quarta-feira, 12 de setembro de 2012

“Sou o que sou” no tornar-me - Arte e Religião



ARTE ARTISTAS E OBSERVADORES (Ensaio)
O nós também aspira a ser eu

António Justo

Resido na cidade de Kassel, o lugar da Documenta, que é a maior Exposição Mundial de Arte Contemporânea. Acentuo a palavra lugar, porque este, numa perspectiva artística poderia compreender-se como o sítio (atelier) da grávida a dar à luz, ou o sítio grávido onde se juntam as forças dum chamamento possibilitador da obra de arte.

A dOCUMENTA (13) tem a vantagem de convidar o observador e o/a artista a uma pesquisa associativa e de lhe proporcionar, ao mesmo tempo, um “Brainstorming” sobre a arte em geral, (reunindo e conectando os vários ramos da arte com as diferentes disciplinas do conhecimento) e os mais variados projectos de vida, num espaço que, à primeira vista, faz lembrar a Torre de Babel. Tudo ganha aqui expressão em formas e formatos que reflectem o Homem na sua qualidade de rei e súbdito da natureza, numa dinâmica da ecologia biológico-cultural.

De facto, nada é estranho ao artista que, em interacção e intra-acção com todas as dimensões da realidade e do saber, procura elaborar o seu rascunho de vida num contínuo diálogo de inter-relações orgânicas, mecânicas e espirituais. O lugar de acção do artista é, naturalmente, o público, sendo nele que se movimenta para, numa atitude de aquisição e ampliação, reflectir e questionar valores e costumes numa perspectiva diacrónica e sincrónica.

Um dos objectivos do artista contemporâneo, se o equacionamos em termos de expressão do seu tempo, seria criar um feedback de todas as disciplinas, dado tanto espírito como matéria, (e relação intersubjectiva /objectiva) serem plataformas diferentes da mesma realidade, como se expressa a nível teológico, no “dogma” da Trindade: unidade do ser (criador-criatura/obra) numa relação consubstancial (interacção artista-obra-observador), exemplificada a nível da encarnação onde a realidade, constante de matéria e espírito, deixa o caracter antagónico destes dois princípios, para assumir uma relação “pessoal” de interacção e intra-acção. Recorde-se, neste contexto, o prólogo do evangelho de João (“No princípio era a In-formação - o Verbo”). Teorias, mitos e dogmas sempre foram interpretados e clarificados pelas analogias da arte. É-se artífice do real e do futuro e, com o cinzel da formação, religião, música, cultura, arte, etc., todos modelam (cada um na sua plataforma em espírito de complementaridade) o ser humano e a realidade que os envolve e o forma, ao mesmo tempo.

No mesmo lugar, na mesma obra procura-se juntar e expressar uma conexão de experiências entre lugares, nomes e sítios sem que os dualismos individuais, interculturais e interdisciplinares fiquem na sombra, muito embora num processo comum de individuação que, inevitavelmente, cala as forças da selecção, da associação e da assimilação.

Na prática, constata-se uma falta de consciência da complementaridade, numa apreensão e expressão da realidade, que emperra os saberes em definições com arame farpado; saberes concorrentes que se fixam em si mesmos, agindo contra o espírito de interdisciplinaridade, numa atitude semelhante à da avestruz, que mete a cabeça debaixo da sua areia ao sentir que aquilo que a define, como identidade, a questiona sob o ponto de vista doutras perspectivas. A realidade biológica e cultural acontece num processo de osmose das suas várias dimensões e camadas, sem fixação na linearidade duma linha fronteiriça unidimensional (arame farpado). A necessidade de demarcar o outro corresponde a uma necessidade imanente de se definir a si próprio, e a uma estratégia de autoafirmação categórica unidimensional, como se observa na disputa entre arte, ciências naturais, ciências humanas, ideologias, política e religião.  De facto, cada disciplina, ao fixar-se na linha fronteiriça que a define, despreza o conteúdo de que faz parte.

Lugares, nomes e objectos de arte, com a ajuda do intelecto, tornam-se em neurónios de interligação, associação e combinação que se podem revelar em afirmação ou resistência poética, e, até mesmo, em perversão do pensamento, ou em símbolos ao serviço de dogmas estéticos e antiestéticos. Tudo é possível organizar de modo a servir uma obra, mais ou menos descritiva, em que a tela é símbolo duma natureza sempre criadora e em que até o marginal se pode revelar em fundamento de algo maior.

A arte/obra de arte, tal como a pele, constitui um delineamento claro de algo a ela subjacente mas indefinível. Continuando a analogia inicial, poderíamos definir aqui arte e artista como expressão do grito do universo a dar à luz, à semelhança do Big Bang numa cópula universal em contínuo processo de realização e consumação no produzir a obra. Por outro lado, o objecto de arte e a arte observada é como que algo reflectido num espelho mas que, no entanto, deixa antever, na sua aura, a passagem do artista pelo Olimpo. Sem esta a arte perderia a sua sacralidade, significado e motivação. Sem a tal passagem pelo Olimpo os artistas perderiam a sua auréola e o seu brilho seria parco se consagrado apenas pela criatura artesanal (povo criatura). Num acto posterior, a importância da obra de arte vem-lhe do simbólico, o que lhe seria bastante, não se escondessem por trás dela interesses muito concretos, desde o comercial ao ideológico; grupos e instituições servem-se, frequentemente, da arte para tecerem as suas metafísicas fomentadoras de dicotomias entre um laicado e os iluminados da arte e até mesmo entre as várias artes. Com mitos, dogmas e uma certa liturgia também na arte se fomenta um público rebanho laico seguidor duma fé secular definida por alguns corifeus. Este problema torna-se mais óbvio num momento em que um objecto de arte plástica não fala por si mas precisa de explicadores que lhe proporcionem o acesso. Para entrar no templo exige-se agora um porteiro!...

A força do Zeitgeist (espírito do tempo corrente) ensombra a arte. Ela é de tal forma orientada para uma globalização, pressagiada como natural, que cria automaticamente uma agressão contra tudo o que é maior e, como tal, pudesse constituir obstáculo à concretização dum pretenso espírito ainda maior, o global. Dá-se primazia ao individual e ao orgânico desde que se deixem reduzir à anonimidade (proletarização espiritual). O global (globalismo), porém, é o outro lado do biótopo e dos ecossistemas biológico-culturais mas, de momento, a desenvolver-se sem qualidade orgânica. (É sintomática, neste contexto, a tendência fatal, dos nossos multiplicadores de cultura, para negar a cultura ocidental e difamar os seus fundamentos, até mesmo à custa da afirmação duma cultura hegemónica desértica e dum mercantilismo absoluto que não reconhecem o sujeito). Também na arte se registam, frequentemente, traços hegemónicos quando esta se arroga como única capaz de curar os problemas do mundo. Problema de autoestima cega! Mais que a encenação do mundo entre arte e contemplação importa o diálogo entre mundivisões que não reduzem as imagens a meros objectos de uso do próprio rebanho.

