MATRIZ SOCIALISTA MARXISTA NA BASE DA DISCIPLINA DE EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA
Por António Justo
Diga-se sim, a uma sociedade plural, aberta às
diferenças, à diferenciação, à complementaridade das ideias e das coisas sem
excluir uma transversalidade de valores materiais e espirituais no âmbito
individual e social.
Pela documentação oficial que pude ler em torno da
disciplina Cidadania verifiquei muita competência e dedicação na elaboração dos
documentos que, apesar de muita coisa louvável, não escapam a uma matriz de
sociedade socialista marxista que se vai impondo sem que a sociedade note! Nas
sombras dos corredores ministeriais, privilegia-se a forma técnica e o
funcionalismo em prejuízo do caracter social participativo/inclusivo,
seguindo-se o pressuposto de que “os fins justificam os meios”.
O objectivo que documenta (1), entre outros, é
“Desconstruir os diferentes papéis socioculturais em função do sexo”, quando o
que prioritariamente precisaria de ser abordado neste assunto era a matriz
sociocultural vigente de maneira a poder tratar de forma inclusiva, a nível de
matriz, o princípio (energia) da masculinidade e o princípio da feminilidade,
em termos de complementaridade.
Tal como genericamente a identificação visual do sexo à
nascença não será a única forma de determinar o sexo biológico também as
funções sociais vigentes, inerentes ao modelo de sociedade em crise que
seguimos, não são suficientes para ajuizar da determinação dos papéis e
atitudes a assumir nela. Seria sinal de uma
atitude retrógrada pretender-se construir novas atitudes e papéis sociais em
função da ideologia materialista que se expressa também no programa Gender
(Género); isto revela uma acção de reacção política (a nível de papéis) quando
o óbvio seria uma acção coordenada no sentido de ingerência activa dos
difrentes grupos sociais.
Ao mesmo tempo é
de constatar que alguns princípios doutrinais assentam em pressupostos e em agendas
internacionais interessados em formatar e controlar a liberdade do cidadão e da
família, considerando para isso a família e a religião já não como fontes de
educação, mas como factores de risco e, deste modo, objetos da educação
estatal. O conflito identitário entre autoridade familiar e autoridade política
encontra-se já programado e a ser implementado sem ter em conta a saúde mental
e emocional do educando. É também antinatural e contra a essência do ser das instituições
colocar-se a autoridade do Estado e a autoridade familiar em termos de conflito
aberto… O que hoje não é feito no sentido da pessoa humana mais
cedo ou mais tarde a revolta revela-o como erro.
A regulamentação pretende
uma educação formal, imposta de cima; o objectivo declarado é que, já na pré-escola, as crianças saibam
“distinguir diferentes expressões afetivas” (bissexuais, homossexuais,
lésbicas, etc.); isto, nesta idade, pretende criar -se na criança uma
consciência individual de caracter só mental, contra o desenvolvimento natural
das faculdades imaginativas, afectivas e lúdicas (caraterísticas desta idade). O
sistema já não se limita a controlar o que as pessoas leem e ouvem para passar a
estruturar o cérebro das crianças de modo a ter um formato ideário
socialista-marxista que facilite o trabalho das elites a atuar na nomenclatura
de um governo universal futuro, como Nikita
Khrushchev já profetizava (2). Na China já podemos ter uma amostra desse
sistema: oitenta milhões de filiados comunistas são suficientes para governar e
administrar mais de 1400 milhões de habitantes.
Quer-se intervir já na idade mais tenra do
desenvolvimento (cerebral) da criança de modo a fazer dela um produto cultural
ad hoc com percepção meramente cerebral (contra o desenvolvimento natural
integral).
Também as
crianças têm direitos em relação a pais, estado e sociedade. O direito da criança a uma educação correspondente à idade é profanado em
favor de interesses ideológicos políticos (aqui não se está interessado em
salvaguardar os interesses e o bem da colectividade mas sim em privilegiar os
interesses de grupos conotados da ideologia maoista e marxista (quer-se a
construção de uma outra sociedade em nome de valores e direitos de caracter
genérico). Pretende-se privilegiar a
formação cerebral versus uma formação integral biológica, emocional e psicológica
(inerente ao processo etário). Ao
acentuarem a in-formação intelectual (meramente mental) afetam os processos
mentais, como por exemplo, os processos da cognição e da emoção.
