O amigo Pe. Ramiro foi um homem de coração largo, que fez da entrega aos outros o seu programa de vida
Nesta
hora de emoção e saudade, em que recordamos a partida do nosso muito
querido Pe. Ramiro Pereira Galhispo, natural da Caranguejeira, Leiria,
quero deixar algumas palavras de gratidão e de memória.
A
11 de agosto de 2026, o seu corpo foi entregue à terra, depois de uma
longa vida de 95 anos, plena de espírito salesiano, de serviço, de
alegria e de humanidade. A dor da sua partida mistura-se com a
consolação de sabermos que se libertou finalmente do sofrimento causado
pela doença. E fica, entre nós, aquilo que a morte não consegue sepultar
e que é a presença de uma vida semeada nos outros.
Agora
que o meu amigo morreu, dou comigo a revivê-lo de uma maneira muito
especial. Volto às cartas que me escreveu ao longo dos anos, releio as
suas palavras, reconheço nelas a sua voz e reencontro o homem que
conheci e estimei. É também através dessas cartas que quero manifestar a
minha gratidão por tudo aquilo que ele semeou.
O
Pe. Ramiro conseguiu congregar, de forma singular e autêntica, a sua
individualidade e a sua missão. Nele conviviam harmoniosamente o homem, o
salesiano, o sacerdote, o músico, o professor e, sobretudo, o pastor.
Um pastor que, por natureza e vocação, não se colocava acima do rebanho,
mas caminhava no meio dele para melhor o compreender e servir.
Era
um padre da juventude e do povo. Deixava falar o coração e, por onde
passava, parecia transmitir uma certeza simples e profunda como que a
dizer: Deus também é povo.
Tinha
um sorriso comunicativo, uma alegria contagiante e um bom humor que
aproximavam as pessoas. O espírito jovial de Dom Bosco manifestava-se
nele com naturalidade. Era entusiasta, cheio de iniciativa, vivaz,
otimista, sociável e eloquente. Mas, acima de tudo, era alguém
disponível, era um homem com quem se podia contar.
O Pe. Ramiro era, para mim, um anjo de asas largas, não feito para permanecer apenas dentro dos muros de um convento.
Precisava
de espaço para servir, de gente para amar, de dificuldades onde meter
mãos à obra. A capacidade de dedicação acompanhava-o por toda a parte.
Onde chegava, começava a fazer. Onde encontrava sofrimento,
aproximava-se. O sofrimento dos outros tocava-o profundamente, como se
encontrasse em cada pessoa ferida o próprio Cristo abandonado, no
momento da súplica: «Pai, se possível, afasta de mim este cálice.»
A
sua alegria não era, porém, ingenuidade nem desconhecimento da dor.
Como sacerdote, manifestava quase sempre encorajamento e esperança, mas
essa luz vinha também de sofrimentos escondidos. Talvez por isso fosse
uma alegria tão verdadeira porque era a força de quem aceita a cruz
procurando vivê-la já com rosto de ressurreição.
Desde Arouca ficou uma amizade de muitos anos
O
carismático Pe. Ramiro começou a fazer parte da minha vida em 1960, em
Arouca, quando foi meu professor de francês e de mestre de música.
Recordo
ainda a sua enorme sensibilidade. Quando nós, alunos, desafinávamos,
ele não nos humilhava nem nos censurava. Limitava-se a erguer as mãos
até aos seus cabelos encaracolados, como que acariciando a própria
cabeça perante o nosso desacerto musical. Era um gesto tão seu e que,
passados tantos anos, permanece vivo na minha memória.
Mais
tarde, depois do meu tirocínio em Izeda, voltei a encontrá-lo quando eu
era estudante de Teologia em Benediktbeuern. Nessa altura, o Pe. Ramiro
trabalhava como pároco e orientador no Colégio Português de
Kaiserslautern, servindo uma comunidade de cerca de três mil
portugueses.
A sua ação,
porém, ultrapassava largamente a atividade estritamente pastoral.
Exercia diversas funções em benefício daquela comunidade emigrante e
chegou a enviar para Benediktbeuern dinheiro proveniente do seu
trabalho, ajudando assim a financiar os nossos estudos teológicos:
éramos quatro estudantes portugueses.
