terça-feira, 29 de setembro de 2026

UM PAPA "SEM PAPAS NA LÍNGUA"

 Leão XIV chegou a Paris (25.09.2026) e não se perdeu nos corredores da diplomacia... Falou com a cortesia própria de um chefe de Estado, mas também com a liberdade de quem não quer reduzir a palavra cristã a ornamento protocolar...

No lema republicano, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, reconheceu valores que ultrapassam fronteiras políticas e nacionais, verdadeiras “exigências éticas universais”... torna-se necessário “recolocar a pessoa humana no centro de toda a reflexão”. A técnica pode servir o homem, mas também pode condicioná-lo, instrumentalizá-lo e, no limite, subjugá-lo...
“Para não perdermos a nossa humanidade no meio do ‘paraíso das máquinas’”, adverte o Papa, “é urgente formar os espíritos para um discernimento ético” ... A técnica não contém em si mesma a medida do bem. Uma civilização pode tornar-se tecnologicamente avançadíssima e, simultaneamente, regredir na consideração da dignidade da pessoa...
Numa sociedade em que até o nascimento e a morte correm o risco de entrar na lógica da produção, da seleção e do mercado, o Papa recorda a necessidade de “acolher a vida incondicionalmente”. Da manipulação genética à gestação de substituição, do comércio de órgãos à possibilidade de programar a própria morte, a questão de fundo permanece a mesma: será a pessoa um fim em si mesma ou acabará transformada num produto disponível?...
“A verdadeira laicidade não exclui a dimensão religiosa”... Significa reconhecer que a fé e as convicções religiosas fazem parte da vida dos cidadãos e podem contribuir para o debate sobre o bem comum.
Neste contexto, ganha especial significado uma afirmação de Emmanuel Macron dirigida aos bispos franceses: “uma Igreja que pretenda desinteressar-se das questões temporais não cumpriria plenamente a sua vocação; e que um Presidente da República que pretenda desinteressar-se da Igreja e dos católicos falharia ao seu dever”...
Ao referir-se à grande ferida aberta do nosso tempo, Leão XIV foi explícito ao dizer “A paz não é um equilíbrio de forças”... “A paz não é um equilíbrio de forças, mas constrói-se dia a dia com o diálogo e a justiça”... “Exorto-vos, portanto, a nunca vos resignardes à perspectiva de uma guerra, considerando-a ‘inevitável’, mas a promover incansavelmente o diálogo e a diplomacia, a fim de preservar sociedades pacíficas, respeitadoras da dignidade e dos direitos da pessoa e dos povos”... Esta é talvez uma das passagens politicamente mais fortes do discurso. Quando a guerra começa a ser apresentada como inevitável, já se deu um passo perigoso para a sua aceitação. A linguagem prepara mentalidades e as mentalidades acabam por preparar campos de batalha. Contra a resignação ao fatalismo bélico, Leão XIV contrapõe diálogo, diplomacia, justiça e respeito pelos povos... “Possa a França, fiel aos seus valores, abrir caminho para uma paz desarmada e desarmante”...
Há um fio condutor que atravessa todo o discurso e se resume em recolocar o ser humano no centro. Antes da máquina, a pessoa. Antes do lucro, a dignidade. Antes da força das armas, o diálogo. Antes da eliminação de quem sofre, o acolhimento. Antes da uniformização das consciências, a liberdade e antes dos interesses particulares dos Estados, a fraternidade entre os povos... podemos construir um sofisticadíssimo “paraíso das máquinas” e, ao mesmo tempo, preparar um inferno para os homens.
Um Papa sem papas na língua que faz a pergunta à França, à Europa e a cada um de nós: de que serve avançarmos tanto, se pelo caminho perdemos a nossa humanidade?
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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