O estímulo sensual, intelectual e espiritual poderia contestar fortemente uma atitude de espírito decadente amoral e “aideal” que reduz o momento a alegoria relativista mas se limita a questionar medrosamente a artificialidade dum mundo globalista e relativista destruidor de biótopos e ecossistemas culturais. Quer-se um pluralismo anónimo (anorgânico) revelador e confirmador dum efêmero poético e político. No limiar da realidade do dia-a-dia, alguns artistas lançam-se à descoberta de limites onde corpos sem conteúdo, sem espírito, se tornam metáforas duma realidade construída por invólucros vazios. Talvez revelem, assim, consciente ou inconscientemente, o esvaziamento de tradições e valores a sacrificar a projectos abstractos implantados por forças artificiais criadas contra uma evolução natural orgânica, que poderia, não obstante, ser assumida pelo pensamento (ideologia).

Que seria da arte se não fosse a arte de falar dela! A arte também nos quer alertar para a realidade social e para as relações de poder. Fá-lo numa tentativa de consertar rostos de cultura da praça, através de novos objectos de arte, mas apenas à semelhança do que se verifica nos trajes e enfeites (joias) da mulher ao longo dos tempos. No enfeite constatamos a diferença de figurinos que escondem atitudes próprias ou projectos de identidades. Constata-se uma evolução e, ao mesmo tempo, uma ubiquidade diacrónica e sincrónica que podemos também observar na constelação das culturas/civilizações hodiernas e diferentes modos e concepções de vida entre elas . Também no âmbito da arte falta um estudo sinótico entre o hoje e o antigamente, uim estudo comparativo (evolutivo) entre as culturas actuais, seus valores e sonhos para possibilitar uma verdadeira oficina de arte virada já não só para as fenomenologias diacrónicas mas especialmente para uma fenomenologia sincrónica. Se as víssemos como num filme de sinótica cultural sincrónica verificaríamos o ontem ainda no hoje presente (Afeganistão e Suíça, etc.) sem complexos de culpa nem culpabilização do outro. Verificaríamos grande cinismo num discurso artístico e político que, em nome dos direitos humanos critica a barbaridades da própria cultura no passado e ao mesmo tempo aceita, os costumes barbáricos de outras culturas contra os direitos humanos, em nome do respeito pelas culturas e subculturas actuais. Este é um escândalo que a arte negligencia ao fixar-se em pequenos escândalos fomentadores da excitação pública e da própria masturbação improdutiva.

Este é o hoje-amanhã, no seu intervalo abstraído, o eterno presente, onde se podem ver metáforas de História vivida e a ser vivida e, deste modo, constatar a fragilidade do Homem e das culturas numa realidade a acontecer entre facto e ficção. Ao artista fica, muitas vezes, a tarefa de registo de processos num papel de contador de histórias hoje modernas e amanhã antigas. Não chega ficar-se pelas fenomenologias culturais, falta ainda fazer-se uma análise exacta comparativa de ideologias, culturas e religiões numa perspectiva de orto-praxia concretizadora da realidade eu-tu-nós sob a estratégia dum pensar e agir a partir do nós.

Duma maneira geral, os museus não passam de inventários de arte. Como registos da memória artística, lembram, por vezes, uma viagem artística dum povo que antes vivia da ilusão da perfeição e hoje vive da ilusão da igualdade e da democracia. Os próprios museus são testemunho e afirmação duma sociedade e duma propriedade adquirida e a adquirir na medida em que, também eles, na qualidade de espaços públicos, condicionam o acesso a eles, mediante um óbolo de entrada não acessível a toda a população. Estes espaços públicos, antecâmaras do Olimpo, nas mãos de estruturas institucionais, servem um pequeno grupo de frequentadores, cimentando um estado de coisas em Estados que não conhecem povo nem população mas para quem reservam a ilusão e o Smog. Museus, mantidos pelo tesouro público, restringem a entrada neles àquele que tem poder económico para pagar um suplemento (bilhete) que o torna mais igual a si mesmo e lhe concede um estatuto identitário superior aos outros (“povo”). A arte limita-se, por vezes, a fomentar uma consciência política ecológica num público provindo, na generalidade, de camadas sociais com dinheiro que já possui essa consciência ecológica. Fala-se de liberdade, solidariedade e abertura sem prevenir nem registar que tudo se organiza na base de limites e de fronteiras e sob a lei da selecção da natureza. De facto, que seria da amiba sem a membrana?!

Nas falhas e lacunas da lógica, da vida e do direito, é gerado o progresso da superfície: ondas concêntricas geradas na superfície da realidade social. O exagero de performances, filmes, instalações, plásticos em formas visuais num mundo dominado pela visualidade pode reprimir ou condicionar outras percepções e dimensões, como se a imagem e a onda fossem as únicas realidades do espaço.


Cumplicidade entre criador observador obra e acto criativo

Talvez, uma maneira nova de fazer arte, pressuponha uma nova prática com trabalhos/obras de arte realizadas em comum por grupos de pessoas das diferentes disciplinas, como sugere Alighiero Boetti, numa tentativa de criar uma praxis de identidade múltipla. Se queremos encenar um novo mundo a estratégia será de colaboração e intercomunicação. Em Fernando pessoa temos um protótipo de artista com um eu dividido e reunido em si mesmo. Ele já se revelava com uma identidade múltipla. Nele podemos certamente verificar a tendência dum nós que também aspira ser eu. Em cada pessoa, como em cada grupo ou cultura esconde-se um processo de camadas culturais e físicas, à semelhança das camadas geológicas formadas ao longo de milénios e que se necessita consciencializar para ser colocada em interacção consciente. No grupo (nós) inclui-se o contraditório e dele surge a ipseidade e a alteridade numa relação de complementaridade de espiral ascendente a caminho do “ Omega” de Teilhard de Chardin. Seria óbvia a consciência dum propósito comum de evoluir sem se fixar nas formas criativas em moda nem nas cadeias de ideologias vigentes. Uma consciência pluridimensional é consciente de que os vários conhecimentos (ciências e práticas) continuam limitados aos seus próprios trilhos sem reconhecer ainda que o progresso e toda a perfeição (evolução) e futuro se processa em espiral num subir sem aniquilar, tudo reunindo em si, à imagem da criança que junta em si também a presença genética e cultural de seus pais e antepassados. Na criança, em cada um de nós, caminha a vida toda. Cada um é um resumo do universo segundo o próprio espelho. O empenho na realização dum futuro já presente implica o cruzamento dos vários ramos da ciência e da experiência numa fusão paciente de fé nostálgica e futurista. Todos somos processo e cruzamentos de processos.

