terça-feira, 15 de outubro de 2013

Nova Forma de equacionar o Direito – Da Preguiça intelectual no Pragmatismo

Patriotismo cosmopolítico contra o Património cultural
 O Porquê da Crise!
António Justo
Um pragmatismo sem horizonte ensombra uma vida cultural, sem espaço para a dimensão intelectual/espiritual. Um activismo político irreflectido leva a nossa elite política a tornar-se nos filisteus da nossa cultura ao orientarem-se apenas pelo pragmatismo e utilitarismo. Uma tal forma de fundamentar o saber cria uma realidade sem horizonte. Para a wikipédia “O filisteu não é adepto de ideais, mas apenas de propostas práticas passíveis de serem contabilizadas em melhorias para sua vida privada imediata”. Assim se dá substância ao individualismo hedonista que reduz a aspiração humana às suas necessidades básicas (alimentação, segurança pessoal e sexo) acompanhadas por uma “espiritualidade” secular reduzida ao desejo de fama, poder político e prestígio. Esta filosofia do prazer esteve na base da queda, primeiro dos gregos e depois dos romanos. Independentemente duma filosofia baseada na teoria e na empiria tudo se orienta apenas pelo saber empírico. Hoje tudo orienta por estudos “Sinus-Milieus”; o que importa não é a procura da verdade mas o interessa é conhecer a maneira de vender o seu peixe a determinado meio, diria, o que importa é a definição de estratégias no sentido do compromisso da manjedoura.

A nossa classe política, duma maneira geral, deprecia o pensamento e a arte porque se tornou escrava da agenda do quotidiano sem espaço para o bem nem para o belo. Perdida em accionismos e compromissos podres, serve-se de uma arte escura e negativa para não ter de questionar a sua acção destrutiva da cultura ocidental.
O saber hedonista e o relativismo, defendidos nos períodos decadentes da Grécia e de Roma e praticados agora pela geração pós-guerra, procuram estabelecer o divertimento como o princípio motivador do comportamento humano e social, reduzindo assim o velho objectivo da felicidade, ao prazer. Um a sociedade do mercado desregulado deixa o controle da economia e da moral à lei da oferta e da procura. A felicidade e o bem-comum, a que aspirava a velha sociedade, passam a ser reduzidos ao deleite a nível de sentidos e ao prazer individual. Por outro lado a felicidade também não pode ser limitada à auto-reflexão como quer a filosofia oriental; ela atinge-se na prática do bem, como advoga Aristóteles e no exercício do amor como ensinava o Mestre da Galileia. Na minha vida experimento o prazer não como fim mas como fenómeno acompanhante dum agir na tenção entre um tu e um eu, a satisfazer-se no nós.     

Encontramo-nos na transição, de um direito teórico orientado para o ser, para um direito pragmático, orientado pela experiência do estar, um direito proveniente da prática para a prática. 

Este saber experiencial é diametralmente oposto ao saber de experiência feito dos portugueses do séc. XV que era orientado por uma missão civilizadora global. O saber pragmático hodierno abdica da verdade e da objectividade para dar espaço a um subjectivismo que melhor medra na anarquia e no compromisso irresponsável do laisser-faire laisser-passer, como substrato dum liberalismo economicista que tudo submete à banalidade dum quotidiano sem horizonte e à alienação duma tradição reflectida apenas à luz do utilitarismo. O espírito proletário (de um socialismo e de um capitalismo primário) estende os seus braços a todos os ramos da cultura, como um polvo implacável que tudo suga e igualiza. Em vez de procurarmos um caminho entre os métodos dedutivo e indutivo, falhamos por optarmos por contemplar um só polo da realidade.

Renuncia-se a um direito de princípios teóricos, fruto da convergência de várias civilizações, que tinha como objectivo uma sociedade justa e feliz, para se optar por um direito formado a partir da experiência adquirida na convivência do dia-a-dia e que tem como objectivo apenas uma sociedade possível. É abandonada a retorta cultural dum diálogo recíproco de aculturação e inculturação que contribuiu imenso para o desenvolvimento dos povos. No pragmatismo duma europa globalista sem missão, assiste-se a um processo de inculturação sem aculturação em que os imigrantes não são estimulados à enculturação, aquela regra bem portuguesa do “à terra onde fores ter faz como vires fazer”). 

A doutrina utilitarista/pragmatista em voga renuncia ao melhor para possibilitar o agradável. Enquanto vai vivendo dos rendimentos económicos e culturais armazenados pelos nossos antepassados não é questionada; o problema surgirá quando não houver créditos a fundos perdidos!

