A Viagem do Papa à Palestina deixa vestígios de paz
António Justo
Ainda antes de Bento XVI iniciar a viagem à região da Palestina já a imprensa problematizava tal intento. Uma viagem que honra israelitas e palestinianos ao mesmo tempo torna-se incómoda para grupos que apostam numa política de trincheiras. Como cristão, o Papa sabe porém que a verdade nunca está só dum lado.
É sintomático que uma pessoa que só usa da palavra em função da paz se encontre em tanto perigo. Israel disponibilizou cerca de 80.000 polícias e pessoal de segurança para proteger o hóspede.
O governo de Israel intitula o papa de “ amigo autentico de Israel e do povo judeu”. O Rabino de Jerusalém disse: ”O caso Williamson já não é ponto de discórdia. O facto de se ter chegado a isso não foi intencional, mas uma questão de falta de managemment no Vaticano”, afirmando também que as relações entre judeus e católicos eram boas e cordiais.
O calvário, não é alheio ao papa. No seu caminhar entre Deus e a política, tropeça de crise em crise. A cruz que traz tem dois mil anos de carga histórica, a carga duma instituição global com seus problemas. Os ventos contrários actuais obrigam-no a caminhar na defensiva em actos de reparação em mesquitas ou com declarações explicativas de interpretações tendenciosas das suas palavras. Porque é humilde, procurando seguir o Mestre, todo o lixo da estrada lhe é atirado. Os Kommenis, esses são compreendidos, explicados e aceites!... Um mundo atrevido e presumido que vive bem de mal-entendidos não aceita que Bento XVI ponha o dedo nas feridas da vida, que fale dos pontos fortes e fracos das religiões como foi no caso de Ratisbona. Não lhe dão uma chance, só lhe põem pedras no caminho: o discurso de Ratisbona levanta a aversão de muçulmanos e seus aliados contra ele, a questão propagandista dos preservativos falsifica o seu pensamento, o levantamento bem-intencionado da excomunhão a quatro bispos, um deles negador do holocausto é usada para questionar a sua amizade para com os judeus. Tudo questões acidentais mas que encobrem o essencial e enchem os bolsos dos que vivem de especulações tendenciosas. Um papa intelectual não habituado ao cálculo político, que, com humildade popular, não procura a simpatia das pessoas, que coloca as questões prementes da actualidade na ordem do dia, vê-se obrigado a fazer de bombeiro, e a apagar incêndios na sua via estreita entre o relativismo e o fundamentalismo.
Bento XVI embora diga o mesmo que dizia João Paulo II, não é beneficiado pelo seu carisma reservado e humilde. A publicidade fixa-se apenas em aparência e em superficialidades e num simplismo redutor depois ampliado em letras gordas dos jornais e da TV. O Papa não se preocupa apenas com o contexto mas com o texto. No texto o papa dirige-se não só às maiorias mas também às minorias, o que torna mais difícil uma leitura séria.
Parlamento Europeu o Cemitério dos Elefantes?
O Papa é um cartaz o que leva muitos a quererem perfilar-se à custa dele. Também partidos do Parlamento europeu se agarram a pretensas afirmações sobre anticonceptivos para embrulharem a sua propaganda e promoverem nos Media a própria imagem. Certos ideologias sabem que ao tocarem o sino do ressentimento contra o Papa dão satisfação aos seus votantes motivando-os a alinhar-se nas suas fileiras. Isto deu-se também agora no parlamento europeu que procurou interpretar mal as palavras do papa que ao ser questionado, antes da viagem a África sobre o uso de preservativos, diz:”Eu diria, o problema Sida não se pode resolver apenas com slogans de propaganda. Se falta a alma, se os africanos não se ajudarem a si mesmos, este flagelo não pode ser eliminado com a distribuição de preservativos: pelo contrário, corre-se o risco de aumentar o problema”. Estas palavras proferidas em 2009 foram suficientes para fracções do parlamento europeu (liberais e outros) requererem uma moção parlamentar para condenar as palavras do papa e para o colocar ao lado de criminosos de guerra no Relatório dos Direitos Humanos do ano 2008. Por aqui se vê o oportunismo político e o desejo ideológico partidário de se aprumar neste ano de eleições. “Com palavras e bolos se enganam os tolos” diz a sabedoria popular. A moção parlamentar foi rejeitada com 253 votos contra, 199 a favor e 61 abstenções. Aqui se nota a política como a arte de deturpar. E o Zé-povinho engole tudo como se tratasse de comida sadia. Come o que lhe dão depois de mastigado!
Depois não querem ouvir, a queixa da província ou ideológica de que “o parlamento europeu é um cemitério dos elefantes”! Verdade é que, por vezes se empenha demasiado na difusão de redes de ideologias e insuficientemente na solução de problemas reais de povos reais.
É triste constantar-se tanto ressentimento, apresentado na bandeja pública, baseado geralmente em preconceitos ou em supostas posições sempre reduzidas e deturpadas do seu conteúdo. Ao observarmos este Papa tem-se a impressão dum cordeiro entre lobos. É atacado pelo que diz e atacado pelo que não diz, ou pelo que outros quereriam que dissesse. Uma sociedade que tão maltrata os símbolos dos seus valores parece seguir um impulso de autodestruição.
Naturalmente que a igreja e todas as instituições são formadas de pessoas carentes passíveis de crítica mas também de mútuo respeito. Toda a instituição tem os seus cadáveres na cave! Que a Igreja seja tão atacada e difamada é duvidoso, atendendo que as suas organizações são as que mais apoios caritativos no mundo fazem e quando há tanto mal real no mundo que poderia beneficiar do bem que os críticos poderiam, além de desejar, fazer. O ataque à Igreja parece tornar-se num substituto da crítica ao próprio egoísmo e às instituições cuja subsistência depende da guerra e do mal contra o próximo. A má consciência faz falar!
Naturalmente que o papa não é só pessoa, é também símbolo e plano de projecções alheias, o que leva o mundo a reagir com hipersensibilidade sobre tudo o que ele diz, faz ou deixa de fazer. Cada gesto, cada visita, cada palavra ganha uma dimensão política. Por isso qualquer terreno que pise se encontra minado pela ideologia e hostilidade de uns para com os outros. Da discussão sai naturalmente a luz! O problema está para aqueles que não podem ler as entrelinhas ou não têm tempo para ir às fontes da informação, tornando-se vítimas do que ouvem ou lêem. As palavras podem provocar verdadeiros incêndios e devastar florestas virgens.
Diálogo não pode ser uma estrada de sentido único
Em Amman na Jordânia, o Papa apelou para uma reflexão sobre as raízes e valores comuns das religiões e defendeu-as dos ataques da crítica radical dizendo: “nós religiosos somos solidários”. E continuou: “os críticos não se contentam só em levar a voz da religião ao silêncio, mas querem também colocar a sua voz no lugar dela”.
O diálogo religioso não se pode comparar com um diálogo político. O diálogo entre partidos trata de ajustamento de interesses e de aspectos culturais. O diálogo religioso e o compromisso dão-se ao nível cultural mas não no característico religioso das convicções religiosas. Aqui cada um deve procurar entender o outro. O diálogo realiza-se, como diz o papa, ao nível das “consequências culturais”. Alguns queriam ouvir um papa falar dum Deus à la carte e por isso chamam-no de conservador! Quanto à concepção de Deus, cada cultura tem a sua.
Cada cultura ou civilização é fruto da sua concepção implícita ou explícita de Deus. O cristão é livre de adorar a Deus com imagens ou sem elas. Cada um entra numa relação com o Todo, com Deus, à sua medida, sabendo que Deus transcende todas as medidas. Esta liberdade é típica cristã, porque o seu Deus é incarnado e como tal deixando-se venerar através de analogias ou protótipos. O mesmo não é permitido no judaísmo e no islão, que não permite imagens. No cristianismo o Homem é imagem de Deus e da realidade possibilitando assim um contínuo esforço de compatibilização de imagem e modelo, uma discussão entre religioso e profano.
A própria palavra traz atrás dela sempre uma sombra!... O problema do diálogo não está nas religiões nem nos ateus. O problema não está nas diferentes concepções mas na afirmação dumas à custa das outras, na culpabilização do outro pelos problemas do mundo e pelas inimizades entre os grupos; em desconfiança mútua, cada um atira as próprias minas para o campo adversário, sem notar que o faz numa atitude instintiva de auto – afirmação. O diálogo pressupõe fidelidade a si mesmo e à própria fé mas sim em diálogo com os outros e na abertura de integrar em si o que anda por fora e de se descobrir fora também.
Uns e outro reconhecem Deus como “razão criadora”. O problema é a ideologia alvorada como custódia à frente da cabeça. Se o Homem não governa o mundo com a razão então regê-lo-á a religião, a emoção seja ela religiosa ou laica.
António da Cunha Duarte Justo
quarta-feira, 20 de maio de 2009
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Teresa de Calcutá discutia com Deus
Um grito de angústia contra o comodismo da justiça
António Justo
Entre o Desespero e a Esperança!
O “anjo dos pobres” viveu e vive, na Índia, junto dos que moram do lado sombrio da vida e que dela só conhecem os dias do calvário. A Nobel da Paz, que tudo deu pelos pobres, era assolada por um desespero tão tenebroso que não deixava lugar para uma réstia de sol. Na angústia das sombras partilhadas ela pedia contas a Deus. Custa-lhe ter de verificar que a vida não se identifica com o mundo, que ela apenas se expressa nele. À superfície, sempre bem disposta e com um sorriso nos lábios, expressava a harmonia do agir com Deus na criação. O seu interior porém era fustigado com tempestades de dúvidas que se manifestavam na discussão existencial com Deus. Num livro, com as cartas de Madre Teresa, está documentada a sua zanga com Deus. Numa das cartas ela escrevia: “ O lugar de Deus na minha alma está vazio – em mim não está Deus”. No sentir de Teresa manifesta bem a sensibilidade do Homem do século XX e a sua expressão cristã contemporânea. A sua autenticidade tem a ver com o nosso tempo.
A noite escura de Teresa é muito diferente da “noite escura” de João da Cruz. Para a melhor compreender teremos de ter presente o cenário existencialista do mundo moderno. A era moderna que apela para as luzes da razão é por outro lado a era das trevas do espírito, com muitos luzeiros que espalhados pelo mundo lhe vão dando energia e um pouco de calor. A queixa de Teresa é sinal da confiança ofendida no meio do mutismo do mundo, é a queixa contra a pretensa razão. Também Deus é responsabilizado pela vida não vivida. Quando chega a hora dos tiranos serem derrubados e quando chega a hora do direito dos pobres, a era da graça? Onde está Deus, por onde anda a razão? Com Deus morreu a razão! Os mesmos que mataram um mataram a outra. Todo o mundo actua sem ter notado nada.
