um mundo matriarcal para o patriarcal, na sua narrativa o homem regressa, perde-se, deseja,  combate na tentativa de procurar a sua casa. Porém o poder corrompe, a vaidade cega, a vingança destrói e a fidelidade é posta à prova.

O facto é que mudam as épocas e as instituições, mas certas estruturas profundas da condição humana reaparecem no espírito do tempo de cada época. É por isso que os mitos sobrevivem e por vezes transmitem uma verdade mais profunda do que as verdades históricas.

E é  aqui que uma cultura verdadeiramente moderna deveria ser mais criativa: em vez de adaptar o mito antigo aos preconceitos do presente, utilizá-lo para interrogar o presente.

Em vez de transformar Ulisses num homem contemporâneo, perguntar o que há de Ulisses no homem contemporâneo. Em vez de corrigir Penélope segundo as categorias atuais, perguntar o que continuam a significar a espera, a fidelidade e a resistência. Em vez de tornar Aquiles moralmente aceitável para nós, perguntar por que razão a sua cólera continua a ser reconhecível na actualidade. Isto seria uma verdadeira modernização.

Não modernizar o passado, mas modernizar o nosso olhar sobre nós próprios. Os clássicos não sobrevivem porque repetem o presente. Sobrevivem porque o transcendem.

Cada geração tem, naturalmente, o direito de os reinterpretar. A cultura só permanece viva porque é continuamente relida. O problema começa quando reinterpretar passa a significar corrigir e quando a interpretação de uma obra deixa de ser uma possibilidade para se transformar na única leitura moralmente autorizada.

A censura contemporânea nem sempre precisa de proibir. Pode simplesmente dizer: “Podes ler, mas deves compreender isto da maneira correta.” Uma cultura livre precisa, porém, de preservar não apenas a circulação das obras, mas também a liberdade de as interpretar, sem ter dre as difamar para fazer passar bem na fotografia o politicamente correcto actual.

É chegada a hora em que nos deveríamos desconfiar de uma cultura que se considera aberta à diferença, mas tem dificuldade em aceitar a diferença das épocas. Há ainda um paradoxo adicional. Nunca tivemos tanta informação e talvez nunca tenha sido tão fácil confundir informação com conhecimento. Uma frase, um vídeo de poucos segundos, uma imagem, uma opinião e uma indignação sucedem-se numa avalanche permanente. E o busílis da questão é que temos  apenas fragmentos e formamos certezas.

Vivemos numa época que exige muita atenção e espírito crítico porque a informação substitui o estudo, a opinião substitui a reflexão, a indignação substitui o argumento. Talvez este seja um dos novos analfabetismos do nosso tempo: não o de quem não sabe ler, mas o de quem lê incessantemente sem saber distinguir, contextualizar, comparar e pensar.

E assim o passado transforma-se facilmente num tribunal ou em instrumento de formatização à medida do momento ou da ideologia que se quer fazer passar. E então em vez de perguntarmos “Como foi possível que isto acontecesse?”, perguntamos apenas “Como puderam eles fazer isto, quando hoje sabemos que estava errado?”

A primeira pergunta procura compreender. A segunda procura confirmar a nossa superioridade. Maior prudência pressuporia mais sabedoria porque o passado não teve o nosso manual de instruções!

Todas as épocas acreditaram, em maior ou menor grau, que tinham finalmente compreendido o mundo. Também nós acreditamos. Também nós temos os nossos preconceitos, as nossas cegueiras e as nossas verdades que parecem tão evidentes precisamente porque pertencem ao nosso tempo e à formatação que inconscientemente nos obriga. Esquecemos que por detrás da distância histórica existe aquilo a que poderíamos chamar o fundo mítico da experiência humana.

Daqui a cem ou quinhentos anos, outros poderão olhar para as nossas certezas com o mesmo espanto com que hoje olhamos para as certezas dos outros. É essa possibilidade que deveria tornar-nos humildes perante a História, perante religiões, culturas e pessoas passadas. Não precisamos de absolver o passado. Mas também não precisamos de o reescrever. Não precisamos de transformar Homero, Shakespeare ou Cervantes em nossos contemporâneos. Precisamos de compreendê-los como diferentes e, depois, perguntar o que essa diferença revela sobre nós.

Porque o mito é também um espelho. De facto, o tirano muda de nome e o herói muda de roupa e a multidão muda de praça para rede social. A propaganda deixa o pergaminho e entra no algoritmo. Mas a ambição continua ambição, a vaidade continua vaidade, o medo continua medo, o amor continua amor e a traição não precisou de ser modernizada.

Talvez seja por isso que os clássicos continuam a incomodar-nos. Não porque estejam ultrapassados, mas porque não estão suficientemente ultrapassados. Continuam a reconhecer-nos. E um espelho que reconhece o nosso rosto pode ser mais perturbador do que aquele que apenas confirma a imagem que gostaríamos de ter.

Comecei por falar da mudança das palavras. Hoje parece-me que a questão é maior, porque primeiro mudámos os nomes das coisas, depois começámos a mudar o significado das coisas e agora corremos o risco de mudar a maneira como recordamos aquilo que aconteceu.

É aqui que o eufemismo pode transformar-se em algo mais perigoso, porque uma coisa é tornar a linguagem mais civilizada e outra é tornar a memória mais conveniente.

Talvez a verdadeira atitude moderna não seja obrigar o passado a usar as roupas do presente. Talvez seja ter imaginação suficiente para olhar para o presente através dos olhos do passado e descobrir que, apesar de todas as nossas máquinas, teorias e certezas, continuamos a representar muitos dos velhos dramas humanos.

Em vez de perguntarmos apenas o que há de errado com os clássicos à luz dos nossos valores, seria de  perguntar: O que é que eles conseguem revelar sobre os nossos próprios limites?

Essa pergunta exige mais conhecimento, mais imaginação, mais criatividade e, sobretudo, mais humildade, porque o passado não é um aluno atrasado que espera pela nossa correção.

Somos nós que, inevitavelmente, acabaremos por ser passado. O nosso paradoxo contemporâneo é sermos muito tolerantes com a diferença, mas só enquanto a diferença pensar como nós.

Penso que por trás de um discurso moderno e por vezes snobe se esconde uma modernidade que tem medo dos clássicos. Que modernidade é esta que pretende corrigir Homero para se sentir moralmente superior a Homero. Que modernidade é esta que transforma Shakespeare num acusado e Cervantes num suspeito!