Embora peregrinos citadinos, trazemos a província em nós. Esta continua a ser o terreno onde lançamos os alicerces da nossa casa. Na monocultura não prosperam as borboletas nem o artista. No nosso sítio pluridimensional, na nossa alma, encontram-se não só as imagens das paisagens que observamos do nosso ser, mas também as paisagens reais, o próprio campo, a que não falta o sol dum espírito iluminador e criador. O mundo é mais que as imagens ou a percepção que temos dele; ele é cidade e é campo, é matéria e é espírito, é facto e é fantasia, com entremeios de muros feitos de pedra, de ideias, de posições e de cultura, onde a luta pelo espaço e pela identidade parece fazer do muro o essencial. Na feitura do muro, e na necessidade da sua destruição e reconstrução revela-se a consciência profunda duma realidade muralhada estar chamada a transcender os próprios muros, podendo estes, em certos ramos da existência, ser reduzidos a símbolos, tal como acontece à sublimação da guerra no jogo de futebol. (A destruição dos próprios muros, porém, não se pode dar numa dinâmica de afirmação dos muros dos outros!)

Cada pessoa, cada obra, rua, catedral pode ser usada para um alargamento da consciência individual e colectiva; cada facto, cada objecto e ideia pode ser imbuído de poesia e tornar-se obra artística reveladora e concretizadora dum diálogo de metafísica e física que se interpenetram e completam, sem que o cunho individual do artista predomine. Para isso urge unir respeitosamente o saber científico ao sentir artístico e à sabedoria religiosa e verificar que o que dá consistência aos muros ideológicos e partidários é o interesse, a focagem numa parte da realidade. Também a identidade do mar se faz na interacção da identidade das gotas! Naturalmente, também o aleatório precisa do seu lugar ao lado do determinado.

O suceder da arte pode comparar-se a um estendal de imagens ventiladas pelo nosso pensamento e em que o estendal é a nossa alma/consciência individual e colectiva numa revelação diacrónica. O efémero e o factual recebem a sua consistência num jogo irónico entre real e abstracto, entre o sujeito e o objecto. Na obra fica o movimento duma vontade intencional mais ou menos consciente, num jogo de formas e gestos simbólicos, por vezes absurdos, de restauração e recuperação de vida e da reflexão sobre ela.

O medo de perder o legado do passado e o cuidado pelo futuro tornam-se presentes em obras envolvidas em processos de construção, desconstrução, reconstrução numa tarefa e intenção de possibilitar novas formas de leitura, duma realidade que só o é no acontecer. A arte regista uma contínua tentativa de simplificar a realidade antagónica equacionando-a, para isso, em verdades que a tornam acessível e destroem ao mesmo tempo. As obras artísticas, com a sua aura, testemunham a permeabilidade das fronteiras entre realidade e ficção. A arte origina-se no olhar do observador possibilitando, no seu consciente, a criação de mundos e dimensões que transcendem o dia-a-dia, numa procura doutras paisagens e doutros saberes.

O desafio contínuo de diálogo entre material e forma é possibilitado pela impossibilidade de obter uma síntese entre forma e matéria que transcenda o objecto que as enterra. Isto motiva todo o artista a procurar um arquétipo que se revele possível como aspiração no acto de dar à luz. A forma, como momento de in-formar, cativa o artista no processo criador que dá continuidade à criação e é subcutâneo à criatura do artista. Consequentemente mais que uma arte própria dum tempo há apenas uma expressão, um estilo artístico do tempo. Tal como no prólogo de João, o verbo cria tornando-se carne, num contínuo gerar gerando-se, e em que matéria e forma são momentos do acto de in-formar. O espaço de tensão entre o real e o exotérico, entre o acto de criar e o objecto criado, possibilita uma dialética intelectual já presente no acto criador. O acto de criar é luz sendo a obra a sombra dela e ao mesmo tempo, a força reminiscente de voltar/realizar luz. A obra de arte, se não reduzida a sombra petrificada, é sombra a apontar para a luz. Daí também a necessidade do artista ter de criar um “lugar” que possibilite a confusão do considerado real para assim proporcionar novos espaços, plataformas, diagramas e novas criações. Deste modo viabilizam-se diferentes mecanismos de percepção e criação de realidade. A arte torna-se no lugar do erótico em que a provisoriedade das formas dá lugar a novas dimensões para lá do tempo e do espaço possibilitando sentimentos e experiências que se contrapõem às emoções criadas pelo mundo do poder e da dominação.

Importa submergir na arte sem nos fixarmos no artista, na sua necessidade de identificação, nem na interpretação. (Estas revelariam apenas parte da nossa identidade!). As obras, como composições de textos, imagens, formas, materiais e estruturas possibilitam novos lugares e estadias que se podem tornar nossos espaços e até alargar as nossas perspectivas no sentido duma orto-praxia tanto linear como alinear.

Vive-se na dimensão das metáforas entre símbolos religiosos, científicos, artísticos e o poder político. A futilidade do esforço para chegar a uma verdade, que se perde nos contextos, fomenta uma realidade de meias verdades, em vez de apontar para o processo eterno de procura/realização da verdade/realidade. Também no coração da Documenta - no Museu Fredericianum – se configuram formas e sombras metafísicas apoiadas num estoque de ideias da ciência e alegorias da religião. Nele encontra-se uma sala, sem nada, onde o visitante é confrontado com o vazio e o silêncio. Este espaço de reflexão criativa estimula os visitantes a questionar, indirectamente, uma sociedade linear stressante. É mais que óbvia a necessidade de criar lugar do silêncio não só na igreja e na arte mas a nível individual, institucional e social.

A indústria da arte comercializada encontra-se ao serviço do capitalismo cognitivo que se distancia da natureza em nichos dum abstrato alérgico  à vida orgânica (Arte de conceito, Concept Art ) e em serviço da visualidade , muitas vezes direccionada para utopias negativas negadoras do Homem. Serve-se um macro-sistema de sistemas anónimos e alienantes! Numa época em que o mercado e os meios de comunicação social tudo instrumentalizam. Também a arte precisa de críticos como o artista Francesco Matarrese que nega o objecto artístico resultante dum trabalho abstrato (Um momento de reflexão!).