A sua simpatia e identificação com os pobres não tinham limites. A miséria e a pobreza do mundo não a deixavam indiferente. Em 1961, apesar de já ter alcançado muito, a nível institucional, em benefício dos pobres, a dúvida acompanha-a: “Domina uma tal escuridão que eu efectivamente não posso ver nada.” Este estado de dúvida religiosa purificadora, na vida da fé tem uma correspondência a nível epidérmico na dúvida metódica da filosofia. A vida tomada a sério não deixa ninguém indiferente nem se acomoda a tabus ou explicações simples. Ela espicaça espíritos de grande reflexão e prática. Teresa encarnou nela a dor da pobreza e da miséria a brotar em tanto rosto indefeso e inocente. Ela sabe que não se pode considerar o mistério da redenção sem o mistério da trindade. Aquele tem sido muitas vezes deformado devido ao desconhecimento deste e ao domínio dos sistemas sobre a pessoa. A Madre Teresa lança um grito de angústia contra o comodismo do continuar assim. Na noite escura do sofrimento também Deus se torna escuro. Aí só ajudam as fórmulas, o rito!... Quando se estafa demasiadamente a responsabilidade surge o tempo do deserto, a noite fria ajudando então as formas litúrgicas. Estas ajudam-nos a não nos esgotarmos na dúvida, mesmo que as palavras e os gestos não pareçam nossos. Isto até que tomemos conta de nós no amanhecer duma esperança radiosa.
Quando a dor e a miséria nos bate à porta e a deixamos entrar surge então a vivência do deserto e a solidão da vida. Aí, no descampado do vazio, a nossa alma alcança os limites do horizonte. Aí se desmascara a ideia de Deus e de nós mesmos. A folhagem das ideias corre com o vento e esvai-se na imensidão do limite. Não há mais a sombra duma árvore, o aconchego duma ideia ou um regaço onde nos proteger. Nesse estado torna-se presente o bramir da fome do mundo, o frio da vida no rescaldo do sol: Luz e treva na mesma dança. É noite em pleno meio-dia! Do nosso ser resta aí só um erguer de braços ao céu de prata fria e o amargo cair sobre a areia branca num sussurro de praga contra aquele Deus indiferente e distante, que nos deixa sem resposta. Apenas fica o bater de corpo naquela terra apática que já não gera! Nesse momento sou já o desespero ajoelhado, já cansado do horizonte dum céu que não é meu! Torno-me terra cansada, de tanta miséria regada, só lama contaminada.
Oh Deus, porquê tanta dor, porquê tanta miséria?
Num primeiro momento só resta o fremir do silêncio na imensidade dum céu mudo. Depois as nuvens negras do limite. A seguir, as tempestades da alma entram em sintonia com as da natureza e da sociedade. Sucede-se-lhe a acalmia… É a relação trinitária a acontecer, num mesmo instante a realidade de incarnação-morte-ressurreição a expressar-se.
Deus não precisa de súbditos nem de seguidores obedientes
Depois, no tempo da calmaria e da colheita surge talvez a pena por se ter ralhado com Deus. Alguns, mais sensíveis são posteriormente acompanhados por uma depressão da alma, que muitas vezes é assistida por uma religiosidade sombria, um pietismo rançoso que desconhece a infância do divino, que só aponta para o crucificado. Um mundo interior sem mãe! Um mundo que só reconhece o Outono e o cair das folhas não conhecendo a árvore no esplendor dos seus frutos. Fixam-se naquela árvore da cruz que reprime a vivacidade e a alegria de viver, aquela árvore sem Cristo, talvez só presente na seiva. Sim, também Cristo se chateou da figueira que naquela altura não tinha figos! Ele sabe porém que Deus não é aquele comerciante e mesquinho castigador. Deus não precisa de súbditos e de seguidores obedientes nem quer uma religião consolada e alimentada por um sentimento de culpa. Ele é a seiva da árvore inteira. Não precisa de pastores reduzidos a cães de guarda.
É fácil apoderar-se de Deus para depois se ir lanchar com ele ou ir encurralá-lo nalgum lugar ou nalguma ideia. A experiência da “noite escura” não é prova à fé como pensam os que pretendem fazer de Deus um tentador. A”noite escura” é crise pura. É a noite do monte das oliveiras onde não há salvadores. Nela se compartilha a dor dos pobres, a calidez do universo; ela é dor seca de solidão sem sentimento, é a mesma dor do Jesus abandonado, uma dor fria sem consolo, sem Deus. É fácil não tomar a sério a dor da ausência de Deus refugiando-se no argumento de que “Ele lá sabe”. Porquê tanta discrição na libertação dos miseráveis. Por que é que nós homens não reconhecemos a dignidade dos fazemos inconsoláveis?
A dor não conhece tão-pouco um Jesus invejoso de premeio. Jesus é a dor do mundo; quem a sofre e assume participa directamente na redenção do mundo, torna-se co-redentor e artífice da criação. Aí no abismo da escuridão, se gera a luz e o que se faz é obra de Deus, o mistério trinitário a acontecer. O pobre é o rosto de Deus que se mostra no Filho, no Homem, no crente e no descrente.
Teresa não se deixa prostituir, permanece fiel a si mesma e deste modo reconhece a seiva divina a brotar nela e na humanidade. Tem tempo para se ocupar com Deus e com as suas imagens. Sabe que “a noite escura” também é a hora de Deus, pese isto embora a muitos sacerdotes do povo. Fora do aconchego da tradição o sentir religioso é diferente e tem por companheiro a dúvida… A oração, por vezes, já não obedece à fórmula; o acesso a Deus torna-se mais privado perdendo o carácter de audiência. Em Teresa transparece também a consciência do nosso tempo. Antigamente, numa mentalidade dualista, confiança e medo eram expressões da proximidade ou distanciamento de Deus. O Deus trinitário porém nunca se encontra longe ou perto. Ele está sempre presente quer na paixão quer na ressurreição.
A vida fala no silêncio
As pessoas encontram-se demasiadamente ocupadas com mandamentos, devoções, ideias sobre isto e aquilo, sobre Deus e o diabo, não podendo questionar-se a si, questionar Deus, a vida e o mundo. Distraem-se e são distraídas! Fazem de tudo roupagem para se cobrirem ou enfeitarem como se a vida fosse um teatro de jardim infantil. No desejo de se ser encoberto pela ramagem do jardim, repete-se o momento em que Adão foge à pergunta de Deus “Adão onde estás?” Adão já não é, ele apenas está por aí perdido!
O medo escurece o caminho para Deus, para nós próprios levando-nos a viver do outro lado de nós, na segurança. Aí não se vive, criam-se intervalos da vida: trabalha-se, reza-se, canta-se, chora-se e baila-se. É a pegada dum só pé a que falta a do outro!...
Deus não se zanga da nossa zanga com Ele. Ele não é ultrajado sozinho. Isto corresponderia a uma ideia estranha dum Deus não trinitário que veria a Sua bondade condicionada ao sacrifício e à penitência. Muito ateísmo e arrogância nesta ideia de Deus, a ideia dum Deus vingativo, como se Deus se alimentasse da penitência, do desagravo e da dor. Como se Ele e nós não estivéssemos imbuídos no mesmo mistério!... A nós parece fazer-nos jeito abusar da oração para alcançar milagres, para nos agarrarmos a alguma coisa materializada, como se ele não fosse vida, como se ele fosse um estranho! Nas mãos de Deus estão as nossas mãos, numa acção comum.
Cada estação tem a sua vivência, a sua verdade, a sua cor. Numa é a altura da alegria e do louvor, noutra o momento da indignação, o suspiro do total abandono no calvário. Sim também nos Slums e nos Puffs, na miséria da heroína e de SIDA, também aí se encontra a Paixão por acabar, aí é o momento do abandono, o instante do ateísmo profundo. Aqui na sombra da Páscoa, na Paixão do ser humano, a”noite escura” é processo, é Domingo à Sexta-feira. Somos Cristo a sofrer!
Na amargura da necessidade e da dúvida surge o vazio, a ausência. “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” O silêncio, a miséria tornam-se insuportáveis. Deus em tudo e em todos questiona-se a si mesmo. Não precisa de defensores, de cães de guarda, gordos e cientes do seu Senhor, de cães de guarda anafados e cientes do seu estado no Estado. Estes estão alheios a Deus e ao mundo, estes lavam as mãos num povo toalha, sim, num Deus toalha. Estes desconhecem a natureza de Cristo e separam tudo para melhor mandarem, mandarem de fora, não de dentro onde a Realidade acontece.
No momento do abandono não se sabe o que se faz nem o que se diz, é o momento do vazio. A vida também fala no silêncio; a resposta está no silêncio, mesmo quando Deus se cala. Deus é mais que meu vizinho! No meu vizinho encontro esse mais.
A dúvida é um atalho para o meu encontro
A dúvida é um pressuposto para o encontro de mim mesmo, um momento no processo de desenvolvimento. Para me encontrar tenho de me perder. A dúvida é um caminhar atento e em presença, um caminhar em conjunto para o próprio encontro no encontro do outro. De facto encontramo-nos demasiadamente embrulhados para sentirmos o próprio corpo, a própria alma, o próprio ser. Muitas vezes perdemo-nos e deixamo-nos enganar pelos invólucros das ideias de Deus, de vida, de bem, de sociedade, etc. Além disso há muito comerciante só interessado no negócio das fardas.
A dúvida permite a contradição, a expressão polar da vida. No decorrer do desenvolvimento, sistemas e instituições perdem a sua relevância medianeira no encontro com a realidade que passa a ser um processo entre ipseidade e alteridade indefinida, um processo que não pode ser institucionalizado numa forma de vida ou de estar, mesmo a pretexto do bem e da felicidade. A vida acontece em comunidade, é a comunidade na realidade trinitária. A instituição é apenas muleta ou tapete.
A vida é uma poesia, uma oração sempre a ser recomeçada. A devoção, a ideia, a certeza reduzem-se muitas vezes a materialização do espírito. Uma concretização do espírito, a miúdo, tornado pedra, onde se tropeça a caminho da verdade e do bem! Nesse caminhar não se pode ficar entre fé e dúvida no equilíbrio do artifício. Somos campo de batalha sem vencidos nem vencedores.
Na voz dos mortos há uma sonância por Deus e na miséria dos que vivem sem sol na vida uma queixa que quer promessa, uma dissonância que quer ser integrada no concerto universal. Não se trata aqui só da acústica, da atmosfera como podem querer muitos arquitectos do institucional, do conceptual… Não se trata só do existir, do estar aqui. Trata-se da vida toda universal e indivisível, da vida toda em todos.
Teresa, a tua experiência é a de muitos que, na enxurrada da vida, querem represar as cheias. Esta vontade de não querer náufragos chama por Deus para ouvir as vozes dos mudos de tanto sofrer. Na minha dor pretendo de Deus um coração maior que o meu. No meu desespero quero acordá-lo. Porque deixas andar à solta esses lontros e bem anafados que vivem do engano e a enganar? Olha, não vês aquela criança desviada, violada, assassinada, aquela mulher batida, aquele pobre com fome. Afinal, o que se passa contigo, Deus?! Não são eles a outra parte de ti? Porque não brilha o sol da alegria deste lado? Porque fica a sombra da vida aqui. Porque devem as lágrimas dos outros dar o sal para outros temperarem a sua vida? Não vês como os injustos vencem? Também tu fazes parte da injustiça! Porque só me resta a vivência de Job?