O que falta no nosso tempo é uma modernidade suficientemente segura de si para escutar o passado sem o domesticar e que talvez seja capaz de dizer :“Não penso como tu. Mas quero compreender por que pensavas assim e deixa-me descobrir o que em ti continua a existir em mim.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=11217
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

domingo, 26 de julho de 2026

VOLTANDO AO ACORDO ORTOGRÁFICO

 

                               Para pessoas insatisfeitas com o AO e interessadas na discussão
 
Ao ler-se o artigo “O Acordo Ortográfico ainda não pode ser julgado” de Paulo Freitas do Amaral, no jornal “Correio de Lagos” https://correiodelagos.com/.../o-acordo-ortografico.../# , verifica-se que o artigo é um primor de retórica histórica, mas peca por determinismo tecnológico. Ele olha para as redes de informação como um mero eco do Acordo, quando, na verdade, elas são o seu principal campo de batalha. Longe de tornarem o Acordo irreversível, as novas tecnologias expõem as suas incongruências diariamente, mantendo viva a grafia anterior nos motores de busca e permitindo, pela primeira vez na História, uma flexibilidade ortográfica em tempo real. Se o autor estivesse certo, a inteligência artificial já teria resolvido a questão; mas a realidade é que a IA gera constantemente erros e confusões entre as variantes, provando que o Acordo não é uma realidade cultural consolidada, mas uma norma administrativa em permanente tensão com a prática viva da língua, uma tensão que a tecnologia, afinal, tornou mais visível, e não mais pacífica.
1. O "argumento da escala temporal" é uma falácia de autoridade ao apelar para a História. Quando afirma que 20 anos são "extremamente curtos" perante "nove séculos", ele está a cometer um sofisma. Este raciocínio é uma armadilha lógica que torna qualquer crítica eternamente prematura. Se 20 anos são curtos, 50 também o serão, e 100 também, porque a língua tem 900.
O que ele esconde com esta retórica é que a avaliação de um sistema não precisa de séculos. A coerência interna de uma língua avalia-se pela lógica, não pela cronologia. Se eu desenhar um mapa com coordenadas erradas, não preciso de esperar 50 anos para saber que os viajantes se vão perder; posso analisar a geometria do mapa no dia seguinte. O Acordo Ortográfico tem vícios lógicos que são atemporais e que a retórica do autor tenta abafar com a névoa do "tempo histórico".
2. A "coerência interna" e o pecado da exceção (O "deus dará")
O historiador deixa a coerência "ao deus dará". Coerência interna é a relação previsível entre a fonologia (o som) e a grafia (a escrita), e a relação morfológica entre palavras da mesma família (ex: eletricidade / elétrico). Se a língua não obedece a decretos, porque assume que obedece a este?
O Acordo Ortográfico, na sua aplicação prática, quebrou essa coerência em vez de a aperfeiçoar. Ele eliminou as consoantes mudas (ex: acção, ação), mas apenas quando não são pronunciadas. Contudo, na derivação, essas mesmas consoantes reaparecem porque são pronunciadas: escrevemos ação (sem 'c'), mas escrevemos acionista ou acionar (com 'c'? Não, espera, a regra é acionar sem 'c' também? Vamos a um exemplo mais claro: contacto, passou a contato em Portugal? Não, a regra diz que se a consoante for pronunciada, mantém-se. Então pacto mantém o 'c' porque se pronuncia? Com isto abre-se caminho à confusão.
O exemplo clássico é a dupla grafia de verbos que passaram a ter oscilações caóticas. Como já referi no artigo https://antonio-justo.eu/?p=11083 o que o Acordo fez foi substituir uma ortografia etimológica (com regras claras, ainda que complexas) por uma ortografia fonética superficial, mas cheia de exceções e casuísmos e empobrecimento das pessoas gramaticais. É exatamente o oposto de uma coerência interna, passando a ser uma colcha de retalhos. Ignorar esta análise técnica em nome de "já passou uma geração" é, de facto, deixar o rigor ao acaso.
3. A confusão entre "sucesso de implementação" e "qualidade sistémica"
O autor do texto troca os campos semânticos propositadamente. Ele diz que não se pode chamar "fracasso" porque as pessoas estão a escrever de acordo com a nova norma. Mas isso é confundir adesão forçada com qualidade linguística.
A escolaridade obrigatória e os dicionários institucionais impõem qualquer norma, mesmo que ela seja má. A questão nunca foi se as pessoas conseguem adaptar-se (elas conseguem porque os humanos são plásticos), mas sim o que se perdeu nessa adaptação. Perdeu-se a transparência etimológica (a ligação ao latim e grego, que ajudava na compreensão de palavras eruditas), perdeu-se a distinção gráfica entre palavras homófonas (ex: cesta e sexta já eram confusas, mas outras surgiram) e, sobretudo, perdeu-se a unicidade da raiz morfológica. Avaliar o sucesso ou fracasso sem passar pelo crivo da funcionalidade cognitiva e pedagógica é um debate vazio. O autor foge desse crivo porque, se o enfrentasse, teria de admitir que a reforma é, na melhor das hipóteses, um mal que atenta contra a lógica da língua.
4. O "tempo" não cura contradições lógicas
Por fim, a maior fragilidade da posição do historiador é assumir que o tempo é uma espécie de alquimia que transforma o errado em certo. Se uma regra é internamente contraditória hoje, continuará a sê-lo daqui a 100 anos. As pessoas podem habituar-se à contradição porque o cérebro humano normaliza o absurdo, mas isso não faz dela uma boa regra. A História que ele invoca não é um juiz que absolve os erros; é um arquivo que os regista.
Quando ele diz que "a língua não obedece a decretos", e simultaneamente defende que os decretos devem permanecer só porque foram aplicados, ele está a contradizer a sua própria premissa. Se a língua é orgânica, ela rejeitaria espontaneamente as más soluções. Ora, o que vemos é que a língua não rejeitou porque a tecnologia e a escola a amoleceram. Estamos perante uma língua em estado de "vida assistida", não de evolução natural.
Em suma, o texto de Paulo Freitas do Amaral é uma magnífica peça de oratória para silenciar críticos, apelando à paciência histórica. Mas a verdade é que um linguista ou um filólogo sério não precisa de esperar 900 anos para saber se uma reforma faz sentido; precisa apenas de olhar para o paradigma verbal, para a derivação sufixal e para a economia cognitiva da escrita. E, nesse olhar, o Acordo revela-se frágil, incoerente e profundamente dependente de "deus dará" – ou, pior, do "deus algorítmico" dos corretores ortográficos. Na qualidade de historiador Paulo Freitas do Amaral pronuncia-se sobre um assunto que não faz parte da sua especialidade e deveria reconhecer que a filosofia da História não deve seguir o cunho político/partidário porque obedece a uma outra lógica.
António da Cunha Duarte Justo
Continua em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11207