Ao mesmo tempo, a
educação provinda do exemplo familiar é considerada de espírito tradicional
(retrógrada) e por isso de submeter à formatação ideológica mental, no sentido
do Zeitgeist efectivado pela geração 68 e agora concretizado em programa do
Estado.
A nova matriz europeia, antropológica e sociológica, a
implementar pretende criar um novo tipo
de pessoa e de estrutura de valores político-sociais funcionalistas
(filosofia utilitarista, mecanicista e materialista), mais conforme ao caracter
asiático e árabe). Como na Europa o conceito de indivíduo e a consciência de
pessoa se encontram já em conflito com instituições/jerarquias e interesses político-sociais,
é do interesse do globalismo marxista e
turbo-capitalista continuar o processo desvinculando-os da natureza (da biologia)
e dos biótopos culturais (família/Estado/religião cristã) para mais facilmente
ser possível a criação de um construto humano artificial baseado apenas nas
potencialidades mentais abstractas (mais
aptos também para a manipulação ideológica). Deste modo, o novo cidadão (produto artificial
citadino) quer-se preparado para racionalmente poder legitimar
“democraticamente” o surgir de uma nova
cultura desenraizada da pessoa e do meio natural, de seus sentidos e da
natureza (em vez de pessoa complexa, quer-se o “cidadão” abstrato, a prole da polis (científica) deve substituir
a prole familiar ou natural (uma ética racional simples deve substituir o lugar
da religião); isto numa de cidade contra a aldeia, globalismo contra
regionalismo e cultura contra natura ao
gosto do que a ideologia gender já tenta aplicar. O controlo mental ou formatação sobretudo cerebral, possibilita
posteriormente um produto cultural (cidadão) objecto de informação, tornando-o
mais manobrável (um variável!) e capacitado para efectivar e legitimar, a longo
prazo, uma sociedade que legalize um governo distante, latifundiário universalista, e tudo isto sob a
salvaguarda e o pretexto de educar para os direitos humanos universais (o
princípio da universalidade passa a justificar a discriminação do princípio da
diversidade dos biótopos familiares, culturais e regionais em prol da
funcionalidade da polis e de forças anónimas globalistas). A luta contra a
família e contra a religião é a consequência lógica de uma matriz cultural
masculina (paternalista) que não tolera o aspecto da religião e da família que
albergam ainda o princípio da feminilidade embora as estruturas em que se
encontra alojado obedeçam a estruturas de caracter sociológico mais masculinas).
Os promotores de
uma sociedade marxista/maoista veem no tipo antropológico e sociológico
judaico-cristão ocidental um obstáculo ao seu intento, por isso consideram-no o
principal objecto da sua luta. O seu
projecto de formatação de um indivíduo (tipo produto cultural) pautado pela
filosofia marxista encontra, principalmente na religião cristã (um dos garantes
da civilização ocidental) barreiras naturais intransponíveis que mais motivam a luta agressiva e desesperada
de activistas interessados, não no melhoramento da civilização, mas no caos e
confusão a criar nela, minando para isso muitos dos seus valores e diabolizando,
especialmente, tudo o que cheire a catolicismo (o catolicismo,
por muito estranho que pareça atendendo ao seu aspecto institucional de
expressão exterior masculina, é a instituição religiosa dentro das religiões
monoteístas que melhor alberga e integra o princípio e a mística da feminidade
na comunidade e na pessoa).
