terça-feira, 22 de setembro de 2026

A ALEMANHA PARTIDA E PARTIDÁRIA

 

A rutura de setembro de 2026 deixará vestígios fortes na geografia político-cultural

As eleições regionais alemãs de setembro de 2026 deixaram de ser um simples teste de meio mandato para se tornarem no retrato de uma Alemanha partida, cansada e ideologicamente inquieta. Entre Berlim, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Saxónia-Anhalt, o velho arco de poder formado pela CDU, SPD, Verdes e liberais aparece em decomposição, enquanto os extremos, à direita e à esquerda, se afirmam como intérpretes do descontentamento e de uma nova política...

Em Berlim, o Die Linke alcançou uma vitória histórica com 25,7% dos votos, tornando-se a principal força política da Cidade-Estado. A CDU, que liderava o governo local, caiu para cerca de 19% a 20%, e a AfD subiu para 16,2%. O dado mais simbólico é a possibilidade de Elif Eralp, uma jovem política de origem turca, vir a assumir a presidência da Câmara de Berlim, procurando formar governo com o SPD e os Verdes. Isso representa uma transformação profunda porque a esquerda radical deixa de ser apenas protesto e passa a reivindicar poder executivo. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, o cenário inverte-se. A AfD venceu com 37,9% a 38,3% dos votos, superando por margem estreita o SPD, que ficou pelos 35,5%. A CDU sofreu uma derrota histórica, caindo para 4,9%, abaixo da cláusula de barreira de 5%, ficando sem representação parlamentar. Na Saxónia-Anhalt, a AfD consolidou a sua subida com 43,8%, legitimando-se nas urnas para reivindicar o governo, embora o chamado cordão sanitário continue a tentar impedi-lo.

O que está em causa não é apenas uma mudança de governos regionais. É uma mudança de mentalidades, de geografia eleitoral e de legitimidade democrática...

A coligação conservadora-social-democrata de Friedrich Merz encontra-se grávida de descontentamento, mas não parece capaz de parir um substituto credível. Merz, antigo lobista e homem de Bruxelas, sabe apreciar o sabor do poder; a sua permanência como chanceler só agravará os danos no próprio partido e no país. A CDU precisa de renovação, não de teimosia...

A extrema-direita da AfD carrega consigo riscos históricos, constitucionais e civilizacionais que não podem ser minimizados. Mas também não se pode fingir que a extrema-esquerda, quando governa ou disputa o poder, é automaticamente moderada só porque usa uma linguagem mais aceitável nos círculos mediáticos. O problema mais grave é o enviesamento da informação: quase todos os jornais falam do perigo da extrema-direita, mas quase nenhum fala do perigo da extrema-esquerda...

Quem respeita a democracia deve respeitar todos os votantes, do centro, da esquerda, da direita e não apenas os que confirmam a narrativa dominante. Em democracia não deve haver senhores nem proprietários...

O caso da Saxónia-Anhalt é particularmente revelador. A AfD venceu com 43,8%, mas o arco do poder partidário tradicional fará tudo para impedir que Ulrich Siegmund, linha-dura do partido, chegue a primeiro-ministro... Em Berlim, pelo contrário, a extrema-esquerda ganhou e já se prepara para governar com o SPD e os Verdes, sem que isso provoque o mesmo alarme mediático...

A Alemanha precisa de uma política de equilíbrio social e de coesão. Precisa de partidos que voltem a ouvir, de uma imprensa que não confunda informação com militância e de líderes que não se agarrem ao poder como se este fosse propriedade privada. O espectro político está a mudar; os partidos que tradicionalmente formavam o arco do poder estão em decomposição, enquanto os extremos se afirmam. Isto corresponde, em parte, ao extremismo que domina a informação na União Europeia e à incapacidade das elites de se reformarem...

A mudança de mentalidades não virá de Bruxelas nem dos estúdios de televisão! A mudança virá da rua, do trabalho, da escola, da habitação, da segurança e da dignidade de quem se sente abandonado. É aí que se joga a verdadeira política muito embora a nova política latifundiária se tente afirmar por algum tempo.

António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo :
https://antonio-justo.eu/?p=11411 
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Ensaio sobre a mudança axial e o nascimento da política relacional

 