quarta-feira, 22 de julho de 2026

A TRINDADE COMO RELAÇÃO DAS RELAÇÕES E O CONTEXTO DA FÍSICA QUÂNTICA


Se a Trindade é relação pura, então o real não se deixa aprisionar em guetos disciplinares. Ciência, teologia e arte não são linguagens rivais, mas modos complementares de tecer o mesmo véu. Aparentes contrários como o empírico e o metafísico, o cálculo e o símbolo, a precisão e o mistério, não se anulam; antes, articulam-se numa tensão fecunda. Reconhecer essa complementaridade e o processo de acesso à realidade não é um gesto de conciliação ingénua, mas a atitude fundamental de quem se dispõe a olhar para a realidade sem a despedaçar em caixinhas separadas.
O conceito trinitário de Deus, definido como relação pura (relação das relações), oferece um paradigma teórico e arquetípico capaz de fundamentar a transdisciplinaridade. Nesse quadro, conciliam-se sob uma mesma matriz relacional os distintos regimes de apreensão do real: o científico, o teológico e o artístico.
A trindade como a relação das relações
No debate teológico, o conceito-chave reside na interpenetração mútua das três Pessoas divinas (pericorese), articulada à definição tomista de que, na Trindade, as pessoas são relações subsistentes. Se o Transcendente (Deus) e o Encarnado (o Cosmos/Cristo) se definem como pura relação, então a realidade deixa de ser um conjunto de 'coisas' estáticas para se configurar como um tecido de conexões.
Quando se define a realidade desta forma, a transdisciplinaridade torna-se obrigatória. Se tudo é relação, nenhum método isolado consegue capturar o todo. A teologia, a filosofia e a física quântica tornam-se simplesmente diferentes comprimentos de onda ou perspetivas para observar a mesma rede relacional.
O ponto de encontro dos modelos e das imagens
A nova física é indissociável de seus construtos teóricos (símbolos). Ademais, constitui um facto epistemológico incontornável que qualquer ferramenta utilizada para abordar a realidade recorre inevitavelmente a imagens.
No que toca a Modelos e Metáforas, nem a física quântica vê o electrão em si, nem a teologia vê Deus em si. A física serve-se de construtos matemáticos e imagens (como "ondas", "partículas", "spin" ou "campos") para esquematizar o comportamento da matéria. A teologia serve-se de imagens e mitos (como "Pai", "Filho", "Sopro-Espírito") para delinear o mistério do Ser. (1)
No que se refere à ilusão do Método Puro, o grande erro do cientificismo clássico foi o dogmatismo metodológico, ou seja, acreditar que o método científico era a própria realidade e não apenas uma ferramenta de tradução. Quando nos libertamos dessa fixação cega, percebemos que tanto o físico como o teólogo estão a criar modelos representativos para decifrar as relações constituintes do universo.
Onde reside o problema e qual a razão de ele existir?
Se esta convergência é tão lógica, porque é que ela encontra tanta resistência? O problema não é de ordem do ser (ontológica), mas sim do estar (existencial), institucional e cultural! O busílis da questão vem:
a) do apego ao Poder Epistémico (teoria do conhecimento) onde historicamente, as disciplinas defendem as suas fronteiras para manter a sua autoridade. O cientificismo rejeita a teologia por medo do regresso ao dogmatismo religioso; a teologia, por vezes, isola-se por medo de ver os seus mistérios reduzidos a meros fenómenos psicológicos ou físicos;
b) da confusão de Níveis de Realidade. O físico Basarab Nicolescu, um dos pais da transdisciplinaridade, explica que a realidade é composta por diferentes níveis. O erro acontece quando se tenta aplicar as leis de um nível (como as equações matemáticas da física) diretamente noutro nível (como a experiência existencial do sagrado), gerando uma tradução literal e grosseira em vez de um diálogo transdisciplinar simbólico. (2).
Ao assumir a "relação das relações" como a base de tudo, valida-se que a ciência capta a dimensão mensurável dessa relação, enquanto a teologia e a mítica captam a sua dimensão de sentido profundo, sem que uma precise de anular a outra.
A física quântica ao resgatar o papel de observador (e da imagem) na construção da realidade está precisamente a seguir o modelo místico de acesso à realidade presente na teologia. O busílis mais revolucionário da epistemologia contemporânea situa-se precisamente no facto que é o colapso da separação absoluta entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. Ao colocar o observador no centro da constituição do real, a física quântica rompe com o ideal mecanicista de Newton e Galileu e aproxima-se, estruturalmente, do modelo místico e teológico de acesso à realidade.
O observador na física e na mística
Na física clássica, o cientista era um espectador neutro a olhar através de uma janela para um mundo mecânico preexistente. Na física quântica, o observador torna-se participante:
O Efeito do Observador: No nível subatómico, as partículas existem numa sobreposição de possibilidades (onda). É o acto de medição, a interferência do observador, que colapsa essa onda numa realidade concreta (partícula). O real não está "lá fora" à espera de ser descoberto; ele coemerge com a observação. (3)
A Experiência Mística: Na teologia mística (como na tradição de Mestre Eckhart ou no Pseudo-Dionísio), o conhecimento de Deus não acontece por via de uma análise exterior e distante. O mistério só se revela através da participação e da união. O místico sabe que o seu próprio olhar e o seu estado de consciência alteram e moldam a perceção do Divino. O sujeito e o objeto fundem-se na experiência.
O resgate da imagem e do símbolo
A física quântica, ao lidar com uma realidade que não pode ser vista diretamente (como os quarks ou as cordas) é forçada a abandonar o literalismo e a abraçar a linguagem simbólica, tal como a teologia:
A Imagem como Ponte: Como o ser humano não consegue conceber algo que seja onda e partícula ao mesmo tempo, a física usa estas "imagens" como metáforas matemáticas para aproximar a nossa mente de uma realidade irrepresentável.
O Ícone Teológico: Na teologia, a imagem (o ícone, o mito, o dogma) nunca é a realidade última (Deus), mas sim o veículo necessário que permite ao observador humano relacionar-se com o Transcendente. Ambos os campos compreendem que a imagem não é a coisa em si, mas a única forma de o observador interagir com o invisível.
A realidade como coocorrência
Penso que é possível criar linhas de pensamento em que a realidade, seja ela a matéria quântica ou a transcendência encarnada, funciona sob um princípio de coocorrência. Não há uma realidade objetiva pura sem uma consciência que a testemunhe, nem há uma consciência sem uma realidade para se manifestar.
O "problema" metodológico desaparece quando compreendemos que a mística usa a intuição, a contemplação e o símbolo para aceder ao Todo, enquanto a física quântica usa o formalismo matemático e a experimentação laboratorial para aceder à textura relacional da matéria. O essencial em tudo isto é que tanto a Teologia cristã (fórmula trinitária da realidade) como a nova física (física Quântica) chegam à mesma conclusão de que a separação é uma ilusão e que o fundamento do ser é a interação. (A física quântica provou que o mundo não é sólido, fixo ou objectivo, mas sim um campo dinâmico de possibilidades).
O físico e filósofo Bernard d'Espagnat, com o seu conceito de “Realismo Velado“ propõe o princípio que a realidade última está escondida e só se mostra através das nossas estruturas conceituais. Por seu lado Alfred North Whitehead com a Teologia do Processo reformulou a ideia de Deus a partir deste dinamismo e interdependência quântica.
A Teologia do Processo, a Teologia da Libertação e o pensamento cosmoteândrico de Raimon Panikkar convergem para equacionar a realidade de forma complementar através de um paradigma relacional e participativo. Em vez de excluírem a física, estas três correntes integram-na como a descrição material e estrutural dessa mesma rede de relações. Por seu lado, também a física reconhece que não sobrevive sem recurso à simbologia...
António da Cunha Duarte Justo