Ao transitarmos duma civilização de cultura integrada para uma sociedade de cultura mista (entre multicultura e intercultura) abdica-se paulatinamente do melhor. Em vez de se evoluir regride-se. Estabelecem-se compromissos a nível de direito de caracter habitudinal que dão corpo a hábitos desumanos numa sociedade que já os tinha superado no tempo (eutanásia, aborto arbitrário, manipulação incontrolada do gene, concessão de direitos culturais ultrapassados a sociedades de cultura árabe, etc.).

O Ocidente depois da experiência das grandes guerras continua a viver do equívoco de afirmar a guerra justa em vez da paz justa. A experiência tem mostrado que o empirismo serve os grupos mais fanáticos que se aproveitarão das fraquezas da democracia, para com base em estatísticas imporem reivindicações independentemente da sua verdade objectiva e da sua finalidade numa ética que parta do bem-comum. Precisa-se duma teoria social, também capitalista e socialista, que tenha como ponto de partida, a nível especulativo e prático, o bem-comum. Uma norma legislativa elaborada só a partir do empirismo serviria apenas a miopia dum presente sem futuro. Continuar a seguir uma ideologia subjectivista e relativista só serve a indústria financeira capitalista e o marxismo quando se necessita uma filosofia ética integral consciente da complementaridade das partes no todo.

Não basta a experiência para a formulação da verdade e da lei moral social; ela precisa também do horizonte da teoria abstrata que lhe dá o caracter universal; não lhe chega a feminilidade necessita também a masculinidade; doutro modo passaríamos dum extremo em que dominou a “masculinidade” da inteligência para o outro extremo em que dominaria a “feminilidade”. A verdade, como a sociedade, quer-se simultaneamente masculina e feminina, o que constitui certamente um desafio. O pensamento europeu tem sido sistematicamente distorcido por fábricas de pensamento ao serviço dum cosmopolitismo de economia globalista e marxista, servindo-se para isso de um relativismo absoluto em que o que vale já não é o bem e o belo ideal que conduziu o Ocidente ao apogeu material civilizacional, mas sim a situação prática (reduzida ao enfrentamento do dia a dia) em que a sua metafísica se reduz ao dinheiro, único astro rei, na abóboda celeste económica e materialista. A ideologia e as teorias científicas têm sido confeccionadas no sentido de propagarem e justificarem um globalismo unilateral precoce. Quer-se fazer da economia o esqueleto do corpo social sem que este seja provido de inteligência. Toda a realidade precisa de um tecto metafísico e uma plataforma de equilíbrio compensatório das forças contraditórias.

António da Cunha Duarte Justo
(artigo continuará sob o título “União Europeia contra o Patriotismo das Nações - O Porquê da Crise”)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Acesso aos Sacramentos para Recasados




Bispos nas Pegadas do Pontífice Francisco
Acesso aos Sacramentos para Recasados
António Justo
A Arquidiocese de Freiburg, na Alemanha, acaba de publicar um opúsculo dirigido aos párocos e em que simplifica o acesso à comunhão e a outros sacramentos, a divorciados que queiram casar de novo. Com isto, Freiburg, uma das 27 dioceses alemãs, avança no espírito da entrevista, do pontífice Francisco, dada à revista jesuíta " Civiltà Cattolica " onde encoraja os pastores a estarem mais perto dos divorciados e recasados. Trata-se não de uma questão doutrinal mas de uma atitude pastoral. Não está em causa a indissolubilidade do casamento. Com as novas orientações o arcebispado quer possibilitar o acesso a serviços eclesiásticos como é o caso do conselho paroquial, e aos sacramentos: sagrada comunhão, confissão, crisma e unção dos enfermos. A nova postura abre as portas não só a quem procura uma casa na fé mas também para quem procura espiritualidade em geral.

A Igreja é fiel a si mesma e sabe que todo o acto de profissão de fé precisa da rectificação da consciência individual, independentemente do que diga a autoridade. Esta tem uma missão orientadora e como tal tem caracter constitucional. As leis que emanam da constituição precisam porém de ser aferidas à realidade geral e às condições individuais. Segundo a própria Igreja católica, a consciência do cristão é soberana, mesmo em casos erróneos. O divórcio não significa automaticamente adultério. A permissão tem um caracter pastoral que não abule a consciência individual que não pode ser reduzida a uma promessa dada, por vezes, em circunstâncias especiais. A consciência é processo. Deus conhece a fraqueza humana e concede sempre uma outra oportunidade. Isto não quer dizer que abula a validade duma vida comprometida e adulta. 