O EIXO CIVILIZACIONAL EM RUTURA

 
Há momentos na história em que o solo treme sob o fundamento das instituições e o cidadão se sente desprotegido e indefeso.. Não se trata de sismos eleitorais, de alternâncias de poder, de crises cíclicas que o sistema digere e recicla. Trata-se de algo mais fundo e que implica a erosão das próprias categorias com que pensamos o político. Vivemos um desses momentos em que se torna urgente uma política relacional para além da esquerda, da direita e do formalismo partidário
O arrazoamento político-partidário que domina a governação em toda a União Europeia e, por extensão, no Ocidente, arrasta-se numa linguagem gasta, numa gramática de interesses que já não traduz a experiência vivida das pessoas hodiernas. Os partidos falam, mas não dizem; propõem, mas não escutam; governam, mas não vivem o presente e, no entanto, a exigência de mudança não vem de fora, pois brota do próprio interior da crise, como uma força axial que reclama nova forma.
A rutura dos eixos
Desde a Revolução Francesa, a política de massas organizou-se em torno de dois conflitos fundamentais: a disputa sobre a desigualdade económica e a tensão entre valores conservadores-autoritários e liberais. A esquerda e a direita nasceram dessa topologia. Durante dois séculos, essa bússola funcionou, imperfeitamente, mas funcionou.
O busílis da questão é que hoje e na nova era que se aproxima essa bússola perdeu o norte.
A globalização económica, a imigração, os refugiados, a afirmação de identidades religiosas e culturais reconfiguraram o campo de forças. O velho eixo esquerda-direita foi atravessado por um novo eixo, aberto versus fechado, que não se deixa reduzir ao primeiro. As pessoas já não se reconhecem nas coordenadas tradicionais. Sentem que tudo o que lhes era familiar está ameaçado e buscam segurança na exclusão do que percebem como estranho. Outras, pelo contrário, veem na globalização e no multiculturalismo uma promessa de vida mais rica. Este é a nova clivagem e nenhum dos partidos tradicionais o enfrenta com honestidade.
Os partidos liberal-democratas, em particular, declinam por toda a Europa. O Ciudadanos espanhol desapareceu do parlamento. O FDP alemão, que em 2009 atingiu 14,6% dos votos, foi eliminado nas eleições de 2025. A razão não é apenas conjuntural porque provém da falta de clareza das convicções e do afastamento das expectativas do eleitorado natural. Os partidos que outrora representavam a terceira via, o centro reformista, o liberalismo social, perderam a capacidade de encarar o real.
E, no entanto, a Comissão dos Assuntos Políticos e da Democracia do Conselho da Europa alerta: os partidos políticos têm uma responsabilidade particular na salvaguarda da coesão e da estabilidade democráticas. Sem partidos, o pluralismo não pode ser representado de forma significativa e os parlamentos não podem funcionar eficazmente. O problema não é a existência dos partidos, mas a sua fossilização. A diminuição do número de militantes, a ascensão do sentimento antipartidário, a queda das taxas de participação, a volatilidade eleitoral e a perceção persistente de elitismo, corrupção e interesse próprio minam a legitimidade do sistema.
A mudança axial
O que está em curso não é uma simples crise política, é uma mudança axial.
Karl Jaspers, Lewis Mumford e Eric Voegelin cunharam a noção de "época axial" para descrever momentos em que a humanidade reconfigura as suas categorias fundamentais de sentido. Uma mudança axial introduz uma nova weltanschauung que enfatiza a subsidiariedade em vez das estruturas centralizadas de poder, e um imperativo moral em que a mudança evolutiva é impulsionada mais pela cooperação do que pela competição. A descrição "axial" refere-se à emergência de um eixo transformador que permite uma correção de escala através de alternativas às estruturas de poder existentes.
Vito Mancuso, numa conferência recente, descreve a nossa condição como uma "perda de eixo do mundo", a ausência de um axis mundi, de um critério maior do que o simples ego ganancioso. Sem essa dimensão maior, temos muitos egos autocentrados e a impossibilidade de formar sociedade. A palavra sociedade, vem do latim societas, de sócios e só existe quando há um interesse superior ao interesse estritamente individual. O que vale na economia, vale na política.
A mudança axial não é um conceito académico. É a experiência vivida de milhões de pessoas que já não se reconhecem nas coordenadas políticas herdadas. É a intuição de que algo mais profundo está a acontecer que não se limita apenas a uma troca de governos, mas uma transformação da própria consciência política.
O sintoma Wagenknecht na Alemanha
Sahra Wagenknecht é, simultaneamente, sintoma e anúncio.
O Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW), fundado em janeiro de 2024, combina políticas económicas supostamente de esquerda com uma abordagem ultraconservadora da imigração e uma política externa pró-russa. No seu programa de seis pontos, aprovado em junho de 2025, o BSW apresenta-se como "a força política do despertar”, contra o militarismo, a divisão social e a tutela autoritária", defendendo uma "política da razão e do equilíbrio social, da renovação democrática e da paz".
Wagenknecht define o partido como "a encarnação do que muitos partidos já não defendem: um conservadorismo esclarecido no sentido de que preserva tradições e segurança nas ruas e espaços públicos, mas ao mesmo tempo empregos, saúde e pensões".
Isto não é nem esquerda nem direita no sentido tradicional. É uma tentativa, ainda titubeante, ainda contaminada pelas maleitas do individualismo da nossa sociedade de transição, de criar o novo eixo. O BSW aponta para uma política que ultrapassa a dicotomia herdada, mas ainda não encontrou a linguagem plena dessa ultrapassagem.
Um filósofo e crítico político observaria que o BSW tem razão em denunciar o formalismo partidário e a governação daninha que se esconde atrás da retórica democrática. Mas erra ao não assumir plenamente a responsabilidade individual que a nova época exige. A mudança axial não se faz com novos partidos que repetem velhos vícios. Faz-se com pessoas que assumem a sua quota de responsabilidade pelo mundo que habitam.
Urge uma Racionalidade relacional
O que emerge como exigência já não será emoção política, porque já temos excesso dela, à direita e à esquerda. O que está a emergir é racionalidade relacional.
A lógica da relacionalidade, desenvolvida por teóricos como Qin Yaqing, argumenta que a relacionalidade precede a racionalidade. Um ato "racional" em relação a um inimigo pode ser arracional e até irracional se dirigido a um amigo. A política relacional não nega a racionalidade porque a redefine em termos de relações e não de interesses isolados. Os processos de política seguem uma lógica de relacionamento, ou seja, atores que agem de forma a sustentar e refletir a teia de relações na rede política. O relacional e o racional não são alternativas porque cada sistema político reflete ambos.
Esta é a mudança de mentalidade que a época axial exige define-se por uma política orientada não pela emocionalidade das identificações tribais, equacionadas no tribalismo da revolução francesa que a qualificou de direita ou esquerda, nós ou eles, mas pela razão que reconhece a primazia das relações. Uma razão que não é fria calculadora de interesses, mas que compreende que o eu se constitui na relação com o outro e no seu melhor social parte do nós.
Individualismo responsável
A transição para a nova época axial não se fará sem uma reconfiguração do individualismo.
Lipovetsky distingue o individualismo responsável do individualismo irresponsável: o primeiro está circunscrito ao plano daquilo que se espera das reformas políticas; o segundo é a deriva hedonista que dissolve o laço social. Na sociedade de transição em que vivemos, ambos coexistem. O BSW, como todos os movimentos emergentes, padece desta ambiguidade: aponta para o assumir individual de responsabilidades, mas ainda se debate com as maleitas do individualismo irresponsável.
O que a nova política exige é um individualismo que não seja egoísmo, mas responsabilidade. Protagoniza uma autonomia que não se feche sobre si mesma, mas que se abra à relação e advoga uma liberdade que não seja indiferença, mas compromisso.
Este é o paradoxo da época axial: quanto mais o indivíduo se assume como singular, mais se descobrirá relacional. Quanto mais se responsabiliza, mais se compreende parte de algo maior. O axis mundi não é uma transcendência que anula o eu, mas uma dimensão maior de si mesmo que o constitui.
O imprevisível
E daqui surge o imprevisível. Nenhuma análise, por rigorosa que seja, pode prever o que emerge quando a consciência muda de eixo. A mudança axial não é um programa político que se implementa, mas sim uma transformação que acontece e à qual os partidos, se quiserem sobreviver, terão de se adaptar ou morrer.
O que se pode afirmar com exigência é isto: a política que vier não será nem de esquerda nem de direita, nem sequer de uma "terceira via" no sentido blairiano que se esgotou na aceitação acrítica da globalização. Será uma política relacional, que reconhece que os problemas da nossa época, ou seja, a crise ecológica, a solidão urbana, a desintegração comunitária, a perda de sentido, não se resolvem com mais Estado ou mais mercado, mas com novas formas de relação.
Será uma política que ultrapasse o formalismo partidário e a governação daninha que hoje se pratica em Bruxelas, Berlim, Londres, Paris ou Lisboa. Uma política que assuma a responsabilidade individual como fundamento da responsabilidade coletiva. Uma política que não tema o profetismo, não o profetismo messiânico que promete paraísos, mas o profetismo que ousa nomear o que está a nascer quando todos ainda olham para o que está a morrer.
Exigência e criatividade
O ensaio que aqui esboço não pretende ser um programa, pretende apenas ser um gesto, um gesto de exigência e de criatividade.
Exigência, porque a época não tolera mais a mediocridade do arrazoamento partidário que se contenta com a gestão do existente. Criatividade, porque o novo não nasce do velho por dedução lógica. Nasce por rutura, por invenção, por abertura ao que ainda não é.
Os partidos, na sua forma atual, encontram-se num estado de consciência subdesenvolvida. Equacionam interesses, argumentam num grau rudimentar e arcaico, como se a política fosse ainda uma negociação entre grupos de pressão. O BSW, embora inicie uma nova maneira de estar político, ainda padece das maleitas dessa herança. Mas aponta — e isso é o essencial. Aponta para uma política que não se esgota na gestão dos interesses, mas que se abre à responsabilidade pelo todo.
O aspeto profético
O que está em curso não é uma crise, é um nascimento e nas dores do parto, é natural que se confundam os gritos da morte com os primeiros vagidos da vida. Mas quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir reconhece os sinais que indicam que a mudança axial está a acontecer. A política ocidental, mais cedo ou mais tarde, terá de se reconfigurar. Os partidos que sobreviverem serão aqueles que compreenderem que a racionalidade relacional não é uma concessão ao sentimentalismo, mas a forma mais alta de razão. Que o individualismo responsável não é uma ameaça à comunidade, mas o seu fundamento. Que a mudança de mentalidade não é uma opção, mas uma urgência.
Urge mudança necessária no arrazoamento político-partidário. Não por decreto, não por programa, não por revolução, mas por axialidade. Porque o eixo do mundo está a deslocar-se, e quem não se mover com ele será deixado para trás, não pela força dos adversários, mas pelo peso da própria inércia.
Resumindo: a crise em que nos encontramos anuncia a mudança axial e o profético nascimento da política relacional. Filosoficamente seria de dizer que o momento axial em que nos encontramos aponta para uma crise das categorias com que formulamos as perguntas. E o BSW pode estar a antecipar uma das formas da recomposição política futura.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © : https://antonio-justo.eu/?p=11395