Naturalmente que tu te desculpas que te encontras do outro lado das pessoas, que elas se não descobrem e consequentemente não te poderão encontrar! E dirás: Eles procuram-me fora deles, na estrutura, fora dos outros, por isso andam tão perdidos e desencontrados. Quando se encontrarem, as lágrimas na face do mundo terão menos sal porque estas serão então as suas…
A dor é tal que por vezes me separa do todo, de Ti. Então encontro-me solidário, só com as vítimas, deixando de ver o seu outro lado. Dirijo-me ao seu outro lado na condenação da tirania na busca dum maior pulsar do que o do coração humano. Como a tua outra parte é também minha não posso nem quero conformar-me com a tal realidade. Não quero ver o meu grito sufocado por orações nem abafado na paz da igreja ou da política. Também o desespero precisa da sua hora! A ele segue-se a libertação, ou seja, a salvação!...
Aqui no canto chão, neste gregoriano ressoa a voz triste dos sem voz, os suspiros dos da valeta, a tal voz de Deus despercebida. Nela porém se esvai a fé n’Ele tal como o incenso ao ser queimado, como aquelas vidas queimadas à sombra de palavras e sistemas de que só o fumo parece restar, palavras máscara que permitem que a sua alucinação da vida continue apenas no discurso, no texto.
A continuidade da injustiça – uma constante com foros de cidadania
A persistência da injustiça nas instituições, a sua eficácia nas diferentes formas de governo e nos diferentes estilos de vida individuais, é a maior constante observável no contínuo suceder dos sistemas humanos ao longo da história. O argumento dos avanços históricos continua a ser ópio para incautos. Progresso à custa do Homem particular e da dignidade da maioria…
A modernidade dá continuidade à avalanche dos sem fala, do indizível dos sem rosto, onde a esperança morreu num reino de tiranos de caras lavadas sem semblante. De resto, continuaremos a cantar cantigas de amigo procurando o rosto do homem nos segredos da natureza. Entretanto o Teu amor espalhado nas favelas continua a chamar por ti, por mim. O meu amor por ti na favela, me impede, por vezes, de te ver e de te consolar na almofada da Igreja e nos nichos da política. Lá no irmão longe tu irmão Deus és o meu irmão que amo. Lá nele me poderias amar também tu que és frágil também. Porquê tanta divisão, tanto partido, tanta religião? Porquê o cidadão a explorar o cidadão? Nos lares reina a escuridão, na ágora a treva, nos espaços públicos a confusão. Nas cozinhas as baratas e na praça as ratazanas.
Oh se o mundo se deixasse olhar, se permitisse o olhar do pobre no seu olhar! Nesse caso surgiria a caridade e então aquele olhar de mendigo me (te) testemunharia. Então uma época da graça surgiria onde os pobres não andariam mais à mercê e a misericórdia não seria mais uma humilhação. Em contrapartida tu que não te deixas raspar do meu ser, choras desconsolado em mim, aquilo que eu não faço, aquilo que a correcção política nunca faz. Continuas incompreensível porque não queres simpatia porque não és poder. És porém exigente ao pretenderes dar-nos um novo coração e um novo espírito.
Tu, Deus, és o meu vizinho!
De gatas terei de começar de novo, sem mão a ajudar-me. Sei que és um Deus da graça onde a liberdade está em casa e não na boca dos que a anunciam. No teu olhar bondoso as minhas ilusões desaparecem. O mal e as lágrimas que a favela chora são, contigo, a acusação do poder e da violência. Tu, Deus, és o meu vizinho!
Madre Teresa tinha razão em revoltar-se contra ti. Ela sabe que em teu nome, em nome do poder e do costume, se afirma e dá continuidade à injustiça. Eles sabem que a tua relação é pessoal, do eu para o tu e do tu para o eu. Por isso não Te querem como vizinho. Ter Deus como vizinho não é agradável. O teu amor e a tua graça, nosso bem individual e comum, foram encarcerados na instituição e sistemas, em estados, religiões e partidos, em cada um de nós... Assim pode o mal andar à solta e ganhar foros de cidadania. Teresa diz-nos que já chega de jogo da cabra cega, que vai sendo tempo da metanóia.
O homem na tentativa de tornar o povo ovelha perdeu a humanidade para passar a ser cão, cão de guarda do que não lhe pertence. Cães vadios guardando e vivendo da degradação e da inércia do outro num campo de concentração. Abstracções não se amam! Deus é pessoal, conhece-te pelo nome, ele é povo mas não massa inerte. O amor não é abstracção, é relação a dois, a três. Também o próximo é uma singularidade, uma pessoa onde se concretiza o amor ao todo. Este começa naquele.
Teresa sentiu cedo o chamamento: “vem sê a minha luz!” Este foi o chamamento de Deus a Jesus, a cada um de nós, à criação inteira! Porque continuar a adiar a incarnação?
António da Cunha Duarte Justo
2008
quarta-feira, 1 de abril de 2009
AMAR É DIVINIZAR
AMAR É DIVINIZAR
António Justo
A. e A. escolheram para lema da sua união a frase de Dostojewski: “Amar uma pessoa significa vê-la como Deus a quis ver”.
Neste sentido quero meditar um pouco convosco sobre tão belo lema!
A união matrimonial consciente é uma bênção, um passo grande na realização do amor e na sua aprendizagem. Cada um se reconhece como processo, consciente de ser incompleto, projecto inacabado em contínua realização. Parabéns! No exercício do amor consciente exercitareis a própria transcendência.
O amor acenou-vos e vós aqui estais para lhe dar resposta. Ele faz-se sentir como a brisa fresca a passar em tarde de Verão. Na vossa presença e no brilho de vossos rostos sente-se o enlevo do seu ciciar. No amor renasceis juntos para em cada um de vós descobrirdes o Eu e o Outro na realização do nós.
A união matrimonial não é absorvente, ela pressupõe o espaço do próprio horizonte entre vós. (Die eheliche Verbindung ist nicht vereinnahmend, sie setzt einen Raum des Horizontes zwischen beiden voraus). A saudade da vida acenou-vos, para no amor vos tornardes vós, vos tornardes a vida. A vida do amor compreensivo abre perspectivas mesmo para aquilo que poderia tornar-se desilusão. O conhecimento adquirido no amor torna-se salvador tendo como consequência a entrega à medida de Cristo. Na união, o homem ajuda a mulher na realização da encarnação – ressurreição e a mulher ajuda o homem através da comunidade a realizar a encarnação – ressurreição. Então, a relação realiza-se não só na necessidade biológica mas também na realização existencial. O ser humano pressupõe o outro (ein Gegenüber) para se realizar. A dualidade, através do amor, desagua na trindade, na transcendência. Naturalmente, o espírito desenvolve-se da consciência dos contrastes entrando então num processo dinâmico frutífero. No outro vislumbramos também o que em nós se encontra subtérreo.
Deus é comunhão, por isso criou a pessoa como homem e mulher; os dois juntos formam a sua imagem plural e una. Na descoberta da mulher o homem descobre-se outro, na descoberta do homem a mulher descobre-se outra. Esse outro é tudo o que parece estar fora de nós mas que nos forma e gera para uma nova realidade. O eu é sempre incompleto, atendendo à sua conexão processual no “eu sou tu, tu és eu”. Do reconhecimento do Tu no Eu surge a dimensão trialógica (trinitária) do nós. Cada um torna-se ele mesmo na entrega ao outro. Nesta vivência não surgirá a tentação estática de mudar o outro. O amor vos mudará. Doutro modo, as cadeias do desejo prolongarão o sofrimento, dado o desejo provir da dor.
Como é belo receber da mão do outro o pão que se precisa. Homem e mulher encontram no outro, a outra parte respectiva de si mesmo. (Mann und Frau finden im anderen die jeweils andere Seite von sich selbst: das eigene Selbst) O homem encontra na mulher o outro (das andere, das Gegenüber) de si mesmo, e a mulher encontra no homem o outro de si mesma. Assim se recriam, começando assim a antecipar o futuro. No tu está a perspectiva do acto criador, que implica a exuberância de si mesmo que transborda e se comunica. Na entrega mútua se reconhece a vida como parceria, como ser com, numa relação dinâmica de pergunta – resposta. Aqui se prova a relação trinitária onde não há ordem superior nem inferior, independentemente dos próprios papéis.
Ao reconhecer o outro, eu reconheço também que sou mais do que eu mesmo e dou-me conta da profundidade do mistério da vida. Sem o outro estamos sós neste mundo. E não há maior solidão do que a de viver só na companhia de alguém. Sem uma relação autêntica com o outro estamos sós neste mundo. A vida só é possível em parceria, em relação. A relação é que é a vida! Cada um de nós encontra-se no outro. A tenção do feminino com o masculino, e vice-versa, são o pressuposto para o caminho da unidade interior. Assim descobrimos o estranho como parte essencial do eu.
A relação perfeita não se limita ao eu e ao tu: Ela precisa dum terceiro na companhia, que é o nós, o espírito, o amor, tal como na relação do Pai com o Filho surge o Espírito. Tal como na Trindade: o amor do Pai revela-se no filho gerando-o e o filho reconhece o pai amando-o, sendo o Espírito o fruto daquelas relações amorosas, o nós. A realização do Eu está no Tu e do Tu no nós. Nesta dimensão o Eu e o Tu encontram-se numa relação de salvação mútua e universal. No Tu está a componente salvadora do Eu e a vocação universal de salvação, tal como a vivemos no nosso protótipo Jesus Cristo.
A chama acordada no primeiro momento do amor, aponta para a perspectiva duma realidade aberta manifestando nele a realidade divina no que tem de mistério e possibilidade. Já Paulo dizia: “Aos olhos de Deus, nem a mulher se compreende sem o homem, nem o homem sem a mulher!” (1 Cor 11,11).
O matrimónio é uma forma ideal de antecipação do processo da união do natural com o espiritual, tal como é vivida na relação trinitária. Na entrega mútua de um ao outro dá-se a concepção e realização de cada um, já não apenas como um eu ou como um tu mas também como um nós. A relação e a contínua descoberta do tu conduz à dimensão do nós.
Também na união sexual se torna mais visível a realidade do sacramento da nossa união com Deus. Aí se antecipa já o carinho e a ternura divina. Na união se inicia a realidade do sacramento eucarístico. Aí começa já o futuro.
A aprendizagem e o exercício paciente do amor implicarão finalmente uma relação já não só de diálogo mas de triálogo. Então se compreenderá melhor a expressão de Agostinho quando diz: “Ama e faz o que quiseres” (Augustinus sagte: Liebe und mache was du willst).
António da Cunha Duarte Justo
Stadtkirche Bad Wildungen
22.08.2008
António Justo
A. e A. escolheram para lema da sua união a frase de Dostojewski: “Amar uma pessoa significa vê-la como Deus a quis ver”.
Neste sentido quero meditar um pouco convosco sobre tão belo lema!
A união matrimonial consciente é uma bênção, um passo grande na realização do amor e na sua aprendizagem. Cada um se reconhece como processo, consciente de ser incompleto, projecto inacabado em contínua realização. Parabéns! No exercício do amor consciente exercitareis a própria transcendência.
O amor acenou-vos e vós aqui estais para lhe dar resposta. Ele faz-se sentir como a brisa fresca a passar em tarde de Verão. Na vossa presença e no brilho de vossos rostos sente-se o enlevo do seu ciciar. No amor renasceis juntos para em cada um de vós descobrirdes o Eu e o Outro na realização do nós.