Naturalmente, para quem tiver um conhecimento apenas exterior da própria fé, isto só vem complicar. De facto, na maior parte dos casos, trata-se do reconhecimento da anulação dum casamento que pode não ter existido por terem faltado os pressupostos físicas e psicológicos para a sua efectivação. Não se trata duma cedência ao subjectivismo mas de valorizar a consciência individual. Uma anulação do casamento tem a sua origem no reconhecimento da consciência individual e duma vontade que por vezes decide erroneamente. Por outro lado, o conhecimento não é apenas resultado da via dedutiva mas também da via indutiva. A igreja orienta mas “não tem o direito de julgar”, como reconhecia já Santo Agostinho.

Esta decisão do Arcebispado de Freiburg provocará muita discussão em torno duma doutrina elevada e distante e duma pastoral mais encarnada. Muitos intolerantes e legalistas sentir-se-ão confrontados e desorientados com a tolerância da Igreja.
Porque te queixas da voz da selva se estás a ser eco dela? O discurso do intelecto tem uma outro tom que o do coração. O documento pastoral de Freiburg não questiona a indissolubilidade do matrimónio; o sim perante o altar não perde a sua força de sacramento. (Para Lutero o casamento é “uma coisa do mundo „e não um sacramento…”)

Francisco coloca-se na tradição do “aggiornameto” conciliar dando mais relevância aos bispos. Naturalmente que o relógio da Igreja não pode acertar o seu tique-taque pelo da sociedade.

Não se trata aqui de ceder às arbitrariedades do Zeitgeist nem de uma erosão dos valores fundamentais. Mantem-se naturalmente a tenção entre dogmática e pastoral, entre o caminho mais largo e o mais estreito. “Não julgueis para não serdes julgados”(Mat. 7).  Isto não vem questionar a cláusula do Direito Canónico que continua: "ecclesia vivit sub lege romana". A realidade permanece, as opiniões passam deixando as suas sombras nas leis. A consciência individual deve tornar-se a luz que não se deixa engarrafar na lei!

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo jornalista
www.antonio-justo.eu

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Programa papal - Um Modelo também para a Lusofonia?


A Igreja não é “uma pequena capela” é “uma casa para todos”

António Justo
Um latino-americano mete mãos à obra de reformar uma estrutura europeia de feição demasiado nórdica, demasiado burocratizada. Um novo estilo de vida irá revolucionar o mundo. O Papa Francisco parte de uma perspectiva do mundo para a Europa/Vaticano e já não da Europa para o mundo. Será este o ponto de viragem iniciador da alternativa ao velho mundo?

Em entrevista à revista Brotéria, Francisco apresenta um “programa da Igreja” à altura do tempo. A sua opção pela entrevista, como forma de se comunicar, revela, no seu género, uma mudança paradigmática de relacionamento orientada para o povo, com um programa a partir da base (orto-praxia) e já não orientado para os intelectuais na sua forma típica de encíclica.

O Papa Francisco quer uma Igreja virada para a cura corporal e espiritual da humanidade em geral e das pessoas em particular! Ela é fermento e está para as pessoas que sofrem e não para se perder em lutas ideológicas porque também a doutrina está para servir. “Eu vejo a Igreja como um hospital de campo após a batalha”. O lema é “curar feridas… começar por baixo… primeiro é preciso curar as feridas sociais”. O cristianismo não é uma ideologia mas uma visão/espiritualidade que deixa liberdade à pessoa: “Não deve haver nenhuma interferência na vida espiritual pessoal”.

Na sua perspectiva, a Igreja não deve continuar a falar continuamente sobre divórcio, gays, lésbicas, aborto e métodos de prevenção conceptiva. A sua missão principal é misericordiosa (caridade), ser e estar para as pessoas pobres e sofredoras e para os falhados, numa palavra, curar feridas. “Não julgues e não serás julgado”, dizia o Mestre. Na prática há demasiados pregadores da moral e não da vida!

O Papa quer uma mudança da perspectiva de reflexão e de orientação. O olhar passa a ser focado na base da pirâmide e não no vértice. Consequentemente as reformas serão conseguidas de baixo para cima e já não ordenadas de cima para baixo. Esta estratégia é benigna, possibilita o crescimento e evita divisões na Igreja. Imaginemos que Francisco, partindo duma posição sobranceira, ordenava a abolição do celibato. Certamente surgiriam logo muitos bispos que provocariam uma cisão na Igreja. Uma Igreja, permeável, que começa a renovação de baixo para cima, cresce organicamente sem necessidade de intervenções revolucionárias. As revoluções favorecem os revolucionários que como o azeite ficam sempre ao de cima da sociedade. A verdadeira revolução humana é Jesuína em que quem tem razão perde aparentemente.

