Para pessoas insatisfeitas com o AO e interessadas na discussão
Ao ler-se o artigo “O Acordo Ortográfico ainda não pode ser julgado” de Paulo Freitas do Amaral, no jornal “Correio de Lagos” https://correiodelagos.com/.../o-acordo-ortografico.../#
, verifica-se que o artigo é um primor de retórica histórica, mas peca
por determinismo tecnológico. Ele olha para as redes de informação como
um mero eco do Acordo, quando, na verdade, elas são o seu principal
campo de batalha. Longe de tornarem o Acordo irreversível, as novas
tecnologias expõem as suas incongruências diariamente, mantendo viva a
grafia anterior nos motores de busca e permitindo, pela primeira vez na
História, uma flexibilidade ortográfica em tempo real. Se o autor
estivesse certo, a inteligência artificial já teria resolvido a questão;
mas a realidade é que a IA gera constantemente erros e confusões entre
as variantes, provando que o Acordo não é uma realidade cultural
consolidada, mas uma norma administrativa em permanente tensão com a
prática viva da língua, uma tensão que a tecnologia, afinal, tornou mais
visível, e não mais pacífica.
1.
O "argumento da escala temporal" é uma falácia de autoridade ao apelar
para a História. Quando afirma que 20 anos são "extremamente curtos"
perante "nove séculos", ele está a cometer um sofisma. Este raciocínio é
uma armadilha lógica que torna qualquer crítica eternamente prematura.
Se 20 anos são curtos, 50 também o serão, e 100 também, porque a língua
tem 900.
O que ele
esconde com esta retórica é que a avaliação de um sistema não precisa de
séculos. A coerência interna de uma língua avalia-se pela lógica, não
pela cronologia. Se eu desenhar um mapa com coordenadas erradas, não
preciso de esperar 50 anos para saber que os viajantes se vão perder;
posso analisar a geometria do mapa no dia seguinte. O Acordo Ortográfico
tem vícios lógicos que são atemporais e que a retórica do autor tenta
abafar com a névoa do "tempo histórico".
2. A "coerência interna" e o pecado da exceção (O "deus dará")
O
historiador deixa a coerência "ao deus dará". Coerência interna é a
relação previsível entre a fonologia (o som) e a grafia (a escrita), e a
relação morfológica entre palavras da mesma família (ex: eletricidade /
elétrico). Se a língua não obedece a decretos, porque assume que
obedece a este?
O Acordo
Ortográfico, na sua aplicação prática, quebrou essa coerência em vez de
a aperfeiçoar. Ele eliminou as consoantes mudas (ex: acção, ação), mas
apenas quando não são pronunciadas. Contudo, na derivação, essas mesmas
consoantes reaparecem porque são pronunciadas: escrevemos ação (sem
'c'), mas escrevemos acionista ou acionar (com 'c'? Não, espera, a regra
é acionar sem 'c' também? Vamos a um exemplo mais claro: contacto,
passou a contato em Portugal? Não, a regra diz que se a consoante for
pronunciada, mantém-se. Então pacto mantém o 'c' porque se pronuncia?
Com isto abre-se caminho à confusão.
O exemplo clássico é a dupla grafia de verbos que passaram a ter oscilações caóticas. Como já referi no artigo https://antonio-justo.eu/?p=11083
o que o Acordo fez foi substituir uma ortografia etimológica (com
regras claras, ainda que complexas) por uma ortografia fonética
superficial, mas cheia de exceções e casuísmos e empobrecimento das
pessoas gramaticais. É exatamente o oposto de uma coerência interna,
passando a ser uma colcha de retalhos. Ignorar esta análise técnica em
nome de "já passou uma geração" é, de facto, deixar o rigor ao acaso.
3. A confusão entre "sucesso de implementação" e "qualidade sistémica"
O
autor do texto troca os campos semânticos propositadamente. Ele diz que
não se pode chamar "fracasso" porque as pessoas estão a escrever de
acordo com a nova norma. Mas isso é confundir adesão forçada com
qualidade linguística.
A
escolaridade obrigatória e os dicionários institucionais impõem
qualquer norma, mesmo que ela seja má. A questão nunca foi se as pessoas
conseguem adaptar-se (elas conseguem porque os humanos são plásticos),
mas sim o que se perdeu nessa adaptação. Perdeu-se a transparência
etimológica (a ligação ao latim e grego, que ajudava na compreensão de
palavras eruditas), perdeu-se a distinção gráfica entre palavras
homófonas (ex: cesta e sexta já eram confusas, mas outras surgiram) e,
sobretudo, perdeu-se a unicidade da raiz morfológica. Avaliar o sucesso
ou fracasso sem passar pelo crivo da funcionalidade cognitiva e
pedagógica é um debate vazio. O autor foge desse crivo porque, se o
enfrentasse, teria de admitir que a reforma é, na melhor das hipóteses,
um mal que atenta contra a lógica da língua.
4. O "tempo" não cura contradições lógicas
Por
fim, a maior fragilidade da posição do historiador é assumir que o
tempo é uma espécie de alquimia que transforma o errado em certo. Se uma
regra é internamente contraditória hoje, continuará a sê-lo daqui a 100
anos. As pessoas podem habituar-se à contradição porque o cérebro
humano normaliza o absurdo, mas isso não faz dela uma boa regra. A
História que ele invoca não é um juiz que absolve os erros; é um arquivo
que os regista.
Quando
ele diz que "a língua não obedece a decretos", e simultaneamente defende
que os decretos devem permanecer só porque foram aplicados, ele está a
contradizer a sua própria premissa. Se a língua é orgânica, ela
rejeitaria espontaneamente as más soluções. Ora, o que vemos é que a
língua não rejeitou porque a tecnologia e a escola a amoleceram. Estamos
perante uma língua em estado de "vida assistida", não de evolução
natural.
Em suma, o
texto de Paulo Freitas do Amaral é uma magnífica peça de oratória para
silenciar críticos, apelando à paciência histórica. Mas a verdade é que
um linguista ou um filólogo sério não precisa de esperar 900 anos para
saber se uma reforma faz sentido; precisa apenas de olhar para o
paradigma verbal, para a derivação sufixal e para a economia cognitiva
da escrita. E, nesse olhar, o Acordo revela-se frágil, incoerente e
profundamente dependente de "deus dará" – ou, pior, do "deus
algorítmico" dos corretores ortográficos. Na qualidade de historiador
Paulo Freitas do Amaral pronuncia-se sobre um assunto que não faz parte
da sua especialidade e deveria reconhecer que a filosofia da História
não deve seguir o cunho político/partidário porque obedece a uma outra
lógica.
António da Cunha Duarte Justo
Continua em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11207

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