O LAVRADOR DA ARADA
Vindo o lavrador da arada,
Encontrou um pobrezinho ;
E o pobrezinho lhe disse:
-Leva-me no teu carrinho.
Deu-lhe a mão o lavrador,
E no seu carro o metia;
Levou-o para a sua casa
Prà melhor sala que tinha.
Mandou-lhe fazer a ceia
Do melhor manjar que havia;
Sentou-o na sua mesa,
Mas o pobre não comia.
As lágrimas eram tantas
Que pela mesa corriam;
Os suspiros eram tantos
Que até a mesa tremia.
Mandou-lhe fazer a cama
Da melhor roupa que tinha:
Por cima damasco roxo,
Por baixo cambraia fina.
Lá pela noite adiante
O pobrezinho gemia;
Levantou-se o lavrador
A ver o que o pobre tinha.
Deu-lhe o coração um baque,
Como ele não ficaria!
Achou-o crucificado
Numa cruz de prata fina.
-Meu Jesus, se eu tal soubera,
Que em minha casa Vos tinha,
Mandava fazer preparos
Do melhor que encontraria.
-Cala-te aí, lavrador,
Não fales com fantasia.
No céu te tenho guardada
Cadeira de prata fina,
Tua mulher a teu lado,
Que também o merecia.
(Da tradição popular)
(Retirado do Livro de Leitura da
3ª classe, Ministério da Educação Nacional)
domingo, 23 de dezembro de 2018
sábado, 22 de dezembro de 2018
VINTE MIL REQUERENTES DE ASILO DEPORTADOS EM 2018
Na Alemanha, em
2017 houve 20.019 deportações de requerentes de asilo. Em 2018, de janeiro a
outubro, foram deportados 19.781
requerentes, a quem foi negado o estatuto de refugiado.
Em 2017 a Alemanha tinha acolhido 198.317 refugiados.
Em 2018 recebeu 166.000 requerimentos de asilo tendo sido 30.000 deles, com
menos de um ano, já nascidos na Alemanha.
Os estados
federais tencionam reduzir os benefícios sociais para os requerentes de asilo
que já tenham feito o requerimento num outro país da União Europeia (casos do
acordo de Dublin).
Segundo o
Departamento Federal de Migrações e Refugiados, no primeiro semestre de 2018,
trinta mil dos requerentes seriam da competência de um outro Estado em que
entraram primeiro.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do
Tempo, http://antonio-justo.eu/?p=5186
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
ORDENADOS EM SREVIÇO DA COMPETIÇÃO
Na China o salário horário
médio é de 3,3 US-Dollar e em Portugal é de 5,1 Dollar! Segundo os dados do Euromonitor nos
últimos anos os salários têm estagnado em Portugal e na Grécia, enquanto na
China têm galopado. Assim, os salários médios por hora em US-Dollar, por países
é:
Suiça 43,1 US$
Áustria 20,8 US$
Portugal 5,1 US$
Grécia 4,5 US$
China 3,3 US$
Indonésia 90 US-Cent
Ìndia 80 US-Cent
Devido à crise grega e
portuguesa, os salários estagnaram relativamente aos parceiros europeus e
assim, os salários chineses estão a aproximar-se dos salários gregos! A China está
a tornar-se num colosso.
Os dados do Euromonitor
referem-se a 2017 e dizem respeito à média dos ganhos dos trabalhadores num
país. É natural que, dentro do mesmo país, haja empresas que paguem mais que
outras.
Estatísticas são apenas pontos
de referência. Acho muito pequena a média relativa a Portugal.
Um empregado na China ganha
em média 67.569 yuans por ano, o que equivale a cerca de 10.358 US $ por ano.
Ainda, segundo a
Euromonitor, os salários na China são mais elevados do que em todos os países
da América do Sul, com excepção do Chile.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo, http://antonio-justo.eu/?p=5178
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
CAMPANHA DO “BANCO” ALIMENTAR CONTRA A FOME EM PORTUGAL
O Presidente Rebelo de Sousa não
tem Medo do Cheiro a Povo
António Justo
Em Portugal há
21 bancos alimentares contra a fome que correspondem a 21 associações de solidariedade
independentes e se encontram distribuídas por todo o país.
Decorreu a 54ª
campanha de recolha de bens alimentares até 9 de Dezembro conseguindo-se, com o
apoio de 40.000 voluntários, recolher 2.146 toneladas de alimentos que serão
distribuídos, antes do Natal, a 2.600 Instituições de Solidariedade Social, que
os entregam a cerca de 400.000 pessoas comprovadamente carenciadas.
Quase 20% dos portugueses são pobres e existe um
milhão de idosos com rendimentos abaixo dos 250 euros. O Presidente Marcelo
defendeu que o projeto Banco alimentar
"é cada vez mais necessário".
Numa sociedade
onde muitos governantes e banqueiros têm arruinado o país, tornam-se indispensáveis
acções como estas.
O presidente da República tem participado
nesta campanha, como voluntário, em acções simbólicas. Parece seguir as pegadas
do Papa Francisco.