As afirmações e atitudes do Papa levam a concluir que o importante é que cada um siga o seu caminho do amor amando à sua maneira. A sociedade e especialmente a Igreja não devem ser um campo de batalha de esquerda nem de direita. A Boa Nova deve ser o Sol do sistema humano. O amor é anterior à lei e esta deverá centrar-se na busca da justiça. Será importante depor a samarra dum clericalismo burocrático e moralista longe do povo, para se passar a arregaçar as mangas na vinha do Senhor!

O Papa não aposta no jogo dos pensamentos proibidos, é um pastor que pensa em público e quer uma discussão livre dentro da Igreja e da sociedade. Um Papa assim será uma bênção para a Igreja e para a humanidade. Para a Igreja porque a centra no que é importante, no bem das pessoas. Para a humanidade, porque ao ser o expoente máximo da estrutura mundialmente mais global, dá o exemplo de modelos de comportamento a serem seguidos pela classe política e suas instituições. 

Francisco ao reafirmar que a Igreja não é apenas “uma pequena capela” mas sim “uma casa para todos” realça o seu universalismo e admoesta aqueles que a querem ver reduzida à própria capelinha. O Cristianismo considera “o outro”, “o samaritano„ como parte integrante de si mesmo e respeita as muitas alternativas de acesso e de interpretação da realidade. Por tudo isto ganha razão a afirmação de sociólogos americanos que, numa afirmação metafórica, diziam que, quando as instituições mundiais entrarem em derrocada, o catolicismo lhes sobreviverá 400 anos.

Querem-se cristãos sem a farda da moral

A sociedade como a Igreja, por mais nobre que seja a sua ética, está sempre condicionada às pessoas e ao espírito que cada época produz. Estas albergam em si o bem e o mal, próprios da pessoa e de cada época. Por isso, mais que ensombrar o pensamento com a crítica ao passado, interessa dar-se graças pelas pessoas luzeiro, de cada época, que conseguem aproximar-se mais da verdade, do bem e do belo no sentido da pessoa e do bem-comum. Para o fomento duma cultura positiva de paz, vai sendo tempo de se passar da crítica destrutiva de pessoas azedas para uma estratégia de fomentar apreciações de pessoas mais benignas e benevolentes.

Naturalmente que agora surgirão os moralistas e burocratas da praça a exigir que a instituição declare esta ou aquela atitude como norma quando isso, no foro da igreja, pertence à responsabilidade e à consciência individual. Por um lado condenam a fixação da Igreja em normas morais e por outro lado exigem que a Igreja declare canonicamente o exercício de certas práticas (aborto, eutanásia…) como objectivas. As ideologias apostam, por um lado na radicalidade dogmática e por outro num subjectivismo puramente anárquico; querem a igualdade do bem e do mal, uma indiferenciação analfabeta que exclua o que poderá ser verdade e o que poderá ser erro. O que quer que o Papa diga continuará a ser aviltado, como diz o provérbio popular: “Preso por ter cão e preso por não ter cão”. Cada um faz a guerra que lhe convém. Os eternos aborrecidos nunca se darão por contentes, querem a imposição de atitudes a partir do cume da pirâmide quando Francisco, no sentido da “ecclesia semper renovanda” sugere que partam ‘democraticamente’ das bases. 

Já passaram os tempos da europa bárbara que precisava de ser domesticada com a acentuação na lei e no juiz. “O confessionário não é instrumento de tortura, mas o lugar da misericórdia”, indica o Papa. Francisco quer pastores que, sem farda moral, se encontrem com a pessoa na rua, no seu meio. Em direcção a um certo funcionarismo eclesial diz: “O povo de Deus quer pastores, não clérigos que actuam como burocratas ou funcionários do governo”.

Este Papa, de expressão latina, é uma bênção e uma oportunidade para se começar a pensar sobre uma mudança de rescrito cultural e uma metanoia espiritual. “Eu vejo a Igreja como um hospital de campo após a batalha”.

