Entre dor e sofrimento se gera o
contentamento
António Justo
A história de aventura de Homero mostra
como o herói Ulisses (1) consegue navegar por um estreito basicamente
intransponível.
Este estreito é guardado por dois
poderosos monstros marinhos, Cila e Caríbdis, vendo-se o marinheiro obrigado
a passar sem se aproximar demasiado de um perigo ou do outro: um monstro suga a
água do mar, três vezes por dia, e ejeta-a novamente com grande rugido. Quem
hesita morre sendo apanhado na sua absorção. O outro monstro encontra-se
agachado numa rocha à espera para devorar as vítimas.
A vida de um povo e de um cidadão resume-se num barco que
ruma no mar das dificuldades em sentido à realização. Ulisses conseguiu chegar
a Ítaca e Vasco da Gama à Índia, porque tinham em si a rota de uma missão a
cumprir e de um sonho a realizar! Sem missão nem sonho perder-se-iam no alto mar ou seriam
engolidos pelos monstros que se situam de um lado e do outro.
Uma idêntica lição nos resume Fernando
Pessoa nos versos “Quem quer passar além do Bojador, Tem
que passar além da dor (2)”: uma alusão a Camões que, na sua epopeia, “Os
Lusíadas”, descreve a viagem de Vasco da Gama e a sua luta com o Adamastor.
Tanto a epopeia de Homero como a de Camões, representam a
viagem de um povo e o itinerário de uma pessoa simbolizada nos protagonistas
Ulisses e Vasco da Gama.
Muitas vezes vive-se num dilema de
escolha sem grande esperança porque se tem de escolher passar entre dois males
ou perigos inevitáveis. Daí a frase "entre Cila e Caríbdis".
Os tempos cor de rosa em que vivemos
parecem não interessados em reconhecer a realidade humana descrita nesses
poemas porque são um apelo ao heroísmo de cada humano a viver e encarar a
realidade sem medo do esforço nem do erro! O futuro é dos corajosos e não dos
que fogem à dor! Sim, até porque na realidade temos de um lado a dor e do
outro o sofrimento de poder não chegar!
(Senão pense-se: que seria da Liberdade trazida pelo 25 de Abril se não
tivéssemos em consideração os erros dos que o fizeram! Que seria da vida se a mulher grávida evitasse o
sofrimento fugindo à dor do parto; a fazê-lo evitaria o prazer do dar à luz!)
Em cada humano descansa um Vasco da
Gama e um Ulisses (Odisseu) à espera de ser acordado para uma missão; cada povo
rumará para bom termo se gerar timoneiros do seu calibre! Doutro modo
limitar-se-á a ser água pacífica sobre a qual outros navegam… Há que estar
atento às sereias e àquilo que julgamos ser a realidade! Quem não está atento
ao vento do pensar do tempo, do pensar politicamente correcto e a uma certa
doutrina cor-de-rosa de uma espiritualidade que leva ao narcisismo, conversa e age como se para alcançar a
felicidade e fazer caminho bastasse a leveza de ter pensamento positivo e fosse
possível um presente criativo sem a parte de sofrimento que lhe pertence!
O grande filósofo e pensador Platão
dizia “O que faz andar o barco não é a
vela enfunada, mas o vento que não se vê”. Ele na sua perspicácia procurava
observar o que está para lá do que chamamos realidade: Temos que estar atentos
aos sopradores dos ventos que nos formatam e determinam as nossas consciências
e o nosso modo de pensar, arrastando-nos
na corrente dos seus ventos tirando-nos ao mesmo tempo a capacidade de nos
formarmos e de nos desenvolvermos interiormente.
Reduzindo a ideia de Platão a termos políticos
e sociais atuais, devemos estar atentos aos ventos ideológicos que nos movem
para onde eles querem, criando, para isso, em nós a ideia de que somos nós que
queremos!
António CD Justo
Notas em “Pegadas do Tempo”,
https://antonio-justo.eu/?p=6499
(1) Ulisses (Odisseu), Rei de Ítaca é um herói da mitologia
grega e a personagem principal da Odisseia, atribuída a Homero.
(2) Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães
choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando
Pessoa, in Mensagem