De notar que as ideologias e movimentos ideológicos (em
especial as de conotação marxista), mesmo a pretexto da defesa da mulher, são,
em geral, de caracter machista (ordem patriarcal, postas ao serviço da prepotência da energia/princípio da
masculinidade). A ordem económico-social-política estabelecida produz
activistas que nas suas campanhas, a
nível profundo, abusam da mulher (fixando o foco da sua actividade apenas no papel/aspecto
funcional da mulher) para esta, em vez
de esta se empenhar e lutar por uma maior integração do princípio da
feminilidade na matriz cultural, em que o princípio da masculinidade é o factor
relevante, adoptar o princípio da
masculinidade na sua estratégia tornando a luta ainda mais disfuncionalizada
porque a própria mulher é instrumentalizada para, indirecta e inconscientemente
incrementar a matriz masculina. Deste modo a luta dá-se mais no sentido de
equidade de papéis no trato de homem e mulher e em desfavor da
complementaridade dos dois princípios a nível do ser e como tal a luta da mulher,
a longo prazo, fortalece paradoxalmente a matriz masculina!
Tal como na China a ideologia marxista quer
paulatinamente submeter a religião à ideologia da crença monolítica de Estado
(masculinidade pura!), não aceitando o
princípio original cristão da soberania da pessoa humana (este princípio
fundamental relativiza o poder absoluto de qualquer regime, Estado, ideologias
e religiões enquanto instituições); na luta contra o cristianismo (a
religião mais perseguida no mundo atual) une-se
a ideologia capitalista liberal (Soros, etc.) à ideologia socialista
materialista porque interessadas na criação de um tipo de sociedade formatada,
autoritariamente de cima para baixo, de apenas consumidores de bens materiais e
de ideias feitas; programam-se assim meros clientes e proletários para uma nova
sociedade de mero consumo de mercadorias e de ideias.
Como fontes de
valores e da moral bastará então recorrer-se (à sociologia) a estatísticas que
tudo legitimarão, no sentido de uma “democracia” materialista regida apenas por uma pequena oligarquia com um grande aparelho
administrativo controlador de uma clientela tipo proletariado. Suportam, no máximo, um cristianismo reduzível
apenas a uma ética que então seja substituível pelo marxismo/maoísmo que, nesse
caso, assumirá, com facilidade, tornar-se uma espécie de supraestrutura de
caracter religioso.
A essência da
sociedade e do cidadão deixará de ser orgânica para se tornar meramente formal
e funcional (sociedade tecnológica).
É verdade que a sociedade que temos construído se tem
afirmado de maneira controversa e manipuladora (instituições e elites à margem
da filosofia e da pessoa como ser espiritual); menosprezam a alma e o espírito,
a nível de pessoa e de comunidade e assim viabilizam ser infiéis à humanidade; mas
as agendas ao gosto do tempo marxista em via prescindem até dessas
potencialidades humanas vivas no povo para as reduzirem a princípios abstratos;
a era socialista que agora se quer artificialmente impor nega a essência do
Homem como ser espiritual, não querendo saber da sua ipseidade e do seu sentido
metafísico. Negada a espiritualidade do
ser humano é consequentemente negada a sua criatividade e liberdade de ser
aberto; passa a legitimar-se então a sua instrumentalização à qualidade de ser mero
objecto em função da ideologia e da sociedade (o cidadão gerado apenas pelos
direitos que seu pai Estado lhe concede torna-se num pateta alegre inconsciente
da da pobreza da sua dependência: então,
o porteiro da consciência deixa de ser Deus – perde a ipseidade – para se
tornar o Estado no porteiro da sua consciência). Então o Homem deixa de
encontrar a sua definição em si mesmo para ser definido a partir do exterior por
uma forma de sociedade e em função desta (razão última do seu sentido
individual!).
Torna-se indispensável uma discussão alargada na
sociedade portuguesa, sobre o que está a acontecer sem que a consciência
nacional o note, dado os governantes se terem desobrigado da discussão de tais
temas, a pretexto de seguirem agendas e compromissos internacionais (basta-lhes
para isso uma prática do levantar o dedo no parlamento, sem discussão pública,
e depois deixar ao autoritarismo ministerial a função de implementar tais
programas ideológicos sob o pretexto de se seguir a ciência e a maioria
parlamentar: esta tática é mais observável em Portugal e em países de governo
socialista como é o caso da Espanha e em Estados onde o povo está ausente, como
acontece em África e na américa latina). Se
observarem também neste proceder se torna constatável e notório o princípio masculino
dominador: a masculinidade que transforma
o povo em seu campo a ser sulcado pelo princípio da masculinidade!).