A RÚSSIA VOTOU E PUTIN SAI REFORÇADO

Segundo os resultados preliminares divulgados pela Comissão Eleitoral Central (20.09.2026),, depois de apurados 95,18% dos votos, o Rússia Unida alcançou 57,83% dos votos nas listas partidárias. Seguiram-se o Partido Comunista da Federação Russa, com 13,81%, o Partido Liberal Democrata, com 8,98% e o Novo Povo, com 7,96%...

O partido Rússia Unida deverá alcançar 355 dos 450 lugares da Duma, ultrapassando largamente os 301 necessários para uma maioria constitucional. Trata-se, a confirmarem-se os resultados, da maior representação parlamentar conseguida pelo partido, superior mesmo aos 343 deputados alcançados em 2016...

O resultado demonstra sobretudo a consolidação parlamentar do sistema político que dirige a Rússia... Bruxelas rejeita a validade da votação organizada nos territórios ucranianos ocupados pela Rússia.

Depois de mais de quatro anos de guerra, sanções económicas ocidentais, perdas humanas e crescente militarização da sociedade, não se verifica, pelo menos através destes resultados, a desagregação política do poder russo que alguns estrategas ocidentais esperavam e propagavam.

Pelo contrário, o Rússia Unida aumentou a sua votação relativamente aos 49,8% obtidos em 2021. A participação oficial também aumentou. Isto permite ao Kremlin apresentar as eleições como confirmação da unidade nacional em torno do poder num momento de confronto com o Ocidente...

Segundo as autoridades russas, mais de 1.600 drones foram intercetados durante a vaga de ataques, dos quais cerca de 450 se dirigiam à região de Moscovo. O ataque provocou vítimas e atingiu, entre outros alvos, uma refinaria. Independentemente da discussão sobre estes números e sobre os objetivos militares da operação, a coincidência com o último dia das eleições favoreceu inevitavelmente a narrativa do Kremlin de uma Rússia cercada e obrigada a defender-se...

Na memória histórica russa continua presente o colapso da União Soviética e o período caótico que se lhe seguiu. Para muitos russos, a estabilidade política poderá pesar mais do que o pluralismo segundo os padrões das democracias ocidentais... compreender uma sociedade exige distinguir aquilo que gostaríamos que acontecesse daquilo que efetivamente está a acontecer... As eleições fazem retirar a força à tese de que a guerra estaria a provocar uma fratura política capaz de obrigar Putin a mudar de rumo.

O paradoxo europeu está justamente aí. Quanto mais a NATO e a Rússia apresentam o confronto como existencial, menores parecem tornar-se os espaços para compromissos. Moscovo utiliza a ameaça ocidental para justificar a concentração interna de poder; no Ocidente, a ameaça russa é utilizada para justificar o aumento dos gastos militares e uma política de contenção prolongada. As duas narrativas alimentam-se mutuamente...

As eleições russas demonstram algo politicamente muito relevante: apesar da guerra, das sanções e das dificuldades internas, o sistema de poder russo não dá sinais eleitorais de fragmentação. Pelo contrário, sai destas eleições parlamentarmente mais concentrado...

Entre propaganda russa e propaganda ocidental existe uma realidade geopolítica que não desaparece por decreto: a Rússia continuará a ser uma potência europeia e nuclear com a qual, mais cedo ou mais tarde, será necessário encontrar uma forma de coexistência pacífica.

A política começa precisamente quando termina a propaganda, por isso não temos tido política séria.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11409

ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

RECOMEÇAR ENTRE HORMONAS E OUTRAS INTEMPÉRIES

Parece estranho, mas nas relações entre homem e mulher somos mais iguais do que se diz: ambos temos hormonas, ilusões e a mania de querer parecer mais jovens. A menopausa também já não é tabu; tabu é ainda haver quem a confunda com “má vontade”.

Hoje conheci um par que, após 15 anos de divórcio e de cada um ir experimentar novas paisagens, se voltou a unir. Nos rostos via-se a história: ele com mapa de estradas, ela mais adivinhada que real. Serviu-me isto para penar que andamos todos num processo de desconstrução/reconstrução; muitas vezes, na primavera os corpos interessam-se, depois, no verão, desavêm-se nas ideias e os laços vão-se desfazendo como nós cegos.

Quer-se começar de novo, mudar algo. As hormonas anunciam que os sonhos de verão devem tornar-se realidade e, para não faltar emoção, mandam também ondas de calor. A natureza tem ritmos: sol na montanha revigora, mas suores intensos, insónias, irritabilidade, alterações psicológicas, dificuldades de concentração e secura vaginal não são “problema psicológico” arrumado num canto. Começam muitas vezes aos 40 e pedem atenção.

