domingo, 27 de julho de 2025

EM NÓS AS CICATRIZES DO UNIVERSO

(Feminilidade e Masculinidade sob as Circunstâncias

entre o Suspiro e o Canto)

 

 

Tu, noite minha, manto de silêncio e estrelas,

o céu se curva sobre meu corpo em ruína.

Sou o deserto que clama por rios,

a sede infinita, na gramática do universo.

 

Meu coração é um vaso de argila rachada:

o infinito a escorrer em gotas de desejo.

Busco-te na sombra que me habita (1),

na carne que arde e não se ateia.

 

Somos véus do mesmo mistério rasgado,

tu, o rio que afoga, eu, o fogo que invade.

Mas vivemos como sóis apartados,

órbitas cegas, danças do acaso.

 

Ah, se fôssemos mapa e bússola,

o masculino e o feminino entrelaçados

como tinta e pergaminho, brasa e lenha!

Mas somos dois cântaros vazios,

ecoando a mesma canção quebrada.

 

O amor não é só véu, não é só prece:

é o dedo que traça o sulco das costas,

o sopro que desata o nó do tempo.

É o corpo que se faz altar,

a encarnação em cada movimento.

 

(Quem nos ensinou a temer a chama?

Quem secou os rios, quem apagou a fogueira,

deixando-nos sombras de um nome antigo?)

 

Em ti, mulher, não busco só o ventre,

sonho a união que Maria anunciou,

espírito e matéria fundidos,

vinho e água no cálix da aurora.

 

Somos o cosmos em miniatura,

dois pavios na mesma labareda,

dois rios no mesmo leito.

Deixa-me ser a lança que fende o abismo

e nele se perde,

para que enfim sejamos inteiros.

 

No fim, restará apenas o Silêncio,

aquele em que Deus diz o nome

que tu e eu não ousámos chamar.

Até lá, seguimos escrevendo

com lábios de sal e mãos trémulas

o poema que só juntos poderemos assinar.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10142

e em https://poesiajusto.blogspot.com/

 

(1) Somos a sombra de Deus.

Em nós, as circunstâncias são o cadinho onde alma, corpo e espírito, feminilidade e masculinidade se podem fundir.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

HUMANISMO INTEGRAL GEOPOLÍTICO

 

Complementaridade contra Imperialismos de Esquerda e Direita

A civilização ocidental assemelha-se hoje a um Filho Pródigo obstinado, que, seduzido por quimeras de liberdade, trocou a segurança do lar paterno pela errância dos caminhos perdendo-se a olhar para as estrelas (1) ...

A questão mais gritante que se põe hoje a toda a humanidade reduz-se a como superar o conflito esquerda-direita (tradicionalistas-progressistas), ocidente-oriente e OCDE-BRICS, de maneira a servir-se a humanidade e não agrupamentos de interesses. Povo, governantes e intelectuais têm de desenvolver um projecto comum de paz.

A crise ocidental, marcada pelo vazio espiritual do turbo-capitalismo e pelo radicalismo do socialismo ideológico, exige uma reintegração da tradição humanista cristã, mas sem nostalgia tradicionalista nem progressismos desintegrados.

As elites políticas, falhadas em conceitos e vontade, insistem em modelos anacrónicos, alimentados por uma cultura belicista que manifesta cada vez mais os desvios geopolíticos da Europa e do Ocidente (2). A democracia, sabotada por dentro, clama por uma reorientação urgente: um modelo sustentável, humanista e pacífico, que harmonize os valores cristãos ocidentais com eficiência económica adaptativa e uma diplomacia de poder suave, inspirada, mas não copiada, da estratégia chinesa, e enraizada na nossa tradição cultural (modelo católico aberto). A solução, ético-humanista, passaria por resgatar a Doutrina Social da Igreja...

A alternativa aos imperialismos de direita (neoliberalismo globalizante) e de esquerda (hegemonia progressista transnacional) pressupõe um Humanismo Integral Geopolítico não imperialista. Nesta fase da História tratar-se-ia de elaborar um projecto que implicasse:

- Recuperar a Ética Política: Reintegrar no debate público princípios como dignidade humana, subsidiariedade e bem comum, articulando-os com as exigências da pós-modernidade, sem dogmatismos. Um exemplo inspirador é o Projeto Ética Global de Hans Küng (3), que, adaptado à geopolítica, poderia fomentar um novo diálogo entre as nações.

