BENTO XVI FICARÁ COMO LUZEIRO DA TEOLOGIA E DA EUROPA NO
HORIZONTE
O
Cardeal Joseph Ratzinger, cuja vocação era a teologia, foi o 265º Papa da
Igreja Católica e
o primeiro papa alemão depois de 480 anos; demitiu-se em fevereiro de 2013, por
razões de saúde sendo o primeiro em 700 anos a fazê-lo (um acto revolucionário
de desmitologização), o
que corresponde a uma certa orientação secular do cargo.
Joseph Ratzinger
nasceu na Alta Baviera e foi eleito Papa a 19 de abril de 2005, sucedendo a
João Paulo II. Morreu em 31.12 no
mosteiro Ecclesiae, no Vaticano. A sua vida resumiu-se, a ser um "servo fiel do Evangelho e da
Igreja", como disse o Papa Francisco!
O mundo está a
perder uma "figura formadora", como disse o chanceler alemão. A
Igreja católica está de luto por uma personalidade que não será fácil de
encontrar no futuro. O Secretário-Geral da ONU, A. Guterres, descreveu o Papa
como um "humilde homem de oração e estudo". Os progressistas vêem-no
como um líder da igreja voltado para o passado e os outros consideram-no um
papa exemplar à altura dos tempos. As suas últimas palavras foram "Senhor,
eu amo-te". Na Baviera, ouviu-se a aclamação popular, "Nós somos
papa", aquando da eleição e tocaram os sinos três vezes ao dia em igrejas
da Alemanha, desde a sua morte até ao seu enterro.
Ratzinger nasceu em 16.04.1927, o seu pai era um gendarme
e a sua mãe uma cozinheira; a família também era unida na sua rejeição da
ideologia nazi. Teve dois irmãos mais velhos (Maria e Georg). Ainda criança foi
forçado a entrar na Juventude hitleriana. Foi ordenado padre em 1951. Em 1958,
com 31 anos de idade tornou-se professor de dogmática e teologia fundamental. Ratzinger foi conselheiro do Concílio Vaticano II e
sofreu um ponto de viragem quando a vaga marxista (68) marchava pelos salões de
aulas universitárias. Assustado, retirou-se para Regensburg (cf. HNA 2 de
janeiro de 2023) na intenção de se afirmar como autor de livros teológicos
refutadores da onda marxista materialista; não aceita que a vida intelectual
tenha de ser determinada apenas sob o ponto de vista democrático, o que
realmente significaria um encurtamento da mente. O Vaticano cruzou os seus
planos consagrando-o de bispo de Munique e Freising.
Bento
XVI não era um homem do poder nem tão-pouco da administração, reconhecendo:
"O governo prático não é realmente o meu forte”.
Como
bom observador do desenvolvimento da sociedade deixou o seguinte aviso:
"Ter uma fé clara é frequentemente rotulado como fundamentalismo. Surge
uma ditadura do relativismo, que não reconhece nada como definitivo e, como
último recurso, só aceita o próprio ego e suas concupiscências", citam
Christoph Driessen e Manuel Schwarz.
Ele
foi um verdadeiro bávaro conseguindo unir a cabeça alemã do Norte ao coração do
Sul. Permaneceu em contacto com o mundo sem que a doutrina católica (sua
vivência divina) deixasse o seu coração. Aquele que tinha sido um promotor teológico do Concílio
Vaticano II, defendendo mudanças na Igreja, tornou-se mais cauteloso enquanto
Papa, também porque a perspectiva da Igreja universal com níveis de consciência
tão diferentes nas suas várias regiões exige pastorais distintas da perspectiva
intelectual da teologia científica e da mentalidade europeia ; respeitar os
pontos de vista das diferentes culturas, como é tarefa de uma Igreja universal,
conduz necessariamente à ambivalência porque não pode assumir em todas as regiões do mundo a mentalidade ou maneira de
ver da região europeia ou de elites transnacionais. Por outro lado,
a Igreja não pode concentrar-se de maneira exclusiva no espírito do tempo
actual sem ter de apontar caminho e alertar para os sinais dos tempos. A mentalidade
política contemporânea não pode ser aplicada directamente à religião; são
campos diversos: de um lado o poder na luta de interesses e do outro o serviço
à pessoa e humanidade em geral. Com as condenações doutrinárias de
teólogos como Leonardo Boff (a quem impôs um ano de silêncio penitencial por
suas críticas à igreja) e Hans Küng, houve incertezas na igreja e causou um
atraso de certas reformas na igreja. O decorrer da História costuma revalidar
posteriormente os seus críticos.