No entanto, também uma tela vazia viabiliza um destinatário e traz uma mensagem encoberta a um mundo inundado por imagens mudas em que um saber de altos voos já não consegue aterrar. Os fenómenos e os interesses cruzam-se nas fronteiras e o artista é o trapezista que dança nelas. Os limites tornam-se lugares que salientam as contradições da condição humana. No tapete do ser, em que nos movimentamos, nada há certo, tudo é provável; também o tapete em que andamos faz parte de nós e do movimento que somos. Se a filosofia se limita à pergunta de como é possível o real e se fica pelos condicionalismos e possibilidades desse real, não sai do comboio do pensamento que se move em trilhos e potencialidades delimitadoras do próprio pensamento. Então também a filosofia é uma arte porque reconduz e orienta a capacidade para um determinado momento do real. Por outro lado, também a ciência só pode descrever o provável, como descobriu a física quântica; cem anos depois, ainda se continua a acreditar no Weltbild (imagem do mundo ou mundivisão) determinista do séc. XIX que pensava que o mundo funcionava segundo regras exactas mensuráveis.

Fontes de inspiração criam estruturas narrativas, pinturas da história com restos dum futuro enterrado numa realidade feita de desmoronamento e reconstrução.

Ah! Na vida aqui ao lado, vive, lado a lado, na arrecadação da realidade, a vida a arder num processo de materialização e de desmaterialização. Num ser de objectos transformados pelas chamas do pensamento, a dor dá à luz novos seres num mudar contínuo de formas e visões. De facto, a diferença entre o papel higiénico e a nota de banco, está na tinta, o resto é uma questão de crédito. O nosso destino é dar forma ao formado em diferentes dimensões na partilha do acto de in-formar. Somos sonâmbulos no combate à noite da vida em procura da luz; quem não resigna procura, no relevo que dá à existência, deixar a silhueta da sua conotação, na sequência dum acto submisso de dar continuidade à vida no seguimento dum chamamento que se expressa na própria vocação.

Uma história, de perda da herança (recordação) e dos valores humanos, virada para um saudosismo arcaico que realça as forças bravias nela submersas, como se o brilho da cultura ocidental fosse algo extraterrestre que justifique toda a agressão dos guetos ou dos apóstolos do relativismo, expressa e conduz a um estado de abdicação. Consequentemente, um certo culto do exótico revela-se, contraditoriamente, contra o próprio ruralismo. Os espíritos dos aborígenes insurgem-se nesse culto contra a própria evolução. Às sombras da cultura ocidental são contrapostos os soalheiros doutras culturas e subculturas como se o mundo das culturas fosse unidimensional, como se, a cada cultura, não estivessem subjacentes a mesmas forças e leis naturais/culturais com uma representação teatral correspondente à própria vontade de se autoafirmar no tempo propício ou de se negar. A vigência duma ética de recordação negativa justificadora dum criticismo discriminador é sintoma de decadência. Arte, tal como as civilizações, precisa dos seus lugares altos na companhia dos seus templos. Sem intervir contra estranhos, a arte ocidental precisa de se reunir para se creditar e não abdicar dos valores que a tornaram um luzeiro universal!

Obras e culturas são colocadas em conexões ilegítimas como se um determinado quadro fosse responsável pelas tintas que se encontram enquadradas em circunstâncias doutros lugares e tempos. (Responsabilizam-se os outros para se desobrigar a si mesmo ou para se colocar no pedestal da moral.) Os espíritos dos mortos continuam a perseguir-nos como se a morte não fosse vida também. Critica-se o passado e a diferença, não para se ser mas apenas para subsistir. Na escolha dos factos e das obras que o artista apresenta, ele procura revelar-se nelas e ao mesmo tempo redescobrir-se na reacção do observador (público). Instituições e Exposições como a Documentas, Bienais e que mais, dão valor e significado às obras e artistas que confirmam as próprias posições e configurações da sua mundivisão. Só é pena que o seu espírito crítico não se reconheça como mero momento da própria necessidade de identificação e auto-afirmação, muitas vezes à custa do resto. A sua realização é importante, também porque constitui uma possibilidade de autoanálise e questionação possibilitadora de delineações mais alargadas. Os fenómenos cruzam-se nas fronteiras e o artista é o trapezista que dança nelas.

A arte, entre outras encenações, é mais uma visão do real, num cenário de fundo indefinido e aberto. Também a realidade é imagem fenomenal doutras dimensões. Tudo imagens da imagem dum real num palco de imagens formado também por nós. A vida é símbolo e vive dele num mítico acontecer que continuamente recria a sensação de chegar a um real que a própria experiência cria. No abstrair da abstracção talvez se chegue á imagem dum real para lá da percepção e do dizível, na sarça-ardente do “sou o que sou” no tornar-me.

António da Cunha Duarte Justo

PS  Escrevi este ensaio na perspectiva duma filosofia da “ARCÁDIA – Associação de Arte e Cultura em Diálogo”. www.arcadia-portugal.com
© António da Cunha Duarte Justo

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

EGIPTO, QUO VADIS?


“O Islão não oferece soluções”
 António Justo
“Segundo estimativas de especialistas, os militares egípcios, com pessoal em uniforme e civil, são hoje os maiores dadores de emprego no país”, como descreve a notável revista alemã “Cicero”, August 2012, num artigo sobre o Egipto. O negócio dos generais cifra-se entre 10 e 40% da economia egípcia, refere ainda a revista.

 Agora, com o islamista Mohammed Mursi na presidência, os militares perderam influência no aparelho do Estado. Apesar disto, Mursi (que vem do seio da radical Irmandade Muçulmana), terá de se moderar nas suas pretensões de maior islamização do país, se pretende conseguir impulsionar a economia que só será viável num clima de estabilidade política e social. Também não poderá renunciar às receitas do turismo, outro factor modernizador a domar o zelo e a fúria inicial de forças islamistas que pretendiam irradiar da cultura egípcia o que não fosse islâmico. 

Também a rivalidade vigente, entre o Tribunal Constitucional, Militares e Presidente, pode revelar-se como factor moderador das intenções do Presidente e impedir confrontações. Entretanto os islamistas, com a sua maioria parlamentar, demonstraram que não tinham soluções para os problemas do país: alimentação, escola e hospital. Até setembro terá de ser elaborada uma nova constituição a ser aprovada por plebiscito. 

“O Islão não oferece soluções” disse Amr Mohammed Musa, Ministro dos Negócios Estrangeiros do Egipto em entrevista a “Cícero”. Amr Musa  foi escolhido para ministro das Relações Exteriores, a desejo dos militares, para indicar uma certa continuidade pró-ocidental e que a política anti-israelita não será o caminho da política externa.

O ministro dos meios de comunicação social (estatais) é Salahedin al Maksud, também ele, membro eminente da Irmandade Muçulmana. O programa de promoção do islamismo encontra-se assim em boas mãos. Uma inovação da TV estatal egípcia revelou-se no facto de o noticiário passar a ser apresentado, depois de 50 anos, por uma jornalista com véu islâmico na cabeça. Esta inovação foi exibida como sendo uma “vitória da Revolução de 25 de Janeiro”. A agenda da “Irmandade Muçulmana” é longa; agora que se encontra no poder, exercê-lo-á com decretos, não precisando, para já, de recorrer à violência física. Entretanto a censura acentua-se e a insegurança nas comunidades não muçulmanas também. O objectivo declarado da Irmandade Muçulmana fundada em 1928 é estabelecer uma ordem social subjugada à moral do Corão e à jurisprudência da Sharia islâmica.