UE retira Financiamento à Bienal de Arte de Veneza devido à Participação da Rússia


A União Europeia, através da Agência Executiva Europeia para a Educação e a Cultura (EACEA), cancelou definitivamente um subsídio de dois milhões de euros destinado à Bienal de Veneza...
O motivo invocado foi a decisão da organização da Bienal de admitir a participação da Rússia na 61.ª edição da exposição internacional de arte contemporânea, que decorre de 9 de maio a 22 de novembro...
O porta-voz da Comissão Europeia, Thomas Regnier, declarou que “os eventos culturais financiados pelo dinheiro dos contribuintes europeus devem salvaguardar os valores democráticos, promover o diálogo aberto, a diversidade e a liberdade de expressão, valores que não são respeitados na Rússia atual” ...
A decisão gerou também críticas por parte do governo italiano, com a subsecretária da Cultura, Lucia Borgonzoni, a classificar a medida como “mais um ataque político e ideológico” a uma instituição cultural...
A Bienal sublinhou ainda que a decisão “não tem impacto significativo no orçamento, nas contas ou nas atividades previstas”, e reiterou que foi fundada com base nos princípios de “abertura, diálogo e rejeição de qualquer forma de encerramento ou censura”. O presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, argumentou que “se a Bienal começar a selecionar não as obras, mas os bens, não as visões, mas os passaportes, deixaria de ser o que sempre foi: o lugar onde o mundo se reúne” ...
A decisão da União Europeia suscita várias questões e uma análise crítica. Em primeiro lugar, a própria Bienal sublinha que os fundos em causa não se destinavam à exposição de arte propriamente dita, mas a outras atividades culturais. A suspensão do financiamento por razões alheias ao objeto do subsídio pode ser vista como uma medida desproporcionada.
Em segundo lugar, a argumentação da EU, de que a cultura financiada com dinheiros públicos deve “promover e salvaguardar valores democráticos”, coloca a questão de saber quem define o que são esses valores e como devem ser promovidos. A decisão corresponde a um entendimento segundo o qual o poder político se arroga o direito de definir os limites da liberdade artística, o que contradiz o próprio princípio da liberdade de expressão que a UE diz defender.
Em terceiro lugar, a medida levanta a questão da seletividade: a UE focou exclusivamente a participação da Rússia, apesar de também terem ocorrido protestos contra a presença de Israel na Bienal. Esta aparente disparidade de critérios pode ser interpretada como uma aplicação política e não de princípios lógicos como os valores invocados.
Por fim, a decisão penaliza os artistas e a instituição cultural, sem que estes tenham necessariamente responsabilidade direta pelas decisões geopolíticas que motivaram o corte de financiamento. A cultura, enquanto espaço de diálogo e encontro entre povos, corre o risco de se tornar instrumento de uma política que, ao pretender defender valores, acaba por cercear a própria liberdade que diz proteger.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11199

segunda-feira, 20 de julho de 2026

SOMOS MÁSCARA E VULCÃO

Cada pessoa é um mistério insondável, uma gruta que recua sempre um passo mais fundo do que a luz da nossa vela consegue alcançar. E porque o poço não tem fundo visível, cada um se apressa a construir, sobre a boca do abismo, uma máscara, não para mentir, mas para não cair. A máscara é o primeiro gesto de sobrevivência do mistério perante o mundo.

Chamamos "real" àquilo que se vê, e, no entanto, o que se vê é apenas o facete que a luz do momento escolheu iluminar num caleidoscópio que gira sem parar. Somos feitos de mil cacos coloridos, mágoas, ternuras, ambições, silêncios e a cada volta da roda um desenho novo se compõe, sempre parcial, sempre provisório. Confundir esse desenho fugaz com a totalidade de quem somos é confundir a sombra projectada na parede com o corpo que a projecta, como sugestionava Platão na imagem projectada nas paredes da caverna.

E ainda assim é preciso descrever a máscara. Só que a máscara que se debruça sobre si mesma, tentando conhecer-se, não pode fazê-lo senão a partir de outra máscara, a do próprio autoconhecimento. É o espelho colocado diante do espelho: as imagens multiplicam-se em corredores infinitos, cada vez mais pequenas, cada vez mais fiéis à ideia de fundo e cada vez mais longe de o tocar. Conhecemo-nos, sim, mas conhecemos o rosto pintado, nunca a argila anterior à pintura.

Resta a intenção. É ela quem lança sobre o gesto o manto pesado e luminoso da verdade, como quem cobre com um pano de altar uma mesa qualquer e a transfigura. Mas o manto não muda a madeira por baixo: a acção, vestida de boa intenção, continua presa aos limites estreitos da consciência que a gerou, e raramente coincide com a Acção maior, aquela que seria plena, livre, sem sombra de cálculo ou de medo. Entre o que queremos fazer e o que verdadeiramente fazemos corre sempre um fio de água que se perde entre pedras.

E isto porque somos amassados, ao mesmo tempo, com barro de Deus e com barro do Diabo, o que fica à superfície, o que os outros, também mascarados, conseguem ler em nós, é sempre uma liga das duas argilas, nunca uma só. Há quem, ao olhar-nos, veja sobretudo o brilho: chamemos-lhe os que descobrem mais Deus. Há quem repare primeiro na fenda escura: os que descobrem mais o Diabo. E há ainda os mafarricos, os olhos treinados apenas para a fuligem, que por mais luz que uma alma ofereça, insistem em não enxergar senão o fumo. O espelho que cada um nos estende devolve sempre a sua própria cegueira, tanto quanto a nossa verdade.