Vale a pena escutar os sinais, sobretudo a irritabilidade: pode ser o findar de ilusões passadas e o início de criação nova. No fundo, homens e mulheres são iguais na confusão; a diferença é que umas recebem boletim meteorológico interno e outros acham que é só calor.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=11399
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

OS DESABRIGADOS DA POLÍTICA

 

Do Escândalo democrático do povo se atrever a não obedecer aos seus defensores

 

Em tempos de humor negro e de fé vermelha, as eleições europeias revelam-se o cúmulo do humor...

No fim, todos procuram abrigo debaixo da mesma palavra mágica “democracia”, mas o busílis da questão é que  cada qual parece trazer a escritura de propriedade no bolso.

Curiosamente, o tão censurado discurso do «nós e dos outros» não é exclusivo daqueles que dividem o mundo entre nacionais e estrangeiros. Também os autoproclamados guardiões da democracia gostam do seu “nós”, do “ nós, os democratas”, “nós, os esclarecidos”, “nós, os europeus de bem” e consideram do outro lado, “eles, os populistas”, “os enganados”, “os atrasados”, “os perigosos”, etc... Enfim, muda a fronteira, conserva-se a alfândega moral.

Assim, enquanto uns proclamam «nós, os nacionais, contra os estrangeiros», outros respondem «nós, os democratas, contra eles». A gramática é assustadoramente parecida e o que muda é apenas o dicionário...

Assiste-se então ao espetáculo dos que se consideram do lado bom da democracia contra os habitantes do lado mau, como se a democracia tivesse bancada VIP e porteiro à entrada. A argumentação cede lugar à narrativa, a análise à indignação e o ódio, devidamente penteado e perfumado, apresenta-se em público com o respeitável nome de “consciência democrática” que em dicionário adverso significa “oportunista” ...

Entretanto, os senhores da realidade erguem-se contra ela. Espantam-se com o crescimento dos partidos a que chamam populistas, mas raramente perguntam quanto desse crescimento foi adubado pelas políticas que eles próprios defenderam...

votar como previsto, há sempre quem conclua que o defeito está na realidade.

Em muitos governantes e funcionários da liturgia europeia, mais do que competência, começa a notar-se atrevimento, que se expressa naquele admirável talento de explicar aos eleitores por que razão estes votaram mal...

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  : https://antonio-justo.eu/?p=11386
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

domingo, 6 de setembro de 2026

A ECOLOGIA ENTRA NO CORAÇÃO DA TEOLOGIA

O cuidado da criação não é um apêndice moral, mas uma dimensão constitutiva da fé cristã. O novo documento da CTI, aprovado por Leão XIV, insere a ecologia no núcleo da teologia trinitária.
 
Resumo
O presente artigo que apresenta as novas orientações da Comissão Teológica Internacional (CTI) procura mostrar como a ecologia entra hoje no coração da teologia, deixando de constituir um tema periférico para se tornar uma dimensão estruturante do pensar teológico e exige a reconfiguração dos seus próprios pressupostos ontológicos, antropológicos e sociais... O mistério trinitário revela o ser não como autossuficiência, mas como relação, alteridade, reciprocidade e dom... A questão ecológica revela-se, deste modo, inseparável da questão antropoginológica e social, porque a relação com a Terra prolonga e manifesta determinadas conceções de Deus, do ser e do humano. Uma teologia trinitária da criação desloca o paradigma da posse para o da pertença, da autonomia para a interdependência e do domínio para o cuidado. A criação emerge, assim, como tecido de relações e comunidade de vida e não como exterioridade disponível à soberania humana... É nesta transformação paradigmática que a ecologia deixa de ocupar as margens e entra verdadeiramente no coração da teologia.
 
O novo passo da Comissão Teológica Internacional
O novo texto da Comissão Teológica Internacional (CTI), “Cuidar da nossa Casa comum” é a resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário, publicado com o visto de Leão XIV, após quatro anos de trabalho (2022-2026), o documento não se limita a ecoar a Laudato si’ de Francisco, pelo contrário, aprofunda as suas intuições mais radicais e confere-lhes um fundamento teológico sistemático que faltava.
A tese da Comissão é tão simples quanto revolucionária ao afirmar “o nosso relacionamento com a natureza (ecologia) é uma dimensão constitutiva do nosso relacionamento com Deus Criador (teologia)”. Dito de outro modo: a ecologia não é um tema periférico da doutrina social da Igreja, nem uma concessão ao espírito do tempo. É matéria teológica no sentido pleno...A questão ecológica deixa de poder ser considerada um tema simplesmente periférico da doutrina social da Igreja ou uma adaptação do cristianismo às preocupações ambientais contemporâneas.
 
De Francisco a Leão XIV há uma linha de continuidade que se torna doutrina
A ‘Laudato si’ foi, desde o início, um texto teológico, embora muitos tenham preferido lê-lo como um tratado de ecologia política...
O documento aprovado por Leão XIV não substitui a encíclica; apresenta-lhe o seu núcleo dogmático. A criação não é o palco onde decorre a história humana, mas sim a obra do Deus trinitário, marcada por uma «impressão trinitária» que torna toda a realidade relacional. Nada é uma mónada. Tudo está em relação, porque o próprio Deus é relação... Se a criação traz em si a marca da Trindade, então a interdependência ecológica não é apenas um dado da biologia ou da física, é também um dado teológico...
O ser humano possui uma dignidade singular porque é criado à imagem e semelhança de Deus. Mas essa dignidade não lhe confere um direito ilimitado de domínio. Pelo contrário, transforma-se em responsabilidade.
O homem não é proprietário absoluto da Casa comum. É o seu guardião, cultivador e servidor...
Neste ponto, o documento toca num dos nervos mais sensíveis da teologia contemporânea que é a relação entre a transcendência divina e a imanência do mundo. Ao afirmar que a criação é obra do Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo, a CTI abre caminho a uma compreensão mais profunda da Encarnação. Jesus Cristo não vem salvar apenas as almas, mas toda a criação. E é nessa perspectiva que a ecologia se torna cristologia aplicada...
 
Do «pecado ecológico» ao pecado contra a criação e o Criador
Um dos contributos mais relevantes do documento é a reformulação do conceito de «pecado ecológico». A expressão, difundida após o Sínodo para a Amazónia (2019), era teologicamente ambígua. A CTI propõe agora uma formulação mais precisa expressando-o como pecado contra a criação e contra o Criador. A Comissão dá agora um passo de clarificação teológica. Em vez de se limitar à expressão «pecado ecológico» ou ao conceito secular de «ecocídio», propõe falar de: «pecado contra a criação e contra o Criador»...
O dano causado à natureza não é pecado simplesmente porque produz consequências ambientais negativas. Pode adquirir uma dimensão propriamente moral e teológica porque contradiz o sentido que Deus imprimiu à criação e a responsabilidade confiada ao ser humano... 
 