A união matrimonial não é absorvente, ela pressupõe o espaço do próprio horizonte entre vós. (Die eheliche Verbindung ist nicht vereinnahmend, sie setzt einen Raum des Horizontes zwischen beiden voraus). A saudade da vida acenou-vos, para no amor vos tornardes vós, vos tornardes a vida. A vida do amor compreensivo abre perspectivas mesmo para aquilo que poderia tornar-se desilusão. O conhecimento adquirido no amor torna-se salvador tendo como consequência a entrega à medida de Cristo. Na união, o homem ajuda a mulher na realização da encarnação – ressurreição e a mulher ajuda o homem através da comunidade a realizar a encarnação – ressurreição. Então, a relação realiza-se não só na necessidade biológica mas também na realização existencial. O ser humano pressupõe o outro (ein Gegenüber) para se realizar. A dualidade, através do amor, desagua na trindade, na transcendência. Naturalmente, o espírito desenvolve-se da consciência dos contrastes entrando então num processo dinâmico frutífero. No outro vislumbramos também o que em nós se encontra subtérreo.
Deus é comunhão, por isso criou a pessoa como homem e mulher; os dois juntos formam a sua imagem plural e una. Na descoberta da mulher o homem descobre-se outro, na descoberta do homem a mulher descobre-se outra. Esse outro é tudo o que parece estar fora de nós mas que nos forma e gera para uma nova realidade. O eu é sempre incompleto, atendendo à sua conexão processual no “eu sou tu, tu és eu”. Do reconhecimento do Tu no Eu surge a dimensão trialógica (trinitária) do nós. Cada um torna-se ele mesmo na entrega ao outro. Nesta vivência não surgirá a tentação estática de mudar o outro. O amor vos mudará. Doutro modo, as cadeias do desejo prolongarão o sofrimento, dado o desejo provir da dor.
Como é belo receber da mão do outro o pão que se precisa. Homem e mulher encontram no outro, a outra parte respectiva de si mesmo. (Mann und Frau finden im anderen die jeweils andere Seite von sich selbst: das eigene Selbst) O homem encontra na mulher o outro (das andere, das Gegenüber) de si mesmo, e a mulher encontra no homem o outro de si mesma. Assim se recriam, começando assim a antecipar o futuro. No tu está a perspectiva do acto criador, que implica a exuberância de si mesmo que transborda e se comunica. Na entrega mútua se reconhece a vida como parceria, como ser com, numa relação dinâmica de pergunta – resposta. Aqui se prova a relação trinitária onde não há ordem superior nem inferior, independentemente dos próprios papéis.
Ao reconhecer o outro, eu reconheço também que sou mais do que eu mesmo e dou-me conta da profundidade do mistério da vida. Sem o outro estamos sós neste mundo. E não há maior solidão do que a de viver só na companhia de alguém. Sem uma relação autêntica com o outro estamos sós neste mundo. A vida só é possível em parceria, em relação. A relação é que é a vida! Cada um de nós encontra-se no outro. A tenção do feminino com o masculino, e vice-versa, são o pressuposto para o caminho da unidade interior. Assim descobrimos o estranho como parte essencial do eu.
A relação perfeita não se limita ao eu e ao tu: Ela precisa dum terceiro na companhia, que é o nós, o espírito, o amor, tal como na relação do Pai com o Filho surge o Espírito. Tal como na Trindade: o amor do Pai revela-se no filho gerando-o e o filho reconhece o pai amando-o, sendo o Espírito o fruto daquelas relações amorosas, o nós. A realização do Eu está no Tu e do Tu no nós. Nesta dimensão o Eu e o Tu encontram-se numa relação de salvação mútua e universal. No Tu está a componente salvadora do Eu e a vocação universal de salvação, tal como a vivemos no nosso protótipo Jesus Cristo.
A chama acordada no primeiro momento do amor, aponta para a perspectiva duma realidade aberta manifestando nele a realidade divina no que tem de mistério e possibilidade. Já Paulo dizia: “Aos olhos de Deus, nem a mulher se compreende sem o homem, nem o homem sem a mulher!” (1 Cor 11,11).
O matrimónio é uma forma ideal de antecipação do processo da união do natural com o espiritual, tal como é vivida na relação trinitária. Na entrega mútua de um ao outro dá-se a concepção e realização de cada um, já não apenas como um eu ou como um tu mas também como um nós. A relação e a contínua descoberta do tu conduz à dimensão do nós.
Também na união sexual se torna mais visível a realidade do sacramento da nossa união com Deus. Aí se antecipa já o carinho e a ternura divina. Na união se inicia a realidade do sacramento eucarístico. Aí começa já o futuro.
A aprendizagem e o exercício paciente do amor implicarão finalmente uma relação já não só de diálogo mas de triálogo. Então se compreenderá melhor a expressão de Agostinho quando diz: “Ama e faz o que quiseres” (Augustinus sagte: Liebe und mache was du willst).
António da Cunha Duarte Justo
Stadtkirche Bad Wildungen
22.08.2008
sábado, 28 de março de 2009
PAPA EM ANGOLA
UMA GRANDE NAÇÃO EM CONSTRUÇÃO
António Justo
A visita do Papa a Angola levou a imprensa mundial a pôr em foco este país de grande porvir.
Angola é já o maior produtor de petróleo da África, sendo as suas reservas maiores do que as do Kuwait.
No tempo de Salazar dizia-se que as riquezas de Angola são incomensuráveis. Afirmava-se que quando Deus criou o mundo, não sabendo que fazer ao resto o deixou em Angola.
Apesar da tragédia da descolonização irresponsável dos marxistas do 25 de Abril, que trouxe muito sofrimento para o povo angolano e para os portugueses lá residentes, pouco a pouco, Angola vai-se afirmando e vai ganhando peso a nível internacional.
Eduardo dos Santos, membro da MPLA governa o país desde há trinta anos. O governo é que toca a música da nação. As pegadas da guerra civil ainda se encontram visíveis por todo o lado nos rebeldes. Felizmente os representantes, os de cima, reconciliaram-se.
A maioria dos angolanos, porém, vive na pobreza, com falta de trabalho. A reconciliação do povo está ainda por fazer.
Luanda teve um crescimento de 25% num ano. O aluguer das casas, em Luanda, é um dos mais caros do mundo.
Uma nação tão rica estaria vocacionada a tornar-se o eixo da África. Para isso o Governo teria de evitar o erro da política das nações ocidentais que levaram o povo a abandonar o interior, provocando a sua desertificação para o concentrarem em grandes metrópoles de vida artificial onde a marginalidade pulula. Angola precisa de grandes investimentos nas infra-estruturas. Em política de imigração estaria bem aconselhada se seguisse o exemplo do Luxemburgo, favorecendo a imigração de portugueses. Este é um povo que se identifica com os autóctones e depois da primeira geração já se encontra integrada, ao contrário doutras etnias.
O privilegiar a imigração de portugueses e de brasileiros tornar-se-ia uma medida altamente inteligente sócio-economicamente. (Cfr. O milagre da socialização brasileira em Gilberto Freyre em “Casa Grande & Senzala”).
Uma outra medida benéfica para a estabilização social e nacional seria o fomento do cristianismo, como religião universalista e aberta também ao secularismo ela é garante de prosperidade e identidade nacional plural. Por todo o lado se revela como factor de progresso e de integração nacional das diferentes etnias, sem o perigo de apostar na hegemonia religiosa. O cristianismo revelou-se como a Mundivisão que leva ao progresso dado apostar na pessoa e não se encerrar em formas de vida arcaicas. Os governantes a sul do deserto do Saará, mesmo por meros interesses nacionais, deviam estar mais atentos a este fenómeno.
A Visita do Papa a Angola
Um povo paciente e bom acorreu, de todas as partes, para estar com o Papa. O povo e os pobres estiveram no centro do acontecimento e das preocupações da Igreja. Na recepção do pontífice, o governo manifestou-se à altura apresentando Angola como nação responsável.
Alguma imprensa internacional, sempre ávida na crítica ao Papa, lamentou o facto de ele não ter puxado as orelhas aos governantes. Esta, geralmente com má consciência ou desinteresse em relação a África e à Igreja apostou demasiado no moralismo ideológico querendo reduzir o problema africano à sexualidade. Certa informação internacional foi manipuladora tencionando conotar o Papa com extremismos a ele alheios. De facto ele mesmo já disse há anos atrás que a questão do preservativo é secundária e que “ mais importante é o processo de educação séria das pessoas”. É índice de má-intenção querer reduzir ou ligar a acção da Igreja à opinião contra contraceptivos. De facto é perverso menosprezar o empenho da igreja católica quando ela, se dedica tanto ao tratamento dos doentes com SIDA, estando ela com eles e entre eles, enquanto que os ideólogos só falam deles. De facto 27% das instituições no mundo que cuidam de doentes de SIDA são da Igreja. Os governos têm 8% de instituições, as ONG 18%, e a ONU tem 44%.
O Pe. Feytor Pinto, Coordenador Nacional da Pastoral da Saúde, põe o dedo na chaga ao afirmar que “não é apenas através dos métodos de ponta final que se evita o contágio. Antes do preservativo há outros. Falta educação para a sexualidade, que é tão importante e continuamos sem a fazer. Falta abordar a redução de parceiros de risco, a diminuição drástica do número de parceiros, a monogamia… Quando as pessoas têm uma vida sexual correctamente assumida, não é usar o preservativo que é errado, mas sim ter comportamentos errados num sexo anárquico”.
Não chega, como querem progressistas da superficialidade, apostar apenas no momentâneo, num homem proletário sem história nem rasto. É importante estar com eles e não contentar-se apenas em ridicularizar os profetas enxovalhando os seus valores.
António da Cunha Duarte Justo
antoniocunhajusto@googlemail.com
António Justo
A visita do Papa a Angola levou a imprensa mundial a pôr em foco este país de grande porvir.
Angola é já o maior produtor de petróleo da África, sendo as suas reservas maiores do que as do Kuwait.
No tempo de Salazar dizia-se que as riquezas de Angola são incomensuráveis. Afirmava-se que quando Deus criou o mundo, não sabendo que fazer ao resto o deixou em Angola.
Apesar da tragédia da descolonização irresponsável dos marxistas do 25 de Abril, que trouxe muito sofrimento para o povo angolano e para os portugueses lá residentes, pouco a pouco, Angola vai-se afirmando e vai ganhando peso a nível internacional.
Eduardo dos Santos, membro da MPLA governa o país desde há trinta anos. O governo é que toca a música da nação. As pegadas da guerra civil ainda se encontram visíveis por todo o lado nos rebeldes. Felizmente os representantes, os de cima, reconciliaram-se.
A maioria dos angolanos, porém, vive na pobreza, com falta de trabalho. A reconciliação do povo está ainda por fazer.
Luanda teve um crescimento de 25% num ano. O aluguer das casas, em Luanda, é um dos mais caros do mundo.
Uma nação tão rica estaria vocacionada a tornar-se o eixo da África. Para isso o Governo teria de evitar o erro da política das nações ocidentais que levaram o povo a abandonar o interior, provocando a sua desertificação para o concentrarem em grandes metrópoles de vida artificial onde a marginalidade pulula. Angola precisa de grandes investimentos nas infra-estruturas. Em política de imigração estaria bem aconselhada se seguisse o exemplo do Luxemburgo, favorecendo a imigração de portugueses. Este é um povo que se identifica com os autóctones e depois da primeira geração já se encontra integrada, ao contrário doutras etnias.