Informação estrutural enganosa ou factual descontextuada

Nos sistemas muçulmanos, a formação de uma oligarquia militar corresponde, por vezes, por muito contraditório que pareça, a um elemento diferenciador duma sociedade de cunho religioso monolítico e hegemónico onde perspectivas seculares civis se tornam difíceis. Os militares, tal como na Turquia, formam como que uma pequena nobreza, que se tem revelado como elemento correctivo do islamismo absorvente e omnipresente. Ao contrário da democracia ocidental que favorece a alternância dos partidos mais fortes no governo, o sistema hegemónico muçulmano favorece o fenómeno dual: dum lado os militares e do outro, os imames (cabeças das mesquitas: o seu poder de mobilização política pode verificar-se nas demonstrações organizadas e realizadas às sextas-feiras logo a seguir às orações nas mesquitas) e a revolta terrorista. Por muito estranho que pareça os militares têm-se revelado como parceiros mais sérios em relação ao estrangeiro atendendo aos interesses comuns. De lembrar, neste contexto o ataque sistemático dos grupos islâmicos radicais contra a formação de exércitos e a organização policial estatal, no Afeganistão, Iraque, etc.
Se aos países ocidentais, o que mais os une é o sistema liberal capitalista (competição em torno do trabalho/consumo), aos países muçulmanos/árabes une-os a religião muçulmana que é ao mesmo tempo programa de vida e ideal político…

 Nas sociedades muçulmanas não se tem revelado possível o desenvolvimento duma cultura cívica/secular (possibilitadora duma democracia aberta) por razões teológicas, antropológicas e sociológicas. Enquanto o ocidente se orienta pela fórmula cristã “dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César” (princípio de distinção entre realidade secular e realidade religiosa: Homem por um lado como ser divino e por outro como ser secular), as sociedades de cunho árabe não conhecem esta dualidade deixando tudo para Deus, sem nada para o Homem numa atitude de súbdito e, consequentemente, de ser definido e controlado apenas pela religião. A mitologia ocidental ao conceber o Homem como filho de Deus reconhece no Homem os genes divinos e consequentemente o direito do Homem à individuação e à personalização. No Islão não há o conceito de Homem como filho de Deus nem tão-pouco o Homem pode ter comunhão com Alá tanto no aquém como no além. Isto ocasiona diferentes antropologias e diferentes sociologias, com as consequentes maneiras de estar no mundo e de se compreender o Homem e a política. Se nos países de influência cristã o Homem é concebido como ser autónomo, anterior ao religioso, nos países de influência islâmica o Homem é concebido como súbdito, só tendo sentido dentro do religioso, da Uma (a grande comunidade islâmica). Aqui, o ser humano individual não tem consistência pessoal, só grupal. Daí o facto de, quando se fala em democracia, assim como quando se fala em direitos humanos, os ocidentais e os árabes compreenderem coisas totalmente diferentes.

Geralmente, os jornalistas e os políticos ocidentais, quando avaliam os acontecimentos nos estados árabes e quando falam de integração de estrangeiros equivocam-se porque julgam que as palavras e as manifestações públicas duma cultura são equivalentes às da outra, quando, muitas vezes expressam precisamente o contrário do que se diz delas. Enquanto o Ocidente aposta sobretudo na força militar e na expansão económica os países de influência árabe apostam tudo na religião e na expansão da procriação.

O entusiasmo e optimismo dos meios de comunicação ocidental nas notícias sobre o Norte de África e outros conflitos internacionais leva o público a avaliações não aferidas à realidade meramente factual.

A informação publicada, além de ser equacionada em perspectivas políticas condicionadas pela própria localização política, sofre do equívoco de falar de realidades que, muitas vezes, não passam de projecções da própria mundivisão sobre a dos outros. Temos assim uma informação estrutural do satus quo enganosa ou factual descontextuada. 

Por vezes tem-se a impressão de se viver no século V do império romano, assolado, ao mesmo tempo, interna e externamente. Os tempos que se aproximam para o norte de África e para a Europa pressagiam muita instabilidade! Todos terão de mudar muito a nível de mentalidades e de estratégias de poder!

António da Cunha Duarte Justo

quinta-feira, 7 de junho de 2012

DOCUMENTA – A Exposição de Arte Contemporânea mais importante do Mundo


O Absolutismo na Arte
António Justo

De cinco em cinco anos peregrinam, de todas as partes do mundo, milhares de artistas e admiradores da arte contemporânea até Kassel, Alemanha. A documenta foi criada em 1955, em Kassel pelo artista Arnold Bode que pretendia, com a iniciativa, abstrair das ruinas da guerra e seguir novos horizontes ao serviço da abstracção. Na primeira exposição houve sobretudo obras de arte que tinham sido proibidas e perseguidas durante o regime nazi e intituladas de arte degenerada (“Entartete Kunst”).

A documenta alonga-se por 100 dias. Nesta altura a cidade transforma-se num mar de gentes de portes exóticos: um aspecto folclorístico que faz lembrar os mercados da idade média em torno das catedrais e, assim, forma, já por si, também uma obra de arte social. Kassel transfigura-se numa praça de arte que se estende por edifícios, parques e outros espaços públicos da cidade. A documenta apresenta uma perspectiva transversal da arte contemporânea e permite fazer o ponto da situação mundial em questões de arte e ocasionar uma certa orientação de perspectiva. Na sua história de 57 anos com 13 exposições, documenta as contradições e ambivalências do Homem e do tempo num currículo de realização e fracasso em processo de morte e ressurgimento.

A dOCUMENTA (expressão gráfica da documenta 13) vive da ambivalência e do escândalo na procura dum futuro prospectivo a partir dum presente impregnado de contradições e inconsistências que se expressam de documenta para documenta, numa manifestação de diferentes atitudes artísticas a que assistem diferentes filosofias, teorias, correntes políticas e sociais contemporâneas.

A documenta13, realiza-se de 9 de Junho a 16 de Setembro de 2012. A última documenta/2007 conseguiu vender 754.301 bilhetes. O objectivo da actual é atingir um milhão de visitantes. Ela é ao mesmo tempo o maior festival Open-Air. Kassel oferece possibilidades ilimitadas: o visitante tem a oportunidade de se alegrar e irritar sobre a arte.