Nunca
esqueci este gesto de salesiano. Ele diz muito mais sobre o Pe. Ramiro
do que qualquer elogio que lhe possamos fazer pois trabalhava, servia e
partilhava para que outros pudessem continuar o seu caminho.
Depois
da minha ordenação sacerdotal, quando vivia nas Oficinas de S. José,
tive ainda a felicidade de o substituir durante as férias nas
comunidades de Kaiserslautern e de Mogúncia. Pude então compreender
ainda melhor a dimensão do trabalho que ali realizara e, sobretudo, os
laços humanos que criara.
«Quem anda à chuva molha-se»
Em 1980, deixou aquele seu “império” de Kaiserslautern e partiu para a Madeira.
A
saída não foi fácil fácil, mas o Pe. Ramiro possuía aquela sabedoria de
quem, tendo sofrido, se recusa a transformar a mágoa em ressentimento.
Numa
carta que me escreveu do Funchal, em 17 de abril de 1986, recordava as
circunstâncias da sua saída de Kaiserslautern: «Isso são problemas
ultrapassados; foi apenas para dizer que a vida traz destes percalços;
e... quem anda à chuva molha-se (a não ser que use o guarda-chuva da
hipocrisia).»
Este é um
extraordinário retrato da sua maneira de estar na vida! Perdoar, seguir
adiante, não alimentar amarguras, não permitir que o passado impeça a
construção do futuro.
Noutra
carta, depois de ter deixado Kaiserslautern, escrevia-me sobre os
pedidos para que regressasse e sobre as inevitáveis queixas que surgiam
entre as pessoas: «Pedidos de regresso e “queixas” que sempre se fazem
uns aos outros, mas a que eu nunca respondo, procurando sempre a calma, a
reconciliação e a alegria. O passado passou e há que construir a partir
do que existe, sem lamúrias.»
“Sem lamúrias”
Talvez
estas duas palavras encerrem muito da sua filosofia de vida. Não
significavam ausência de sofrimento, mas a decisão de não fazer do
sofrimento uma morada. O Pe. Ramiro preferia construir.
Kaiserslautern
ficou para trás geograficamente, mas nunca verdadeiramente o deixou
partir. Kaiserslautern corria atrás dele: através de centenas e centenas
de cartas, através da amizade e da gratidão das pessoas e através dos
muitos jovens daquela comunidade que vinham a Portugal durante as férias
para casar e queriam que fosse ele a celebrar e acompanhar esse momento
das suas vidas.
Um padre dos jovens
O
Pe. Ramiro compreendia profundamente os jovens. Não os via como
destinatários passivos de pedagogias ou doutrinas, mas como pessoas que
precisavam de proximidade, confiança, atenção e amor.
Quando
chegou a altura de deixar o Funchal, confidenciava: «É bom que outros
passem por aqui para ver se perdem um pouco a mania de que bons são só
os que estão dentro dos muros dum convento.»
E
acrescentava, a propósito da juventude: «Os jovens hoje merecem outro
tratamento e precisam de mais algo do que simplesmente ideias e ciência
na cabeça...!»
Estas palavras dizem muito sobre o seu modo de compreender a missão salesiana.
Para
ele, educar e evangelizar não era apenas transmitir ideias. Era estar
presente, como Dom Bosco estava presente e muitos hoje procuram estar
presentes. Educar era ouvir, acompanhar, dar confiança, ajudar alguém a
descobrir que é amado e que a sua vida possui valor.
Quando
foi delegado nacional da Federação AADB, essa capacidade de congregar e
entusiasmar tornou-se ainda mais evidente. Onde aparecia, o Pe. Ramiro
impressionava e mobilizava as pessoas. Tinha a capacidade rara de
comunicar entusiasmo sem perder a proximidade humana.
O Pe. Ramiro também era o “espanta-pardais”
Ele próprio dizia, com aquele humor tão característico, que era um “espanta-pardais”.
Sempre
entendi esta expressão como uma bela metáfora da sua missão. O
importante era cuidar da sementeira, centrar toda a ação no essencial
cristão e salesiano e não ficar excessivamente preocupado com os
“pardais” que, aqui e ali, procuram estragar aquilo que se semeia ou
tenta semear.
O Pe.
Ramiro sabia seguir em frente, perdoava, recomeçava e procurava a
reconciliação. Não cultivava uma cara triste nem deixava que o peso do
mal lhe roubasse a capacidade de sorrir.