António da Cunha Duarte Justo
www.antonio-justo.eu

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Repensar a Democracia bruta sem Base nem Heróis



Estratégia do colonialismo económico – Suborno cultural

António Justo
O colonialismo económico é um polvo que adapta a sua cor ao sistema político e cultural. Actualmente tornou-se mais forte que a cultura: antes procurava miná-la e agora passou a determiná-la. Tornou-se abusador da Democracia na sua guerra contra as culturas.

Para tal, a ética política deixa de ser fundamentada nos valores culturais para ser determinada apenas pela economia liberal de mercado. Consegue-o impondo o pragmatismo/utilitarismo como filosofia política e de vida. O povo encantado dança a sua música, ao ritmo da flauta mágica do mercado. 

Tornamo-nos todos espectadores de uma guerra, até hoje inaudita, a guerra das elites económicas contra as culturas. Na velha sociedade a burguesia determinava o andamento cultural; na actual são os novos-ricos que determinam o que se há-de acreditar e fazer. A maquinaria económica globalista destrói, por um lado, a dinâmica das estruturas sociais e culturais nacionais e, por outro, desestabiliza os Estados intervindo neles através do fomento da concorrência terrorista seja a nível de grupos subversivos seja a nível de produtos económicos. As sociedades dão continuidade à cultura da guerra, já não a nível de guerras declaradas entre nações, mas numa grande guerra económica liberal de guerrilhas ao serviço de alguns.

 A nossa democracia nasceu sob o prelúdio ideológico da guerra fria; pretendia abandonar um colonialismo suave e entrou no colonialismo rijo europeu, de cunho cada vez mais americano e universal. De colonizadores passamos a ser colonizados, primeiro por ideologias e depois pela Europa central que acabou com a nossa independência nacional (imperialismo da Troika: oligarquia europeia e mundial!).
A cultura é sistematicamente minada por uma política de legionários estrangeiros, bem pagos, que de patriótico só têm o sorriso. Modificam os nossos padrões de vida no sentido do liberalismo económico das grandes economias sem alternativas de sobrevivência honrada para os pequenos. Antes da opção da economia pelo globalismo, ela vivia principalmente da exploração da classe operária dentro do próprio país e da sua disciplinação através do recurso à imigração; com o globalismo e o seu instrumento Euro, a economia opta pela estratégia da exploração económica e social dos Estados. A estratégia de desestabilização político-económica e cultural dos países tem-se mostrado muito profícua para um capitalismo pragmático apiado, a nível estratégico, por um socialismo indutivo generalizado, também ele destrutor do sistema de valores culturais transmitidos e da coerência social dentro dos estados. Actualmente, grande parte do que se apresenta como desenvolvimento consequente da cultura ocidental, revelar-se-á como seu cangalheiro. A Aliança despercebida, em via, de capitalismo e marxismo como modeladores do pensar político correcto, revela-se altamente eficiente no seu sentido, tendente a idealizar o sistema chinês (nova forma de poder político integradora de capitalismo e socialismo). Com a cajadada na ética cultural enfraquecem os Estados de cultura e ao mesmo tempo fomentam a guerrilha entre as classes operárias e burguesas dos diversos países. Transfere a exploração da classe operária para a exploração dos Estados. A nível social interno, roubam a dignidade às crianças e aos velhos e transformam os cidadãos em pedintes de trabalho. O pragmatismo do mercado financeiro aproveita-se do nosso sistema partidário, todo ele demasiado reaccionário e fixado ainda nas filosofias do século XVIII e XIX. Quer esquerda quer direita são portadoras dum gene capitalista e socialista desumano que os atrela à economia.

As elites levedam a massa de modo a ser cozida no seu forno

O proletariado e as pequenas burguesias mantêm-se atraídos a espectáculos de feira, deixando-se distrair em discussões e campanhas que têm como objectivo desestabilizar o seu inconsciente cultural e deste modo desenraíza-los e disponibilizá-los para a aceitação das leis dum mercado anónimo e bárbaro. A elite do dinheiro e do oportuno consegue proletarizar a mentalidade de forma que esta reconheça, como não adequado, tudo o que aponte para a formação de personalidades e vontades com a capacidade de reconhecer não só a linha do horizontal como também a linha do vertical com componentes da dimensão real (intelecção e pragmatismo). 

