Porque queixar-se do Vigor islâmico se o
Problema está na Fraqueza político-cultural ocidental?
A migração de muçulmanos para a Europa significa um enriquecimento para a
economia das nações fortes e para o rejuvenescimento da população europeia, que
tinha uma taxa de natalidade muitíssimo baixa, mas, por outro lado, irá
provocar consequências problemáticas de longo alcance na cultura e na política
da Europa.
Quem estudar as bases do Islão (Corão, sharia-preceitos e os ahadith-feitos
de Maomé contidos na Suna) facilmente chega à conclusão que, o Islão é um
estilo de vida; nos moldes ocidentais, o Islão é uma ideologia política
camuflada de religião; como tal tem mais perspectivas de autoafirmação sociopolítica
do que qualquer outro grupo político ou ideologia. O islão submete toda a vida
do humano e da sociedade a regras (sharia) incompatíveis com os valores humanos
dos Estados ocidentais que dão primazia à soberania do Estado (democracia) e
não a Deus/Allah; por outro lado o islamismo é mais compatível com o poder e
mais adequado aos instintos das massas globais; a sua divisa é “submissão”
(Islão significa resignação, submissão).
Instintivamente, o islamismo conseguiu amarrar os ocidentais à preocupação
de o não ofender nem questionar quando impõe os seus hábitos e costumes de
gueto. Os governantes europeus como
sabem que os seguidores do islão não se adaptam, adaptam-se eles aos muçulmanos
para terem o sentimento de não perderem. Por seu lado, a opinião pública
ocidental não se preocupa com os próprios erros nem com a falsidade ou
autenticidade da comunidade islâmica ordenando o discurso sobre ela apenas pelo
imaginário religioso.
O imperialismo islâmico embora não tenha a força económica do Ocidente
conseguirá um dia sobrepor-se-lhe devido à conexão identitária da sua ideologia
hegemónica (identificação político-sociológica através do laço da religião que
tudo une, legitima e subordina: a essência da pessoa e sua relação com o outro
é determinada pelo islão, o resto é considerado infiel. Neste contexto, não é
sem razão que sistemas também eles autoritários, como o chinês e o russo,
tenham medo dos grupos islâmicos dentro do próprio país: estão conscientes de
que as suas ideologias políticas passam, mas as do islão são de natureza
político-religiosa sustentável devido ao seu caracter de unidade intrínseca. As
diferentes formas de governo mais ou menos moderadas estão sempre sujeitas aos
guardiões da religião que se afirma como cultura do contra. A vontade do povo é
identificada com a tradição de Maomé e por ele é crivada a “democracia”.
Segundo a tradição islâmica, o Estado e a Democracia não podem usurpar a
soberania de Allah e substitui-la pela soberania do Estado laico. Neste
sentido, a nacionalidade secular/Estado é irrelevante perante o Direito Divino
(o Corão e a Suna) que são imutáveis. Por isso os crentes mais conformes com os
princípios muçulmanos combatem o secularismo porque a doutrina não permite
contextualização que só seria possível se fosse permitida a exegese teológica.
Como religião nascida da guerra e de
matriz masculina orientada para o poder serve-se do princípio da afirmação do
mais forte conseguindo assim afirmar (‘democratizar’ masculinamente) também no
povo o mesmo princípio da subordinação, garantidor de uma ordem social estável
apesar de injusta porque contra a feminilidade humana. Também a estrutura
familiar está concebida no sentido de expandir o Islão. (O Islão tem a mais
valia africana de ter feito das tribos errantes da Península Arábica a
civilização árabe: hoje o Islão, expresso no Corão e na vontade de Maomé, é a
segunda crença maior do mundo, possuindo cerca de 1,8 bilhão de fiéis sobretudo
na Ásia e na África).
Concludentemente não baseia a dignidade humana na pessoa, mas na pertença
ao grupo muçulmano (de ideologia superior, comparável à de Hitler no que tocava
à elevação da raça indo-germânica em relação às outras); deste modo impede o
desenvolvimento das potencialidades revolucionárias do individuo na luta pelo
desenvolvimento da pessoa humana, dirigindo essas potencialidades
emancipatórias individuais para a afirmação global da comunidade islâmica que
justifica o Jihad e os ataques suicidas (Ao contrário da antropologia
ocidental, a honra humana não vem da pessoa, mas da pertença à comunidade
islâmica que confere a personalidade ao indivíduo). A islamidade une
consciência de norma, consciência individual e consciência colectiva de forma
intrinsecamente ligadas a Allah e a Maomé não suportando a diversidade e
fazendo valer em vez dela a consciência do nós (Ummah). Esta implica a não
distinção entre sagrado e profano como expressão da lealdade ao país, à
comunidade árabe e ao Islão.