Ecologia integral e justiça social une o grito da terra ao dos pobres
A ecologia proposta pela Igreja não pode ser verde sem ser vermelha, por assim dizer, ou seja, não pode proteger a natureza esquecendo as pessoas, especialmente os mais pobres... as populações mais vulneráveis são as primeiras vítimas da degradação ambiental, da escassez de água, da desertificação e das alterações climáticas... E esta perspectiva conduz a uma crítica corajosa do modelo económico dominante, quando este transforma a natureza e as pessoas em meros recursos de produção e consumo. A CTI aponta mesmo para a necessidade de um sistema económico diferente, «ao serviço da vida de todos», orientado pela sustentabilidade e pelo respeito pelos ritmos da Casa comum... A crise ambiental é um «severo teste à nossa esperança», mas a esperança cristã não se confunde com optimismo superficial. A fé na redenção, que abrange toda a criação, é o horizonte último que dá sentido ao esforço presente...
 
A Eucaristia e a sacramentalidade da criação no mundo como dom e louvor
A reflexão não termina na ética... O mundo, sem se confundir com Deus, remete para Ele e manifesta algo da sua bondade e beleza. Esta «sacramentalidade» encontra na Eucaristia a sua expressão mais alta: o pão e o vinho, frutos da terra e do trabalho humano, tornam-se o corpo e o sangue de Cristo... O mundo é recebido antes de ser utilizado. É dom antes de ser recurso. E precisamente porque é dom, pode tornar-se louvor. Esta intuição litúrgica confere à ecológica uma profundidade espiritual que falta a muitos discursos ambientais, mesmo quando bem-intencionados...
 
A ecologia da esperança como questão teológica
... O documento evita finalmente duas tentações opostas que se expressam na indiferença e no catastrofismo... A Comissão escreve que a crise ambiental constitui «um severo teste à nossa esperança», mas acrescenta que essa esperança não é «um otimismo superficial» ...
A razão última encontra-se na fé cristã na redenção: o destino final querido por Deus não diz respeito apenas às almas humanas, mas à renovação da criação...
A ecologia deixa de ser um apêndice facultativo da vida cristã para se tornar parte integrante das grandes realidades da fé: Criação, Trindade, Encarnação, pecado, Eucaristia, justiça, conversão e esperança escatológica...
O desafio lançado à Igreja e ao mundo é viver a ecologia não como uma moda, mas como uma exigência da fé; não como uma preocupação secundária, mas como uma dimensão constitutiva do amor a Deus e ao próximo...
A ecologia não é apenas uma questão sobre aquilo que fazemos ao ambiente. É também uma questão sobre aquilo que acreditamos acerca de Deus, do mundo e do ser humano.
A pergunta ecológica transforma-se, assim, numa pergunta teológica: «Como nos relacionamos com a criação, nossa Casa comum, obra do Criador trinitário?»...
Esta orientação doutrinal, é mais que uma exigência porque faz parte integrante da teologia trinitária (Jesus Cristo como reunião da matéria e do espirito, que pressupõem a elaboração de uma nova matriz e consequente revisão da ontologia (demasiado masculina grega) e de uma antropoginelogia e correspondente sociologia que expressem a autentica identidade cristã.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
Texto completo em Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=11378

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O Dilema da Informação na Era da Emoção e consequências para o aparelho do Estado

 

DO CONTROLO ESTABILIZADOR AO DESCONTROLO DEMOCRÁTICO


Vivemos um período de transição especial. Durante décadas, os meios de comunicação tradicionais, imprensa e televisão, desempenharam um papel de filtragem da informação, conduzindo a opinião pública por corredores seguros alinhados com os poderes estabelecidos. Com a consolidação da União Europeia, esta influência estendeu-se ao meio governativo e académico, moldando currículos e privilegiando certas correntes de pensamento. No século XXI, as agências noticiosas globais uniformizaram a narrativa, tornando-a repetitiva em todo o espaço europeu, enquanto Bruxelas transformava o conhecimento num bem comercializável e dirigível...

Assim nasceu a realidade pós-factual ou pós verdade com o relativismo vigente que lhe dá forma.  O objetivo é reduzir a sociedade a uma massa de clientes, cuja capacidade intelectual se mede pela efemeridade do "like" e das estatísticas sociológicas. Este novo método de arrazoamento substitui o conhecimento pelo sentimento e a verdade pelo impacto...

Vivemos, por isso, num sótão com janelas para o mundo, mas sem alicerces na vida real.

Esta fase intermédia gera insegurança tanto nos cidadãos como nas estruturas estatais. A revolução da Inteligência Artificial acelera a passagem do modelo analógico para novas formas de relação social e política, com implicações profundas no aparelho do Estado...

As mesas de voto presenciais, especialmente para os portugueses na diáspora, tornaram-se peças arcaicas de um modelo analógico... A substituição por um sistema de voto eletrónico seguro, editável e acessível deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade premente...

O governo poderá realizar referendos consultivos ainda muito mais intensivos do que o atual modelo suíço, diluindo o poder central em associações regionais ou locais...

A grande questão que se coloca é: conseguiremos dominar a Inteligência Artificial e o voto digital antes que sejam monopolizados pelos mesmos senhores da política e da informação artificial? O futuro da nossa democracia e a credibilidade do nosso Estado dependem de recuperarmos o espaço para a razão e para a participação inclusiva, num mundo cada vez mais dominado pelo afeto digital e pela rigidez de estruturas ultrapassadas.

António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo © : https://antonio-justo.eu/?p=11376
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

NÃO ESTAMOS PREPARADOS PARA AS MUDANÇAS TURBULENTAS QUE A IA TRAZ

 Will Gates, otimista de sempre, mostra-se preocupado. Para ele, a IA não é só inovação, é uma "transição turbulentíssima" que vai deixar rastos indeléveis na história.

O principal aviso é que “não estamos preparados”. Enquanto o mundo acelera por interesses geopolíticos e económicos, os mais frágeis vão pagar a factura porque os jovens ficarão sem vagas de entrada e os trabalhadores substituídos por robôs mais baratos.

A solução que ele propõe é polémica e direta: taxar os robôs e os tokens de IA, porque o sistema atual incentiva as empresas a despedir pessoas para deduzir máquinas nos impostos.

Isto vai mudar tudo. Ou será "o maior equalizador" ou "a pior fonte de injustiça". O que é certo é que não podemos ficar indiferentes.