No fundo, todos andamos, mafarricos incluídos, à procura de nós mesmos, tacteando no escuro de um corredor de espelhos. Mas a máscara tecida de Deus e de Diabo, a máscara que somos e que os outros veem, é precisamente aquilo que nos impede de tocar o fundo de nós próprios. Falamos com orgulho de autoconhecimento, como quem fala de uma terra já conhecida e, no entanto, o que conhecemos, quando muito, são as máscaras e as suas funções, o rosto que usamos no trabalho, o que usamos em casa, o que usamos sozinhos diante do espelho, que também é máscara, só que mais íntima.

Isto explica-se porque no mais interior de nós mesmos não há sala iluminada, há vulcão. Há um magma de amor que não conhece lei nem moral, um fogo anterior a qualquer código, que a crosta, a máscara e a pele endurecida da nossa história, tanto precisa de conter, de nomear, de vestir com regras, precisamente para poder existir à superfície do mundo sem se dissolver nele. E tal como o magma da terra só ganha forma no próprio acto de irromper, arrefecendo em contacto com o ar até se tornar rocha, pedra, paisagem, também o nosso amor mais fundo só se torna forma, gesto, rosto reconhecível, no instante em que sobe até à crosta e se exterioriza. Antes disso é apenas potência incandescente, sem nome, sem contorno, informe de tão vasta.

Eis o paradoxo em que vivemos: buscar a face nua sob a máscara é um projecto tão impossível como pedir ao magma que se mostre magma, e não rocha, sem deixar de correr. O que resta, então, não é a queixa de nunca chegarmos ao fundo, mas o assombro de que exista fundo, existia um vulcão de amor a arder em cada um de nós, mesmo quando tudo o que os outros e nós próprios conseguimos ver é a crosta que ele, generosamente, criou para se dar a ver.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=11192

sábado, 18 de julho de 2026

DAS "BESTAS APOCALÍPTICAS"

 

EUROPA VISTA SOB PERSPECCTIVA AFRICANA

 

O Cardeal Robert Sarah, numa lectio magistralis no Parlamento Europeu, em Bruxelas, apelou a que as palavras «homem», «mulher» e «família» sejam reconhecidas como realidades ontológicas e não como construções sociais manipuláveis. Durante a intervenção, o purpurado guineano classificou a ideologia de género e o fundamentalismo islâmico como «duas bestas apocalípticas» que ameaçam a dignidade humana.

Sarah centrou a sua reflexão naquilo que designou como uma «crise do logos» (da razão e da linguagem), argumentando que as instituições europeias utilizam uma semântica ambígua, como «saúde sexual e reprodutiva» ou «igualdade de género», para impor, através de tratados e ajudas financeiras, políticas contrárias à visão antropológica africana, num autêntico neocolonialismo cultural e económico. O cardeal alertou que quem controla o significado das palavras controla o resultado das negociações, sem que a outra parte se aperceba.

Para sustentar a sua tese, Sarah articulou o magistério de três Papas: Bento XVI (sobre a razão e o direito natural), Francisco (sobre a «colonização ideológica» e a defesa da família) e Leão XIV (sobre a necessidade de palavras que expressem realidades certas e unívocas). Denunciou ainda o que chamou de «sistema de três níveis» de condicionalidade, normativo (resoluções da UE sobre aborto e políticas LGBT+), jurídico-convencional (Acordo de Samoa) e financeiro (instrumento NDICI de 200 mil milhões de euros), citando o caso do Uganda como exemplo claro de pressão externa para alterar a legislação soberana de um país.

A nível educativo, criticou a imposição de uma visão gender-transformative que ensina as crianças a considerar a identidade sexual como fluida e desligada do corpo. Por fim, Sarah apelou a que a União Europeia faça um exame de consciência: «Escutem África. Respeitem a soberania cultural», oferecendo uma cooperação livre de agendas ideológicas, e lembrou que o continente africano, com a sua fé viva e o seu sentido de família, pode ajudar o Ocidente cansado a reencontrar o seu próprio logos.

Notícia completa em https://www.infocatolica.com/?t=noticia&cod=55525&utm_medium=email&utm_source=boletin&utm_campaign=bltn260717

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11185

terça-feira, 14 de julho de 2026

A FALÁCIA DA TÁTICA DE OPOR ESPIRITUALIDADE A RELIGIÃO

Vivemos um tempo em que se tornou quase um sinal de distinção afirmar que se é espiritual, mas não religioso. A frase, repetida até à exaustão, parece oferecer uma síntese elegante da sensibilidade contemporânea. A espiritualidade surge como experiência livre e autêntica e a religião, como sinónimo de instituição, norma e poder. Esta oposição, porém, mais do que descrever a realidade, revela uma construção ideológica que empobrece ambas e revela segundas intenções.

É verdade que a dimensão espiritual não depende necessariamente da pertença a uma religião (e além disso também dentro da religião há diferentes nuances de espiritualidade). Muitos experimentam transcendência na natureza, na arte ou no amor, sem se identificarem com qualquer tradição. Contudo, reconhecer esta evidência não implica transformar espiritualidade e religião em conceitos rivais.

A cultura contemporânea favorece uma espiritualidade à la carte, moldada segundo preferências individuais, como se o indivíduo pudesse construir sozinho todo o sentido da sua existência. O ser humano, porém, nunca existe isoladamente. Somos constituídos pelo Eu, pelo Tu e pelo Nós. A nossa identidade nasce do encontro e amadurece na pertença. Nenhuma comunidade perdura sem instituições vivas que lhe deem continuidade, memória e estabilidade.

Apresentar a espiritualidade como algo exclusivamente inato e independente de qualquer aprendizagem constitui uma simplificação antropológica errónea. A disposição para a transcendência pode ser constitutiva, mas toda a potencialidade necessita de desenvolvimento. Também a linguagem é inata, mas ninguém nasce a falar; aprende-se no diálogo. O mesmo acontece com a espiritualidade: cresce através da educação, da cultura, da reflexão e, para muitos, da vida religiosa. Facto é que o inato e o adquirido completam-se.

As grandes tradições religiosas representam este património acumulado de sabedoria. Os seus símbolos, ritos e narrativas não são convenções exteriores porque constituem linguagens que ajudaram milhões a interpretar a existência, a enfrentar o sofrimento e a abrir-se ao mistério. Sem estas mediações, a experiência espiritual corre o risco de perder profundidade histórica e ficar prisioneira do instante; sem as instituições já teriam desaparecido.