O privilegiar a imigração de portugueses e de brasileiros tornar-se-ia uma medida altamente inteligente sócio-economicamente. (Cfr. O milagre da socialização brasileira em Gilberto Freyre em “Casa Grande & Senzala”).
Uma outra medida benéfica para a estabilização social e nacional seria o fomento do cristianismo, como religião universalista e aberta também ao secularismo ela é garante de prosperidade e identidade nacional plural. Por todo o lado se revela como factor de progresso e de integração nacional das diferentes etnias, sem o perigo de apostar na hegemonia religiosa. O cristianismo revelou-se como a Mundivisão que leva ao progresso dado apostar na pessoa e não se encerrar em formas de vida arcaicas. Os governantes a sul do deserto do Saará, mesmo por meros interesses nacionais, deviam estar mais atentos a este fenómeno.
A Visita do Papa a Angola
Um povo paciente e bom acorreu, de todas as partes, para estar com o Papa. O povo e os pobres estiveram no centro do acontecimento e das preocupações da Igreja. Na recepção do pontífice, o governo manifestou-se à altura apresentando Angola como nação responsável.
Alguma imprensa internacional, sempre ávida na crítica ao Papa, lamentou o facto de ele não ter puxado as orelhas aos governantes. Esta, geralmente com má consciência ou desinteresse em relação a África e à Igreja apostou demasiado no moralismo ideológico querendo reduzir o problema africano à sexualidade. Certa informação internacional foi manipuladora tencionando conotar o Papa com extremismos a ele alheios. De facto ele mesmo já disse há anos atrás que a questão do preservativo é secundária e que “ mais importante é o processo de educação séria das pessoas”. É índice de má-intenção querer reduzir ou ligar a acção da Igreja à opinião contra contraceptivos. De facto é perverso menosprezar o empenho da igreja católica quando ela, se dedica tanto ao tratamento dos doentes com SIDA, estando ela com eles e entre eles, enquanto que os ideólogos só falam deles. De facto 27% das instituições no mundo que cuidam de doentes de SIDA são da Igreja. Os governos têm 8% de instituições, as ONG 18%, e a ONU tem 44%.
O Pe. Feytor Pinto, Coordenador Nacional da Pastoral da Saúde, põe o dedo na chaga ao afirmar que “não é apenas através dos métodos de ponta final que se evita o contágio. Antes do preservativo há outros. Falta educação para a sexualidade, que é tão importante e continuamos sem a fazer. Falta abordar a redução de parceiros de risco, a diminuição drástica do número de parceiros, a monogamia… Quando as pessoas têm uma vida sexual correctamente assumida, não é usar o preservativo que é errado, mas sim ter comportamentos errados num sexo anárquico”.
Não chega, como querem progressistas da superficialidade, apostar apenas no momentâneo, num homem proletário sem história nem rasto. É importante estar com eles e não contentar-se apenas em ridicularizar os profetas enxovalhando os seus valores.
António da Cunha Duarte Justo
antoniocunhajusto@googlemail.com
sexta-feira, 27 de março de 2009
PAPA BENTO XVI EM ÁFRICA
O que o Papa verdadeiramente disse sobre o preservativo
António Justo
Um jornalismo ávido do escândalo conseguiu, torcer e retorcer as palavras do Papa para assim activar o espírito de indignação duma opinião pública ao sabor dos letreiros dúbios dos jornais.
Assim a mentira (1) dum jornalista entrevistador do Papa, ainda ele não tinha pisado terras africanas, conseguiu desviar as atenções da imprensa mundial. Como se o problema da África fosse a sexualidade, uma imprensa mais interessada no preconceito do que nos verdadeiros problemas de África pôde produzir muito ruído sem ter de se empenhar nem confrontar com a realidade do povo, a realidade que interessa ao pontífice. A imprensa internacional, à caça de sensacionalismos pouco ligou ao povo e à mensagem do Papa. Procurou, através de sensacionalismos fomentar a sua quota de venda ou de espectadores. Por outro lado, o oportunismo político e ideológico de Zapateiro de Espanha manifesta-se no envio dum contentor de preservativos. A arrogância europeia está mais uma vez documentada no gesto espanhol. Vivemos cada vez mais num estado de infantilismo democrático. Os Africanos são desta maneira ridicularizados e instrumentalizados ideologicamente em vez de serem ajudados de facto. Segundo investigações científicas da ONU a simples distribuição de preservativos, sem mais, piora o problema do S.I.D.A. porque diminui as cautelas a ter. O problema do S.I.D.A. não se resolve com preservativos nem com proibições! Da precocidade sexual e da poligamia ninguém fala.
Parece tornar-se normalidade um jornalismo de função parasitária cada vez mais interessado em desviar as atenções do essencial.
Entre cinismo e ingenuidade desconstrói-se, a pretexto de informação. As catástrofes da realidade não são entendidas nem decifradas, só interessam num sentido voyeurista ou numa descrição da realidade como se tratasse de visitas a teatro. Naturalmente que também há jornalismo sério, mas este exige mais tempo de observação.
A Igreja vê a questão dos preservativos no conjunto da educação sexual como uma questão apenas complementar. Pelo contrário ideologias proletárias que pouco mais têm que sexo para oferecer conseguem ganhar perfil e até ter razão na superficialidade reduzindo um povo a instinto.
António da Cunha Duarte Justo
antoniocunhajusto@googlemail.com
(1) Texto completo da entrevista ao Papa Bento XVI: Repórter: “Santo Padre, um dos maiores flagelos de África é o problema da epidemia de S.I.D.A.. A posição da Igreja Católica na luta contra este mal tem sido frequentemente considerada irrealista e ineficaz.”
Bento XVI respondeu: “Eu diria o contrário. Estou convencido de que a presença mais efectiva na frente de batalha contra o HIV/S.I.D.A. são, precisamente, a Igreja Católica e as suas instituições. Penso por exemplo na Comunidade de Santo Egídio, que tanto faz e tão
visivelmente na luta contra o S.I.D.A; ou nas Camilianas, só para mencionar algumas das freiras que estão ao serviço dos doentes. Penso que este problema, a S.I.D.A., não pode ser vencido com slogans de propaganda. Se falta a alma, se os Africanos não se entreajudarem, o flagelo não pode ser resolvido com a distribuição do preservativo; pelo contrário, arriscamo-nos a piorar a situação. A solução só pode advir de um compromisso duplo: primeiro, na humanização da sexualidade ou, por outras palavras, num renovamento espiritual e humano que traga consigo uma nova forma de proceder uns para com os outros. E em segundo lugar, num amor autêntico para com os que sofrem, numa prontidão – mesmo à custa de sacrifício pessoal - para estar presente junto dos que padecem. São estes os factores que podem trazer o progresso, real e visível. Assim, eu diria que o nosso esforço deve ser o de renovar a pessoa humana por dentro, o de lhe dar força espiritual e humana para uma forma de comportamento justa para com o seu corpo e o corpo do outro; e ainda o de ajudá-la a ser capaz de sofrer com os que sofrem e de estar presente nas situações difíceis. Acredito que é esta a primeira resposta ao problema da S.I.D.A., que é esta a resposta da Igreja e que, deste modo, a sua contribuição é uma grande contribuição. E estamos gratos a todos os que assim contribuem.”
António Justo
Um jornalismo ávido do escândalo conseguiu, torcer e retorcer as palavras do Papa para assim activar o espírito de indignação duma opinião pública ao sabor dos letreiros dúbios dos jornais.
Assim a mentira (1) dum jornalista entrevistador do Papa, ainda ele não tinha pisado terras africanas, conseguiu desviar as atenções da imprensa mundial. Como se o problema da África fosse a sexualidade, uma imprensa mais interessada no preconceito do que nos verdadeiros problemas de África pôde produzir muito ruído sem ter de se empenhar nem confrontar com a realidade do povo, a realidade que interessa ao pontífice. A imprensa internacional, à caça de sensacionalismos pouco ligou ao povo e à mensagem do Papa. Procurou, através de sensacionalismos fomentar a sua quota de venda ou de espectadores. Por outro lado, o oportunismo político e ideológico de Zapateiro de Espanha manifesta-se no envio dum contentor de preservativos. A arrogância europeia está mais uma vez documentada no gesto espanhol. Vivemos cada vez mais num estado de infantilismo democrático. Os Africanos são desta maneira ridicularizados e instrumentalizados ideologicamente em vez de serem ajudados de facto. Segundo investigações científicas da ONU a simples distribuição de preservativos, sem mais, piora o problema do S.I.D.A. porque diminui as cautelas a ter. O problema do S.I.D.A. não se resolve com preservativos nem com proibições! Da precocidade sexual e da poligamia ninguém fala.
Parece tornar-se normalidade um jornalismo de função parasitária cada vez mais interessado em desviar as atenções do essencial.
Entre cinismo e ingenuidade desconstrói-se, a pretexto de informação. As catástrofes da realidade não são entendidas nem decifradas, só interessam num sentido voyeurista ou numa descrição da realidade como se tratasse de visitas a teatro. Naturalmente que também há jornalismo sério, mas este exige mais tempo de observação.
A Igreja vê a questão dos preservativos no conjunto da educação sexual como uma questão apenas complementar. Pelo contrário ideologias proletárias que pouco mais têm que sexo para oferecer conseguem ganhar perfil e até ter razão na superficialidade reduzindo um povo a instinto.
António da Cunha Duarte Justo
antoniocunhajusto@googlemail.com
(1) Texto completo da entrevista ao Papa Bento XVI: Repórter: “Santo Padre, um dos maiores flagelos de África é o problema da epidemia de S.I.D.A.. A posição da Igreja Católica na luta contra este mal tem sido frequentemente considerada irrealista e ineficaz.”
Bento XVI respondeu: “Eu diria o contrário. Estou convencido de que a presença mais efectiva na frente de batalha contra o HIV/S.I.D.A. são, precisamente, a Igreja Católica e as suas instituições. Penso por exemplo na Comunidade de Santo Egídio, que tanto faz e tão
visivelmente na luta contra o S.I.D.A; ou nas Camilianas, só para mencionar algumas das freiras que estão ao serviço dos doentes. Penso que este problema, a S.I.D.A., não pode ser vencido com slogans de propaganda. Se falta a alma, se os Africanos não se entreajudarem, o flagelo não pode ser resolvido com a distribuição do preservativo; pelo contrário, arriscamo-nos a piorar a situação. A solução só pode advir de um compromisso duplo: primeiro, na humanização da sexualidade ou, por outras palavras, num renovamento espiritual e humano que traga consigo uma nova forma de proceder uns para com os outros. E em segundo lugar, num amor autêntico para com os que sofrem, numa prontidão – mesmo à custa de sacrifício pessoal - para estar presente junto dos que padecem. São estes os factores que podem trazer o progresso, real e visível. Assim, eu diria que o nosso esforço deve ser o de renovar a pessoa humana por dentro, o de lhe dar força espiritual e humana para uma forma de comportamento justa para com o seu corpo e o corpo do outro; e ainda o de ajudá-la a ser capaz de sofrer com os que sofrem e de estar presente nas situações difíceis. Acredito que é esta a primeira resposta ao problema da S.I.D.A., que é esta a resposta da Igreja e que, deste modo, a sua contribuição é uma grande contribuição. E estamos gratos a todos os que assim contribuem.”
segunda-feira, 9 de março de 2009
Mulher Defraudada na sua Honra e Dignidade Social e Eclesiástica
Libertação ou Emancipação?
