EDUCAR PARA UMA PAZ DESARMADA E
DESARMANTE
Na recente “Nota Pastoral” da
Conferência Episcopal Italiana (CEI), publicada em 5 de dezembro de 2025 sob o título: “Educar para uma paz
desarmada e desarmante”, os bispos italianos tornam-se na consciência
crítica à onda de armamento na Europa apresentando um contraponto moral e
cultural à espiral de rearmamento. Já no Jubileu do Mundo Educativo o Papa Leão
XIV afirmado que “uma educação
desarmante e desarmada cria igualdade e crescimento para todos”.
O objetivo central da nota dos bispos reunidos em Assisi é “redescobrir a
centralidade de Cristo como fundamento da paz „ e chamar comunidades, fiéis e
sociedade a adotarem uma “cultura de paz” e “não de violência”.
Diagnósticos que
fundamentam a exigência de um apelo à paz
A Escalada de conflitos e risco nuclear:
- O documento da CEI assinala um crescimento do “nível de conflitualidade
entre as grandes potências”, com a possibilidade, por vezes real, de “escalação
nuclear”, o que gera angústia e “erosão da esperança”, especialmente nas novas
gerações.
- A guerra, com suas “inúteis carnificinas”, muitas vezes de civis e
crianças e a lógica da “dissuasão armada” são vistas como moral e socialmente
insustentáveis.
Crescente investimento militar e mercado de armas
A nota denuncia o crescimento acelerado dos gastos militares: segundo o
documento, o gasto militar mundial em 2024 ultrapassou 2,7 trilhões de dólares.
Esse montante, observa a CEI, desvia recursos necessários para construir um
mundo habitável: combater fome, pobreza, crises ambientais e promover um
desenvolvimento humano.
A CEI chama atenção para quem lucra com o comércio e a produção de armas, inclusive
bancos e investidores e convida para o desinvestimento (objeção financeira)
dessas indústrias.
Desconfiança da lógica do “rearmar para defender”
A argumentação central é que a necessidade de defesa não pode ser usada
como pretexto para uma corrida aos armamentos. A CEI considera “contraditórias”
as políticas de pesados investimentos bélicos adotadas desde a invasão da
Ucrânia pela Rússia.
A nota convoca a União Europeia a retomar o caminho da paz, construído no
pós-Segunda Guerra Mundial, ao invés de transformar a segurança num negócio de
armas e poder militar.
Propostas e
orientações da CEI
A CEI não se fica só pelo diagnóstico, ela sugere uma série de caminhos
práticos e culturais para enfrentar a crise da paz:
- Educar consciências: as comunidades cristãs
(paróquias, dioceses), famílias, escolas — todos devem promover “a cultura da
paz, do diálogo, da misericórdia, da fraternidade e do respeito mútuo”.
- Serviço civil obrigatório em vez de serviço militar obrigatório: como
alternativa à militarização, a nota propõe a instituição de um serviço civil
obrigatório para os jovens, como forma
de investir em paz, solidariedade e cuidado social.
- Rever a presença religiosa nas forças armadas: a CEI
questiona o papel dos “cappellani militari” integrados ao aparato militar,
sugerindo formas de assistência espiritual não vinculadas diretamente às forças
armadas.
- Objeção financeira: incentivar indivíduos e
instituições a desinvestirem de empresas e indústrias armamentistas.
- Construção de “casas de paz”: cada comunidade cristã é
convidada a tornar-se “uma casa de paz e de não-violência”, cultivando justiça,
perdão, diálogo, acolhimento e solidariedade.
- Aposta na justiça restaurativa e cuidado da Criação: a paz — para
a CEI — não é apenas ausência de guerra, mas justiça social, reconciliação,
cuidado com o meio ambiente e com o humano.
Tom teológico e
ético: paz como chamamento existencial e comunitário
- A CEI reafirma que a paz não é uma abstração ou opção política neutra,
mas um compromisso radical inspirado no Evangelho. A “regra da paz” exige um
“exercício global e cotidiano” de misericórdia, fraternidade, cuidado pelo
outro em oposição à lógica da força.
-A nota retoma o ensinamento de Papa Francisco (e de Fratelli tutti) de que
a paz exige conversão cultural e ética: não basta evitar guerras, é preciso
construir comunidades que pratiquem justiça, reconciliação e solidariedade.
- Para a CEI a paz não é passiva: é um esforço ativo, “desarmado e
desarmante”, que rejeita a lógica da detenção do poder militar como condição de
segurança.
Relevância para
o contexto atual da Europa e implicações para a Alemanha
Considerando a crescente militarização e os debates sobre defesa na Europa
(incluindo países como a Alemanha), a nota da CEI destaca-se como um contraponto
moral e cultural à espiral de rearmamento. Algumas implicações que podem fomentar
uma atitude crítica:
- Crítica à “segurança pela arma”: ao questionar investimentos
massivos em armamento e afirmar que a defesa não justifica o rearmamento
global, a CEI sugere que a lógica da segurança militar permanente é
autodestrutiva, especialmente num continente com tensões históricas e memória
de guerras.
- Alternativas concretas de paz e segurança: propostas
como serviço civil obrigatório, desinvestimento da indústria bélica, justiça
restaurativa, acolhimento, solidariedade, oferecem alternativas à
militarização, valorizando coesão social, bem-estar, dignidade humana e
ecologia.
- Apelo à Europa como agente de paz e de integração: a CEI entende
que a União Europeia não deve tornar-se um bloco de “poder militar”, mas um
espaço de cooperação, diálogo e convivência, visão esta que desafia
nacionalismos e retóricas securitárias.
- Dimensão ética e espiritual: num momento de crise de
valores, desemprego, polarização social, crises de refugiados e xenofobia, a
nota oferece um referencial ético profundo de reconciliação, acolhimento,
cuidado com a fragilidade humana como alternativa à escalada armamentista.
- Prevenção de lógicas de guerra como cultura dominante: a CEI adverte
que o apego à “ameaça” e à produção/negócio de armas pode normalizar a guerra
como meio de resolução de conflitos, é algo perigoso para a paz duradoura e para
a promoção dos direitos humanos.
António da
Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10466