Ontem o Presidente da República juntou-se aos
voluntários que estavam a servir almoço a 300 pessoas sem abrigo.
Os sem abrigo em Portugal, segundo os dados da
segurança social, eram em 2017: no Porto 1.620, em Lisboa 889, em Faro 355, em
Setúbal 256, em Coimbra 182.
No último fim de semana o Presidente da República
de Cabo Verde, de visita a Portugal foi convidado por Marcelo Rebelo de Sousa a
ir com ele juntar-se a centenas de jovens que estavam a separar e empacotar
géneros para serem depois distribuídos aos pobres.
Segundo a
carta dos direitos humanos toda a pessoa não deve passar fome sendo um dever do
Estado assistir aos necessitados.
Ao longo de
todo o ano, os bancos alimentares distribuem várias dezenas de milhares de
toneladas de produtos e distribuem refeições confecionadas e cabazes de
alimentos a pessoas pobres.
Um apêndice: Nos
Media, muita gente critica o Presidente Rebelo de Sousa por se misturar tanto
com o povo, isto é, com os desfavorecidos do sistema político e social que
temos. De admirar é que não entusiasmem o Primeiro Ministro António Costa a
imitá-lo. Bastantes andam muito mal
informados porque não sabem que muitos dos "protagonistas cimeiros"
nunca fariam tal, porque só não têm nojo do povo quando há campanha eleitoral!
O cheiro a povo compromete!
© António da Cunha Duarte Justo
sábado, 15 de dezembro de 2018
TRÊS GÉNEROS: MASCULINO, FEMININO E DIVERSO
O Parlamento
alemão legislou que para pessoas em que a sexualidade seja ambígua, isto é, o
corpo tenha características masculinas e
femininas, se permita a inscrição no registo de nascimento do
género “Diverso”. A partir de janeiro, há um terceiro género no registro de
nascimento.
Antes a lei
previa “masculino”, “feminino” e “sem indicações”. Posteriormente pode ser
corrigido o registo e mudado o nome, mediante a apresentação de atestado médico
para casos em que tenha havido uma "variante do desenvolvimento
sexual". Isto já é prática na Argentina, Dinamarca, Malta, Noruega,
Bélgica e Chile.
De facto também
a biologia se engana na distribuição de cromossomas e hormonas. Acontece muitas
vezes que a ambiguidade mais tarde se dissolve no masculino ou feminino, mas
também há casos em que se mantém algo próprio.
Na Alemanha avalia-se
que haja 160.000 pessoas neste caso.
Que o caracter binário seja aqui questionado não prejudica
ninguém pelo facto de se reconhecer isto. O tribunal constitucional (2017)
tinha aberto o caminho para tal lei declarando que o direito fundamental à
dignidade humana é individual e a lei deve seguir a realidade da vida humana e não
o contrário.
António da
Cunha Duarte Justo
Pegadas do
Tempo http://antonio-justo.eu/?p=5171
sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
BOM ADVENTO E FELIZ NATAL
Uma pausa no dia-a-dia para se poder
viver a vida
António Justo
A partir do outono, a natureza inicia o
seu retiro para entrar em si mesma e amealhar forças, no recolhimento do
inverno.
A Igreja
colocou o Natal no Inverno, associando-lhe a natureza,
como alegoria, da preparação para a vinda do Salvador e “Luz do mundo”. Sem luz
nada pode crescer e nenhuma vida pode surgir. Com o Natal os dias começam a
crescer. A natureza como “sombra de Deus”, também ela se encontra a caminho de
Belém (o princípio e fim
da História).
O Advento é o tempo da procura e da
espera da luz no caminho individual
e universal. Tudo se junta num
esforço comum para se alinhar na ordem criadora contra as trevas do caos.
Quando chega a noite (o inverno) torna-se
necessária a luz
que nos alumie o caminho. Velas também são metáforas do advento,
na peregrinação da vida. Não é por acaso que, no Advento, as nossas cidades se
encontram cheias de luzes criando uma atmosfera quase espiritual. Aquelas luzes
são também elas metáforas da luz que é Jesus.
Na Alemanha (países nórdicos onde a
natureza se faz sentir mais) há o costume de se colocar na mesa das famílias (e
até se dependurar nas igrejas e noutros locais menos sagrados) a grinalda do
advento, uma coroa com quatro velas que se vão acendendo, uma a uma,
consecutivamente, nas quatro semanas de advento (tempo antes do Natal) e que
indica a preparação preliminar para a chegada da luz plena (o menino Jesus).
Com o andar do Advento, tal como acontece na natureza também na vida interior e
exterior, tudo se vai tornando mais claro. Todas estas luzes apontam para uma
luz maior ainda escondida no presépio e também no interior de cada um. Daí o
caminho a fazermos também em direcção a nós; o monge dominicano Mestre Eckhart alertava:
“Deus está em casa em nós, mas nós estamos
fora ( vivemos no exterior).
A este
respeito, acho muito oportuno o aforismo de Karl Valentin que diz: "Amanhã
vou-me visitar ... vamos ver se estou em casa!”