A documenta (13), foi elaborada sob o lema “Colapso e Reconstrução” e tem como chefe/gerente a americana Carolyn Christov-Bakargiev apelidada por jornalistas de “Lady Gaga”. Ela situa-se nas pegadas e tradição das 12 documentas anteriores prosseguindo um espírito de continuidade de arte afirmativa e provocativa. Procura apresentar o válido como inválido e vice-versa, documentando assim as contradições da actualidade.

A direcção da documenta escolhe para chefe de cada exposição, um curador/chefe da documenta equipado de poderes absolutos; este pode pôr e dispor à sua vontade de maneira dogmática a própria filosofia. Na documenta, aqui em Kassel, a arte arroga-se alvores absolutistas. Carolyn Christov-Bakargiev encena-se como se fosse a sacerdotisa da arte, não lhe faltando a estola, o gesto religioso e o dogmatismo ostentado. O sensacionalismo em torno dela talvez venha do facto Carolyn Christov-Bakargiev querer, com idiotices mudar o nosso pensamento, através da documenta. Desta vez participam 297 artistas e grupos de artistas de todo o mundo.

“Direito de Voto para Cães e Morangos”

Em torno da dOCUMENTA 13 tem havido muita discussão na imprensa; a chefe tem-se revelado como bastante jacobina, não suportado mesmo nada que contradiga a sua ideologia/visão de arte. Para Josef Beuys artista “ é toda a pessoa”;  para a chefe da documenta, artista é toda a natureza, ponto.  Carolyn Christov-Bakargiev exige o direito de voto também para os morangos e para os cães; também há três cães da documenta treinados e colocados à disposição de visitantes que se deixarão conduzir pelos caninos; o sentido desta iniciativa é levar o visitante a ver a atitude do cão perante a obra de arte; intenção é inverter os valores colocando o Homem ao nível do cão e do morango. As suas posições radicais têm sido muito criticadas, muito embora a sua posição extremista possa ajudar uma sociedade surda-muda a notar que a natureza é sua companheira. A exposição paralela à documenta organizada na igreja católica St Elisabeth, onde o artista Stephan Balkenhol apresenta (na torre) uma instalação com um homem de braços abertos sobre um globo dourado, provocou os furores da chefe da documenta que não queria ver o Homem numa posição superior ao dos animais e das plantas. Sentiu-se “ofendida” por aquela instalação que questiona a sua intenção niilista não suportando o optimismo do Homem como senhor e corresponsável da natureza. Isto não passa dum ultraje invertido pois encontra na torre da igreja algo irritante para quem quer um mundo plano com tudo sem moldura, tudo abstrato, que desvie as atenções do humano.

A documenta quer ser um espelho da arte contemporânea mas negligencia grande parte da arte e em especial a pintura, o realismo, fotorrealismo, o realismo fantástico e o surrealismo. Por isso já houve movimentos anti documenta que foram imediatamente oprimidos. As pessoas não ousam opor-se ao espírito da documenta sejam cientistas da arte seja o povo. O doentio, o dilacerado tem sido tematizado em instalações e esculturas. Contrapõe-se o desastroso, o ameaçador em rituais negadores de ritos optimistas da religião e da sociedade. Um certo espírito da documenta quer afirmar-se como religião secular contra o religioso cristão e passar à margem das pessoas. Parece não reconhecer o facto de vivermos todos num mesmo mundo plurifacetado feito de muitos universos complementares.

Numa perspectiva cristã da arte o ser humano está chamado a mais do que a gritar. O Homem é o caminho de Deus e deve reconhecer-se como companheiro adulto da natureza mas sem abdicar de ser sua consciência. A religião e a arte devem ser os sismógrafos dos problemas. A arte também tem de se entender como resposta ao mundo na responsabilidade; por isso, também ela deve questionar os próprios conceitos. Por vezes tem-se a impressão, em certos meios ideológicos e de certa arte que a imagem de Homem constitui, já por ela, uma provocação. Esquecem que o olhar cego e vago da realidade é um olhar de governantes ou de quem se não quer envolver ou deixar tudo às forças duma natura sem cultura.

A arte abre novas visões mas precisa da condição humana para tornar não só a miséria humana visível mas também a parte nobre como a religião pretende afirmar. Também Dostoievski dizia “o belo libertará o mundo”. Quando se desiste da religião, o mundo torna-se em ameaça, como pretendem certas tendências ideológicas. Torna-se importante libertar a religião e a arte do medo e das ideologias.

A arte também é importante como catarsis, como crítica, sem ter necessidade de exilar a esperança. Não se podem tornar cúmplices com os senhores que roubam o mundo roubando a senhoria ao Homem tornando-o seu arrendatário e reduzindo-o a indivíduo anónimo numa imagem sem nós, como se uma árvore não estivesse incardinada num biótopo. Eu sou rei e escravo soberano, permaneço mistério e tanto a arte como a religião, como a ciência, a política, não conhecem um porquê da realidade. A arte e a religião protegem o mistério, aquilo que dá grandeza e perspectiva ao Homem e à natureza. Seria abstruso que arte e religião não reconhecessem o mesmo coração donde provêm, do epicentro da intuição que proporciona o sonho na empatia. Até ao séc. XVIII religião e arte viviam em relação amorosa, queriam modelar e tornar visível o mistério. Arte e religião questionam as compreensões imediatas. Com o racionalismo e o materialismo deu-se o divórcio do sagrado e do profano e dividiu-se o povo em sábios e ignorantes caindo-se num fundamentalismo de posições. Hoje torna-se óbvia também uma reculturização, uma nova consciência, à margem dum normativo racional que aprisiona a realidade em imagens e caixilhos religiosos, científicos, ideológicos, políticos, etc.

Na casa da arte, tal como “na casa do Pai” há muitas mansões; seria miopia expulsar a religião e o Homem do templo da arte e a arte da religião. Realidade e imagem são imagens!... Fazemos todos parte dum mesmo mundo, numa realidade complementar do não só… mas também…

António da Cunha Duarte Justo
www.antonio-justo.com

sábado, 26 de maio de 2012

O PRINCÍPIO DA DEMOCRACIA ESPIRITUAL - PENTECOSTES


Liberdade e Inovação são Qualidades do Espírito

António Justo


No Natal Deus desce à terra, torna-se carne/terra. Depois vem a Páscoa a apontar para a vida como via-sacra em que a Cruz se torna símbolo da existência que é feita de morte e de ressurreição. No Pentecostes completa-se o ciclo vital em que a natureza através da pessoa humana ergue os olhos da terra para o alto, para o céu, no reconhecimento de que o Homem é feito de terra e céu e Deus também. Proximidade e distância são partes integrantes da pessoa. As fronteiras do homem e do seu biótopo não se deixam definir pelo horizonte que o nosso olhar permite. Há o longe, o distante que chama e tudo move para lá dos nossos limites sensoriais. O longe só é perceptível aos olhos do coração.