Como teólogo excepcional moldou o século XX e o início do
XXI constituindo uma grande perda para a comunidade científica e para a igreja onde
colocou acentos pioneiros na teologia. A prestigiosa revista alemã de tendência
esquerda “Der Spiegel” categorizou-o como o "mais talentoso teólogo alemão
da reforma".
Numa
época em que a filosofia já não é a "serva da teologia" Bento soube
justificar de maneira exemplar a razão e a fé na qualidade de irmãs. Até o
conhecido filósofo Jürgen Habermas, que joga noutra liga, elogiou a erudição de
Bento XVI. Ele disse que os dois partiam de bases diferentes, mas concordam nas
"actividades operacionais". Habermas disse ainda que compartilham a
crítica da "modernidade desenfreada", embora dissesse ser
"religiosamente não musical". Como teólogo preocupado em fraternizar a filosofia com a teologia,
Ratzinger permanecerá certamente, na comunidade científica, ao lado de S. Tomás
de Aquino (1).
Fui também
estudante de teologia no seu país natal, tendo sido um estudante assíduo e
admirador da sua teologia que enquadrava com a de Rahner, Johann Baptist Metz, Küng,
Schielebeks, Boff, Chardin, Karl Barth, etc....
Enquanto Bento XVI tornava o passado vivo também no
presente, Francisco vive o presente sem se tornar infiel ao passado; esta
pequena diferença leva muitos a colocá-los num plano de contra modelos.
Num mundo em
rápida mudança não é fácil afirmar-se, por isso, penso que Ratzinger depois de uma
época em que sobretudo o politicamente correcto e a corrente do mainstream são validadas
na tela do relativismo em moda, um dia, ele receberá também na praça pública o
reconhecimento teológico e pessoal que bem merece; certamente será canonizado. Ele
era pela renovação, mas com muito respeito pela tradição.
Foi um momento
histórico quando Bento XVI inesperadamente teve coragem para quebrar com as
correntes da tradição perante a assembleia dos cardeais em 11.02.2013 declarando
que "renunciaria ao cargo de sucessor de Pedro". Os cardeais ficaram, a princípio, perplexos perante
o que ouviam. Os tradicionalistas acusaram-no de desacreditar o cargo com a sua
demissão. Pelo contrário, hoje a sua atitude é avaliada como um acto positivo.
O escândalo de
abusos sexuais no seio do clero abalou a igreja e Bento apertou o código penal
eclesiástico, pedindo perdão e defendendo a igreja como um todo.
No dia da sua
morte, foi publicado o seu testamento espiritual onde se dirige explicitamente
aos seus concidadãos alemães dizendo: "Não vos deixeis dissuadir da
fé".
Beto XVI tornou o
ministério petrino mais humano e conseguiu afirmar a sua importância apesar da
pressão da individualização e da secularização no mundo ocidental. Por outro
lado, os dez anos com dois papas foram certamente um desafio. Agora Francisco
pode mais facilmente exercer o cargo. Com a experiência de dois papas,
Francisco será mais capaz de lidar com uma tal situação no futuro.
As suas exéquias não
foram uma despedida papal porque se encontrava já emérito; foi uma cerimónia muito
digna liderada pelo Papa Francisco; o facto de só ter havido convidados
oficiais da Itália e da Alemanha é compreensível: o papa não morreu em
exercício de funções.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo, https://antonio-justo.eu/?p=8200
(1) S. Tomás de Aquino foi o mais importante proponente
clássico da teologia natural e o pai do tomismo. A base de seu pensamento é a união entre fé e razão, criando
uma ponte entre Filosofia e Teologia, entre a lógica aristotélica e a fé cristã,
unindo pensamento platônico ao misticismo agostiniano. Razão e fé são duas
companheiras na busca da verdade.
Também Ratzinger estabelece a correlacionalidade entre fé
e razão: “Pois não podemos acreditar se não tivermos almas racionais. Se,
então, é um ditame da razão que, em certas coisas sublimes que ainda não
podemos compreender, a fé deve preceder a razão, não há dúvida de que um pouco
de razão ao nos ensinar essas coisas precede a fé”.
Ratzinger também se expressou sobre os fundamentos
culturais, políticos e religiosos da sociedade europeia! A grande quantidade de
livros e temas estabelecem análises e impulsos para o sucesso da sociedade
entre a globalização e a questão dos valores.
Para Aquino, o mal não tem perfeição nem ser, pelo que significa
a ausência do bem e do ser; de facto, o ser, enquanto ser, é um bem.