António Justo
Emancipação continua um problema não resolvido na época moderna. A história da mulher é, em muitas culturas e subculturas, enquadrada num ambiente de culpa e vergonha.
Nos últimos 150 anos tem havido, epidermicamente, a preocupação de se criar mais justiça no trato da mulher. A nova sociedade do trabalho precisava de mão-de-obra para satisfazer as suas necessidades. A mulher foi mobilizada também adquirindo assim, para lá da família, um lugar na sociedade. A emancipação da mulher tem-se processado numa forma de servir o trabalho.
A sociedade industrial capitalista e socialista equaciona o ser humano em termos de trabalho e de dinheiro, sem outros horizontes mitigantes possíveis.
Nesta sociedade de concorrência, também a mulher se vê obrigada a equacionar o seu sentido, a sua emancipação, em termos de trabalho, em perspectivas meramente funcionais. Assim também ela luta por um lugar, uma função na sociedade
Relegada, na grande maioria para trabalhos considerados “inferiores” sente que a feminidade é explorada pelo virilismo. Magoada no âmago do seu ser opõe-se a ser reduzida à função de servir e por isso luta pela igualdade de oportunidades.
No princípio “Deus criou o Homem como homem e mulher”, à sua “imagem e semelhança”. O ser do homem e do seu estar social ultrapassa a masculinidade e a feminidade. Encontrando-se embora mulher e homem numa relação polar não é legítimo reduzir a mulher a um papel social sexual ou laboral à medida duma forma de Estado criado à imagem do homem. Deus criou-os diferentes mas iguais; iguais também no serviço mútuo do matrimónio. A mulher não é só mulher nem o homem é só homem, os dois juntos são a imagem de Deus.
O seu ser pessoal, não suporta a redução a mero indivíduo em interdependência. Seria machismo reduzir a emancipação da mulher apenas a uma igualdade funcional de direitos. Um e outro têm a mesma dignidade humana sem qualquer prioridade de um sobre o outro, pelo que não pode haver reservados limitadores da acção feminina: também a exclusão da ordenação sacerdotal para mulheres não pode ser legitimada com pretextos do sexo, ou pretextos culturais, já que estes são premissas provenientes da sociedade masculina, premissas dum Estado regido pela masculinidade. Estados e religiões roubam algo à igualdade da mulher, defraudando-a na sua dignidade humana. A equivalência de homem e mulher na dignidade é estrutural não podendo esta ser reduzida a uma igualdade meramente funcional deduzida do carácter sexual, duma forma de estar do Homem. Daí que também a Igreja Católica se encontra a nível prático em contradição com a sua própria doutrina ao considerar a mulher apenas sob o carácter funcional ao não lhe permitir o acesso à ordem sacerdotal.
Na polaridade própria do ser terreno não se podem reduzir a vocação do Homem (Mulher e Homem) a uma profissão como se os dois tivessem apenas uma relação funcional.
Não seria hoje, uma das tarefas da mulher, o momento de repetir o gesto de Eva, chamando o homem à atenção de olhar para cima, para a árvore da liberdade? Acordar, de novo o companheiro para a vida. Se na cena bíblica a mulher o acordou da animalidade para a racionalidade, hoje ela terá de o acordar do seu viver em segunda mão, da sua cama da cultura, não permitindo que ele continue a ser cuco a pôr ovos em ninho alheio!
Emancipação não se reduz apenas ao querer participar na competição organizada pelo homem; nesse caso seria um mal-entendido da libertação.. Emancipação começaria por questionar a corrida e pretender investigar para onde vai a corrida. Doutro modo a mulher apenas fortalecerá o sistema masculino, um sistema de corrida em que todos ficam pelo caminho, estafados, sem saberem para onde corriam. Não chega fazer do caminho sentido. Isso é masculino. O especificamente feminino será preocupar-se com o produto, com o processo na perspectiva final do parto!...
A emancipação implica um processo de libertação das estruturas da violência, que se torne libertação também para o homem e libertação dos ídolos masculinos.
A emancipação pressupõe uma revisão da vida humana sob a perspectiva do olhar fecundo da mulher não interessada apenas numa satisfação ocasional sempre repetida, mas numa correcção de perspectiva de futuro, o que implicaria uma rectificação dos valores. Valores femininos, de que se sente a falta no modelo de sociedade em prática.
O homem parece continuamente precipitado na correria ao orgasmo, na realização do herói, do conquistador, numa correria de destruição, duma ventania que passa, num instinto de morte a fugir a si mesma. Enquanto o homem se esgota no acto, a mulher repousa na acção com a força da paciência da vida que na sua gestação, acção criadora, implica a paciência da gravidez que se realiza no viver. Naturalmente que a ventania masculina também é importante, mas, sem a persistência, sem a continuidade feminina, só realiza conquistas, devastações, utopias de embalar para não sentir o contínuo morrer. Se o homem traz nele o tanatos (a morte), a mulher traz nela a vida; um e outro são inseparáveis. Trata-se da união dos dois, na vivência consciente da tensão polar entre os dois na realização dum terceiro ser: o nós. O homem precisa de adquirir a paciência para sentir a vida a realizar-se nele e não se contentar com o sentimento da vida a passar. Uma actividade feminina mais presente unida a uma virilidade mais paciente poderiam parir um outro tipo de sociedade em que a humanidade, a complacência estivessem em casa.
Num primeiro momento a feminidade educaria a masculinidade conduzindo a sociedade para um novo caminho. Então a massa morta do povo passaria a levedar um novo estar, um novo ser. Não se trata do amolecimento do masculino, ou de se criar um homem maricas decadente, nem uma mulher macho, um virago. Trata-se de conseguir a união da privacidade íntima com o público representativo. O mundo tecnológico e partidário seriam mitigados por uma maior presença duma cultura de arte, literatura e ideias, passando da ortodoxia de que se apoderou o homem para uma ortopraxia. Não é suficiente que o homem continue a instrumentalizar o feminino, servindo-se do erótico da mulher para melhor expressar e transportar a sua masculinidade na cultura e sociedade.
Não se avistam modelos concretos de sociedade que tenham respeito pela feminidade e menos ainda que a integrem. Capitalismo, Comunismo, Socialismo materialista são os melhores exemplos duma cultura tipicamente masculina. Só uma mudança de valores, que não a de valores masculinos em voga, que são o resultado e o objectivo duma ordem masculina unilateral, garantirá libertação do homem e da mulher, em conjunto. A masculinidade foi separada da feminidade tal como a sociedade do trabalho separou a família da sociedade, em detrimento da sociabilidade e da privacidade.
O empreendimento duma sociedade humana implica esforços em todas as direcções: da filosofia para que esta dê mais relevo ao método indutivo, da religião para que esta dê mais relevo à feminidade divina, da economia para que esta dê mais relevo ao carácter humano e duma política menos partidária e mais solidária que reflicta o espírito das disciplinas anteriores. Isto pressupõe o projecto duma mulher autêntica e do homem autêntico, ambos em processo aberto, sem se deixarem instrumentalizar e funcionalizar.
Trata-se de ultrapassar o mesmo espírito que deu forma às sociedades dos escravos, dos senhores e à actual sociedade do trabalho para passarmos a uma infra-estrutura, baseada no Homem feminino e masculino, geradora duma sociedade humana. Passar duma sociedade dos serviços para uma sociedade do humano, duma sociedade que não se esgote no acto sexual mas se delicie também na gestação!... Uma sociedade já não do homem, mas do Homem, uma sociedade grávida de humanidade sem lugar para poleiros baseada na mística do galo e da galinha. A diferença é uma constante na natureza que apela à solidariedade. O que determina a essência ontológico do homem é a mulher e o que determina a essência ontológico da mulher é o homem, doutro modo seríamos reduzidos, uns e outros à esterilidade.
Já fomos, demasiado tempo, conquistadores e heróis, talvez se aproxime o tempo em que possamos ser todos peregrinos. Então Adão reconciliar-se-á com Eva deixando de se afirmar pela coacção e de viver do salário barato da obediência e da subjugação.
Que vale a descrença, que vale o cepticismo se se desfaz numa outra fé? Então seria mais oportuno voltar à fé primeira numa ortopraxia.Então será óbvia a libertação e não a emancipação. Aquela constrói, enquanto que esta é a táctica de domínio do homem: divide para reinar!...
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo
antoniocunhajusto@googlemail.com
António Justo
Emancipação continua um problema não resolvido na época moderna. A história da mulher é, em muitas culturas e subculturas, enquadrada num ambiente de culpa e vergonha.
Nos últimos 150 anos tem havido, epidermicamente, a preocupação de se criar mais justiça no trato da mulher. A nova sociedade do trabalho precisava de mão-de-obra para satisfazer as suas necessidades. A mulher foi mobilizada também adquirindo assim, para lá da família, um lugar na sociedade. A emancipação da mulher tem-se processado numa forma de servir o trabalho.
A sociedade industrial capitalista e socialista equaciona o ser humano em termos de trabalho e de dinheiro, sem outros horizontes mitigantes possíveis.
Nesta sociedade de concorrência, também a mulher se vê obrigada a equacionar o seu sentido, a sua emancipação, em termos de trabalho, em perspectivas meramente funcionais. Assim também ela luta por um lugar, uma função na sociedade
Relegada, na grande maioria para trabalhos considerados “inferiores” sente que a feminidade é explorada pelo virilismo. Magoada no âmago do seu ser opõe-se a ser reduzida à função de servir e por isso luta pela igualdade de oportunidades.
No princípio “Deus criou o Homem como homem e mulher”, à sua “imagem e semelhança”. O ser do homem e do seu estar social ultrapassa a masculinidade e a feminidade. Encontrando-se embora mulher e homem numa relação polar não é legítimo reduzir a mulher a um papel social sexual ou laboral à medida duma forma de Estado criado à imagem do homem. Deus criou-os diferentes mas iguais; iguais também no serviço mútuo do matrimónio. A mulher não é só mulher nem o homem é só homem, os dois juntos são a imagem de Deus.
O seu ser pessoal, não suporta a redução a mero indivíduo em interdependência. Seria machismo reduzir a emancipação da mulher apenas a uma igualdade funcional de direitos. Um e outro têm a mesma dignidade humana sem qualquer prioridade de um sobre o outro, pelo que não pode haver reservados limitadores da acção feminina: também a exclusão da ordenação sacerdotal para mulheres não pode ser legitimada com pretextos do sexo, ou pretextos culturais, já que estes são premissas provenientes da sociedade masculina, premissas dum Estado regido pela masculinidade. Estados e religiões roubam algo à igualdade da mulher, defraudando-a na sua dignidade humana. A equivalência de homem e mulher na dignidade é estrutural não podendo esta ser reduzida a uma igualdade meramente funcional deduzida do carácter sexual, duma forma de estar do Homem. Daí que também a Igreja Católica se encontra a nível prático em contradição com a sua própria doutrina ao considerar a mulher apenas sob o carácter funcional ao não lhe permitir o acesso à ordem sacerdotal.
Na polaridade própria do ser terreno não se podem reduzir a vocação do Homem (Mulher e Homem) a uma profissão como se os dois tivessem apenas uma relação funcional.
