O DISCURSO DA TOLERÂNCIA ABSTRATA ADIA O DESENVOLVIMENTO SOCIAL
A tolerância autêntica exige um doloroso exercício de autoconhecimento e o reconhecimento das próprias limitações. Sem essa base íntima, o clamor pela tolerância transforma-se numa "tolerância abstrata" e até em punho de agressão contra o adversário; pelo que é observável, à primeira vista, tornou-se num mero instrumento de afirmação do ego, uma manobra de diversão que desvia a bola da realidade para canto e serve sistemas discretamente exploradores....
No debate público, o alarido moral substitui o serviço ao próximo...
Muitas posições políticas atuais não passam de encenações em que o sujeito procura sentir-se moralmente superior ao seu opositor... Esta postura adia a própria humanidade, pois recusa o único caminho capaz de gerar uma tolerância real: o discernimento focado na dignidade e na complexidade de cada pessoa e de cada situação concreta.
Exemplos históricos da Retórica universal como Armadura de Interesses
A instrumentalização de conceitos nobres para mascarar agendas de poder não é um fenómeno recente...
A "Missão Civilizadora" do Colonialismo do Século XIX foi usada sob o pretexto abstrato de levar a civilização, a ciência e uma suposta tolerância religiosa aos povos considerados "atrasados"... O discurso oficial falava de progresso e humanismo, enquanto a realidade no terreno era de pilhagem.
A Guerra Fria e a Retórica dos Direitos: Durante décadas, tanto o bloco ocidental como o bloco soviético utilizaram bandeiras abstratas, de um lado a "Liberdade e Democracia" e do outro, a "Justiça Social e Libertação dos Povos" ...
Na atualidade, a tolerância abstrata e a ausência de discernimento atingiram o seu zénite na formatação binária das grandes crises internacionais... Não conhece o meio-termo, vive de rótulos e não escuta. Reduz a realidade a dois lados e o cérebro de caracter binário percebe-os como opostos.
O Conflito no Médio Oriente (Israel / Palestina): O debate público dividiu-se em claques desportivas. Uns fecham os olhos ao sofrimento histórico e à negação de direitos ao povo palestiniano; outros recusam reconhecer o direito à segurança e o trauma histórico do povo israelita... Quem tenta introduzir nuances ou pedir discernimento é imediatamente triturado pela máquina do cancelamento.
A Guerra na Ucrânia: A invasão russa e o envolvimento da Ucrânia e dos seus aliados ocidentais são frequentemente discutidos como um jogo de tabuleiro geopolítico abstrato sem ter em conta o que está verdadeiramente em jogo na Ucrânia... A análise crítica das causas profundas e das possibilidades de uma paz sustentável é asfixiada por posições cerradas que proíbem pôr-se em questão narrativas interesseiras.
A Questão da Imigração: Este é talvez o terreno onde a falta de responsabilidade e o jogo do ego e de interesses partidários, são mais evidentes porque criam na população ruturas não só de natureza política mas sobretudo de natureza cultural... Ambos os extremos fogem à responsabilidade: usam os imigrantes como massa de manobra política ou eleitoralista, em vez de encararem o fenómeno com o discernimento logístico, o respeito humano e a responsabilidade que a situação exige.
Só quando aceitamos que não detemos a totalidade da razão podemos olhar para o outro, seja ele o imigrante, o adversário político ou a vítima de uma guerra distante, não como um argumento para o nosso ego, mas como um semelhante que exige respeito, escuta e responsabilidade real... O discurso da tolerância funciona, muitas vezes, como uma cortina de fumaça que dispensa a responsabilidade real, transformando causas legítimas em ferramentas de autopromoção do ego ou em massa de manobra para interesses ideológicos, políticos e económicos.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11130

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