- Criar-se uma Economia Social de Mercado com alma; contra o turbo-capitalismo e o coletivismo autoritário, urge uma economia enraizada em valores transcendentais, próxima da Doutrina Social da Igreja, integradora de contribuições laicas.

- Poder complementar de Co-Criação pacífica: O Ocidente deve aprender com a China que exerce uma projeção cultural não impositiva (Confúcio, infraestruturas globais), mas substituir o pragmatismo chinês por um soft power de complementaridade e humanismo: universidades (Modelo Erasmus), ONGs e media que promovam diálogo intercultural e não monocultura ideológica; a nível de Media seria de, para isso, substituir CNN por plataformas como Arte (canal franco-alemão de cultura profunda que mantem uma certa neutralidade)...

Um multilateralismo civilizacional nas pegadas da tática cultural de Carlos Magno, pressuporia uma reactivação das redes académicas com colaborações entre culturas e blocos geopolíticos e a nível regional colaborações de lusofonia (4), luso-hispânicas, anglo-americanas e europeias, destacando a herança greco-romana, judaico-cristã e moderna, sem eurocentrismos ou hegemonismos...

O Ocidente não precisa de se tornar China, mas a China pode lembrá-lo de suas raízes humanistas cristãs. Purificando os excessos materialistas (capitalistas e socialistas), ambas as civilizações podem construir um Poder suave de cooperação...

Resumindo: humanismo integral geopolítico não significa um retorno ao passado (5), mas uma reconstrução seletiva contra o imperialismo liberal e o imperialismo progressista.

As diferentes economias e os valores de uma cultura não devem ser usados como escudos contra a outra, como, lamentavelmente, a NATO tem feito. Vai sendo tempo de regressar a casa!

António da Cunha Duarte Justo

Artigo completo e notas em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10137

quinta-feira, 24 de julho de 2025

NAS SOMBRAS DO CARMELO DE COIMBRA

(A sorver a mística do génio cristão)

 

Miniatura sou do Universo criado,

espelho quebrado onde Deus se contempla,

gota que transporta o mar sem o conter,

pó da terra a arder com sede do Infinito.

 

 

Na carne frágil que me delimita,

arde-me o eco do Verbo Encarnado,

e o limite que me cerra é o mesmo

que me abre ao abismo do Seu Mistério.

Pois sei, na vivência sentida,

que o corpo é cárcere e sacrário,

e que a Palavra, feita carne em mim,

não repousa até ser chama consumida,

até ser rio dissolvido no regaço de Deus.

 

 

O masculino e o feminino,

não são vestes da terra, mas sopros do Céu,

duas faces do Mesmo que não tem rosto,

duas labaredas que se buscam

na noite escura dos sentidos,

no silêncio onde o Espírito fala.

O fogo que delimita, que penetra, que protege,

é o selo do Cristo sobre o meu ser.

O rio que acolhe, que dissolve, que nutre,

é o seio materno do Mistério,

onde me perco e me encontro,

onde me anulo e renasço.

 

E eu, pequeno, finito na sombra,

sou parte dessa dança,

sou barro que geme sob o peso da Luz,

sou sede insaciável do que me ultrapassa,

sou carne em combate com a promessa,

sou verbo em gestação,

sou lágrima e riso no parto da Eternidade.

 

 

Ah, se o mundo atendesse

E os ventos gritassem

que no seio ferido da mulher esquecida,

Deus planta a sua tenda,

e que o feminino não é sombra, mas sagrado,

não o calariam, nem o negariam,

antes cairiam de joelhos,

porque onde o ventre acolhe,

o Espírito sopra,

e onde a carne se curva,

o Verbo habita.

 

 

Que se calem os juízos do mundo,

eu encontrei o meu Cristo:

Ele faz-Se limite para habitar-me,

eu faço-me nada para O possuir.