Não seria hoje, uma das tarefas da mulher, o momento de repetir o gesto de Eva, chamando o homem à atenção de olhar para cima, para a árvore da liberdade? Acordar, de novo o companheiro para a vida. Se na cena bíblica a mulher o acordou da animalidade para a racionalidade, hoje ela terá de o acordar do seu viver em segunda mão, da sua cama da cultura, não permitindo que ele continue a ser cuco a pôr ovos em ninho alheio!
Emancipação não se reduz apenas ao querer participar na competição organizada pelo homem; nesse caso seria um mal-entendido da libertação.. Emancipação começaria por questionar a corrida e pretender investigar para onde vai a corrida. Doutro modo a mulher apenas fortalecerá o sistema masculino, um sistema de corrida em que todos ficam pelo caminho, estafados, sem saberem para onde corriam. Não chega fazer do caminho sentido. Isso é masculino. O especificamente feminino será preocupar-se com o produto, com o processo na perspectiva final do parto!...
A emancipação implica um processo de libertação das estruturas da violência, que se torne libertação também para o homem e libertação dos ídolos masculinos.
A emancipação pressupõe uma revisão da vida humana sob a perspectiva do olhar fecundo da mulher não interessada apenas numa satisfação ocasional sempre repetida, mas numa correcção de perspectiva de futuro, o que implicaria uma rectificação dos valores. Valores femininos, de que se sente a falta no modelo de sociedade em prática.
O homem parece continuamente precipitado na correria ao orgasmo, na realização do herói, do conquistador, numa correria de destruição, duma ventania que passa, num instinto de morte a fugir a si mesma. Enquanto o homem se esgota no acto, a mulher repousa na acção com a força da paciência da vida que na sua gestação, acção criadora, implica a paciência da gravidez que se realiza no viver. Naturalmente que a ventania masculina também é importante, mas, sem a persistência, sem a continuidade feminina, só realiza conquistas, devastações, utopias de embalar para não sentir o contínuo morrer. Se o homem traz nele o tanatos (a morte), a mulher traz nela a vida; um e outro são inseparáveis. Trata-se da união dos dois, na vivência consciente da tensão polar entre os dois na realização dum terceiro ser: o nós. O homem precisa de adquirir a paciência para sentir a vida a realizar-se nele e não se contentar com o sentimento da vida a passar. Uma actividade feminina mais presente unida a uma virilidade mais paciente poderiam parir um outro tipo de sociedade em que a humanidade, a complacência estivessem em casa.
Num primeiro momento a feminidade educaria a masculinidade conduzindo a sociedade para um novo caminho. Então a massa morta do povo passaria a levedar um novo estar, um novo ser. Não se trata do amolecimento do masculino, ou de se criar um homem maricas decadente, nem uma mulher macho, um virago. Trata-se de conseguir a união da privacidade íntima com o público representativo. O mundo tecnológico e partidário seriam mitigados por uma maior presença duma cultura de arte, literatura e ideias, passando da ortodoxia de que se apoderou o homem para uma ortopraxia. Não é suficiente que o homem continue a instrumentalizar o feminino, servindo-se do erótico da mulher para melhor expressar e transportar a sua masculinidade na cultura e sociedade.
Não se avistam modelos concretos de sociedade que tenham respeito pela feminidade e menos ainda que a integrem. Capitalismo, Comunismo, Socialismo materialista são os melhores exemplos duma cultura tipicamente masculina. Só uma mudança de valores, que não a de valores masculinos em voga, que são o resultado e o objectivo duma ordem masculina unilateral, garantirá libertação do homem e da mulher, em conjunto. A masculinidade foi separada da feminidade tal como a sociedade do trabalho separou a família da sociedade, em detrimento da sociabilidade e da privacidade.
O empreendimento duma sociedade humana implica esforços em todas as direcções: da filosofia para que esta dê mais relevo ao método indutivo, da religião para que esta dê mais relevo à feminidade divina, da economia para que esta dê mais relevo ao carácter humano e duma política menos partidária e mais solidária que reflicta o espírito das disciplinas anteriores. Isto pressupõe o projecto duma mulher autêntica e do homem autêntico, ambos em processo aberto, sem se deixarem instrumentalizar e funcionalizar.
Trata-se de ultrapassar o mesmo espírito que deu forma às sociedades dos escravos, dos senhores e à actual sociedade do trabalho para passarmos a uma infra-estrutura, baseada no Homem feminino e masculino, geradora duma sociedade humana. Passar duma sociedade dos serviços para uma sociedade do humano, duma sociedade que não se esgote no acto sexual mas se delicie também na gestação!... Uma sociedade já não do homem, mas do Homem, uma sociedade grávida de humanidade sem lugar para poleiros baseada na mística do galo e da galinha. A diferença é uma constante na natureza que apela à solidariedade. O que determina a essência ontológico do homem é a mulher e o que determina a essência ontológico da mulher é o homem, doutro modo seríamos reduzidos, uns e outros à esterilidade.
Já fomos, demasiado tempo, conquistadores e heróis, talvez se aproxime o tempo em que possamos ser todos peregrinos. Então Adão reconciliar-se-á com Eva deixando de se afirmar pela coacção e de viver do salário barato da obediência e da subjugação.
Que vale a descrença, que vale o cepticismo se se desfaz numa outra fé? Então seria mais oportuno voltar à fé primeira numa ortopraxia.Então será óbvia a libertação e não a emancipação. Aquela constrói, enquanto que esta é a táctica de domínio do homem: divide para reinar!...
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo
antoniocunhajusto@googlemail.com
sábado, 7 de março de 2009
PODER RENOVADOR DA MULHER
Ventre da Mulher – Um Factor Político
António Justo
Nas culturas patriarcais a mulher era e é praticamente um apêndice do homem. Também as sociedades mais desenvolvidas, se encontram ainda muito distantes duma sociedade equilibrada construída na base da reciprocidade de feminidade e virilidade. Apesar dos esforços do conveniente movimento de libertação da mulher, temo-nos limitado ao nível de adaptação de imagens ao masculino sem interesse pelo ser da feminilidade e do ser mulher. O que tem interessado é a mulher industrializada como produtora, consumidora e cliente ao serviço da cultura, uma imagem dinâmica mas obediente à norma social masculina.
Uma mera adaptação da mulher aos parâmetros da nossa sociedade corresponderia apenas a uma masculinização da mulher, dado o modelo das sociedades contemporâneas ser também ele masculino. Na sua inconformidade com o status quo, a mulher conseguiu muito. A sua força criativa e reformadora ainda não encontraram plataforma. O objecto de combate não deve ser o homem mas sim as suas estruturas viris afirmadas à custa da feminidade reprimida.
A mulher tem sido, em parte, reduzida a um complemento do homem, da família, da sociedade com as correspondentes necessidades a serem saciadas e que determinam a imagem mais ou menos elevada e ocasionalmente propagada. Homem e mulher funcionalizados no sentido duma adaptação inconsciente a superstruturas que os prendem…
As ciências humanas reduzem, geralmente, a mulher ao seu carácter sociológico mais ou menos aferida ou contraposta à norma masculina. Assim se reduz a mulher ao seu carácter fisiológico ou a uma função sociológica enquadrada num projecto de homem entre a sua sombra e Vénus, um ser acessório de que se vai mudando a imagem conforme a conveniência cultural do tempo. Nas fotos das mulheres e nos cartazes, poderíamos ver materializado o espírito de cada época.
A insegurança do homem ocidental perante a mulher leva-o a considerá-la como um ser antagónico e o medo da sociedade muçulmana perante ela levam o homem a aprisioná-la debaixo da burca ou do lenço. Em sociedades em que o sexo ou o exótico não eram tão tabuizados a mulher tinha mais voto na vida do dia a dia. Pelo menos é o que se podia constatar na imagem da mulher da Índia dos tempos dos Vedas em que havia igualdade de direitos do homem e da mulher. A ocupação islâmica da Índia (1009-1526) transformou a sociedade fazendo da mulher uma escrava do homem. A poligamia é o sinal mais visível do poder do homem. Na Europa a imagem da mulher anda muito ligada ao sistema económico.
O homem e a mulher são seres em processo em continua mudança sócio-cultural. A mulher, porém, não é reduzível a um psicologismo, a um sociologismo nem a um economicismo. O mesmo se diga do homem; ao afirmarem-se na contradição negam o seu ser humano de seres em relação, o seu carácter trinitário. Ao reduzir-se a mulher reduz-se automaticamente o homem e consequentemente desequilibra-se a sociedade, desfuncionalizando-a do seu verdadeiro fim.
O homem não perdoou a Eva o facto de ser ela a primeira a atrever-se a dar o salto colectivo para o individual, o salto do anonimato animal e emocional para a racionalidade humana que adveio com a vontade de ser diferente e a liberdade de comer dos frutos da árvore da vida. A vergonha do homem leva este a projectar na mulher a culpa. Assim a fatalidade das virtudes ou defeitos da mulher continua a encontrar-se em relação à norma homem e aos seus medos perante o ser dela. Por um lado o amor cúltico por outro o desejo de a ver submissa como se observa hoje também na prática da procura do homem pela mulher distante: a brasileira, a russa e a polaca. Hoje como ontem procuram-se papéis de mulher que interpretem as necessidades do homem e da sociedade masculina do tempo e não a mulher em si. São reduzidas a ícones à disposição.
O destino da mulher não poderá ser condicionado ao seu rol, ao seu papel, nem tão pouca à redução do homem a cultura e da mulher a natura. Um e outro são de valor integral não podendo ser reduzido a um perspectivismo unilateral; cada um encontra-se bem em sua casa, sem ter necessidade de operar os ovários ou de se castrar. Socialmente tem havido uma aproximação nos papéis a executar socialmente. A emancipação da mulher não passa porém dum bluff se a sociedade em que se encontra não lhe possibilitar novas formas de vida para ela adquirir respeito. O empreendimento da mudança do tipo de sociedade máscula que somos terá de ser obra da mulher e do homem na descoberta do humano que não é masculino nem feminino.
A igualdade dos sexos deve trazer vantagens para os dois. As suas necessidades não se reduzem às necessidades biológicas de reciprocidade mas também a necessidades existenciais que possibilitem o realizar e experimentar do ser homem e do ser mulher na própria pessoa numa relação de tensão entre um eu e um tu. “Deus criou o Homem como homem e mulher” (Gen 1,27) e não apenas como homem ou como mulher, porque Ele mesmo é relação. O homem só o é perante a mulher e a mulher só o é perante o homem. Deste modo, mais que uma emancipação um do outro, será oportuna uma libertação em parceria. Tal como Deus partilha o seu ser com o Homem também a mulher partilha o seu ser com o homem, não só estando mas sendo com ele e vice-versa. O ser da pessoa é relação sendo o homem mais que ele e a mulher mais que ela. Para lá da sexualidade está a união transcendente, o laço “matrimonial” do Homem todo na entrega mútua.
Nas grandes revoluções do futuro a mulher terá de desempenhar um papel activo muito grande. Do seu acordar dependerá em grande parte o desenvolvimento das sociedades subdesenvolvidas, a humanização das sociedades desenvolvidas. Precisamos dum novo modelo de sociedade.