A antiga máxima latina, “haec oportuit facere et illa non omittere”, exprime este equilíbrio. Não se trata de escolher entre espiritualidade e religião, mas de reconhecer que ambas se enriquecem mutuamente. A espiritualidade oferece à religião a vivência mística interior que impede o formalismo e, por seu lado, a religião oferece à espiritualidade uma memória viva, uma ética e uma comunidade que a preservam do subjetivismo absoluto.

É importante resistir à tentação das falsas alternativas ao serviço de segundas intenões para criarem um mundo caótico favorável ao relativismo que tudo justifica, como se observa no wokismo. Espiritualidade e religião não são inimigas naturais, como pretendem os seus predadores. Quando permanecem unidas, uma alimenta a interioridade e a outra preserva a comunhão e a responsabilidade ética. Separadas artificialmente, ambas empobrecem, pois a espiritualidade dissolve-se num individualismo sem raízes, e a religião degenera num formalismo sem alma.

Ultrapassar esta oposição é reconhecer que o ser humano vive sempre entre a mesmidade e a alteridade, entre a liberdade pessoal e a pertença comunitária. É nessa tensão fecunda que amadurece uma espiritualidade verdadeiramente humana que se torna suficientemente livre para procurar a verdade e suficientemente humilde para reconhecer que ninguém percorre sozinho o caminho do mistério.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11168

segunda-feira, 13 de julho de 2026

BRUXELAS EMPENHADA EM REDUZIR A CULTURA EUROPEIA A INSTRUMENTO DE GUERRA

A ameaça pairou sobre os canais de Veneza como uma névoa salobra, indiferente à beleza dos palácios e ao murmúrio das gondolas. Dois milhões de euros, ninharia para os cofres opulentos de Bruxelas, mas cifra vital para a alma de uma Bienal que sempre se quis universal, ficaram suspensos por um capricho geopolítico. A senhora comissária, Henna Virknen, brande o seu telemóvel como outrora se brandia uma espada, anunciando na efémera praça digital que a cultura deve pagar o preço da desobediência. Eis o primeiro sintoma da bílis de que fala o povo: a razão turva-se quando o poder resolve vestir a farda do moralismo.

Ora, independentemente do xadrez económico e político que se joga na Ucrânia, essa pobre terra transformada em cavalo de Troia dos grandes estrategas globais, uma coisa se nos afigura cristalina. A Europa, velha de séculos mas surpreendentemente imatura na sua gerontocracia, julga rejuvenescer apostando apenas nas suas qualidades guerreiras. É um equívoco trágico e profundamente irónico: um continente que inventou a universidade, a sinfonia e a declaração dos direitos do homem reduz-se agora à retórica do bombardeiro e ao gesto do diplomata que só conhece a provocação como forma de diálogo. O poder, nessa Bruxelas asfixiante, parece ter esquecido todas as línguas, excepto a do dinheiro e a da sanção. Impõem-se "valores subversivos" contra "valores sagrados", mas ninguém se dá ao trabalho de definir quais são uns e outros, porque, neste conflito surdo contra o povo europeu e contra o povo russo, parece reger o argumento cínico do tudo vale.

Escutemos, com atenção, os hinos do fanatismo contemporâneo. Lá longe, do outro lado do Atlântico, ouvimos o eco gutural de "América acima de tudo". Aqui, no velho continente, respondemos com o timbre melífluo, mas igualmente vazio de "Valores democráticos da Europa acima de tudo". É a mesma moeda, cunhada em lados diferentes, servindo o mesmo espírito do globalismo que sopra das torres de marfim financeiras para as planícies do sofrimento real. Cada vez se tem mais a impressão, e o senso comum, esse bem raro, teima em confirmá-lo, de que a grandeza das potências tem como condição necessária a humilhação metódica do cidadão comum. A dissidência, nessa Europa embriagada de si mesma, é simplesmente pensar de forma diferente; a heresia, hoje, é querer a paz sem submeter a alma ao dogma.

É preciso, pois, que o povo desperte. Não o povo abstracto dos discursos oficiais, mas a carne e o osso que pagam impostos e criam os filhos. Bruxelas estende-se como um polvo de braços tecnocráticos, avassalando até os sagrados espaços da cultura, transformando a arte num campo de batalha rasteiro. A Bienal de Veneza, que devia ser um oásis de contemplação, arrisca-se a tornar-se um museu da censura. E esta é a maior tragédia: quando os burocratas se arrogam o direito de definir o que é ou não "democrático" na paleta de um pintor ou na música de um compositor, estamos a trocar a utopia pela polícia.

O humanismo, esse velho amigo esquecido, dita que a cultura não é instrumento de guerra, mas trégua. A cultura não é arma de arremesso, mas ponte. Se a Europa quer verdadeiramente rejuvenescer, que olhe para os seus filhos, não para os seus generais; que se inspire nos seus filósofos e teólogos, não nos seus comissários. Que guarde o cinismo para a política, que é, afinal, a sua matéria-prima e a generosidade para a arte. Caso contrário, a Bienal de Veneza não será a única a afogar-se nas suas águas turvas; afogar-se-á a própria ideia de Europa, vítima da sua própria bílis, sufocada pelo polvo que criou para a defender.

E quando isso acontecer, não digam que o povo não avisou.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11163

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O CAVALO DE TROIA DE BRUXELAS

 

Como a "Democracia" europeia se curva à Plutocracia enquanto os Deputados fazem as Malas

A Arte de aprovar leis quando ninguém está a olhar

Enquanto a maioria dos cidadãos europeus se prepara para as férias, a máquina burocrática de Bruxelas engrenou a toda a velocidade para ressuscitar o Chat Control. Depois de ter sido rejeitado em março, o monstro da vigilância em massa voltou à ordem do dia através de uma manobra processual digna de um golpe de bastidores.

- Quando? Véspera da pausa de verão, com metade dos deputados já de partida ou distraídos com o futebol.
- O resultado da votação preliminar (7 de julho): 331 a favor, 304 contra, 11 abstenções. Mas 74 eurodeputados estavam ausentes. Ou seja, a "maioria" que reabriu o processo foi, na verdade, uma minoria do plenário.

A Armadilha perfeita

A jogada de mestre dos representantes da  plutocracia de Bruxelas é esta: ao forçar o regime de urgência, a votação final (dia 9 de julho) passou a exigir uma maioria absoluta de 361 votos para travar a medida.