E no abraço que excede o corpo e o tempo,

sou ferido pela lança do Fogo,

sou diluído no rio da Misericórdia,

sou, na minha territude,

a miniatura do Universo reconciliado,

a centelha perdida que o Amor recolhe,

a carne que já não teme ser barro,

pois é no limite que Deus Se revela,

é no limite que Deus me consome.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10134

 https://poesiajusto.blogspot.com/

domingo, 20 de julho de 2025

Das Verdades que nos governam à Verdade em que vivemos: Entre Sombras e Luz

 

REGIMES DE VERDADE

 

Vivemos rodeados de verdades. Umas são-nos impostas, outras somos nós que escolhemos acreditar nelas, e outras aceitamo-las sem as questionar...

O filósofo Michel Foucault introduziu o conceito de ‘regimes de verdade’ para descrever os sistemas de normas, regras e práticas que determinam o que uma sociedade aceita como verdadeiro ou falso. Estas "verdades" não são eternas, mas sim construções sociais e discursivas que mudam com o tempo, com o poder, com as maiorias.

Habitamos num mundo onde a verdade parece negociável, moldada por consensos, maiorias, interesses ou conveniências. Será saudável aceitar passivamente o que nos é imposto? Já notaram a forma como as notícias nos são dadas pelos media, como se viessem das alturas, sem uma análise, sem um juízo de valor, sem uma tomada de posição, como se não fossem leituras ou interpretações de factos? Perguntemo-nos sobre o que acontece nos debates públicos: quem decide o que é válido? Quem tem voz e conduz os debates públicos?...

Seguir a opinião pública ou o Zeitgeist é abdicar da nossa capacidade de discernimento, é alienar-nos de nós mesmos, da nossa ipseidade (a essência do "quem sou").

No cotidiano, lidamos com diversas formas de verdade: a verdade factual (apoiada pela ciência ou por dados objetivos); a verdade da crença (alicerçada em revelações ou convicções pessoais); a verdade do gosto (que reflecte preferências subjetivas, ou opiniões, como 'isto é bom' ou 'isto é ruim'); e a verdade funcional (aquela que serve a um propósito momentâneo) ...

Seja sob uma perspetiva relativista ou absolutista, o ser humano anseia por uma verdade que vá além do superficial, que não seja apenas útil, mas que ofereça orientação e dê sentido à vida...

A verdade que nos falta não é uma teoria, mas uma presença. Não é algo que se debate, mas que se vive; é um modo de vida, não havendo separação entre o que é dito e o que é vivido. "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mateus 7:16), ou seja, a verdade é uma realidade transformadora que se revela na ação, no amor, na coerência.

Enquanto os regimes de verdade do mundo são instáveis e transitórios, a verdade cristã propõe-se como fundamento estável: uma verdade que não se limita a dizer "acredita nisto", mas que diz "segue-me e verás"...

No labirinto das verdades humanas, todos escolhemos a nossa bússola. Podemos seguir as verdades passageiras do mundo: as que mudam conforme a opinião pública, o poder ou a moda, ou podemos buscar uma verdade mais profunda, que não nos controla, mas nos liberta...

O mais seguro é seguir a verdade que caminha!...

.... Essa luz interior encontra-se no âmago de cada um de nós e é aquela que nos torna ancorados na transcendência, para lá do que outros pensam, consistentes connosco mesmos a viver em harmonia, autoconfiança e compreensão do mundo. Sim, porque somos astros criados com luz própria e não meros satélites de algo ou de alguém.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo https://antonio-justo.eu/?p=10124

sexta-feira, 18 de julho de 2025

A VIOLÊNCIA NA SÍRIA NA PERSPECTIVA DOS EUA E DA UE


Intervenções, Interesses e Direito Internacional

 

O recente ataque de Israel a Damasco, justificado como uma ação para "proteger a minoria drusa", revela mais uma vez a complexidade dos conflitos na Síria e o papel das potências externas na região. A escalada de violência entre clãs sunitas e drusos seguida por intervenções militares israelitas, demonstra como tensões locais são instrumentalizadas por actores regionais e globais, com consequências devastadoras para a população civil...