A paz islâmica será possível quando governantes e governados se submetem ao
código islâmico na vivência do dia a dia e na promoção da paz e da fraternidade
islâmicas no mundo. A fraternidade islâmica não conhece o amor ao próximo, em
vez dele afirma o amor e a solidariedade com o irmão muçulmano numa ética do
ser bom o que serve o mundo islâmico e mau o que se encontra fora dele (O dar
al-Islam – territórios onde se pratica a lei islâmica - identificado com a
Ummah, contra o dar al-Harb – “área de guerra" ou seja área não islâmica).
Daí a tolerância geral islâmica em relação ao terrorismo islâmico.
O sentimento de pertença religiosa é determinante no Islão, facto que a
sociedade ocidental ignora como factor de sustentabilidade e por isso não
consegue compreender a dinâmica de grupos como Al Kaida, ataques suicidas em
nome de Allah, bem como levantamentos gerais no mundo islâmico quando o Islão é
ofendido. O sentimento de pertença tem de passar pelo islão; a Ummah
(comunidade dos muçulmanos de todo o mundo) que transcende Estados,
Constituições e regiões e a pertença ele implica o sobrepor-se a todos os
demais. O problema maior vem do facto de não reconhecer o que não seja islâmico
(só ordem mundial islâmica) nem a divisão entre poder religioso e poder
secular, factos estes que ajudam a garantir a guerra até ao fim dos tempos (o
mundo muçulmano fá-lo em nome de Allah e o ocidental em nome do bem-estar
económico).
Neste contexto, as democracias ocidentais estarão condenadas a oscilações
cíclicas precárias por razões intrínsecas a elas mesmas porque legitimamente
baseiam a afirmação das democracias na dignidade humana e na individualidade,
factores estes que criam dificuldades à afirmação de interesses meramente
institucionais e que explicam o desequilíbrio entre sistemas autárquicos e
sistemas democráticos – daí uma certa lógica no autoritarismo crescente também
em democracias. Perante o sistema muçulmano estas democracias tornam-se
sistemicamente fracas correndo o perigo de serem dominadas por ele pois este
afirma-se e concebe-se como grupo (o órgão ou grupo assume supremacia em
relação ao elemento e a expansão global em relação à expressão regional
geográfica).
A falta de organização orgânica interna das democracias ocidentais
(existência de uma orgânica meramente externa a nível de administrações ou
elites sem transcendência– sem identidade comunitária cultural popular) levará
a Europa a islamizar-se e a perder o seu caracter humanista próprio. (O
problema da civilização ocidental de cunho cristão situa-se nela mesma ao
identificar o amor indiscriminadamente a Deus-ao Próximo- e a si mesmo, numa visão
de humanidade universal de irmãos e não de culturas, civilizações ou formas de
governo. Neste sentido Jesus não era cristão, europeu, africano ou asiático e o
seu povo era a humanidade.
Segundo a Universidade de San Diego, daqui a 12 anos, 25% da população da
Europa será muçulmana. A sociedade islâmica é consistente por si mesma e
afirma-se como sociedade paralela controlada pelas mesquitas numa afirmação não
inclusiva, mas do contra; na Europa há já cidades onde a maioria da população
com menos de 18 anos é muçulmana. Na Inglaterra onde normas da sharia (lei
islâmica) já são integradas (paralelamente) no direito inglês, um terço dos
estudantes muçulmanos britânicos são a favor da criação de um califado mundial.
Em muitas cidades inglesas as prefeituras são já dirigidas por muçulmanos
(Londres é um exemplo disso), o que noutras circunstâncias não envolveria medos.
Medos são maus conselheiros porque deles surgem lutas instintivas (1)
O problema não deve ser colocado nas pessoas muçulmanas que são inteligentes
e apenas sabem tirar proveito dos fortes e das fraquezas da sociedade
ocidental. A consciência islâmica leva-os a investir na política porque esta
tem grande influência no desenvolvimento da consciência dos povos; o facto de
muçulmanos serem individualmente reféns do sistema religioso instiga-os a
conceberem um mundo a ser cativo. A questão não é a força do islão, mas a
fraqueza da cultura ocidental (2) que ultrapassou o seu Zénite e tem a pouca
sorte de gerar governantes e elites irresponsáveis e também elas de ideologias
decadentes.
A emigração muçulmana em massa para a Europa sem medidas políticas de
integração que fomentem a sua evolução religiosa e evitem a formação de guetos está
a ser o maior erro político cometido por uma oligarquia europeia comprometida
num progresso desintegrador da cultura europeia que tenta compensar a sua
carência reprodutora e o envelhecimento da sociedade com a importação de
famílias muçulmanas fecundas que por sua vez são conscientes da robustez da sua
unidade cultural, aquilo que justamente os torna fortes.