- Se os opositores não atingirem os 361 votos contra a lei é automaticamente adoptada.
- Basta que os deputados estejam de férias ou ausentes para que a vigilância passe. A democracia morre por omissão.

A Hipocrisia em Estado puro

Bruxelas gosta de se arvorar em defensora da democracia, apontar o dedo à Rússia e à China, e pregar lições de moral ao mundo. No entanto, faz exatamente o que condena: cria ferramentas para ler as nossas mensagens privadas, viola a encriptação e reduz os cidadãos a meros objetos funcionais.

"Temo os gregos, mesmo quando trazem presentes" – Laocoonte gritou a verdade, ouviu-se o som oco do cavalo, mas Troia preferiu a mentira confortável. O Cavalo de hoje chama-se Chat Control, e os gregos são os burocratas que querem escrutinar a nossa vida privada em nome da "proteção".

O que está em Jogo

A votação final é amanhã, 9 de julho de 2026. Os 74 eurodeputados que faltaram à votação preliminar têm o poder de decidir o rumo da nossa liberdade.
- Precisamos de 361 votos CONTRA.
- Se regressarem e votarem contra, a vigilância em massa é travada. Se não regressarem, a nossa privacidade morre lentamente sob o peso da burocracia.

O Humor como o dourado do Sol

Vivemos de reflexos, de ecos de nós mesmos e do eco ampliado na sociedade — um jogo de câmaras onde a imagem original se perde na repetição. A democracia, essa velha senhora de olhos cansados, vê o seu rosto desfigurado nos espelhos de Bruxelas. Mas nesse salão de espelhos, resta sempre uma porta aberta: o humor, que não desfaz o engano, mas o tempera com a luz dourada do crepúsculo, lembrando-nos que, mesmo na mais sombria paisagem, o sol se põe para que possamos, ao menos, rir da nossa própria sombra.

Contacte os seus eurodeputados. Pergunte-lhes onde estavam no dia 7 de julho.

António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo:
https://antonio-justo.eu/?p=11144

terça-feira, 7 de julho de 2026

PORTUGAL NO TABULEIRO DA GUERRA OU NO PALCO DA LUSOFONIA?

No grande teatro da geopolítica europeia, Portugal descobriu uma vocação helénica que se concretiza no sacrifício em nome dos deuses do Norte...

A despesa militar expandiu-se de forma acelerada para cumprir os critérios internacionais, fixando-se em cerca de 3,8 mil milhões de euros e o Governo prevê gastar mais 772 milhões com Defesa em 2026 (1). É um feito extraordinário para um país onde o maior perigo costeiro costuma ser a erosão das praias ou o preço do peixe fresco...

É reconfortante saber que, enquanto um idoso em Portugal escolhe entre comprar medicamentos ou pagar o aquecimento, algures num escritório em Frankfurt se celebram os dividendos da indústria pesada!...

Portugal possui uma plataforma diplomática, cultural e económica única que não necessita de tanques para se impor e que é a Lusofonia.

Em vez de subsidiar os interesses geoestratégicos da Europa Central, os recursos nacionais colheriam muito melhor proveito se fossem direcionados para empreendimentos de cooperação cultural, científica e económica dentro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)... Faz muito mais sentido construir pontes com quem partilha o nosso idioma do que cavar trincheiras para agradar a Berlim e a Bruxelas...

Trocar o fardamento cinzento da NATO pela diplomacia cultural do mar não é apenas uma escolha moral pois corresponde a uma urgência prática...

António da Cunha Duarte Justo

Artigo completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11136

 

domingo, 5 de julho de 2026

Retórica política como armadura de Interesses e do Ego

 

O DISCURSO DA TOLERÂNCIA ABSTRATA ADIA O DESENVOLVIMENTO SOCIAL

A tolerância autêntica exige um doloroso exercício de autoconhecimento e o reconhecimento das próprias limitações. Sem essa base íntima, o clamor pela tolerância transforma-se numa "tolerância abstrata" e até em punho de agressão contra o adversário; pelo que é observável, à primeira vista, tornou-se num mero instrumento de afirmação do ego, uma manobra de diversão que desvia a bola da realidade para canto e serve sistemas discretamente exploradores....

No debate público, o alarido moral substitui o serviço ao próximo...

Muitas posições políticas atuais não passam de encenações em que o sujeito procura sentir-se moralmente superior ao seu opositor... Esta postura adia a própria humanidade, pois recusa o único caminho capaz de gerar uma tolerância real: o discernimento focado na dignidade e na complexidade de cada pessoa e de cada situação concreta.

Exemplos históricos da Retórica universal como Armadura de Interesses

A instrumentalização de conceitos nobres para mascarar agendas de poder não é um fenómeno recente...

A "Missão Civilizadora" do Colonialismo do Século XIX foi usada sob o pretexto abstrato de levar a civilização, a ciência e uma suposta tolerância religiosa aos povos considerados "atrasados"... O discurso oficial falava de progresso e humanismo, enquanto a realidade no terreno era de pilhagem.

A Guerra Fria e a Retórica dos Direitos: Durante décadas, tanto o bloco ocidental como o bloco soviético utilizaram bandeiras abstratas, de um lado a "Liberdade e Democracia" e do outro, a "Justiça Social e Libertação dos Povos" ...

Na atualidade, a tolerância abstrata e a ausência de discernimento atingiram o seu zénite na formatação binária das grandes crises internacionais...  Não conhece o meio-termo, vive de rótulos e não escuta. Reduz a realidade a dois lados e o cérebro de caracter binário percebe-os como opostos.

O Conflito no Médio Oriente (Israel / Palestina): O debate público dividiu-se em claques desportivas. Uns fecham os olhos ao sofrimento histórico e à negação de direitos ao povo palestiniano; outros recusam reconhecer o direito à segurança e o trauma histórico do povo israelita... Quem tenta introduzir nuances ou pedir discernimento é imediatamente triturado pela máquina do cancelamento.

A Guerra na Ucrânia: A invasão russa e o envolvimento da Ucrânia e dos seus aliados ocidentais são frequentemente discutidos como um jogo de tabuleiro geopolítico abstrato sem ter em conta o que está verdadeiramente em jogo na Ucrânia... A análise crítica das causas profundas e das possibilidades de uma paz sustentável é asfixiada por posições cerradas que proíbem pôr-se em questão narrativas interesseiras.

A Questão da Imigração: Este é talvez o terreno onde a falta de responsabilidade e o jogo do ego e de interesses partidários, são mais evidentes porque criam na população ruturas não só de natureza política mas sobretudo de natureza cultural... Ambos os extremos fogem à responsabilidade: usam os imigrantes como massa de manobra política ou eleitoralista, em vez de encararem o fenómeno com o discernimento logístico,  o respeito humano e a responsabilidade  que a situação exige.