Israel alega que os seus bombardeamentos visam proteger os drusos, uma minoria xiita que inclui cidadãos israelitas: 153.000 drusos são cidadãos israelitas e muitos deles prestam serviço voluntariamente nas forças armadas de Israel e mais de 20.000 drusos vivem como cidadãos sírios nas Colinas de Golã ocupadas por Israel...

Uma comparação com a Rússia na Ucrânia (após 2014) torna-se pertinente: ambos os casos mostram como potências externas justificam intervenções militares alegando proteção de minorias, enquanto, na realidade, buscam interesses geopolíticos. Se essa lógica se normalizar, o direito internacional e a soberania dos Estados ficam ainda mais fragilizados e ao serviço das grandes potências...

A cobertura mediática europeia, especialmente na Alemanha, tem sido bastante omissa quanto aos recentes acontecimentos na Síria. Esse silêncio reflete a cumplicidade histórica dos EUA e da UE na desestabilização do país. Desde 2011, o Ocidente apoiou rebeldes, incluindo grupos jihadistas ligados à Al-Qaeda, na esperança de derrubar Bashar al-Assad. O resultado foi o caos, a ascensão do ISIS e a destruição de um Estado que, apesar de autoritário, mantinha uma frágil coexistência entre sunitas, alauitas, cristãos e drusos. Coisa semelhante já se observou no Iraque e na Líbia...

Em março, combatentes islâmicos massacraram centenas de alauitas; neste mês de julho uma igreja cristã foi atacada, resultando do ataque mortos e feridos.  Para a liderança israelita, o governante al-Sharaa é um "islamista de fato"...

A Síria é mais uma vítima do jogo geopolítico entre EUA, Rússia, Irão, Turquia e Israel: Israel não quer uma Síria forte e age para manter o país dividido, os EUA e a UE, após falharem na mudança de regime, ainda apoiam facções rebeldes, perpetuando a instabilidade; a Rússia e o Irão sustentam o governo sírio, mas também exploram a situação para expandir a sua influência.

No meio de tudo isto, a população sofre: mais de 300 mortos nos recentes bombardeios e também cristãos e alauitas perseguidos, e um Estado falido que não consegue proteger os seus cidadãos...

Se potências externas continuarem a intervir em conflitos internos sob pretextos humanitários ou de "proteção de minorias", a soberania dos Estados fracos será uma ilusão. A Síria é um exemplo trágico de como intervenções estrangeiras, sob a fachada de democratização ou proteção, podem destruir um país...

Concretizando: a queda de Assad do poder contou com o apoio do Ocidente aos islamistas. Ao contrário dos seus opositores, Assad defendia a unidade da Síria, respeitando a sua diversidade étnica e religiosa. O Ocidente, porém, preferiu desestabilizar a região —tal como fez na Líbia e no Iraque— sob o pretexto de promover os seus "valores democráticos", mas com o verdadeiro objetivo de conter o nacionalismo árabe e de manter a sua hegemonia geopolítica.

Os principais atores por trás desta desestabilização são: a Turquia, que procura expandir a sua influência sunita; os EUA, movidos por interesses imperialistas; a UE, com políticas hipócritas e Israel, por razões geopolíticas óbvias.

Todos estes grupos beneficiam de uma Síria dividida, transformada num palco de interesses numa região já por si instável e condenada a ser dividida.

Quando os valores são armas, a democracia destrói nações para salvar o seu império.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10119

quinta-feira, 17 de julho de 2025

ROUBOS EM LOJAS DE COMÉRCIO ALEMÃS

 

O comércio retalhista alemão enfrenta prejuízos milionários com o aumento de furtos, um fenómeno impulsionado pela escalada dos preços, estratégias comerciais questionáveis e um crescente mal-estar social. Segundo um estudo do Instituto EHI, as perdas chegaram a 4,95 mil milhões de euros em 2024, envolvendo desde clientes (2,95 mil milhões de euros) até funcionários (890 milhoes de euros) e fornecedores com o respetivo pessoal de serviço (o resto).