A queixa, contra um islão consciente do que é poder e como poder se torna
sustentável, é, na Europa, reduzido a um lamentar de carpideiras à frente do
moribundo. Um grande erro foi a política
europeia ter-se orientado apenas por factores de razão económica desprezando o
factor cultural próprio e nessa lógica ter fomentado uma política multicultural
– uma estratégia asseguradora da construção de barreiras e guetos culturais
dentro da própria sociedade – em vez de implementar uma política dialógica
intercultural de enriquecimento mútuo para as partes envolvidas (a questão
coloca-se só em relação ao Islão porque pelo observar da História todos os
grupos étnicos e religiosos integram-se ou vivem sem exigências exageradas).
Nos anos oitenta, como porta-voz dos 35 mil estrangeiros no Conselho de
Estrangeiros de Kassel lutei pela afirmação dos direitos dos estrangeiros na
Alemanha em benefício sobretudo dos muçulmanos. O contacto directo com a
comunidade muçulmana (representantes das associações em torno das mesquitas e
imames) permitiu-me, pouco a pouco,
compreender a estratégica esperta e coerente do islão e perceber o
porquê da decadência da sociedade europeia em relação à sociedade islâmica
(trata-se do encontro de duas sociologias e de duas antropologias tão distantes
uma da outra com a Idade Média e da Idade Moderna uma da outra: a primeira faz
valer a comunidade à custa do indivíduo e a segunda faz valer a individualidade
à custa da comunidade); o Ocidente contemporâneo afirma o individualismo contra
a comunidade e o islão afirma a comunidade contra o indivíduo: dois
extremos, no primeiro domina o
relativismo e no segundo o dogmatismo. Para termos um possível exemplo do pior
que poderia esperar à sociedade europeia seria imaginar o seu desenvolvimento
com o desenvolvimento da Turquia desde 1915 e observar o destino das
minorias.
Urge o encontro intercultural e a inter-relação dialogal equitativa de
comunidade e indivíduo para corrigir a política multicultural de forças paralelas,
para se iniciar um período de inclusão dos valores da comunidade e do
indivíduo. O Islão pode aprender da comunidade ocidental e esta pode aprender
do Islão.
É interessante verificar que nos inícios dos anos oitenta, nós os
representantes dos Conselhos de Estrangeiros nos dirigíamos aos Países Baixos
para os imitarmos nas suas medidas progressistas e liberais de acolhimento de
estrangeiros para as aplicarmos nas nossas câmaras municipais. Hoje, 60% da
população dos Países Baixos considera a imigração muçulmana em massa como o
erro político número um pós-guerra mundial.
Nos países de imigração já é possível observar, no comportamento social, as
diferentes atitudes dos grupos imigrados de diferentes regiões e culturas em
relação à sociedade acolhedora. Daí também a injustiça feita a muitos
imigrantes ao metê-los todos no mesmo saco; o mesmo se dará ao considerar todos
os imigrantes islâmicos pela mesma rasoura. O pensamento indiferenciado tem
sido um erro comum a políticos e populações no que se refere ao tema das
migrações.
Desde o Renascimento operou-se uma emancipação progressiva do indivíduo em
relação à comunidade. Tal como na Idade Média a comunidade (instituição)
abusava do indivíduo, a partir da emancipação renascentista e moderna o
indivíduo emancipou-se de tal modo que exteriormente chegou ao exagero de
prescindir do seu fundamento que é a comunidade; com a desintegração social em
processo e a desconstrução cultural europeia damos início à queda do império
ocidental tal como aconteceu com o Império romano. Os muçulmanos, que se
encontram estruturalmente na Idade Média beneficiarão da vantagem de se
afirmarem como comunidade numa sociedade ocidental já não comunidade, por isso
condenada a abdicar e a ceder ao relativismo cultural e à consequente afirmação
de egos não orgânicos que se tornarão anonimamente controláveis por
supraestruturas globalistas.
Um grande motivo histórico para consolação no suceder-se das civilizações,
é o facto de, geralmente, ao expirarem terem dado oportunidade a um passo em
frente, dando origem a novas perspectivas! Segundo analistas até as guerras
foram factores de grande desenvolvimento humano.
O mundo anda escuro demais, mas isso é uma questão cíclica como a das
estações do ano; o pior não será a escuridão, mas sim andar sem ideia do
caminho nem saber aonde ele leva. Temos o exemplo da escuridão da noite e
verificamos que também ela tem sentido, mas para podermos andar nela temos de
adaptar as pupilas ao escuro, que é a outra parte da realidade. O mais
importante é saber como caminhar e para onde. Andar às apalpadelas pode ajudar
a afinar o sentido de orientação.
António CD Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=8885