Atendendo ao
biótopo cultural em que Portugal se encontra, torna-se legítima a exigência de
uma pedagogia ancorada na filosofia e mística judaico-cristã com a
correspondente imagem humana e social da liberdade cultural, da igualdade
política, da fraternidade económica e do horizonte espiritual aberto, onde o
Homem é princípio e fim, como se vê no seu protótipo Jesus Cristo.
Não chega para isso a nomeação, por superiores, de
comissões de técnicos que elaborem princípios e estratégias baseados apenas em
cientistas seguidores de doutrinas socialistas ou de um humanismo abstrato (a
flutuar em águas ao gosto do tempo) sem incluir a necessária colaboração de
todas as “forças vivas” da nação, na elaboração dos documentos e sua aplicação
prática (seria aqui necessária uma
estratégia feminina, criadora, de baixo para cima e não de cima para baixo!).
O problema não
estará na escola nem na família, mas sim nos referenciais impostos a seguir. Em
vez de se seguir os ditames da Constituição portuguesa (como referi no artigo https://antonio-justo.eu/?p=6087 ), uma parte restrita da sociedade portuguesa sente-se legitimada, a
partir do miradouro do Parlamento, a implementar apenas o preâmbulo da Constituição que ainda
considera a sociedade socialista como meta a atingir. (Esta minoria até a nossa
Constituição desrespeita, para endoutrinar a sociedade portuguesa na traição a si mesma; essa
minoria, com voz altifalantada através de constelações de poder à la Geringonça,
secundada por políticos conservadores fixados no seu momento e tudo apoiado pelos
Media subservientes, aplanam os caminhos do modernismo materialista).
O facto de a disciplina “Educação para a Cidadania” ser
motivada ou fundamentada nos Direitos Humanos não a iliba de análises crítica e
muito mais quando se pressentem autoritarismos monopolistas do Estado (ou de
outras procedências aninhadas nele). De boas intenções está o inferno cheio! A dúvida
é o melhor crivo em relação ao certo e ao errado e uma boa companheira para se construir
futuro; isto também em questões fundamentais como esta da educação de um povo!
Aceitar a
diferença, outras culturas, homossexuais ou bissexuais não implica a
necessidade de uma formação única para tal: implica sobretudo o respeito da
dignidade da pessoa e o direito de cada um elaborar a sua vida no sentido da
sua felicidade e na aceitação da diversidade de grupos e de modos de viver
diferentes. Para isso meio adequado encontra-se no âmbito cristão de quem o
filho pródigo será o socialismo marxista.
O artigo continua
na próxima publicação com o título “Concepção materialista da História”
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e
Pedagogo
Pegadas do Tempo,
https://antonio-justo.eu/?p=6132
(1)
Guião de Educação pré-escolar : https://www.cig.gov.pt/wpcontent/uploads/2015/10/398_15_Guiao_Pre_escolar.pdf “Referencial de educação para a saúde”: https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Esaude/referencial_educacao_saude_vf_junho2017.pdf A
identificação visual do sexo à nascença não é a única forma de determinar o
sexo biológico: https://erwachsenenbildung.at/themen/gender_mainstreaming/theoretische_hintergruende/geschlecht_und_gender.php
(2)
Nikita Khrushchev , Secretário-geral do PC, a 29 de
setembro de 1959 na sede das Nações Unidas: “... Os filhos de seus filhos
viverão sob o comunismo. Vocês, ocidentais, são tão crédulos que não aceitarão
o comunismo de uma vez, mas continuaremos a alimentá-los com pequenas doses de
socialismo até que você finalmente acorde e descubra que já tem o comunismo
para sempre. Não teremos que lutar com você. Ambos enfraqueceremos sua economia
até que caiam como frutos maduros em nossas mãos. A democracia deixará de
existir quando eles tirarem aqueles que estão dispostos a trabalhar e
entregarem aos que não estão. "