António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11367
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

 

 

O legado de um pensador em processo para além do “ou… ou”

 HEGEL ENTRE A RAZÃO SISTEMÁTICA E O MISTÉRIO DO REAL

Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu há 251 anos, a 27 de agosto de 1770, em Estugarda, e a sua sombra e brilho continua a ser um luzeiro na filosofia contemporânea. Mais do que celebrar um monumento intelectual, importa reconhecer nele um pensador que fez da contradição o motor do pensamento, lição que permanece extraordinariamente viva.

Hegel ensinou-nos que "tudo o que é racional é real e tudo o que é real é racional", fórmula tantas vezes mal compreendida como defesa do status quo, quando na verdade constitui um chamamento à inteligibilidade do mundo. O seu grande contributo foi resgatar a filosofia do pensamento binário do "ou… ou" para a elevar à tensão fecunda do "e… e": a realidade não se esgota em opções excludentes, mas revela-se no movimento dialético que inclui a contradição.

O pensamento hegeliano é, antes de mais, um pensamento em processo. Esta intuição, que a verdade não é uma posse, mas uma caminhada, repercute profundamente a espiritualidade cristã, nomeadamente na sua compreensão trinitária da relação como categoria última do real. O Professor Dr. Joaquim Teixeira, com a lucidez que lhe é própria, aponta, contudo, para o calcanhar de Aquiles hegeliano, porque ao tematizar o Espírito fora do elemento da consciência, Hegel teria traído a fenomenologia pela lógica, sacrificando a pessoa singular, descontínua e irredutível, ao altar do Sistema.

Uma crítica à ontologia grega que aprisiona o divino

Esta tensão leva-me a uma reflexão que gostaria de acrescentar. A ontologia hegeliana, na sua génese, permanece presa a uma arquitetura filosófica de raiz grega, nomeadamente à herança de Parménides e de Aristóteles, que privilegia o ser como presença, como identidade, como fundamento estável. O "Sistema" hegeliano é a apoteose dessa herança: tudo deve encontrar o seu lugar, tudo deve ser reconduzido à coerência da Ideia.

Mas será esta a única forma de arquitectar o pensamento? Haverá modos de abordagem à realidade que escapem ao primado da identidade e à violência da síntese?

Creio que sim. Há uma tradição, que poderíamos chamar, com cautela, "mística", que nos ensina a habitar a realidade de modo distinto. Não se trata de abandonar a razão, mas de reconhecer que o real nos ultrapassa, que há um excesso que o conceito não captura, que a verdade se manifesta tanto na negação que abre (apophasis) como na afirmação que delimita (cataphasis).

O elemento místico, que frequentemente associamos ao "feminino", não no sentido biológico, mas simbólico (necessário na nossa matriz antropológica que deveria ser uma matriz antropoginelógica): abertura, acolhimento, relação, não-dominação, oferece-nos uma chave hermenêutica mais universal do que a dialéctica hegeliana o faria supor. A mística não se opõe à razão; antes, recorda-lhe os seus limites. Onde Hegel constrói pirâmides conceptuais, a mística reside nas grutas de silêncio. Onde Hegel procura a totalidade, a mística celebra o fragmento que remete para o Todo sem o pretender conter.

Pensemos em autores como Pseudo-Dionísio, Mestre Eckhart, ou mesmo, no nosso tempo, Eugen Drewermann, Raimon Panikkar, Simone Weil (1), todos eles nos lembram que o acesso ao real se faz também por uma epistemologia do não-saber, por uma razão que se abre à transcendência sem a reduzir a conceito. Esta tradição, infelizmente, permaneceu marginal no grande edifício hegeliano, precisamente porque nele o Espírito é pensado fora da consciência viva, como se a verdade se realizasse nas entrelinhas da história, independentemente da experiência concreta das pessoas.

Hegel deixa a necessidade de uma razão encarnada

Não pretendo, com isto, rejeitar Hegel. Seria ingratidão e cegueira. Dele aprendemos que o pensamento é histórico, que a verdade se faz no tempo, que a contradição é fecunda, que a realidade é a-perspectiva e , nesse sentido, passível de ser sempre observada de um ponto de vista renovado. O que proponho é uma releitura: uma apropriação crítica que saiba integrar a mística como dimensão indispensável do pensar.

O Professor Joaquim Teixeira tem razão ao afirmar que Hegel "não soube pensar a pessoa como descontínua, singular e única". Talvez lhe tenha faltado precisamente essa sensibilidade mística que reconhece no outro uma alteridade inassimilável, um rosto que não cabe na totalidade do conceito. Talvez o seu sistema seja demasiado masculino, no sentido de arquitectónico, vertical, de domínio conceptual e demasiado pouco feminino, pouco religioso no sentido de acolhedor, horizontal, relacional.

Husserl, ao colocar no seu gabinete o letreiro "Aqui não entra a Dialéctica", não negava a importância de Hegel; antes, reivindicava um espaço para a experiência vivida, para a consciência intencional, para aquilo que escapa à engrenagem conceptual. É esse espaço que também nós devemos preservar.

O verdadeiro é também o não-dito

Celebrar Hegel aos 251 anos é reconhecer que o seu pensamento, como tudo o que é vivo, continua em processo. A dialéctica não se esgota na obra do mestre de Estugarda; ela exige ser continuada, repensada, talvez mesmo traída para ser fiel ao seu espírito mais profundo.

O "verdadeiro é o todo", mas o todo só o é se incluir também o que não se deixa dizer, o que permanece misterioso, o que só se revela na relação e no silêncio. A filosofia futura terá de aprender a dialogar com a mística, a integrar o elemento feminino na arquitectura do pensar, a reconhecer que a realidade tem tantos rostos quantos os humanos que a contemplam e talvez ainda mais.

Nesse sentido, Hegel continua a ser um companheiro indispensável, desde que saibamos ler nele também o que ele não disse, ou não pôde dizer. A sua grandeza está em nos ter aberto o caminho do processo; a nossa responsabilidade está em continuá-lo, com a humildade de quem sabe que a verdade não se possui, mas se procura e que a procura, ela mesma, já é parte da verdade.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © : https://antonio-justo.eu/?p=11359
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

(1) Para uma aproximação à mística e ao "elemento feminino" na filosofia, é recomendável ainda:
Simone de Beauvoir - O Segundo Sexo (para uma crítica filosófica à tradição patriarcal)
Luce Irigaray - Ética da Diferença Sexual
Julia Kristeva - Histórias de Amor (sobre o amor e o sujeito na mística)
Edith Stein - Ser Finito e Ser Eterno (fenomenologia e mística)
Eugen Drewermann - Alles ist Gnade (Tudo é Graça) (2025)

 Outro artigo: 250° ANIVERSÁRIO DO GRANDE FILÓSOFO HEGEL  https://antonio-justo.eu/?p=6073



sábado, 22 de agosto de 2026

A Pobreza não é Moeda Política dos de Ontem nem dos de Hoje

 

A INSTRUMENTALIZAÇÃO DA POBREZA E A CEGUEIRA SELECTIVA 

Observa-se, no debate público português a tendência preocupante da utilização da pobreza do passado como arma de arremesso político. Fotografias de miséria de outrora são ciclicamente recuperadas para, por contraste, glorificar o presente ou desacreditar o regime anterior. Esta estratégia, no entanto, peca por uma omissão gritante que é o esquecimento dos pobres de hoje.