O Pentecostes inicia a capacidade de respirar um ar invisível que tudo suporta. A experiência da luz (línguas de fogo que vêm do alto) afasta o medo e possibilita a aventura criativa e criadora. Cada ser fica cheio de luz, grávido de Deus. O problema é a crusta, o limite (identificador) que o envolve e leva a afirmar o limite contra o universal integrador. O Paráclito é a essência comum ao particular e ao todo; ele é o nós do eu e do tu, à imagem do eu (Pai) e do tu (Filho JC) que, em relação íntima, cria o terceiro, o nós (Espírito). Por isso a celebração do Pentecostes anda ligada à festa da Trindade. Ireneu de Lyon condensou a Trindade na frase seguinte: «O Pai é complacente e ordena, o filho obra e forma, o Espírito nutre e incrementa». Segundo a filosofia cristã o ser humano está chamado a ser parceiro divino da criação à imagem do JC na filiação divina. A relação criador-criatura faz do cristianismo um monoteísmo mitigado.

Assim, não chega correr com os outros; cristianismo é mais que compromisso, é ser margem e rio ao mesmo tempo, espírito e matéria em reconciliação. Na metáfora da realidade que a natureza oferece, no ciclo da água que na sua essência inclui, ao mesmo tempo, os estados sólido, líquido e gasoso, pode pressentir-se a essência do nosso ser: mudança e permanência, espírito e matéria, igual e diferente. O mesmo somos nós a nível de indivíduo e de eclésia. O Paráclito é um desafio à solidariedade e conciliação dos elementos, à capacidade de adaptação contínua ao novo, porque só assim permanecemos nós, não podendo ser reduzidos a mero leito onde a vida passa.

O espírito tem uma relação céptica perante o leito mas sem ele faltar-lhe-ia o seu fundamento para poder ser fluxo. A existência é feita de perguntas e respostas em contínua interacção. Parar numa pergunta ou numa resposta seria negar a vida; por isso o Espírito fala em várias línguas, também a tua e a minha. O espírito flui onde e como quer. Importante é a abertura e não a incrustação de vida em preconceitos teorias ou dogmas, como se a verdade e a realidade fosse apenas sólida. Se a afirmarmos como sólida ela é líquida e se a afirmarmos líquida ela é gasosa, sim porque a questão está na nossa visão de perspectiva que é selectiva e não inclusiva.

Pentecostes é também celebrado como o aniversário do nascimento da Igreja como comunidade com a missão de viver e levar a Boa Nova à humanidade e de a viver em comunhão com a natureza. Pentecostes vem do grego e significa o “quinquagésimo dia depois” da Páscoa; o Espírito germina na pessoa e na comunidade fazendo deles agentes com a capacidade de falar muitas línguas, a linguagem do amor que é percebida nas mais diversas paragens independentemente de raças e culturas.

Cinquenta dias após a “perda” do JC, a tristeza dos discípulos é compensada pela descoberta dele na pessoa e na comunidade na vivência do Espírito; agora a presença de Deus na Humanidade passa a ser cada pessoa, cada cristão que aja no espírito e consciência do JC que resume o espírito e a matéria.

A Comunidade eclesial é aberta a todos os povos (idiomas) não se impondo uma cultura sobre a outra sendo seu característico distintivo a ágape, a caritas, o amor. O que a torre de Babel dispersou antes, congrega agora o Paráclito envolvendo tudo no fogo do amor. O característico cristão é a relação e inter-relação pessoal expressa na relação do JC com a natureza-Pai e Espírito. Ao contrário doutras religiões, aqui, a norma é uma pessoa e não um livro e a ética não se reduz a uma subjugação, ao cumprimento de letras (leis) mas ao amor soberano que tudo diviniza. O ser humano na qualidade de filho de Deus pertence por natureza à família mais nobre, tornando anti-humana e ilegítima toda a prepotência, subserviência e opressão; estas constituiriam um atentado à dignidade humano-divina inerente a cada pessoa. Por isso, os ministérios públicos, as autoridades públicas, ministros, etc., deveriam exercer actividades de serviço às pessoas porque toda a dignidade vem e acaba nela em comunhão com o toso.

A festa do Pentecostes é celebrada em toda a Igreja desde o Concílio de Elvira do ano 305. Com a descida do Espírito Santo, o dia eterno do Pentecostes torna-se o domingo dos domingos, o sábado dos sábados em que a acção divina se manifesta e realiza no e com o povo no mundo. A participação no Espírito Santo confere o dom das línguas e os dons do espírito. O ciclo litúrgico quer apontar para a realidade profunda que é o mistério da vida que é toda ela relação.

Ultrapassa-se a visão grega da vida da relação de sujeito-objecto passando toda a relação humana-divina-natural a ser uma relação de sujeitos entre sujeitos; isto é passa-se duma  consciência de relação sujeito-objecto para uma relação sujeito-sujeito que tudo personaliza e dignifica. A verdade passa a ser um acontecer e não um mero constructo abstracto ou anónimo. Como no ciclo da vida, a palavra de Deus (o Verbo) está na origem da vida tal como o fruto, a flor, a árvore e se encontram já na semente.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e publicista

sábado, 19 de maio de 2012

Salafistas pregam a sua Hegemonia

Muçulmanos Radicais à Conquista da Europa


António Justo
Muçulmanos salafistas usam uma estratégia de infiltração eficiente em diversos meios, especialmente, na arte, Internet e juventude para uma islamização sistemática na região dos “incrédulos” (“Kuffar). Com a sua guerra santa pretendem fomentar o Islão com a Sharia (direito muçulmano) na Europa, querendo que a Europa volte à idade Média. Querem, distribuir gratuitamente na Alemanha, Áustria e Suíça, alegadamente 25 milhões de livros do Corão. Esta inventiva Árabe visa radicalizar especialmente muçulmanos moderados (na Alemanha há um número superior a 4 milhões de muçulmanos) e recrutar principalmente jovens europeus desorientados.

Em acções de dois fins-de-semana, em Zonas de peões da Alemanha, já distribuíram 300.000 livros. Os resultados da agressão ideológica já se fazem sentir no radicalismo de manifestações na rua.