Só quando aceitamos que não detemos a totalidade da razão podemos olhar para o outro, seja ele o imigrante, o adversário político ou a vítima de uma guerra distante, não como um argumento para o nosso ego, mas como um semelhante que exige respeito, escuta e responsabilidade real... O discurso da tolerância funciona, muitas vezes, como uma cortina de fumaça que dispensa a responsabilidade real, transformando causas legítimas em ferramentas de autopromoção do ego ou em massa de manobra para interesses ideológicos, políticos e económicos.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11130

sábado, 4 de julho de 2026

O rosto masculino da agressão: 94% da população reclusa

 A ENCENAÇÃO DO ESPÍRITO MASCULINO NA NOSSA MATRIZ ANTROPOLÓGICA

O rosto masculino da agressão revela-se de forma gritante nas estatísticas: os homens dominam as tabelas do abismo, representando 94% da população reclusa e concentrando os mais alarmantes índices de violência. Perante este cenário, impõe-se uma conclusão inadiável: precisamos de uma mudança de paradigma. Não se trata de substituir o masculino pelo feminino, mas de transcender a lógica vigente, rumo a um novo modelo, feminino-masculino, que reconheça a complementaridade como alicerce do desenvolvimento humano e social.

A coexistência harmoniosa entre a feminilidade e a masculinidade, tanto nos homens como nas mulheres e na própria organização da sociedade, é hoje inviabilizada por uma matriz profundamente enraizada que molda o nosso pensamento e a nossa existência. Esta matriz, de feição exclusivamente masculina, confinou o elemento feminino aos domínios do natural e do religioso, despojando-o do seu legítimo lugar na esfera pública e intelectual. Paralelamente, ao impor uma mentalidade materialista e práticas orientadas unicamente para o progresso funcional, a eficiência e o lucro, esta estrutura reprime a dimensão espiritual e emocional do ser humano (vive-se no âmbito das teorias - masculinidade - sem encarnação em virtudes). As mulheres, para ocuparem espaços de decisão, são muitas vezes coagidas a atuar contra o seu próprio princípio feminino, integrando-se apenas ao nível do funcionamento mecânico da sociedade, um mecanismo cujo leme permanece firmemente nas mãos do masculino. O homem age, assim, quase exclusivamente sobre os sintomas da desumanização, mas nunca sobre as causas profundas que alimentam a brutalidade, a beligerância e a indiferença perante o sofrimento.

Observa-se, por todo o lado, uma escalada preocupante da agressão, quer nas instituições quer nas relações interpessoais. Numa era em que o princípio masculino é exacerbado por belicistas, por potentados sedentos de poder e por personalidades controladoras, a teimosia unilateral é não apenas tolerada, mas ativamente incentivada. Os números, particularmente os que emergem das estatísticas alemãs, são inequívocos: a agressão tem rosto masculino. Como documenta Boris von Hessen na sua obra “O que os homens custam”, os homens são responsáveis pelo dobro dos acidentes rodoviários, pela maioria esmagadora dos crimes e por 94% da população prisional. São eles os protagonistas de 75% das mortes relacionadas com o álcool e de mais de 80% dos casos de violência doméstica. Para além do sofrimento humano incalculável, estes dados traduzem-se em custos sociais astronómicos, que ascendem a mais de 60 mil milhões de euros anuais. Estamos perante uma realidade que clama por uma reflexão radical.

Face a esta realidade sombria e à aptidão bélica de uma sociedade que privilegia uma cultura de guerra em detrimento de uma cultura de paz, impõe-se uma pergunta incómoda e urgente: o que é que correu mal connosco, homens? Porque razão nos agarramos, com tamanha obstinação, a esta matriz masculina, sem a questionar, e nos apegamos a papéis que sistematicamente recompensam a dureza, a dominância e a exagerada propensão para o risco? Se não rompermos com este padrão arcaico, todas as estratégias de prevenção e as reformas institucionais se tornarão letra morta, servindo apenas para paliar os estragos ou, pior ainda, para consolidar e perpetuar a própria matriz que gera o problema.

Urge, por conseguinte, forjar uma nova compreensão, uma consciência renovada no âmbito da sociologia e da antropologia. Necessitamos de um modelo que integre, em plena igualdade, os princípios da feminilidade e da masculinidade na ordem do indivíduo e da sociedade, sem que um se sobreponha ao outro. A crise civilizacional que assola a Europa é, no fundo, a crise de uma ênfase tradicional excessiva no masculino, herdeira de um patriarcado que nos conduz, irremediavelmente, para o precipício. Para superar este atavismo, é imperativo reformar profundamente a antropologia vigente. Proponho, assim, uma nova abordagem, a que chamo antropoginelogia (ou antropoginaikologia), um modelo em que o masculino (Antropos) e o feminino (Gyne) sejam representados em pé de igualdade, como energias vivas, complementares e indissociáveis, que habitam e se expressam em cada homem e em cada mulher. Desta simbiose, emergirá um novo padrão de orientação ética e existencial, uma verdadeira logia do ser humano completo, capaz de reequilibrar o nosso destino coletivo e de devolver à vida a sua plenitude reflexiva e compassiva.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © https://antonio-justo.eu/?p=11124

Alguns artigos relativos ao tema:

Para além da matriz masculina: https://www.gentedeopiniao.com.br/opiniao/para-alem-da-matriz-masculina

Outros artigos: https://bomdia.lu/dia-da-mulher-vale-a-pena-lutar/

A necessária transição : https://antonio-justo.eu/?p=10828

Mulheres em sociedade: https://www.gentedeopiniao.com.br/opiniao/artigo/das-mulheres-na-sociedade-e-na-igreja-e-dos-usos-e-costumes-que-as-oprimem

O poder normativo: https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/actividade-politica-e-consciencia-1412458

Humanismo e ética: https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/humanismo-e-etica-para-a-construcao-de-uma-cultura-de-paz-global/

O dia internacional da mulher: https://antonio-justo.eu/?p=2206

Burca uma acusação ao patriarcado e ao homem: https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/a-burca-1227532

Was Männer Kosten: https://www.amazon.de/dp/3453606248?ref=cm_sw_r_ffobk_cso_wa_apan_dp_VVVAQ71QM0K2SSDPCZ1Z&social_share=cm_sw_r_ffobk_cso_wa_apan_dp_VVVAQ71QM0K2SSDPCZ1Z&bestFormat=true