A lógica é perversa. Ao fixar o olhar na fome de antigamente, desvia-se a atenção da fome que ainda existe, dos sem-abrigo que pernoitam nas nossas cidades, das famílias que recorrem aos bancos alimentares. Será que a crítica ao passado mata a fome do presente? Certamente que não porque os que fazem uso disso não são os pobres, mas sim os que se aproveitam do atual sistema. Trata-se, pura e simplesmente, de instrumentalização política. Falar mal do ontem serve para branquear as máculas do hoje e justificar os beneficiários do sistema atual, criando uma cortina de fumaça que impede a análise crítica da realidade contemporânea.

Esta abordagem revela uma pobreza intelectual e moral. Ao reduzir a História a um jogo de "nós contra eles", esquece-se que tanto ontem como hoje o mundo serve as elites. A diferença reside na forma, não na essência da exploração ou do esquecimento. Enquanto os partidários de um regime apontam o dedo ao adversário, os verdadeiros problemas estruturais, como seja a precariedade laboral, o custo de vida, a emigração qualificada, permanecem na sombra. É necessário um exercício de honestidade que consta em reconhecer as luzes e as sombras de todos os ciclos políticos, sem cair na armadilha de discutir quem foi pior, mas sim como podemos melhorar a vida de todos hoje.

 

A Armadilha da Memória e a Necessidade de Espírito crítico

A repetição exaustiva das mazelas do passado que se observa em narrativas partidárias tem um objetivo claro: criar uma narrativa binária que divide o país entre "bons" e "maus", servindo interesses partidários legítimos, mas não o povo. Ao transformar a pobreza num cartão de visita político, distrai-se a população do naco de pão que recebe dos senhores de ontem e de hoje. A intenção subjacente a estas fotos e discursos é fazer com que nos distraiamos do mal presente, aquele que deveria realmente importar-nos e de que seria oportuno falar.

Custa ver tantas referências aos pobres de antigamente e tão poucas referências aos pobres de hoje. A realidade mostra que, apesar do crescimento económico, a pobreza persistiu e adaptou-se. Os bairros de barracas de Lisboa ou Almada são a prova viva de que a fotografia social só difere nas pessoas, não na exclusão. No entanto, a energia necessária para observar a própria situação e procurar mudá-la é desviada para debates estéreis sobre a terra de cada um ou a qualidade de vida no Alentejo de 1960 ou imagens da emigração.

É importantíssimo que as pessoas acordem para esta manipulação. Comparações críticas são positivas se servirem o povo, mas são nefastas se estiverem ao serviço de uma opção partidária. Precisamos de mais espíritos críticos em serviço de toda a nação e menos soldados de causas alheias, que marcham ao som de interesses que não são os seus. A pobreza mental, que nos torna repetidores de slogans, é o maior obstáculo à mudança.

Precisa-se de valentia, como se pôde observar nos emigrantes que para o serem tiveram a coragem de quererem melhorar a vida; também para melhorar o país, é preciso ter a coragem de ver para além da propaganda e exigir políticas para os pobres de hoje, não apenas lamentos pelos pobres de ontem.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo : https://antonio-justo.eu/?p=11339
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O INFERNO - Entre a fidelidade às Escrituras, a responsabilidade hermenêutica e o primado do amor

 

O INFERNO, A LINGUAGEM DA ETERNIDADE E A ESPERANÇA DA RECONCILIAÇÃO UNIVERSAL

 

... A pergunta decisiva não deveria ser simplesmente: «Existe o inferno?», mas antes: que realidade designam as diferentes palavras que as traduções acabaram por reunir sob a única palavra “inferno”? E, mais profundamente ainda: como podem as afirmações bíblicas acerca do juízo ser compreendidas à luz do centro da revelação cristã que é Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, no qual Deus reconcilia o mundo consigo?...

O Sheol hebraico designa, sobretudo nas camadas mais antigas do Antigo Testamento, a morada dos mortos...

É significativo que a própria tradição católica reconheça esta distinção: ao explicar a expressão do Credo segundo a qual Cristo «desceu aos infernos», o Catecismo identifica esses «infernos» com o Sheol hebraico e o Hades grego, isto é, a morada dos mortos e não com o inferno dos condenados... Confessamos que entrou verdadeiramente na morte humana e que nenhuma profundidade da existência permaneceu exterior à ação salvadora de Deus.

A antiga imagem cristã da “descensus ad ínferos” possui, portanto, uma extraordinária força teológica: Cristo procura o ser humano precisamente onde este parece definitivamente perdido...

Jesus emprega hipérbole, parábola, imagens apocalípticas e linguagem simbólica. O fogo pode representar julgamento, destruição, purificação, manifestação da verdade ou consumação. O contexto e que deve decidir o seu significado...

No centro da discussão encontra-se o adjetivo grego αἰώνιος (aiōnios), particularmente importante em Mateus 25,46: “E irão estes para o castigo aiōnios e os justos para a vida aiōnios.”... As palavras adquirem significado dentro das frases, dos textos e dos universos culturais. A questão de Mateus 25,46 não pode, portanto, ser resolvida apenas por etimologia... No Evangelho de João, a vida eterna começa já na comunhão com Deus. É uma qualidade de existência antes de ser simplesmente uma quantidade infinita de tempo...

Para o cristianismo, Deus não é uma hipótese metafísica acerca da qual Jesus nos fornece posteriormente algumas informações. Deus revela-se em Jesus Cristo e por isso, toda a escatologia cristã deve ser cristológica... Paulo escreve que aprouve a Deus «reconciliar consigo todas as coisas» por Cristo, «pacificando pelo sangue da sua cruz tanto as coisas da terra como as dos céus» (Cl 1,19-20).

Em 1 Coríntios, depois de apresentar Cristo como o novo Adão, Paulo conduz a história da salvação para uma extraordinária conclusão: “para que Deus seja tudo em todos” (1 Cor 15,28)... E a carta aos Romanos desenvolve uma impressionante simetria entre Adão e Cristo: se a humanidade é atingida pela solidariedade do pecado, muito mais radical é a graça manifestada no novo Adão.