Emigram para um mundo que consideram inimigo e vêem-no como sua zona de combate. “Lutam por uma espécie de califado europeu, onde não se deve aplicar o direito ocidental mas sim o da Sharia”(in Der Spiegel n° 17/23.4.12); organizam-se em redes como a “Millatu-Ibrahim” (Comunidade de Ibrahin) na Alemanha, fundada por Mahmoud e pelo ex-rapper Cuspert; tornam-se muito eficientes através da infiltração em mesquitas moderadas. Com os seus songs, Cuspert consegue atingir os sentimentos da juventude em textos como “O teu nome corre no nosso sangue” referentes a seus ídolos, entre eles, Bin Laden. Muitos vivem da ajuda assistência social do estado como refere o Jornal Stuttgarter Nachriten no caso do pregador salafista Ibrahim Abou-Nagie que receberá para ele e família entre 2.300 e 2.500 euros por mês. Ele terá sido, segundo afirmou, o iniciador da acção da distribuição dos livros do Corão.

Os Salafistas usam o âmbito da liberdade europeia para missionar uma sociedade que consideram incompatível com a sua e em que a sua fronte de guerra é o mundo cristão. “A nossa arma é a Internet” afirmam salafistas que se consideram a elite da religião maometana. Na Alemanha há entre 3.000 e 5.000 salafistas, recrutados geralmente da segunda e terceira geração de emigrantes. Têm figuras ideais como o ex-pugilista Pierre Vogel e personalidades ligadas à Al-Qaida. Tal como os extremistas nazis encontram-se sob observação do Estado.

O Estado sente-se de mãos atadas perante adversários da sociedade ocidental, como os salafistas. Desde que saibam empacotar a sua mensagem de maneira a não apelar directamente à violência, as autoridades não podem fazer nada, embora conheçam a cena de extremistas que preparam atentados como o de Frankfurt em que dois soldados americanos foram mortos por um companheiro de Mahmoud. Der Spiegel cita Mahmoud, o qual afirma que a diferença entre os seus inimigos e e os muçulmanos crentes, é: “Eles amam a vida e nós a morte”.

Os salafistas são a ponta de lança dos Wahabis da Arábia Saudita. Por toda a parte se observa o aumento da radicalização de grupos islâmicos que antes eram mais tolerantes.

O povo indonésio que antes tinha uma tradição pacífica tem sido influenciado por forças muçulmanas radicais árabes. Tem-se observado, nas últimas décadas, uma radicalização da sociedade indonésia em que muçulmanos que tinham nomes hindus abdicam do seu nome de tradição hindu para assumirem nomes árabes, e aniquilam indígenas de Papua, transplantando muçulmanos para esta região, seguindo a política de colonos como faz a China no Tibet. É preocupante observar como tradições culturais de zonas geográficas amenas abdicam da sua alma afável para adquirirem a aspereza cultural nómada do deserto. Por todo o mundo muçulmano se tem observado uma contínua radicalização. A Arábia Saudita, o Irão, o Paquistão e o Afeganistão têm sido os maiores incrementadores do extremismo árabe.

São tendências que a História corrige mas a custo de grande tributo. Segundo previsões do CBN, no ano 2030, a maioria da população de Bruxelas será muçulmana. Aber Imran, chefe do grupo “Sharia 4 Belgium” afirma: “Democracia é contrária ao Islão” e Allah é quem diz “o que é proibido e o que é permitido”.

Grupos moderados muçulmanos não se levantam contra os salafistas nem contra terroristas muçulmanos porque estes se fundamentam no Corão e para os contradizerem entrariam em contradição com o Corão.

Os salafistas no Egipto (“Partido da Luz”) conseguiram 30% dos votos. Todo o norte de África se encontra a caminho duma radicalização nunca vista.

As diferentes civilizações ainda se encontram muito subdesenvolvidas e primitivas no que toca ao seu estádio espiritual. Só uma atitude de respeito de todo o Homem e de toda a cultura para com o Homem e para com a natureza poderão levar à paz. De momento, o extremismo ideológico político-religioso e o extremismo económico dominam os povos.

António da cunha Duarte Justo

quarta-feira, 2 de maio de 2012

MAIAS


Tradição das Maias uma Prática tradicional e intercultural
Recordação cristã e pagã
António Justo
Segundo a tradição em parte do norte de Portugal, na noite de 30 de Abril para 1 de Maio, muitas pessoas colocam maias (giestas floridas) nas portas das casas para lembrarem o tempo da fuga de Jesus para o Egipto. Noutras terras colocam maias no ferrolho da porta para serem protegidos das doenças e dos espíritos maus. Em torno de Maio há muitos outros costumes de diferentes tradições.

Nalgumas terras alega-se que esta tradição remonta ao tempo de Jesus, aquando da sua fuga para o Egipto devida à perseguição de Herodes que ordenara a procura e morte do menino Jesus. Segundo a lenda, tendo sido identificada a casa onde a sagrada família pernoitava, um denunciador teria colocado um ramo de giesta na porta daquela casa para que os soldados de Herodes, depois de avisados, pudessem identificar a casa e levá-lo. Por milagre, quando os soldados se dirigiram à cidade depararam com todas as portas enfeitadas com ramos de giesta florida. Assim os soldados não puderam cumprir a ordem do mal contra o bem. Noutras terras as maias recordam o caminho da sagrada família para o Egipto: Maria para se poder orientar no regresso terá colocado giestas no seu caminho.

Em Maio condensam-se as celebrações de usos e costumes símbolos da fertilidade, por toda a Europa.

O ressurgir da natureza é festejado por todas as culturas ao longo da História, reflectindo diferentes expressões religioso-culturais conforme o espírito do tempo e da cultura envolvente.

Quando a natureza acorda para a juventude, celebra-se, com festas e ritos, a vida, a luz, o fogo e esconjura-se a treva. Estes ritos ganham expressão em tradições como a das maias, Florais, o burro, a rainha de Maio, coroa das maias, leilão de donzelas, a festa do mastro/árvore (esta festa também da virilidade encontra-se no norte da Europa e em Penafiel - costume celta?), etc. No Norte da Europa há lugares onde se comemora a chegada de Maio onde, outrora,  moças em idade de casar eram apresentadas no leilão de Maio.

Maio recebeu o nome do deus Maius que era o deus da Primavera e do crescimento. Para outros vem de Maia, mãe de Mercúrio. As celebrações em honra de Flora, a deusa das flores e da juventude (mãe da Primavera), iniciavam o novo ano agrícola e atingiam, na Roma antiga, o seu clímax nos três primeiros dias de Maio.

A Igreja católica declarou Maio como o mês de Maria, a mãe e rainha. Dos 54 países que celebram o Dia da Mãe, 36 festejam-no em Maio.


Também no Norte da Europa havia a tradição dos rapazes colocarem um arbusto à porta da sua amada como declaração de amor, paralelamente ao costume de serem nesse dia leiloadas as donzelas em idade de “casar”. Há tradições semelhantes em Portugal. Aqui, nalgumas terras, havia a tradição da “coroa das maias”, elaborada em papel com fitas de cores e que os rapazes, colocavam à porta das suas pretendidas, como manifestação do seu amor.


António da Cunha Duarte Justo