Nos Estados muçulmanos serão elas que terão de provocar o desenvolvimento das sociedades patriarcais. O sofrimento da mulher e a sua resignação interiorizada são fenómenos sociais que bradam aos céus. Encontram-se abandonadas a si mesmas. Pena é que as mulheres em processo de libertação se não solidarizem com as poucas que conseguem levantar a cabeça contra o patriarcado insuportável que as domina em culturas que usam a amordaça da vergonha fazendo delas pessoas envergonhadas. O mundo muçulmano precisa duma época do renascimento e do humanismo tal como a Europa teve há 500/600 anos e que provocou o seu grande desenvolvimento a nível material. Só uma revolução cultural aliada à mulher poderá quebrar as amarras do patriarcado aí vigente.
O grande trunfo do poder dos povos árabes está não só na sua capacidade de guerrilha mas especialmente na instrumentalização da mulher como geradora de muçulmanos. A imprensa relata que o presidente do governo Turco afirmou em relação à Europa que a barriga das mulheres realizará o que a política na consegue. De facto a comunidade turca na Alemanha manifesta-se resistente a qualquer integração, acontecendo que onde se radicam formam uma sociedade paralela. Em 1975 eram quinhentos mil na Alemanha, altura em que a Alemanha fechou as portas à emigração, hoje já são três milhões.
O problema crucial da „bomba demográfica“ é sentido de maneira especial em Israel. Vinte por cento da população israelita é de origem árabe. Israel fomenta a maternidade das israelitas. Cada mulher israelita dá à luz 2,7 crianças. Sentem-se responsáveis pela sobrevivência de Israel. Além disso ter filhos é uma bênção. “Uma mulher sem filhos é incompleta” pensa o povo. Toda a mulher israelita tem direito a fertilização gratuita in vitro, em clínicas de fertilidade. A religião, a economia e a sociedade fomentam a família e as crianças, também com infra-estruturas adequadas. A planificação familiar é muito importante em Israel atendendo à explosão de nascimentos muçulmanos, à necessidade de soldados e de cidadãos. A sua terra prometida é aquela, não tendo mais para onde ir como povo. A solidariedade familiar ajuda as mães a ter emprego e a ter filhos. Patrões também ajudam famílias a partir do quarto filho.
O ventre da mulher está ao serviço da política agressiva masculina, como se verifica, dum lado e do outro. Umas e outras são instrumentalizadas, fazendo-o porém na consciência de que são livres ou de que prestam um serviço à sociedade máscula.
No sentido da libertação da mulher seria importante ser feita uma hermenêutica, um estudo comparativo da mulher nas diferentes sociedades. Um compêndio tipo planta das consciências culturais e da auto-compreensão e posição da mulher.
Uma sociedade em mudança, com novas contornos, precisa de desenvolver novos valores sem medo de novos modelos de pensamento e de vida. Um dos papéis importantes da política será integrar a vida familiar na vida social e laboral.
António da Cunha Duarte Justo
antoniocunhajusto@googlemail.com
António Justo
Nas culturas patriarcais a mulher era e é praticamente um apêndice do homem. Também as sociedades mais desenvolvidas, se encontram ainda muito distantes duma sociedade equilibrada construída na base da reciprocidade de feminidade e virilidade. Apesar dos esforços do conveniente movimento de libertação da mulher, temo-nos limitado ao nível de adaptação de imagens ao masculino sem interesse pelo ser da feminilidade e do ser mulher. O que tem interessado é a mulher industrializada como produtora, consumidora e cliente ao serviço da cultura, uma imagem dinâmica mas obediente à norma social masculina.
Uma mera adaptação da mulher aos parâmetros da nossa sociedade corresponderia apenas a uma masculinização da mulher, dado o modelo das sociedades contemporâneas ser também ele masculino. Na sua inconformidade com o status quo, a mulher conseguiu muito. A sua força criativa e reformadora ainda não encontraram plataforma. O objecto de combate não deve ser o homem mas sim as suas estruturas viris afirmadas à custa da feminidade reprimida.
A mulher tem sido, em parte, reduzida a um complemento do homem, da família, da sociedade com as correspondentes necessidades a serem saciadas e que determinam a imagem mais ou menos elevada e ocasionalmente propagada. Homem e mulher funcionalizados no sentido duma adaptação inconsciente a superstruturas que os prendem…
As ciências humanas reduzem, geralmente, a mulher ao seu carácter sociológico mais ou menos aferida ou contraposta à norma masculina. Assim se reduz a mulher ao seu carácter fisiológico ou a uma função sociológica enquadrada num projecto de homem entre a sua sombra e Vénus, um ser acessório de que se vai mudando a imagem conforme a conveniência cultural do tempo. Nas fotos das mulheres e nos cartazes, poderíamos ver materializado o espírito de cada época.
A insegurança do homem ocidental perante a mulher leva-o a considerá-la como um ser antagónico e o medo da sociedade muçulmana perante ela levam o homem a aprisioná-la debaixo da burca ou do lenço. Em sociedades em que o sexo ou o exótico não eram tão tabuizados a mulher tinha mais voto na vida do dia a dia. Pelo menos é o que se podia constatar na imagem da mulher da Índia dos tempos dos Vedas em que havia igualdade de direitos do homem e da mulher. A ocupação islâmica da Índia (1009-1526) transformou a sociedade fazendo da mulher uma escrava do homem. A poligamia é o sinal mais visível do poder do homem. Na Europa a imagem da mulher anda muito ligada ao sistema económico.
O homem e a mulher são seres em processo em continua mudança sócio-cultural. A mulher, porém, não é reduzível a um psicologismo, a um sociologismo nem a um economicismo. O mesmo se diga do homem; ao afirmarem-se na contradição negam o seu ser humano de seres em relação, o seu carácter trinitário. Ao reduzir-se a mulher reduz-se automaticamente o homem e consequentemente desequilibra-se a sociedade, desfuncionalizando-a do seu verdadeiro fim.
O homem não perdoou a Eva o facto de ser ela a primeira a atrever-se a dar o salto colectivo para o individual, o salto do anonimato animal e emocional para a racionalidade humana que adveio com a vontade de ser diferente e a liberdade de comer dos frutos da árvore da vida. A vergonha do homem leva este a projectar na mulher a culpa. Assim a fatalidade das virtudes ou defeitos da mulher continua a encontrar-se em relação à norma homem e aos seus medos perante o ser dela. Por um lado o amor cúltico por outro o desejo de a ver submissa como se observa hoje também na prática da procura do homem pela mulher distante: a brasileira, a russa e a polaca. Hoje como ontem procuram-se papéis de mulher que interpretem as necessidades do homem e da sociedade masculina do tempo e não a mulher em si. São reduzidas a ícones à disposição.
O destino da mulher não poderá ser condicionado ao seu rol, ao seu papel, nem tão pouca à redução do homem a cultura e da mulher a natura. Um e outro são de valor integral não podendo ser reduzido a um perspectivismo unilateral; cada um encontra-se bem em sua casa, sem ter necessidade de operar os ovários ou de se castrar. Socialmente tem havido uma aproximação nos papéis a executar socialmente. A emancipação da mulher não passa porém dum bluff se a sociedade em que se encontra não lhe possibilitar novas formas de vida para ela adquirir respeito. O empreendimento da mudança do tipo de sociedade máscula que somos terá de ser obra da mulher e do homem na descoberta do humano que não é masculino nem feminino.
A igualdade dos sexos deve trazer vantagens para os dois. As suas necessidades não se reduzem às necessidades biológicas de reciprocidade mas também a necessidades existenciais que possibilitem o realizar e experimentar do ser homem e do ser mulher na própria pessoa numa relação de tensão entre um eu e um tu. “Deus criou o Homem como homem e mulher” (Gen 1,27) e não apenas como homem ou como mulher, porque Ele mesmo é relação. O homem só o é perante a mulher e a mulher só o é perante o homem. Deste modo, mais que uma emancipação um do outro, será oportuna uma libertação em parceria. Tal como Deus partilha o seu ser com o Homem também a mulher partilha o seu ser com o homem, não só estando mas sendo com ele e vice-versa. O ser da pessoa é relação sendo o homem mais que ele e a mulher mais que ela. Para lá da sexualidade está a união transcendente, o laço “matrimonial” do Homem todo na entrega mútua.
Nas grandes revoluções do futuro a mulher terá de desempenhar um papel activo muito grande. Do seu acordar dependerá em grande parte o desenvolvimento das sociedades subdesenvolvidas, a humanização das sociedades desenvolvidas. Precisamos dum novo modelo de sociedade.
Nos Estados muçulmanos serão elas que terão de provocar o desenvolvimento das sociedades patriarcais. O sofrimento da mulher e a sua resignação interiorizada são fenómenos sociais que bradam aos céus. Encontram-se abandonadas a si mesmas. Pena é que as mulheres em processo de libertação se não solidarizem com as poucas que conseguem levantar a cabeça contra o patriarcado insuportável que as domina em culturas que usam a amordaça da vergonha fazendo delas pessoas envergonhadas. O mundo muçulmano precisa duma época do renascimento e do humanismo tal como a Europa teve há 500/600 anos e que provocou o seu grande desenvolvimento a nível material. Só uma revolução cultural aliada à mulher poderá quebrar as amarras do patriarcado aí vigente.
O grande trunfo do poder dos povos árabes está não só na sua capacidade de guerrilha mas especialmente na instrumentalização da mulher como geradora de muçulmanos. A imprensa relata que o presidente do governo Turco afirmou em relação à Europa que a barriga das mulheres realizará o que a política na consegue. De facto a comunidade turca na Alemanha manifesta-se resistente a qualquer integração, acontecendo que onde se radicam formam uma sociedade paralela. Em 1975 eram quinhentos mil na Alemanha, altura em que a Alemanha fechou as portas à emigração, hoje já são três milhões.
O problema crucial da „bomba demográfica“ é sentido de maneira especial em Israel. Vinte por cento da população israelita é de origem árabe. Israel fomenta a maternidade das israelitas. Cada mulher israelita dá à luz 2,7 crianças. Sentem-se responsáveis pela sobrevivência de Israel. Além disso ter filhos é uma bênção. “Uma mulher sem filhos é incompleta” pensa o povo. Toda a mulher israelita tem direito a fertilização gratuita in vitro, em clínicas de fertilidade. A religião, a economia e a sociedade fomentam a família e as crianças, também com infra-estruturas adequadas. A planificação familiar é muito importante em Israel atendendo à explosão de nascimentos muçulmanos, à necessidade de soldados e de cidadãos. A sua terra prometida é aquela, não tendo mais para onde ir como povo. A solidariedade familiar ajuda as mães a ter emprego e a ter filhos. Patrões também ajudam famílias a partir do quarto filho.
O ventre da mulher está ao serviço da política agressiva masculina, como se verifica, dum lado e do outro. Umas e outras são instrumentalizadas, fazendo-o porém na consciência de que são livres ou de que prestam um serviço à sociedade máscula.
No sentido da libertação da mulher seria importante ser feita uma hermenêutica, um estudo comparativo da mulher nas diferentes sociedades. Um compêndio tipo planta das consciências culturais e da auto-compreensão e posição da mulher.
Uma sociedade em mudança, com novas contornos, precisa de desenvolver novos valores sem medo de novos modelos de pensamento e de vida. Um dos papéis importantes da política será integrar a vida familiar na vida social e laboral.
António da Cunha Duarte Justo
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