É impossível construir honestamente uma teologia do destino humano considerando apenas os textos de julgamento e silenciando estes textos de universalidade... Existem textos de advertência radical e existem textos de esperança universal. Uma teologia madura não mutila nenhum deles...

Uma intuição, permanece teologicamente provocadora. Se Deus é realmente Deus, poderá o mal possuir a última palavra sobre uma parte da criação? Se Cristo veio vencer o pecado e a morte, será a vitória escatológica de Cristo apenas parcial? Se Deus é amor, em que sentido deve ser compreendida a justiça divina?...

O universalismo cristão não pode significar que o mal seja irrelevante... A reconciliação exige justiça, mas a justiça de Deus não necessita de ser concebida segundo a lógica humana da vingança.

Na cruz, Deus não derrota os inimigos, tornando-se semelhante a eles. Cristo vence o ódio suportando-o sem devolver ódio; responde à violência sem reproduzir a violência; entra na morte e transforma-a a partir de dentro.

A cruz é, portanto, a crítica cristã definitiva de qualquer representação de Deus como vingador...

A objeção clássica ao universalismo é a liberdade. Deus oferece amor, mas o ser humano pode recusá-lo. Se Deus obrigasse finalmente todos a aceitá-lo, não destruiria a liberdade que ele próprio criou?...

A tradição cristã oferece outra possibilidade. Quanto mais alguém conhece a verdade e ama o bem, mais livre se torna. Mas deste modo, Deus não é uma opção arbitrária entre outras, porque se Deus é o Bem absoluto, a Verdade e o fundamento do nosso ser, então afastar-se definitivamente de Deus não seria a perfeição da liberdade, mas a sua tragédia.

O pecado é entendido precisamente como liberdade ferida porque escolhemos contra nós próprios... O medo pode produzir submissão, não pode produzir amor, como refere João: «no amor não há temor; o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor supõe castigo» (1 Jo 4,18)...

Uma criança que aprende que Deus observa os seus pensamentos para puni-la pode tornar-se adulta e continuar interiormente diante de um tribunal. A imagem de Deus converte-se então numa voz interior acusadora e pode atravessar gerações... a maneira como falamos de Deus entra na estrutura psíquica das pessoas e por isso, a linguagem nunca é inocente. Quem prega possui uma responsabilidade enorme...

Também merece atenção a linguagem de Deus como Pai; o aramaico Abba significa linguisticamente «pai» e exprime relação filial e proximidade... Deus transcende masculino e feminino e ambos pertencem à criação.

Além disso, a própria Bíblia utiliza imagens maternas para falar de Deus: Deus consola como uma mãe (Is 66,13); não esquece o filho do seu ventre (Is 49,15); Jesus compara o seu desejo de reunir Jerusalém ao de uma ave que recolhe os pintainhos debaixo das asas (Mt 23,37)... Deus é chamado Pai não porque seja homem, mas porque é origem, relação, dom e amor e até a palavra «Pai» permanece uma analogia. Deus é sempre maior do que os nossos nomes para Deus e o nosso falar sobre Deus é sempre de caracter humano...

Na tradição dos evangelhos, misericórdia não significa relativismo moral. Significa que a verdade sobre uma pessoa nunca se reduz ao seu pecado.

«Não julgueis, para não serdes julgados» (Mt 7,1) não elimina o discernimento moral. Elimina a pretensão de ocuparmos o lugar último de Deus perante outra consciência...

A doutrina do inferno deve recordar ao ser humano que Deus é o juiz, não podendo declarar quem estaria condenado...

A doutrina oficial da Igreja Católica continua a afirmar a existência e a eternidade do inferno, entendido fundamentalmente como “separação eterna de Deus”. Afirma igualmente que Deus não predestina ninguém ao inferno e relaciona a perdição com a recusa livre e definitiva da misericórdia... O cristão não necessita de afirmar dogmaticamente: “Eu sei que todos serão salvos.” E também não tem qualquer obrigação espiritual de desejar que alguém seja condenado...

O universalismo dogmático afirmaria possuir conhecimento antecipado do destino final de todas as criaturas. A esperança universal entrega esse destino ao mistério de Deus, mas atreve-se a esperar que a misericórdia consiga aquilo que nós julgamos impossível.

A esperança não elimina o julgamento, porque espera que o julgamento pertença à misericórdia.

Não elimina o inferno, mas espera que o inferno não tenha a última palavra. Não elimina a liberdade, esperando que a graça possa finalmente libertar toda a liberdade escravizada. Também não chama bem ao mal, na esperança que Deus vença o mal sem perder eternamente aquele que o praticou...

A frase mais audaciosa de toda a escatologia cristã permanece certamente a de Paulo: “Para que Deus seja tudo em todos.” (1 Cor 15,28) ... Paulo na carta aos Colossenses emprega linguagem semelhante quando fala da reconciliação de «todas as coisas» em Cristo. Isto não permite resolver mecanicamente todos os textos bíblicos de julgamento, mas impede-nos de transformar a condenação numa espécie de segundo princípio eterno ao lado da redenção... Paulo diz que o último inimigo a ser destruído é precisamente a morte (1 Cor 15,26) ... Se existisse eternamente uma região da criação definitivamente entregue à morte, ao ódio e ao desespero, em que sentido poderia dizer-se que “a morte foi destruída” e que Deus é «tudo em todos»?...

Uma pastoral contemporânea responsável não necessita de apagar a palavra inferno; o que necessita é de purificá-la... Não existe região humana tão escura que Cristo não possa atravessar...

A questão última é cristológica. O Deus dos cristãos possui o rosto daquele que come com pecadores, toca leprosos, procura a ovelha perdida, conta a parábola do pai que corre ao encontro do filho antes que este consiga terminar a sua confissão, perdoa os inimigos e entra na própria morte para a vencer.

Isto não torna o pecado pequeno e torna a graça imensa. Uma Igreja que esquece o juízo transforma a graça em banalidade. Mas uma Igreja que esquece a graça transforma Deus num tirano. A mensagem cristã encontra-se para além dessas duas deformações. O juízo significa que a nossa vida importa eternamente e a misericórdia significa que o nosso pecado não é maior do que Deus.

Por isso, talvez a pergunta pastoral mais cristã não seja: “Quem irá para o inferno?” Mais adequada seria: “Até onde está Deus disposto a ir para encontrar aquilo que se perdeu?”... A última palavra do Evangelho não é inferno, é Cristo e Cristo não é condenação, mas sim ressurreição... A fé, quando finalmente se liberta do desejo humano de condenar, descobre que não lhe compete estabelecer os limites da misericórdia divina, mas sim anunciá-la, vivê-la e esperá-la...

António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo © : https://antonio-justo.eu/?p=11330
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578