Assim, no autocarro da democracia insurgem-se grupos contra heróis e santos porque a sua presença e aura seria uma afronta à igualdade da massa democrática que se quer insegura, proletária, de cabeça baixa, sem horizonte nem Sol. O destaque reserva-se para o acidental dum vedetismo culto que se finge sem culto no firmamento da economia. A democracia quer-se “esclarecida e moderna” e, para tal, burla-se a massa mudando o nome às coisas e criando uma ética negativa negadora da comunidade e da verticalidade. A admiração e a gratidão, própria de amimais superiores já não parecem adequadas a uma massa que se quer não levedada, numa democracia bruta a viver só ao nível das necessidades vitais primárias. Esquece-se que até no reino irracional há valores superiores, valores de sintonia e solidariedade que brilham como o Sol no horizonte da caminhada.

Aquando da morte de Lawrence Anthony, que dedicou sua vida a salvar elefantes, deu-se um fenómeno insólito. Elefantes selvagens, pressentindo o falecimento do seu amigo, a muitos quilómetros de distância, deixaram a reserva, pondo-se a caminho da casa dele durante dias. Dois dias depois da morte de Lawrence (7.03.2012), 31 elefantes, em duas manadas, chegaram à sua residência sul-africana depois de terem andado 20 Km. Ficaram, dois dias sem comer nem beber, a fazer o luto pela morte do amigo; depois de prestada a homenagem voltaram para a selva. O reconhecimento e a gratidão não diminuíram a honra dos elefantes, pelo contrário, prestigiou-os, elevando-os à categoria de humanos.

Porque há-de o brilho duma outra pessoa ensombrar o meu brilho? Uma sociedade temperada com o adubo da concorrência facilmente se deixa ofuscar pelo fumo da inveja. Palavras como, virtude, sacrifício, caridade, missão, respeito, Deus, são enxovalhadas por questionarem o pensar propagado pelo pragmatismo hedonista corrente. Naturalmente que também as palavras estão sujeitas a evolução e há palavras distintas como a palavra mártir que são desacreditadas pela prática dos “mártires” muçulmanos suicidas que se matam matando. Esta é, porém, a negação da ideia de sacrifício que implica entrega amorosa pelos outros. A existência de pessoas respeitadoras da atitude de cada um, mas dedicadas ao voluntariado, ao serviço dos mais necessitados em hospitais, bairros pobres, missões, etc. parece incomodar pessoas que optam por estilos de vida mais orientados para o gozo imediato. A ideologia vigente não tolera, fora dela, luzeiros, porque prefere viver da banalidade do quotidiano irreflectido esquecendo que a natureza também tem lugar para os outros.
As boas obras têm uma aura respeitadora enquanto as más têm uma força arrastadora para o mal. A reflexão crítica que, por vezes, se levanta contra heróis, quer desconhecer as diferentes fases de desenvolvimento de cada individualidade. É óbvio que senhores de sucesso dúbio não gostem que se louve o sucesso alcançado servindo.
Uma ideologia irreflectida opõe-se ao heroísmo porque vê nele um ataque ao status quo, à igualdade democrática e ao princípio da comparticipação, como se a igualdade jurídica acabasse com as diferenças dentro da espécie ou do género. Também a democracia tem produzido muitas vítimas: as vítimas anónimas da concorrência desleal, de bens, de armas e da discriminação. Onde há vítimas precisam-se salvadores! Não precisamos de nenhuma casta que seja divinizada. Todos nós trazemos connosco o gene divino mas isso não significa que haja uma inclusão de igualdade pela rasoura como se não fossemos todos dignamente diferentes e como se a diferença não fosse um valor consagrado pela natureza. É óbvio que cada pessoa tem o direito moral a uma atitude interior de poder actuar ou não segundo requisitos morais. O dissenso deve originar-se em relação ao mal e não ao bem. A lógica dos críticos acerbes do heroísmo teria como consequência a desistência de todo o desporto e até de qualquer investigação científica que desse origem a um prémio Nobel. No desenvolvimento da identidade individual e da identidade de sociedades haverá sempre a rivalidade de incongruências a humanizar. No que toca ao heroísmo também há muita exploração dos sentimentos humanos em todas as eras. O facto de cada pessoa ser igual perante a lei não a iliba da diferença pela positiva ou pela negativa. A paz precisa de heróis porque se encontra embotada sob o manto duma democracia com políticos imunes sem rosto, demasiado iguais, e dum povo de rosto cada vez mais igual porque lavado na lixivia cultural da massa. Não se trata de defender aqui um modelo de sociedade antiga de caracter mais voluntarioso nem de condenar uma sociedade moderna permissiva; trata-se de reflectirmos para melhor podermos ser nós a decidir, sem os superegos antigos ou modernos, na construção dum mundo, cada vez, melhor.
A inveja e o individualismo parecem, por vezes, justificar a sacarificação da cultura à massificação de ideias leves e a uma proletarização de atitude e de espírito. A nossa democracia representativa tem muitas coisas boas, mas padece da falta de heróis do bem-comum: falta-lhe rebeldes da democracia (também de sindicatos e patronatos) que interfiram no processo, de modo a poder dignificá-lo. Para progredirmos, será indispensável repensar a nossa cultura em termos de restauração dos valores culturais pilares do nosso imaginário, cientes que a consciência individual e social precisa de contínua actualização (renovação). Ela tem sido devastada sistematicamente pelo barbarismo irresponsável de dançarinos dum pragmatismo engravatado ao serviço dos empertigados do poder. Para já precisamos de santos profanos e sagrados, de grupos fortes defensores da cultura, precisamos de pessoas da acção, que melhorando se melhorem. Os heróis da democracia não se encontram na mó de cima mas na mó de baixo. No sentido duma cultura cristã, herói não é o que ganha mas o que perde. Enquanto não entendermos esta lógica, a História continuará, cada vez mais na mesma, com a maior parte da sociedade a trabalhar para uma minoria abusadora e cínica.