Hoje na agitação da vida quotidiana
torna-se importante fazer-se uma visita a si mesmo se não nos queremos deixar
programar por agendas estranhas e passar a repetir a dança de “maria vai com as
outras”. Depois de andar tanto por fora, ou até na casa dos outros, é
necessário entrar em minha casa e verificar o que, realmente, faz parte de mim.
No presépio de mim mesmo poderei ver se
sou verdadeiro amigo de mim (no centro de cada um jorra a luz divina, que
constitui o fundamento da ipseidade) para
poder ser amigo e tornar-me abrigo também para os outros. No advento posso
ter um pouco de tempo para me alegrar e discutir um pouco mais comigo.
A natureza também fala e dá sinal; ela
renuncia à folhagem de si para depois voltar a reconhecer-se na alegria da
exuberância de se poder oferecer. O mesmo fez Jesus ao recolher-se no deserto
durante quarenta dias porque a missão que tinha era muito exigente e requeria o
encontro na ipseidade para poder atuar abrangendo a realidade por fora e por dentro.
Geralmente somos puxados pela agenda do
dia-a-dia ou pela rotina que nos alheia; ela é que geralmente manda, não
deixando tempo para esperarmos por algo maior que o dia. Sob a ordem dela não
temos tempo para as coisas verdadeiramente nossas; vivemos, isto é, existimos
sem espaços nem pausas para a vivência e ideias próprias surgirem e passarem na
tela da visão de novas paisagens.
O ócio e as pausas são o melhor terreno
onde a criatividade e o pensamento surgem, possibilitando o sentir a
ressonância da vida, como que o respirar de Deus que nos e inebria, à margem do
dever das nossas actividades.
O Advento é uma
oferta, uma oportunidade inserida no calendário da vida para não deixar que o
estresse, o sobre-emprego e a azáfama tomem conta de nós e nos enrolem de tal maneira
que o dia-a-dia tome conta de nós. O advento é aquela pausa da velocidade no tempo que, por
vezes, falta no meu calendário; este dá a oportunidade de pegar nele e nele
colocar aquilo que seria esquecido ou negligenciado ou que também, por falta de
vontade ou de iniciativa, não incluiria na lista dos “afazeres” do dia-a-dia.
Muitas doenças da era atual vêm do
facto de querermos viver, mas não vivermos por sermos vividos. Ao conhecer as
próprias falhas (demasiado activismo ou falta de iniciativa, de motivação, ou
mesmo inibição para agir) posso procurar agarrar a vida nas mãos e evitar que o
calendário deixe de ser uma colecção de folhas em branco ou de folhas todas
cheias que não deixem espaço para me incluir no calendário. Nas pausas adventícias
posso rever no calendário espaços para actividades conscientemente intencionais
e prever coisas novas e espaços para coisas maiores do que o dia-a-dia, tempos para
coisas de maior dimensão e que podemos equacionar na palavra Deus.
Quem não tem acesso
à religião, sem precisar de ser devoto, pode aproveitar-se do Advento para
colocar-se a pergunta: para que é que vivo; qual é o sentido do que faço agora;
o que faz sentido? Deus podemos vê-lo ou experimentá-lo na Igreja, numa
paisagem, num passeio, num ugar deserto ou encontra-lo nos outros.
Na Alemanha
ainda há famílias que durante o Advento se reúnem à noite à volta da grinalda
do advento para falarem do que geralmente não se fala, fazerem uma oração,
contarem uma história ou lerem um texto; a esta é chamada “horinha do advento” (Adventsstundelein).
Recordo-me ainda muito bem da alegria
que reinava no tempo antes do Natal (aquele Tempo fora do tempo em que
realidade e fantasia não se contradizem porque congregadas numa só atitude de
esperança naquilo que nos faz falta). A ida à missa do galo, o leite quente com
cacau ao voltar dela, o cheiro a velas, a canela, as boas festas expressando
alegria e gratidão era um verdadeiro carrossel da expressão do milagre vivo
dentro e fora do coração. Nessa noite irmanavam-se a realidade litúrgica à
social: a atmosfera do ambiente, a pobreza e a simplicidade. Nessa altura, tínhamos
a impressão que Deus vinha à rua e se tornava visível em todo o mundo reunido em
volta do menino no presépio.
Advento pode
ser um tempo de aprendizagem para ver e observar onde se encontra Deus hoje na
minha vida e nos outros; através dele posso aprender a ver o mundo com outros
olhos e a encontrar-me nele doutra maneira. Para lá da esfera em que
normalmente vivemos há outra realidade mais abrangente e mais profunda. A Deus,
chegam todos os caminhos! O Advento pode ajudar-nos a ver e sentir esse milagre
que brilha na criança de Belém.
Bom Advento e feliz Natal
© António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e
pedagogo
In Pegadas do
Tempo
(1)
Entre
os links apresentados no texto pode ver textos meus sobre o Natal também em: https://antonio-justo.blogspot.com/2007/
Subscrever:
Mensagens (Atom)