Foi um homem profundamente cristão, capaz de encarar a cruz quotidiana com rosto de ressurreição.
Pe. Ramiro o Amigo
O
Pe. Ramiro não pertence apenas às instituições por onde passou, às
comunidades que serviu ou à história salesiana. Para mim, pertence
também à história familiar e pessoal da amizade.
Foi
meu amigo e amigo da minha família. Foi ele quem batizou o meu filho,
David Ramiro, em S. João da Madeira. E o próprio nome conserva, por
isso, uma memória que nos é particularmente querida. Defacto, escolhi o
nome para o meu filho em recordação do Pe Ramiro e do Pe. David.
Ao
longo dos anos voltámos a encontrar-nos várias vezes em Arouca e a
última vez na Quinta Outeiro da Luz onde ficou de na próxima vez trazer
calções para mergulhhar na piscina. Infelizmente a doença não lhe
permitiu voltar. Guardo também com especial ternura uma imagem dos
últimos tempos em que tivemos o prazer de atravessar juntos a ponte dos
Passadiços do Paiva, de mão na mão.
Hoje
essa recordação ganha para mim outro significado. Há pontes que
atravessamos sem sabermos que um dia se transformarão em símbolos.
Aquela mão que então acompanhei é agora memória. Mas a amizade permanece
como uma ponte que nem a morte consegue destruir.
O Pe. Ramiro tinha uma vida cheia que enchia a vida dos outros
O
amigo Ramiro foi um homem realizado e permaneceu jovem porque fez da
entrega aos outros o seu programa de vida. Teve uma vida cheia e encheu a
vida dos outros.
Encheu-a
de alegria, de amor, de dedicação, de música, de humor, de esperança e
daquela disponibilidade tão própria de quem não pergunta primeiro o que
vai receber, mas aquilo que pode oferecer.
Deixa
nos seus condiscípulos, nos irmãos salesianos, nos antigos alunos, nos
jovens, nas comunidades que serviu, nos amigos e em tantas famílias uma
saudade imensa. Mas deixa também uma mensagem: viver com alegria, servir
com generosidade, conservar a mente aberta, perdoar e continuar a
construir.
Agora, ao
reler as cartas que me escreveu, o Ramiro torna-se paradoxalmente mais
vivo dentro de mim. A sua caligrafia, tão característica como ele embora
mais ordenada, devolve-me a sua voz; as suas frases devolvem-me o seu
humor; as suas confidências fazem regressar o amigo.
Talvez
uma das formas mais profundas de permanecer seja precisamente esta:
continuar vivo naquilo que se semeou no coração dos outros.
Por
isso, nesta hora em que entregamos o seu corpo à terra, a palavra que
mais desejo pronunciar não é apenas saudade mas sobretudo de
agradecimento.
Obrigado, Pe. Ramiro, pela amizade. Obrigado pelo sacerdócio vivido no meio do povo.
Obrigado pela juventude que conservaste e despertaste nos outros. Obrigado pelas mãos que tantas vezes meteste à obra.
Obrigado pela alegria com que escondeste tantas cruzes.
Obrigado pelas cartas, pelas palavras, pela música, pelo sorriso e pela capacidade de acreditar nas pessoas.
Obrigado
à sua família da Caranguejeira, que o deu à vida e obrigado à Família
Salesiana, que nos proporcionou o encontro com uma personalidade tão
rica e prendada de dons.
Obrigado
a Deus pela longa vida deste homem que soube fazer dos seus 95 anos uma
história de entrega. Hoje entregámos o seu corpo à terra, mas aquilo
que o Pe. Ramiro semeou não fica debaixo dela porque fica em nós.
Certamente
esta é a mais bela ressurreição que nos é dado testemunhar na vida
daqueles que amámos: quando partem e, apesar disso, continuamos a
ouvi-los, a recordá-los, a repetir as suas palavras e a reconhecer no
nosso próprio caminho alguma coisa daquilo que deles recebemos.
Descansa em paz, querido Pe. Ramiro. Que Deus te acolha agora com aquela mesma alegria com que tu procuraste acolher os outros.
E que, onde estiveres, continues com as tuas asas largas, finalmente sem muros, sem dores e sem fronteiras.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo : https://antonio-justo.eu/?p=11302

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