Não chega uma ética pragmatista natural e económica: precisamos da matéria e do espírito como precisamos da comida e do ar para podermos viver; a primeira finalidade duma ética política será a cultura do bem-comum; uma ética respeitadora da alma da cultura numa tensão responsável, entre o velho e o novo, entre biótopo e cosmopolitismo, possibilitadora de uma motivação fundada e teleológica. Os interesses individuais precisam dum sistema que os integre. 

Torna-se urgente uma política da justiça acompanhada duma política da verdade. Encontramo-nos a grande velocidade no retrocesso cultural. Deixar de acreditar na cultura, na solidariedade, na fé e no amor é voltar aos tempos bárbaros.

António da Cunha Duarte Justo
www.antonio-justo.eu

terça-feira, 2 de julho de 2013

Acusações de Fraude no Banco do Vaticano IOR



A um Papa Doutor segue-se um Papa Reformador
A Verdadeira Promoção é a Promoção à Humilhação
António Justo
Ao Papa Doutor Bento XVIII sucede um Papa Reformador. O papa Francisco está empenhado em criar clareza nos "ministérios" do Vaticano e as reacções já se fazem sentir.

Ao assumir o pontificado pediu aos membros dos dicastérios para ficarem "provisoriamente" nos ofícios até nova decisão. Deste modo revelou logo a sua intenção de renovar a cúria.

Este papa latino-americano que vem do "fim do mundo", ao não querer ir viver nos tradicionais aposentos do Papa mas na Casa de Santa Marta, demonstra que quer ser um papa sem corte e distanciar-se do poder curial que atafegava outros papas.
A cúria vaticana, demasiado burocrática e italiana precisa dum novo organigrama. A melhor maneira de marginalizar o poder da Cúria foi criar, fora da Cúria, um gabinete mundial de oito cardeais provindos de todos os continentes "para o aconselhar no governo da igreja universal". São cardeais abertos ao novo e de grande peso mundial. Com este acto demonstra a sua intenção de reformar o Vaticano e corresponde às espectativas de críticos do vaticano como Hans Küng que dizia que o novo papa teria de eleger um gabinete independente por causa da coabitação com a Cúria: "O Papa precisa dum gabinete com homens competentes (e porque não também mulheres) para sair da crise".

Acusações de Fraude no Banco do Vaticano IOR
Francisco quer que o Banco Vaticano (IOR) responda às exigências cristãs, criando para o efeito uma comissão de 5 personalidades (4 homens e uma mulher) para o investigar e elaborar uma reforma estrutural do mesmo. O Banco existe para facilitar transações económicas de instituições religiosas e administra seis mil milhões de euros. Pouco depois de nomeada a comissão, o núncio Scarno, responsável pelo banco e mais dois homens, foram presos no dia 28.06.2013, devido a investigações contra o Banco, por corrupção. Trata-se aqui dum transporte de 20 milhões de euros. Editores, cineastas e autores que ganham milhões com especulações sobre o Vaticano encontrarão aqui matéria propícia para os seus intentos. Os ingredientes com que se criam as histórias são: poder, dinheiro, sexo e controlo. A maior parte das histórias enriquecem pessoas à custa das especulações.

Com a criação da comissão examinadora do IOR, Francisco manifesta uma postura crítica não só em relação ao banco do vaticano mas também relativamente ao mundo bancário em geral que se manifesta corrupto e déspota e se tornou no albergue da corrupção instalada a nível mundial.