Com a inflação a corroer o poder de compra, muitos consumidores já não conseguem pagar produtos básicos. Alguns recorrem ao furto por pura necessidade, enquanto outros o fazem como forma de protesto contra os preços abusivos. As caixas de auto-atendimento também facilitam os roubos, tornando mais difícil a deteção.

Os produtos mais visados são itens de valor elevado e fácil revenda, como bebidas espirituosas, perfumes, cosméticos e lâminas de barbear. No entanto, o problema vai além da criminalidade ocasional: cerca de um terço dos furtos são cometidos por redes criminosas organizadas, que agem de forma planeada.

O aumento descontrolado dos custos e a prática de reduzir o conteúdo das embalagens sem ajustar o preço – conhecida como shrinkflation – têm gerado desconfiança nos consumidores. Para muitos, a sensação de injustiça económica justifica, de alguma forma, os furtos. Além disso, o contexto global, incluindo guerras financiadas indiretamente pelos cidadãos, contribui para uma erosão da moral social, fazendo com que alguns vejam o roubo como um ato de resistência.


Apesar dos esforços do setor, que em 2024 gastou 1,6 milhões de euros em medidas de segurança, o EHI revela que 98% dos casos de furto passam despercebidos. A dificuldade em conter o problema reflete não apenas a sofisticação dos criminosos, mas também a dimensão de uma crise que vai além da segurança e toca em questões económicas e éticas mais profundas.

Enquanto os preços continuarem a subir e as desigualdades se acentuarem, o comércio terá de lidar não só com a criminalidade, mas também com a crescente perceção de que, para muitos, o furto deixa de ser um crime, tornando-se um ato de sobrevivência ou revolta.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10115

terça-feira, 15 de julho de 2025

QUANDO O TEMPO PARA PARA RESPIRAR

 

Um testemunho do Kairós em voz alta (1)

 

Houve um dia, ou talvez nem dia fosse,

em que o tempo deixou de correr

e, sem aviso, começou a respirar.

 

Não era pausa, era presença.

Como se o ar ganhasse densidade,

e o instante se abrisse por dentro

como um poço sem fundo

a chamar o meu nome.

 

Senti o chão,

mas não como quem pisa,

como quem é pisado pelo sagrado.

E ali fiquei: sem pressa nem relógio.

Sem nada que explicasse,

mas tudo em mim a compreender.

 

Teólogos chamam-lhe Kairós,

eu chamo-lhe o tempo do meio.

Aquele lugar onde vício e virtude

Onde passado e futuro

se calam e só o Aqui do Agora tem voz.

 

Não era visão.

Era um ver que vinha de dentro.

Um saber que me atravessava

sem linguagem.

Uma certeza tão antiga

que parecia não ser minha,

mas era.

Era minha, e era de todos

a do tudo em todos a vibrar em mim.

 

Nesse instante, tudo respirava.

As árvores, as pedras, o vento.

O mundo não estava lá fora:

estava recolhido em mim,

a acontecer com o meu próprio fôlego.

 

E eu… nesse momento,

deixei de ser função,

meta, movimento.

Fui apenas: ritmo, pulsar, ser.

 

Ali não precisei de pedir respostas,

porque não havia mais perguntas.

A verdade não era um conceito,

era uma presença.

Amorosa, silenciosa, imensa.

 

E o corpo?

O corpo deixou de ser obstáculo.

Foi templo, foi harpa,

foi lugar onde o sentido encarnava.

O espírito não me levou para fora,

levou-me mais fundo.

 

Desde então,

sei que há um outro tempo

que não mede, mas molda.

Que não passa, mas revela.

 

E quando ele volta,

quando o Kairós me visita,

já não fujo.

Abro os braços, abro o peito.

Abro os olhos por dentro.

 

Por isso, hoje, digo-vos:

não temam parar.

Não temam silenciar.

Não temam ser tocados

onde não há defesas.

 

Porque é aí e só aí

que a vida deixa de ser acaso

e começa a ser chamamento.

 

E quando sentirem o tempo a respirar,

não se distraiam.

Ajoelhem-se por dentro.

E digam: "Sim."

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10111