segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

MUTILAÇÃO GENITAL FEMININA

 

O Martírio silencioso e a Urgência de ver e atuar

 

Um relógio humano marca, a cada onze segundos, uma mutilação genital feminina no mundo. Este não é um dado estatístico distante mas sim o ritmo de um sofrimento profundo que tece silêncios em pleno século XXI. Quanta mulher destruída e quantos traumas como marcas da vida. Imagine-se a barbaridade que os outros animais na qualidade de irracionais  não fazem? Enquanto Estados se concentram em indicadores económicos e conflitos geopolíticos, uma violação íntima e brutal contra milhões de mulheres e meninas persiste, muitas vezes à sombra de tradições ou da indiferença. Quando chegará o dia em que o Homem e a política se concentrem em curar as feridas humanas?

Em sociedades de matriz predominantemente masculina, os problemas existenciais das mulheres são frequentemente relegados para as franjas da discussão pública. A mutilação genital feminina (MGF) é talvez o exemplo mais cristalino desta cegueira seletiva. É imperativo que este tema saia da zona do tabu e entre na esfera da ação coletiva e da consciência emocional. Tabus silenciados endurecem as vidas.

 

A Anatomia de um Sofrimento oculto

As meninas, muitas vezes antes dos cinco anos, têm os seus órgãos genitais externos amputados, sem anestesia, em condições barbáries e precárias. A escala da violência varia: do corte do clítoris à extração total dos órgãos e à subsequente costura da abertura vaginal (infibulação). Isto implica um procedimento com consequências devastadoras para toda a vida...

Este crime não conhece fronteiras. Trata-se de um drama transnacional: famílias que viajam de férias para a Somália, Eritreia ou Djibuti... e regressam com as suas filhas mutiladas. Em 2022, estimava-se que 15.000 meninas na Alemanha estavam sob ameaça iminente de sofrer esta violência...

 

Ver a Pessoa para além do Número

Um pouco de humanismo  exige que ouçamos os detalhes que os números silenciam, como testemunhou Ibrahim Ishaq Hussein em Kassel: em família,  os rapazes crescem a normalizar o sofrimento das mulheres, pois acham normal que mães, irmãs e avós demorem tempos intermináveis na casa de banho e vivam com dores constantes...

 

Entre a Tradição e a Lei: O Caminho para a Proteção

Contudo, o respeito cultural não pode ser uma capa para a barbárie... Se uma menina de cinco anos com mutilação genital chegar a um hospital, o silêncio dos profissionais não pode ser uma opção. Aqui, os professores também deveriam estar atentos, atendendo a que há cada vez mais pessoas que vêm de culturas em que essas práticas são comuns.

Felizmente, há luz na escuridão. Em Kassel, centros como a Mädchenhaus e o departamento de saúde da cidade trabalham há anos contra este ritual, oferecendo proteção e aconselhamento especializado. A lei alemã deu um passo crucial: desde 2013, o §226a do Código Penal pune a mutilação genital feminina com, no mínimo, um ano de prisão, classificando-a juridicamente como agressão física grave...

 

O Desafio para Portugal e para a Europa é não fechar os Olhos

A pergunta que se impõe é: As autoridades portuguesas, e europeias em geral, estarão preparadas para lidar com esta questão? Fazer vista grossa é cumplicidade. Fechar os olhos na Europa é fomentar a barbárie dentro das nossas fronteiras, sob o falso pretexto do relativismo cultural...

Proteger os mais fracos  e entre eles, as crianças, é um imperativo civilizacional universal que exige: legislação clara e aplicada; formação especializada para profissionais; apoio e proteção às meninas em risco e às suas famílias e campanhas de sensibilização dentro das comunidades...

Urge que este tema saia da sombra e entre na luz da ação política, do debate público e da proteção humana...

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10766

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