Francisco chama-nos a descer à realidade. (Os bancos transformaram-se na boca desenfreada dos ricos. O problema do nosso mundo está no facto de ninguém compreender os ricos mas o dinheiro os compreender. Porque hão-de os peixes grandes comer os pequenos quando um grande seria a festa da pequenada?)

O banco do Vaticano não pode seguir as práticas comuns noutros bancos dado a conduta cristã dever ser o critério de acção de tal instituição. Prisões em relação com o banco são sinais inequívocos de que Francisco quer clareza e limpeza. 

Francisco critica o carreirismo e dirige-se ao âmago da Igreja com a atitude do franciscano, Santo António de Lisboa que, no século XIII, também expressava a necessidade duma mudança institucional e moral, dizendo: "Livre de vícios tem de estar quem tem o cuidado da correcção das faltas alheias... Se o pregador fala somente sem que a sua vida também se faça ouvir, não sai água da pedra... A linguagem é viva quando falam as obras. Cessem, por favor, as palavras; falem as obras. Estamos cheios de palavras, mas vazios de obras". 

Papa com um estilo próprio
Referindo-se a uma mãe solteira a quem fora negado o batismo do filho, Francisco admoestou os clérigos que se comportam como "fiscais da fé", pedindo que estes se transformem em "facilitadores da fé das pessoas". . Já Bento XVI dizia "Há tantos caminhos para Deus como há pessoas". A fortaleza da fé da Igreja Católica é importantíssima no mundo. As alternativas evangélicas não apresentam estabilidade suficiente e têm dificuldade em definirem o que são. São vias paralelas legítimas mas não podem ser o exemplo da Igreja católica. Para mais Lutero não queria formar uma nova igreja.

O carisma deste papa vem-lhe da fé e da experiência da realidade das comunidades e manifesta-se na palavra e no Espírito. Como reformador apela para começarmos por nós mesmos tal como dizia a Madre Teresa: ?o Homem tem de se mudar para que as instituições se mudem?. De facto não são as instituições que pecam mas as pessoas; sendo ilegítimo a separação entre os de dentro e os de fora da instituição.

"O papa toma decisões próprias e contacta pessoas, pega no telefone e fala com quem quer, encontrando-se com muitas pessoas, não só com cardeais. Isto cria instabilidade no Vaticano", testemunha o padre Bernd Hagenkord da Rádio Vaticana.

Este papa simples é um exemplo duma religiosidade profunda, exemplar para toda a Igreja. Ele recomenda: "Devemos implicar-nos na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum". "A luta pelo poder na Igreja não é coisa destes dias". "Ah, esta mulher foi promovida a presidente daquela associação e este homem foi promovido... Este verbo, 'promover': sim, é um verbo bonito; sim, deve usar-se na Igreja. Sim: este foi promovido à cruz, este foi promovido à humilhação. Esta é a verdadeira promoção, aquela que melhor se assemelha a Jesus".

Também o franciscano António de Lisboa denunciava: "Os prelados do nosso tempo (...) nas cúrias episcopais fazem grande ruído com a lei de Justiniano e não com a lei de Cristo" e acrescentava "os 7 predicados necessários ao prelado da Igreja são: pureza de vida, ciência da divina Escritura, eloquência de língua, instância de oração, misericórdia para com os pobres, disciplina para com os súbditos, cuidado solícito do povo que lhe foi confiado".

Francisco tem a sorte de ter o papa Bento XVI que o poderá aconselhar. Com ele inicia-se uma nova era na História eclesial e civil.

António da Cunha Duarte Justo

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O 1°. de Maio

Caras leitoras, caros leitores
O 1° de Maio cada vez está mais distanciado do trabalhador!
Eles comem tudo e, sem se preocuparem com os interesses dos outros, apoderaram-se das terras, do saber e das instituições. Eles subiram ao Olimpo e mataram também os deuses para, sem escrúpulos, poderem escravizar o ser humano. Onde o Espírito não conta, o Homem torna-se selvagem! 
«O que se nos depara é a perspetiva de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, sem a única atividade que lhes resta». Hanna Arendt
Eles apoderaram-se da terra e do trabalho e criaram uma sociedade onde o trabalho se tornou o único meio de se ser alguém. Quando se chega a este ponto, já a dignidade humana passou!
Apesar de tudo, há muita esperança! O tempo da crise é a época de preparação duma nova era!
Abraço
António Justo